MAPA

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domingo, 29 de dezembro de 2013

Enseada da Pedra Branca/Itaituba

Enseada da Pedra Branca/Itaituba

Hiram Reis e Silva, Itaituba, Pará, 21 de outubro de 2013.

Rio Tapajós
(Helvecio Santos)

Verde Rio bravio de minha terra natal, p’ra quem canta o rouxinol do nascer ao por do sol. Verde Rio que brilha como líquida esmeralda aos raios do sol nascente, ao longo das alvas praias em seu correr indolente. Verde Rio que encrespado, soprado pelo vento Leste, brabo que nem filho da peste, brilha e rebrilha quando a luz do Sol nele se dá.

Verde Rio que ameaça o Augusto Montenegro, o Lauro Sodré, o negro navio do Loyde, desafiante no rebojo, apavora o novel marujo. Verde Rio de faceta amiga e branda p’ro famoso Macambira, seu amado pescador, que em frágil montaria retorna ao final do dia com sua colheita de amor.

Verde Rio de alvas pérolas na crista de suas ondas, subindo, descendo, renovando em eterno chua! chuá! Descanso da vista cansada ou mesmo só pra alongar. Serenai, verde Rio! Por piedade, serenai! O valente caboclo se entrega em teus braços, navega em teu leito estufando o peito. Aonde vai? (...)

–  12.10.2013 – Enseada da Pedra Branca/Igarapé Moratuba

A nostálgica tranquilidade de nossa permanência na bela Enseada da Pedra Branca só fora parcialmente quebrada, ao longe, pela frenética preparação da praia que abrigaria, no dia seguinte, os folguedos do Dia da Criança. Partimos ao alvorecer, e eu, sem saber, levava comigo algumas aborrecidas e birrentas parceiras – pequenas espículas de cauxi, que infestavam as areias e as águas da região, cravadas em minha pele. Encontramos, no decorrer do dia, diversos ribeirinhos, de comunidades próximas, que se deslocavam ansiosos para participar da festa montada na Pedra Branca. Os ventos oriundos do quadrante Este eram menos intensos que no dia anterior e fomos incomodados apenas pelo calor abrasivo do verão amazônico. Aportamos na foz do Igarapé Moratuba onde montamos acampamento e a partir da tarde comecei a sentir os intensos pruridos das espículas de cauxi que persistente e cruelmente me acompanhariam durante toda a jornada.

–  13 a 17.10.2013 – Igarapé Moratuba/Itaituba

Mantivemos nossa rotina diária e pude verificar a localização completamente equivocada de comunidades e cidades como Bom Fim e Pinhel em todos os mapas disponíveis. No dia 16, aportarmos, depois de um extenuante dia de navegação de sol a pino no Tabuleiro Monte Cristo onde o IBAMA possui confortáveis instalações. Fomos gentilmente recebidos, convidados para acantonar e participar de um saboroso jantar à base de peixes.

–  Tabuleiro Monte Cristo

O IBAMA implantou o projeto CENAQUA, na área do Tabuleiro Monte Cristo, há quase 20 anos. O Projeto tem como objetivo preservar tartarugas, tracajás, pitiús e aves como o talhamar, a gaivota, o bacurau dentre outras.

Localizado a 6 km ao Norte de Barreiras, Distrito de Itaituba. O Tabuleiro está incrustado numa extensa região formada por lagos, ilhas e praias banhadas pelas cristalinas águas do Rio Tapajós. Anualmente, nesta época, normalmente na mudança de lua, tartarugas, tracajás e pitus desovam na praia protegida pelos olhos vigilantes e atentos dos fiscais do IBAMA. Cada animal chega a botar, por vezes, mais de 100 ovos por cova.

–  Festival de Barreiras

Partimos às cinco horas do dia 17, pois a jornada até Itaituba era muito longa, quase 50 km. Passamos antes do alvorecer pela comunidade de Barreiras que tem sua economia baseada no extrativismo e na pesca artesanal. O grande evento cultural da cidade baseia-se na história dos peixes Aracu e Piau que é manifestado com toda pujança no Festival que acontece no mês de julho apresentando a disputa entre os dois cardumes. O evento inclui danças e evoluções diversas, procurando representar os contos e as lendas do imaginário caboclo. A disputa empolgante entre os peixes Aracu e Piau é realizada no “peixódromo”.

Engarupado na anca da história, lembrei-me de Barcelos, AM, quando desci o Rio Negro. Lá, como aqui, ocorre uma festa semelhante denominada “Festival do Peixe Ornamental”. O Festival de Barcelos, instituído em 1994, homenageia a cultura e o dia-a-dia dos pescadores conhecidos como “piabeiros”. Na época da festa, os cardumes fazem evoluções graciosas e as torcidas e os turistas elegem o cardume mais original.

Cardinal x Acará-Disco: E a piaba doida? Bem, quem não torce nem para um nem para outro, certamente é visitante. É turista! É piaba doida! O turista desavisado chega à cidade e acaba descobrindo um festival surpreendente quanto à organização dos grupos, numa região com tão poucos recursos! Na arquibancada, entre duas grandes torcidas ou “cardumes”, o visitante não sabe para que lado correr. Daí o apelido (...) (Maraísa Ribeiro)

–  Itaituba, PA

Chegamos em Itaituba, por volta das 14h00, e aportamos junto ao empurrador comandado pelo dinâmico Ten MB Moreira, do 8º Depósito de Suprimento (8º D Sup). Em Fordlândia o Cb Mário já tinha conseguido, com o pessoal do 8º D Sup, um quilo de farinha e desta feita fomos recepcionados com um belo lanche a bordo e a possibilidade de tomar um banho antes de realizar contatos em terra.

Fui direto ao quartel da PM verificar se através deles poderia contatar o arisco pessoal da Prefeitura de Itaituba. Antes mesmo de sair de Porto Alegre, RS, já me comunicara com eles, via e-mail, tentando viabilizar algum tipo de apoio e me informaram que já tinham apresentado minhas pretensões à Prefeita.

Estava entrando no aquartelamento da PM quando o Major Paulo Correia Lima Neto, que estava respondendo pelo comando do 53º Batalhão de Infantaria de Selva (53º BIS), telefonou-me dizendo que tinha condições de apoiar-me com a instalação e combustível para a lancha de apoio. O Major Correia Lima tinha sido informado de minha presença pelo Tenente Coronel Miranda, Sub-Comandante do 8º BEC, Santarém, PA.

Foi um apoio providencial. Caso contrário iríamos acampar, como até então vínhamos fazendo, e iniciar nossa volta para Santarém sem poder contar como devido e necessário conforto e repouso. Estávamos cansados depois de remar durante oito dias consecutivos sob sol escaldante.

É interessante observar que foi a primeira vez que um Prefeito não se dispôs a apoiar-nos. Na descida pelos ermos sem fim do Rio Juruá, nos Estados do Acre e Amazonas, contamos sempre com apoio irrestrito do poder público. Aqui no Pará mesmo, já fomos devidamente apoiados em Juriti, Oriximiná, Óbidos e Alenquer. De Itaituba levamos conosco saudades apenas do “Braço Forte, Mão Amiga” de nosso sempre pronto Exército Brasileiro.

À noite fomos convidados pelo Ten MB Moreira a jantar em um restaurante da cidade e passamos uma noitada extremamente agradável ouvindo causos interessantes e hilários deste formidável e simpático grupo fluvial do 8º D Sup. O Moreira foi convidado e aceitou ser instrutor da Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), tenho certeza de que este jovem oficial saberá desincumbir-se desta nova missão com o mesmo entusiasmo e galhardia que vem desempenhando como Comandante do Empurrador Yauaretê.

–  Área de Lazer dos Oficiais (ALO) do 53ºBIS

Infelizmente, ante a falta de apoio da Prefeitura local, minhas pretensões de conhecer Jacareacanga, conversar com algumas lideranças locais a respeito do Complexo Hidrelétrico do Tapajós não foram concretizadas. Felizmente na ALO tive a ventura de conhecer o Sr. Nilton Luiz Godoy Tubino, Coordenador-Geral de Movimentos do Campo e Territórios subordinado à Secretária Geral da Presidência da República. Tubino foi bastante esclarecedor em relação a algumas de minhas indagações sobre o aproveitamento Hidrelétrico do Tapajós e conseguiu-me mapas das Barragens Jatobá e São Luiz do Tapajós.

Mais uma vez estamos partindo para estudos de viabilidade de barragens descurando da mobilidade fluvial. Não se pode pensar em represar um Rio para geração de energia sem levar em conta a possibilidade de viabilizar a transposição das barragens por meio de eclusas. A Hidrovia Tapajós / Teles Pires / Juruena precisa ser concretizada e estes estudos de viabilidade e construção precisam e devem ser tratados concomitantemente e não de maneira estanque. É um erro histórico que continua a ser cometido pelos governos que se sucedem.

–  Potenciais Hidrelétricos em Terras Indígenas (TI)

(...) Será que o governo quer acabar todas as populações da Bacia do Rio Tapajós? Se apenas a barragem de São Luís for construída, vai inundar mais de 730 Km². E daí? Onde vamos morar? No fundo do Rio ou em cima da árvore? Não somos peixes para morar no fundo do Rio, nem pássaros, nem macacos para morar nos galhos das árvores. Nos deixem em paz. Não façam essas coisas ruins. Essas barragens vão trazer destruição e morte, desrespeito e crime ambiental, por isso não aceitamos a construção das barragens... (Missão São Francisco do Rio Cururu, 06 de novembro de 2009)

A Constituição Federal de 1988 autoriza a exploração dos potenciais hidrelétricos em TI desde que haja autorização do Congresso Nacional e ouvidas as comunidades envolvidas. Logicamente este dispositivo legal se refere tão somente a projetos que causem interferência direta nas terras indígenas o que não ocorre, por exemplo, na UHE São Luiz do Tapajós a mais de 40 km de qualquer terra indígena. Infelizmente os Mundurucus tem sido usados como peça de manobra para se opor à construção da barragem sem ao menos saber do que se trata e à mídia sensacionalista só se interessa em apresentar imagens de nativos devidamente paramentados (fantasiados) com o intuito de causar o maior impacto possível às massas ignaras.

Infelizmente, as populações afetadas não estão sendo devidamente esclarecidas, propiciando que “talibãs verdes” (inocentes úteis ou a soldo de interesses inconfessos) tentem fazer prevalecer sua visão distorcida sem levar em conta as reais necessidades da nação. A questão não é mais se a construção é necessária ou não e sim a necessidade de minimizar os impactos ao meio ambiente e às populações do entorno. A discussão tem um viés importante que é o sustentável, todos os empreendimentos na Amazônia vão gerar, sem dúvida, polêmica dos “ambientalistas” e “mercenários apátridas”. Não há interesses por parte das potencias hegemônicas que surja um “tigre asiático” ao Sul do Equador. Precisamos reconhecer que nossa engenharia hidrelétrica e nossa legislação ambiental são as melhores do mundo, e que atendendo às normas vigentes e, utilizando nossa capacidade tecnológica estaremos, certamente, evitando que o país enfrente um caos energético na década que se avizinha. A carta dos Mundurucus foi redigida por mal informados e/ou mal intencionados “guardiões da floresta” que omitem, intencionalmente, os benefícios auferidos pelas populações atingidas pelas barragens.


–  Vídeos

01 Santarém / Lago Maripá (10.10.2013)


02 Lago Maripá / Igarapé Moratuba (11 a 12.10.2013)


03 Igarapé Moratuba / Praia do Escrivão (13 a 14.10.2013)


04 Praia do Escrivão / Itaituba (15 a 17.10.2013)






Santarém/Enseada da Pedra Branca

Santarém/Enseada da Pedra Branca

Hiram Reis e Silva, Itaituba, Pará, 18 de outubro de 2013.

O Pescador do Rio Tapajós
(Valter Brumatte)



De tarde, em cima do cais, a sós,
o pescador, na margem do Tapajós
lança o anzol até onde alcança
e sente o beliscar das lembranças.

Cada vez mais, tesa-lhe a linha
onde o horizonte se alinha:
é o peixe da saudade, vadio,
que puxa o anzol, mordendo macio.

De repente, o caniço se curva
e seus olhos molhados se turvam
ante o peixe que brilha no ar.

E então, no ofício da pescaria
o pescador vê que pesca a poesia
no rio imenso do seu olhar.



–  10.10.2013 – Santarém/Lago Maripá

Pernoitei, como na véspera, no Porto do 8º BEC, a bordo do Piquiatuba. Uma moto-bomba permaneceu funcionando à noite inteira transpondo combustível de uma balsa para outra, geradores barulhentos e altamente poluentes só foram desligados ao amanhecer, movimentação intensa de embarcações, uma noite, portanto, nada reparadora tendo em vista a agitação característica do local.

Às 06h20, partimos eu e o Marçal em nossos caiaques, apoiados pelo Mário na lancha Mirandinha, rumo a Itaituba. Os ventos fortes de popa, do quadrante Este, em torno de 17 km/h, embora criassem marolas de até 1,5 m de altura aceleravam nossa progressão e conseguimos imprimir uma velocidade de até 9 km/h subindo o Rio Tapajós.

Na primeira parada o caseiro de uma das belas casas da orla franqueou-nos o acesso aos belos frutos dos cajueiros da residência. Na Ponta do Cururu, próximo a Alter do Chão, fizemos uma parada mais longa preparando-nos para atravessar o Rio da margem direita (Oriental) para a esquerda (Ocidental). Encontramos alguns turistas do Sul do país curtindo as belas águas do Tapajós.

Iniciamos a travessia, inicialmente aproei para jusante de nosso destino considerando a intensidade dos ventos, mas, a meio curso, verifiquei não ser necessária a correção e apontei a proa diretamente para uma pequena enseada que optara para nossa primeira parada. Depois de aportar e realizar um breve reconhecimento resolvemos estacionar no Lago fronteiriço à enseada, mais seguro e abrigado dos ventos e onde poderíamos pescar.

Preparei uma pequena fogueira em um buraco, e deitei cedo buscando recompor minhas energias. Tínhamos colocado uma “malhadeira” para reforçar o rancho com pescado fresco e o Mário ao recolher, sozinho, alguns peixes da rede foi mordido por uma piranha. Ajudamos o estropiado companheiro a recolher a rede e os peixes restantes, desinfetamos sua ferida e a protegemos com um pedaço de pano.

–  11.10.2013 – Lago Maripá – Enseada da Pedra Branca

Novamente partimos antes do nascer do Sol. Os ventos fortes e as grandes ondas de través prejudicaram, sobremaneira, a progressão e o equilíbrio do caiaque “Indomável” do Marçal enquanto eu aproveitava para ganhar velocidade surfando com o meu agora flamante “Cabo Horn” da Opium Fiberglass. O “Cabo Horn” foi totalmente reformado na Companhia de Equipamento do 8º BEC, os 9.404 km navegados pelos amazônicos caudais tinham provocado profundas cicatrizes no seu convés e casco. As cores originais da bandeira brasileira foram substituídas pelo azul turquesa da minha cara engenharia militar.

Encurtamos nosso destino pela metade e paramos numa bela e rasa enseada. Montamos acampamento e não reparei nas curiosas formações incrustadas nas raízes, troncos e galhos da vegetação circunvizinha, desatento confundi os cauxis com raízes aéreas e minha distração custou-me muito caro.

–  Cauxi (Porifera, Demospongiae)

As esponjas de água doce, pertencem à classe Demospongiae (Tubella reticulata e Parmula batesii), têm como característica básica a produção de um esqueleto de espículas de Óxido de Sílica. As espículas possuem um aspecto de agulhas transparentes ou opacas, com extremidades ligeiramente curvas. Essas espículas, devido à sua constituição mineral, após a morte e putrefação das esponjas, são liberadas da matriz de colágeno, que as mantém unidas em feixes estruturais e, assim permanecem nos sedimentos, disponíveis até que os banzeiros as propaguem no meio líquido. O Dr. Alfredo da Matta faz a seguinte consideração a respeito do espongiário:

Ora, por que o sagaz e astuto caboclo, ou o nordestino observador já identificado com o meio amazonense, não entra em Rio que tenha cauxi, nele não se banha e não bebe a água daí retirada? Porque o silvícola, através de gerações, ensinou a cada qual que “i cai tara”, isto é, ele se queima n’água ou a água lhe queima! E com propriedade tão irritante para a epiderme, mais pronunciada ainda ela se torna quando a água é ingerida, porque a inflamação da mucosa gastrointestinal poderá por vezes apresentar sintomas alarmantes. Por tal motivo o silvícola dizia: – “cai igaure”, isto é, queima, bebedor d’água. (DA MATTA)

Fonte: DA MATTA, A. 1934. Cai e Cauxi. Revista do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas 4 (4): 129-132.





Navigare necesse; vivere non est necesse

Navigare necesse; vivere non est necesse

Hiram Reis e Silva, Santarém, Pará, 09 de outubro de 2013.

Navegar é Preciso
Fernando Pessoa

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
“Navegar é preciso; viver não é preciso”.

Quero para mim o espírito (d)esta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:

Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.

Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo
e a (minha alma) a lenha desse fogo.

Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso.

Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue
o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
para a evolução da humanidade.

É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.

Plutarco escreveu mais de 200 livros, dos quais destacamos a obra “Bioi Paraleloi” – Vidas Paralelas – uma coletânea de 64 biografias de personalidades gregas e romanas, algumas lendárias. A frase título deste artigo foi citada, por Plutarco na obra “Vitae illustrium virorum - Pompey”. Plutarco relata que na hora de partir, uma forte tempestade se abateu sobre o mar, deixando inseguros os capitães das naus. Pompeu foi o primeiro a subir a bordo dando, em seguida, ordens para levantarem âncora e pronunciando a célebre frase: “Navegar é preciso; viver não é preciso”. Seu exemplo encorajador foi, imediatamente, seguido pelos antes temerosos capitães.

-  07.10.2013 – 8º BEC, Santarém, PA

Apesar de ter dormido tarde (02h00), acordei cedo (06h00), meu corpo precisava se adaptar rapidamente às condições atmosféricas santarenas e recuperar o sono perdido, agora de manhã, não era uma opção digna de consideração, farei isso à noite dormindo mais cedo. Fiz uma caminhada forçada de duas horas, o desconforto causado pelo calor abrasivo e a enorme umidade são complicadores que precisam ser neutralizados imediatamente. O 8º Batalhão de Engenharia de Construção (8º BEC), Batalhão Rondon, o primeiro Batalhão de Engenharia de Construção da Engenharia Militar Brasileira está literalmente encravado em uma bela e preservada área na Serra Piquiatuba.

As estradas que ligam o Quartel, Posto de Saúde e Vilas Militares cortam a bela mata nativa de onde, vez por outra, brotam cintilantes borboletas Morpho didius. As borboletas do gênero Morpho são predominantemente azuis e vivem nas florestas tropicais da América Central e do Sul e sua característica iridescente azul-metálica, proporcionada pela reflexão da luz, as tornam únicas. Tive a oportunidade de observar várias delas com mais de 15 cm de envergadura.

Cada volta do trajeto que eu escolhera durava exatamente 30 minutos e na terceira volta deparei-me com uma árvore que tinha acabado de cair bloqueando a estrada. Estava de tal modo atacada pelos cupins que se espatifou em diversos pedaços, retirei os troncos maiores e improvisei uma vassoura para limpar a área. As estradas abertas em plena mata dão oportunidade para que espécies arbóreas menos nobres e, consequentemente, mais frágeis se desenvolvam na clareira artificialmente aberta expondo seus troncos extremamente vulneráveis aos ataques de insetos.

O Coronel Sérgio Codelo convidou-me para almoçar no rancho no Batalhão onde tive a oportunidade de rever meus caros amigos Miranda e Feldmann da nobre arma de Vilagran.

-  Madrugando no Passado

A retirada do tronco da estrada fez-me madrugar no passado, minha visão pretérita visualizou um jovem e entusiasmado Capitão Comandante da 1ª Companhia de Engenharia de Construção, do 6º BEC (Boa Vista, RR), sediada nas proximidades do Rio Abonari, km 202 da BR 174, inspecionando e fiscalizando meticulosamente os trabalhos executados pelos seus pelotões. Meu trecho de responsabilidade ia do Km 10, Manaus, AM, até o Rio Jauaperi. Sempre levava comigo, na carroceria da “C 10”, um machado e uma moto-serra, na cintura uma .45, que pertencera a meu pai – o velho e saudoso Cassiano, e nas mãos uma Sauer cano duplo, calibre 16, com dois cartuchos carregados com chumbo 3T.

Jamais permiti que um tronco de árvore obstruísse o tráfego da BR 174, diversas vezes eu e meu motorista lançamos mão do machado e da moto-serra para cumprir nossa missão – garantir o tráfego a qualquer custo. Na minha gestão (1982/1983) a BR 174 jamais ficou um dia inteiro interrompida, apesar das quedas de pontes de madeira e rompimentos de bueiros – cumpri a missão.

Na época das chuvas nossa atenção recaia, principalmente, sobre os bueiros Armco e pontes de madeira, não permitindo que entulhos orgânicos, bloqueassem a boca de montante dos bueiros ou se alojassem perigosamente nos pilares das pontes. Os troncos pequenos conseguíamos deslocar utilizando varas e os maiores tinham, muitas vezes, de ser montados e orientados de maneira a passar pelo bueiro, o processo exigia uma atenção especial – abandonar a insólita montaria na hora certa para não ser tragado perigosamente pelas águas e entrar pelo “tubo”.

As armas, por sua vez, tinham uma razão de ser, como militar usava a .45 como determinava o regulamento e a calibre 16 para cumprir uma promessa que fizera no Projeto Anauá onde eu era responsável pela construção de estradas vicinais do INCRA que assentava agricultores na região. Certa feita uma senhora trouxe seu filho moribundo, que devia ter uns oito anos de idade, picado por uma surucucu-pico-de-jaca. Apesar de todos os esforços realizados pelo nosso enfermeiro a criança veio a falecer tragicamente poucos minutos depois.

A mãe, em prantos, relatou que o IBAMA, extremamente condescendente com estas víboras mortais, não se importava com eventuais mortes de seres humanos causadas por elas. Afirmou, colérica, que um funcionário do órgão tinha censurado grosseiramente e ameaçado de multar um vizinho seu que matara um desses letais animais. Prometi a ela, então, que faria a minha parte – nenhuma surucucu-pico-de-jaca que cruzasse meu caminho ficaria impune – e por isso carregava a calibre 16 que vitimou, sem dó nem piedade, mais de uma dúzia destas temíveis criaturas.

-  Valoroso “Cabo Horn”

À tarde fui verificar as condições do caiaque, recuperado pelos integrantes do Batalhão Rondon, que reluzente exibia sua nova pintura azul turquesa, uma justa homenagem ao 8º BEC e à Engenharia Militar Brasileira que, nas três últimas jornadas – Rio Amazonas I (Manaus/Santarém - 851 km), Rio Madeira (Porto Velho/Santarém - 2.000 km) e Rio Juruá (Foz do Breu/Manaus - 3.950 km), nos apoiou valorosamente. O Valoroso “Cabo Horn” nem parecia aquele velho e roto veterano do Juruá, com 9.454 km percorridos nos amazônicos caudais. Fui depois providenciar alguns artigos farmacêuticos e caixas à prova d’água para transportarmos alimentos perecíveis e material eletrônico na “voadeira” de apoio.

-  08.10.2013 – Pernoite no Piquiatuba, Santarém, PA

Depois do café da manhã desloquei-me para o Porto do 8º BEC onde estavam ancorados a Balsa Rondon e o Piquiatuba. Encontrei os amigos do Grupo Fluvial e aproveitamos para testar a “Mirandinha” que seria empregada, no reconhecimento do Tapajós, como barco de apoio. A lanchinha tinha sido pintada e o velho motor de 40 HP devidamente manutenido, enfrentamos as ondas do Tapajós e depois adentramos no Lago do Juá, o teste foi um sucesso total. Depois fiquei conversando durante um bom tempo com o Cabo Adailson da Costa Branches, um estudante de Direito inteligente e muito falante que discorreu sobre os mais variados temas com uma fluência digna dos discípulos de Rui Barbosa.

À tarde o Cabo Adailson, os Soldados Walter Vieira Lopes e Marçal Washington Barbosa Santos foram ao Batalhão buscar o material de rancho e o caiaque. O “Cabo Horn” estava impecável, coloquei os adesivos da “Opium Fiberglass” e da “Raia 1”, meus patrocinadores, e a embarcação ficou ainda mais charmosa. Esta noite pernoito no Piquiatuba para ir me adaptando aos poucos ao ambiente aquático além de liberar o quarto da Casa de Hospedes do Batalhão para a instalação de uma comitiva que estava prestes a chegar.

-  09.10.2013 – Porto Piquiatuba

A noite foi agradável, a perspectiva de dar início a uma nova jornada me entusiasmava. Depois do café matinal, o Mário se apresentou na balsa e foi até o Batalhão fazer sua apresentação enquanto o Marçal começou a preparar o caiaque, colocação do leme, linhas de vida, todo material que tinha sido retirado para permitir que ele fosse restaurado e pintado, enfim para deixá-lo em condições ideais de navegabilidade. Fui até o Batalhão e à cidade ultimar algumas providências administrativas e retornei ao Porto.

Eu e o Marçal fomos navegar no Tapajós. As águas verde-azuladas transparentes, a brisa morna vindo do Nordeste, as suaves marolas, as praias imaculadas ao fundo insistiam para que prontamente déssemos início à nossa missão, eu estava literalmente imerso na “Magia das águas”.

À noite, aproveitando a chegada do Cabo Mário Elder Guimarães Marinho, comemoramos o início da missão na sorveteria Bela Vista.

-  A Magia das Águas

 Ama as águas! Não te afastes delas! Aprende o que te ensinam! Ah, sim! Ele queria aprender delas, queria escutar a sua mensagem. Quem entendesse a água e seus arcanos - assim lhe parecia - compreenderia muita coisa ainda, muitos mistérios, todos os mistérios. (Hermann Hesse - Sidarta)

Hermann Hesse reporta no seu livro “Sidarta” as experiências de um jovem brâmane em eterna busca pelo conhecimento e a luz. Abandonando a casa paterna, Sidarta iniciou sua jornada na companhia dos “Samanas”. Três anos se passaram e Sidarta verificou que vida samana era uma forma de fugir da vida e do eu e os abandonou. Seguindo sua busca, Sidarta se tornou discípulo do Buda. Algum tempo depois, porém, ele se convenceu de que a iluminação não podia ser alcançada por doutrinas, só por vivência, e que a experiência da iluminação era impossível de ser descrita. Resolveu seguir seu próprio caminho sem nenhuma doutrina, nenhum mestre, até alcançar a redenção ou morrer. Atraído pela beleza e sensualidade da cortesã Kamala, se entregou de corpo e alma aos prazeres mundanos até que, arrependido, se deu conta de que mais do que tudo “causavam-lhe asco a sua própria pessoa, os cabelos perfumados, o bafo de vinho que sua boca exalava, a flacidez e o mal-estar de sua pele”.

Samana - indivíduo que abandona as obrigações da vida social para encontrar o caminho de uma vida de mais harmonia (sama) com a natureza. (Hiram Reis)

Depois de pensar, inclusive, em suicidar-se, encontrou a paz, o conhecimento divino e se tornou um ser de luz através de um homem simples, um balseiro que lhe reportou os mistérios da vida aprendidos no levar constante de pessoas de uma margem à outra e nos conhecimentos adquiridos com o Irmão Rio.



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Rumo ao Tapajós

Rumo ao Tapajós

Hiram Reis e Silva, Santarém, Pará, 06 de outubro de 2013.

Hospitalidade
(Jayme Caetano Braun)



No linguajar barbaresco (1)
E xucro (2) da minha gente
Teu sentido é diferente,
Substantivo bendito,
Pois desde o primeiro grito
De “o de casa” dado aqui,
O Rio Grande fez de ti
O mais sacrossanto rito!

Não há rancho miserável
Da nossa terra querida,
Onde não sejas cumprida
No mais campeiro rigor,
Porque Deus Nosso Senhor
Quando te botou carona,
Já te largou redomona (3)
Sem baldas de crença ou cor!

Dizem uns, que te trouxeram
De Espanha e de Portugal
E que neste chão bagual
Criaste novo sentido,
E o que além era vendido
Transformou-se aqui num culto
Onde o dinheiro é um insulto
Com violência repelido!

Tenho pra mim que és crioula (4)
Do velho pago infinito
Onde até o índio proscrito
Egresso da sociedade
Na xucra fraternidade
Dos deserdados da sorte
Não respeita nem a Morte,
Mas cumpre a Hospitalidade! (...)


(1)  barbaresco: linguajar típico..
(2)  xucro: rude, indomado.
(3)  redomona: que ainda está sendo domada.
(4)  crioula: regional.

A viagem para Santarém, PA, prometia. Acordei às 03h50 e embarquei no táxi providenciado pelo meu genro Samure às 04h30, pontualmente, como programado. O simpático taxista Régis conduziu-me celeremente até o Aeroporto Salgado Filho. O trânsito, normalmente caótico de nossa querida Porto, as vezes não muito Alegre, nas madrugadas flui tranquilo e rápido.

A minha querida Rosângela já tinha feito o check-in pela internet o que agilizou bastante o embarque. O vôo da TAM partiu exatamente às 06h00, um céu de brigadeiro prenunciava uma viagem sem percalços. Durante o percurso o Comandante avisou que chegaríamos vinte minutos antes do horário. De nada adiantou a pressa, chegando a Guarulhos, SP, tivemos de esperar, na pista, autorização para o desembarque.

Busquei o Portão 9 para minha conexão para Belém, PA, em um enorme corredor que servia de acesso aos Portões de número 1 a 13. O colossal acesso era interrompido, bruscamente, na altura do portão 7A por uma grande porta. Eu estava tentando encontrar o acesso, ao tal Portão 9, quando observei que uma jovem se encontrava na mesma dificuldade que eu e saímos, juntos, em busca de maiores informações. Finalmente fomos avisados de que a tal porta só abriria às 10h00 e aproveitamos o tempo disponível, três horas, para conversar.

A Lisandra é uma destas jovens empreendedoras e simpáticas paraenses que abandonou a terra natal - Santarém - para cursar Nutrição em Belém. O bate-papo foi agradável e o tempo passou rápido. A Lisandra mostrou fotos da família, do seu curso e me conseguiu um contato importante, seu avô Tenório, mora em Prainha, PA, que, certamente, usarei na minha derradeira descida pela Bacia do Amazonas (Santarém/Belém).

Várias pessoas chegavam ao final do corredor totalmente perdidas, como nós anteriormente, e procurávamos orientá-los, a Lisandra só deixava comigo quando se tratava de um “hermano” falando castelhano. A urbanidade e educação desta pequena paraense ficaram, mais uma vez, patentes quando se aproximou um casal de idosos, levantei-me, imediatamente, para ceder o assento ao ancião, e ao olhar para o lado verifiquei que minha gentil amiga já oferecia o seu lugar à senhora que o acompanhava.

-  Um Viktor Navorski no Val-de-Cans

O nome Val-de-Cans aparece nos documentos desde a medição e demarcação de légua patrimonial do Conselho do Senado e da Câmara de Belém com data de 20 de agosto de 1703. Sabe-se também que o nome Val-de-Cans, como de outras cidades, originou-se de uma região localizada em Portugal. A fazenda Val-de-Cans foi deixada em testamento por D. Maria Mendonça aos padres Mercedários em 1675. Posteriormente, por Carta Régia de 1798 foi autorizado o sequestro e venda dos bens dos padres, logo após comercializado por terceiros. (Fonte: Infraero)

Cheguei ao Aeroporto Val-de-Cans de Belém, PA, às 14h26, aguardava-me uma longa espera pois meu vôo para Santarém só partiria às 23h40. Na área de desembarque procurei me informar com uma gentil senhora que ali trabalhava e, novamente, a cortesia paraense se manifestou. Ficamos um longo tempo conversando sobre a região e a viagem que ela estava programando ao Sul para visitar a Serra Gaúcha, o Uruguai e a Argentina. O paraense em especial e o nortista em geral esbanjam simpatia, ao contrário de nós sulistas citadinos, geralmente fechados, ensimesmados, aproximando-se das pessoas com seu sorriso farto e coração aberto.

Quem não assistiu o filme “O Terminal” no qual Tom Hanks protagonizando o personagem Viktor Navorski, um cidadão da Europa Oriental em viajem à Nova York, que tem seu passaporte invalidado em decorrência de um golpe de estado no seu país. Viktor, impedido de entrar nos Estados Unidos e sem poder retornar à sua terra natal, em virtude do golpe de estado, passa seus dias de asilo no próprio aeroporto à espera de uma solução, neste período ele vai vivenciando e participando ativamente das complexidades do mundo do Terminal onde está preso.

Eu, depois de algum tempo, comecei a me sentir um Viktor Navorski os funcionários e trabalhadores já me cumprimentavam com um grande sorriso e cheguei a auxiliar o pessoal de terra indicando aos passageiros desorientados as escadarias de acesso ao Terminal Remoto Doméstico, próximo ao Portão número 1 onde me encontrava.

Telefonei para o Comandante do 8º BEC Coronel Sérgio Codelo informando-o do andamento da viagem e o caro amigo disse que estaria me aguardando no aeroporto. Tentei demovê-lo mostrando que só chegaria por volta da 00h59, mas ele, com a fidalguia azul turquesa de sempre, disse que fazia questão.

-  Chegada na Pérola do Tapajós

A chegada do vôo, mais uma vez foi antecipada, desta feita apenas três minutos, e chegamos à nossa querida Santarém onde fomos recepcionados pelo Coronel Codelo um paulista de boa cepa.


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quarta-feira, 19 de junho de 2013

Rios dos Ermos e dos Sem Fim

Rios dos Ermos e dos Sem Fim

Hiram Reis e Silva, 12 de abril de 2013

Realmente, um rio deserto no Amazonas equivale a um pleonasmo. Mas existem, não há dúvida, rios de solidão tão impressionante, tão profunda, tão despropositada, que deixam no espírito de quem os percorre a sensação que deve sentir um homem que alcançou o último grau de latitude do Polo Norte.
(Aurélio Pinheiro - À Margem do Amazonas – 1937)

Percorrer as curvas infindas do Rio Juruá, o mais sinuoso dos rios do planeta, navegar horas a fio sem avistar um só ser humano ou vislumbrar um resquício que seja de sua presença nos dão uma ideia viva de um fim de mundo, de um mundo onde a presença humana ainda não se fez totalmente presente. Parece que nestes longínquos confins a natureza ainda não se preparou para acolher o Filho do Homem, uma estranha bruma nos envolve, uma névoa que encobre paisagens onde se tem a sensação que o tempo estancou, retrocedeu e, encabulado, permanece encolhido, estático, nestes ermos dos sem fim, arredio às novidades, às mudanças, avesso à modernidade.

Oculto pelas sombras o passado rompe as barreiras cronológicas e ocupa o lugar do presente envolvendo lentamente o canoeiro no seu mágico manto pretérito. Surgem das várzeas, dos igapós, dos sacados, dos furos, seres mitológicos, a ficção e a realidade fundem-se, mesclam-se. Iaras, curupiras, mapinguaris saúdam o enlevado navegante que mergulha o seu remo nas nuvens diáfanas dessas águas de puro encantamento. De repente, ao avistar algumas rudimentares palhoças, pequenos e primitivos casebres perdidos em um lúgubre recanto a fantasia se esvai e retorno bruscamente ao mundo real.

Alguns navegantes certamente entenderão meus devaneios. Ao submergirmos na natureza nossos sentidos são ampliados, por vezes anestesiados, fazendo-nos experimentar ainda que momentaneamente a sensação de estarmos aportando na Terceira Margem.


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