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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Ponta Santiago ‒ Pelotas (VII Parte)

Ponta Santiago ‒ Pelotas (VII Parte)

Hiram Reis e Silva (*), Porto Alegre, RS, 19 de fevereiro de 2015

O Novo Argonauta
(José Agostinho de Macedo)

Enquanto a Pátria agradecida ao feito
Prepara ao grande Navegante os louros:
Enquanto o bronze e mármore não mostram
Voltada aos Céus a imagem respirante,
E no soberbo pedestal não grava
Os atributos da naval ciência,
Co’a mente em fogo acesa, e às Musas dada,
À Pátria, ao Trono, ao Mérito, à Virtude,
Que a façanha inspirou, que o Herói coroa,
Este tributo de louvor consagro.



Ponta do Santiago ‒ Canal de Irrigação (06.01.2015)

O amigo Antônio Buzo permaneceu na Caldeirinha aguardando bons ventos para realizar a travessia de quase 11 km entre as Pontas do Santiago e Muniz. O canoísta Buzo, depois de nos acompanhar desde a Ilha Grande do Taquari e brindar-nos com sua agradável companhia, estava de volta à simpática cidade de Jaguarão.

Partimos cedo com destino à Ponta dos Latinos e fizemos uma parada intermediária na Baía antes de lá aportarmos por volta das 10h00, depois de remar 18 km enfrentando ventos fortes e ondas do quadrante Norte, que incidiam na bochecha de bombordo. Uma bela figueira tombada pela força dos ventos e das águas resistia estoicamente dando mostras de uma determinação invulgar. Apoiada resignadamente nos seus frondosos galhos dava mostras de uma emocionante e invulgar energia telúrica capaz de comover os espíritos mais rudes.

Dos Latinos aproamos para o Arroio Del Rey (32°52’10,1”S / 52°55’48,4”O) onde estacionamos para almoçar. Enquanto o Hélio fazia uma incursão pela mata nativa, eu navegava pelo Arroio onde desponta, ainda altaneiro há mais de 50 anos, o mastro do Barco Itaqui que transportava cal de Pelotas para Curral Alto e o desembarcava neste local. Acho que nos demoramos demais e os Mares de Dentro não perdoam erros deste gênero. Logo que partimos rumo a um Canal (32°54’52,6’’S 52°49’36,1’’O) onde deveríamos aportar, segundo orientação do professor Hélio aos velejadores, os céus começaram a anunciar um vendaval vindo do quadrante Oeste.

Remamos vigorosamente e ao chegarmos ao Canal verificamos que este estava totalmente assoreado. Subi na duna mais alta e tentei contato rádio com o veleiro Zilda III – nenhuma resposta. Continuamos nossa jornada bastante apreensivos até que avistamos a uns 2 km adiante do canal o veleiro.

Os Comandantes Reynaldo e Pastel estavam nos aguardando nas proximidades do Canal de Curral Alto (32°54’32,4’’S 52°48’05,4’’O). Imediatamente nos dirigimos, depois de ter conversado com os velejadores, à foz do Canal para sondar sua profundidade. Feito o reconhecimento, orientamos a progressão do Zilda IIIl onde tivemos de desatrelar um dos barcos dos pescadores que bloqueava o acesso à uma área mais protegida do Canal.

Depois de termos ancorado o Zilda III e arrastado ou caiaques para o barranco, recebemos a visita de alguns pescadores e seus familiares que cortesmente nos orientaram à respeito da ancoragem. O mau tempo dissipou-se rumando para o Norte e passamos uma noite bastante agradável embarcados no veleiro. Tínhamos remado 49 km.



Canal de Irrigação ‒ Canal de Acesso Taim (07.01.2015)

Meu organismo, desde a quebra do suporte do leme em Santa Vitória do Palmar, ainda não se recuperara e o esforço de remar longas distâncias enfrentando ventos fortes de proa e través traumatizara ainda mais minhas fibras musculares. Avisei aos meus amigos que remaria mais lentamente neste dia, pois do Taim a Pelotas teríamos ainda, pelo menos, mais dois dias de viagem.

Eu navegava rumo NNE e ventos de proa fizeram-me acostar para poder resguardar-me, ainda que parcialmente, dos ventos. Remei, sem pressa, e a monotonia da paisagem só foi quebrada pela presença inusitada de três muares que serenamente pastavam. Depois de remar, praticamente sozinho, durante 47 km, avistei o Hélio na Boca do Canal e o veleiro ao largo. Aportei e imediatamente tentei, sem sucesso, contato pelo rádio com a equipe de apoio, pedi, então, ao Hélio que tentasse pelo celular. Os velejadores estavam aguardando os resultados de uma sondagem para só então adentrar ao Canal do Taim. Executados ou procedimentos de praxe o Zilda III ancorou no Canal protegido pelos barrancos altos do mesmo. Durante a sondagem avistei um casal de ratões do banhado com dois pequenos filhotes que, muito mansos e curiosos, observavam meu trabalho.

Taim ‒ (08.01.2015)

Dedicamos o dia a conhecer o Taim e sua maravilhosa fauna. O Coronel Sérgio Pastel já havia contatado o oceanólogo Sr. Henrique Horn Ilha, chefe da Estação Ecológica (ESEC) do Taim, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que permitiu que excursionássemos pela área da reserva.

A ESEC do Taim, criada em 1986, está localizada entre a Lagoa Mirim, Lagoa Mangueira e o Oceano Atlântico abrangendo uma área de 32.800 mil hectares. A Estação Ecológica do Taim tem como objetivo, além da preservação da natureza, a realização de pesquisas científicas.
A região formada por uma ampla planície costeira abriga mais de 230 espécies de aves além de ser um reduto importante de répteis e anfíbios. O banhado do Taim desempenha as funções de produção de alimento, conservação da biodiversidade, contenção de enchentes e controle da poluição. Nossa visita à área está muito bem documentada no “filmete” em anexo: V Parte (Taim): Taim (08.01.2015).

Taim ‒ Ilha Grande (09.01.2015)

Partimos com a firme determinação de pernoitar no Canal de São Gonçalo, o Comandante Reynaldo tinha compromissos inadiáveis em Porto Alegre. Fiz uma parada intermediária, depois de remar 7 km, na praia da Vila do Taim, popularmente conhecida como Capilha, próxima à Estação Ecológica do Taim e que pode ser acessada por terra pela BR 471, onde visitei a praça e a Igreja Nossa Senhora da Conceição (32°30’20,8”S e 52°35’04,1”O) e uma bucólica praça. No entorno da Vila encontra-se a única linha de falésia viva da lagoa Mirim e onde nas últimas décadas, a erosão provocou uma importante regressão da falésia até os limites da igreja. Alguns autores defendem que o termo Taim tem sua origem expressão indígena “tai moing”, que significa “cousa pequena em que penso” enquanto outros asseguram que ela advêm do grito emitido pelo Tarrã ou tachã (Chauna torquata).
Remei até a Ponta do Salso, onde aportei seguido pelo Hélio, depois de remar 25 km, sem parar, desde a Vila do Taim. Avistamos três lebres que brincavam sob alguns salsos. Continuamos nossa jornada aproando para o Arroio Gamela (32°15’09,1”S e 52°40’25,9”O), 7 km adiante, onde tínhamos combinado, com os velejadores, de ancorar para o almoço. Como a Foz estava totalmente bloqueada por salsos, contatei os velejadores que seguiram diretamente para o Canal São Gonçalo. Dirigimo-nos, então, para o Canal de irrigação da granja 4 irmãos (32°14’26,4”S e 52°40’05,7”O) que ficava a pouco mais de um quilometro avante onde paramos para no hidratar e consumir algumas barras de cereais.

Descansados aproamos diretamente para a Boca de montante do Canal de São Gonçalo que ficava a uns 12 km à nossa frente. Desde a Ponta do Salso, uma tétrica paisagem assombrava-nos, a primeira fileira de salsos de toda margem tinha sido tombada pelo ciclone da noite de 31.12.2014. As folhas dos chorões conservavam ainda um intenso verdor testemunhas vivas da recentidade do cataclismo que assolara a região.

Ode aos Salsos Tombados

O Comandante Emygdio, reporta-nos um trecho da poesia de Barbosa Neto, ilustre poeta parnasiano nascido, em 1884, na cidade de Jaguarão, RS, que faço questão de reproduzir em homenagem a meu querido pai Cassiano Reis e Silva. O Cassiano sempre sonhou em ter em casa um salso-chorão, também conhecido como salgueiro-chorão (Salix babylonica) debruçado sobre um pequeno lago.

Molduras e Visões
(João Rodrigues Barbosa Neto)

E esses salsos chorões à beira das barrancas,
Que a rajada impiedosa alucina e emaranha!
E esse perfil de dor das tristes garças brancas,
Silenciosas ouvindo essa angústia tamanha!

Ali, uma árvore nua ergue convulsos braços
E parece o fantasma esguio da paisagem
Pedindo à alma contrita e triste dos espaços
O manto que perdeu com a morte da folhagem!

Olha a nuvem veloz que o vento açoita e leva,
Olha a que vai além como um floco de neve:
As nossas ilusões – Nuvens de um céu, de treva,
Fogem como as do céu, tal as do céu, de leve!

Chega-me ao ouvido a voz do enfurecido vento,
Onde rude, febril, o mísero maldito
Que de entrada do tempo, em dolorosos grito,
Pede socorro a um Deus oculto e sonolento.

O chorão foi trazido, desde o Leste asiático pela Rota da Seda, para a região da babilônia de onde disseminou-se pelo mundo afora. É considerada, por alguns, uma árvore lendária para o cristianismo, pois segundo eles, teria escondido sob seus ramos a família sagrada, durante sua fuga para o Egito, dos soldados de Herodes.

Na verdade uma das versões que nos parece mais plausível tem sua origem, no século VIII, na Germânia, com o monge beneditino São Bonifácio, conhecido hoje como “Apóstolo dos Germanos” e que foi eleito Bispo, em 30.11.722,  dos territórios Germânicos em reconhecimento ao seu trabalho de catequização na região. Retornando à região depois de uma longa viagem que fizera a Roma surpreendeu alguns populares preparando-se para realizar sacrifícios humanos conforme determinava sua primitiva religião. Bonifácio libertou os nove meninos que seriam mortos e mandou derrubar o enorme carvalho de Geismar, dedicado a Thor, onde se realizaria o sangrento holocausto. Embora os sacerdotes pagãos tenham-no ameaçado com a ira do “poderoso” deus do trovão que o fulminaria com seus raios, nada aconteceu, para humilhação dos mesmos. A queda da árvore de Thor marcou definitivamente a queda do paganismo naquelas plagas e os germanos convertidos adotaram o carvalho como um símbolo cristão.

A tradição ultrapassou as fronteiras e a humanidade cristã acabou adotando outra árvore que fora usada como um símbolo agrado ancestral e cultuado por diversas religiões pagãs de outrora – o pinheiro.

O pinheiro é uma árvore cujo “pináculo” aponta para o céu, cuja perenidade dos ramos nos remete à vida eternidade, cujas raízes encravadas solidamente na terra testemunham a aliança entre as entidades celestiais e os seres terrestres e, finalmente, seu formato triangular lembra a Santíssima Trindade.

Continuando a Jornada

O Sol inclemente castigava nossos corpos exaustos e, ao aportar na Foz do São Gonçalo, aportamos na mesma praia, depois de remar 53 km, onde acampáramos no dia 27.12.2014. Depois de um revigorante banho, subimos a bordo para o almoço e, logo depois, aproamos para a Vila de Santa Isabel. O Hélio foi até o mercado da Vila enquanto eu fiquei tomando conta dos caiaques tendo em vista termos ciência de relatos de canoístas que tiveram suas cargas roubadas quando ali estacionaram. Logo depois de levarmos as compras até o veleiro começou uma chuva refrescante que aliada à correnteza do Canal nos estimulou à picar a voga, chegamos a atingir os 13 km/h, até a Ilha Grande, onde acampamos nas proximidade de uma frondosa figueira (32°04’19,6”S e 52°30’34,7”O) à margem direita. Tínhamos remado 70 km neste dia e 539 km somente na Lagoa Mirim.

Ilha Grande ‒ Pelotas (10.01.2015)

Tínhamos concluído com sucesso a navegação da Lagoa Mirim e hoje teríamos de percorrer apenas 50 km até o Veleiros Saldanha da Gama. Partimos junto com o Zilda III, às 07h30, e logo em seguida o veleiro sumiu de nossas vistas. Os únicos fatos notáveis, além de não realizarmos nenhuma parada, foram a transposição por uma das comportas da barragem, enquanto o veleiro aguardava a hora de abertura da eclusa para continuar a viagem, e quatro belos cisne-de-pescoço-negro (Cygnus melanocoryphus) que passaram por nós.



Fontes:

MACEDO, José Agostinho de. O Novo Argonauta – Portugal – Lisboa – Oficina de António Rodrigues Galhardo, Impressor do Conselho de Guerra, 1809.

NETO, João Rodrigues Barbosa. Molduras e Visões – Brasil – Porto Alegre – Editora do Globo, 1919.



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