MAPA

MAPA

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Circum-navegação da Lagoa Mirim (I Parte)

Circum-navegação da Lagoa Mirim (I Parte)

Hiram Reis e Silva (*), Bagé, RS, 21 de janeiro de 2015

Água Doce da Minha Terra
(Lúcia Rocha)

Água doce que vem,
água doce que vai,
beleza nativa de muitos sotaques,
água doce da minha terra.




Após concluir a Descida do Rio Roosevelt, no dia 13.11.2014, envolvi-me totalmente na redação do Diário de Bordo do mesmo sem poder dedicar-me ao planejamento e estudo de meu próximo desafio – a Circum-navegação da Lagoa Mirim. Tinha preparado os mapas, já há algum tempo, identificando os principais acidentes naturais sem chegar, porém, a georeferenciá-los. O Comandante Norberto Weiberg estava empenhado, de corpo e alma, no minucioso projeto e me comunicava constantemente sobre o andamento do mesmo. Partimos de Bagé, dia 26.12.2014, eu e a Rosângela com destino a Pelotas onde pernoitaríamos na véspera da largada. À tardinha fomos até o Clube Veleiros Saldanha da Gama encontrar os outros navegadores, deixar o meu veterano caiaque Cabo Horn,  as tralhas e combinar o horário da partida.

Partida de Pelotas (27.12.2014)

Acordamos às 04h30 e dirigimo-nos ao Clube Veleiros onde encontramos nossos parceiros empenhados no aprestamento do veleiro Zilda III que, neste dia, nos conduziria, pelo Canal São Gonçalo, até o “Arroio” Sangradouro, próximo à Boca do São Gonçalo na Lagoa Mirim. A Rosângela retornou à pousada em que pernoitáramos, na Praia laranjal, às margens da Laguna do Patos para repousar antes de voltar para Bagé.

A tripulação do Zilda III, até Jaguarão, estava assim constituída:

Comandantes: Reynaldo di Benedetti, Sérgio Pastl e Norberto Weiberg;

Grumetes: Pedro Sérgio Londero Pastl e Brian Pastl Wechenfelder;

Canoeiros: Hiram Reis e Silva e Hélio Riche Bandeira (embarcados no Zilda III até o “Arroio” Sangradouro neste dia).

Partimos antes do alvorecer, uma claridade difusa disfarçava as imagens extremamente decadentes da outrora progressista margem esquerda do Canal São Gonçalo. Embarcações como o Frota Santos, com seus 168 m de comprimento e 28 m de largura e outras tantas muito mais antigas jaziam carcomidas pela ferrugem, antigas ruínas abandonadas contrastavam com as instalações da Sociedade Anônima Frigorifico Anglo S.A. que estão sendo progressivamente reformadas e ocupadas pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) ‒ Campus Porto.

Canal São Gonçalo

São Gonçalo (Gonçalves do Amarante): foi um beato descontraído e alegre venerado como Santo pelos nossos irmãos portugueses. Gonçalves nasceu, em 1187, no Lugar de Arriconha, Freguesia de Tagilde, próximo de Vizela (perto de Braga), Portugal e morreu, como profetizara, em 1259. Uma passagem, em especial, relatada no site www.cademeusanto.com.br, ilustra muito bem a santidade e a personalidade deste servo de Deus:

Um dos vários milagres de Gonçalves foi durante a construção de uma ponte sobre o Rio que era muito bravo e não permitia que as pessoas do outro lado viessem visitar a ermida no tempo das águas. Não era um bom local para se fazer uma ponte, mas Gonçalves seguiu, segundo ele, diretrizes vindas do céu.

Certa vez durante a construção, ele estava coletando doações e quando bateu à porta da casa de um homem rico, este disse a ele para procurar na loja a sua esposa com um bilhete que ela daria a ele as moedas de ouro estipuladas no bilhete. São Gonçalves levou o bilhete para a esposa e quando esta o leu passou a rir. O bilhete dizia:

Coloque este bilhete no prato da balança e dê a ele tantas moedas de ouro quanto for necessário para equilibrar a balança.

A loja estava cheia de fregueses. Inalterado, Gonçalves disse:

‒ Mulher, obedeça ao seu marido.

Colocou o bilhete no prato da balança e disse:

‒ Agora coloque no outro as moedas.

A mulher colocou uma, duas e várias moedas até encher o prato e o bilhete ainda pesava mais que as moedas. Quando o prato estava derramando, São Gonçalves disse:

‒ Já chega.

Colocando as moedas em um saco, saiu deixando a todos pasmos e estupefatos. (www.cademeusanto.com.br)

Nas cartas geográficas mais antigas o Canal era erroneamente considerado apenas como um sangradouro da Lagoa Mirim. O Canal de aproximadamente 75 km de extensão, largura média de 250 m de largura e profundidade de 5 a 7,5 m permite que as águas fluam, normalmente, da Lagoa Mirim para a Laguna dos Patos invertendo este fluxo apenas em raros períodos de forte estiagem (geralmente de novembro a maio).

Iríamos percorrer 65,5 km do Canal tendo em vista que o Veleiros Saldanha da Gama fica à 9,5 km da Boca do São Gonçalo na Laguna do Patos. Durante nossa circum-navegação, a Lagoa Mirim estava com muita água embora as bombas dos numerosos e gigantescos canais de irrigação de arroz, que mais parecem Arroios, estivessem drenando indiscriminadamente quantidades colossais de suas águas.

Afluentes do São Gonçalo

Com exceção do chamado “Arroio” Sangradouro que é, na verdade, apenas um sangradouro das numerosas Lagoas que permeiam a Margem Ocidental da Lagoa Mirim, todos os afluentes do São Gonçalo desembocam na sua margem esquerda sendo que os mais caudalosos são o Rio Piratini (32°00’57,7”S / 52°25'15,6”O) e o Arroio Pelotas (31°46’23,5”S / 52°16'51,1”O).

Ponte Ferroviária (31°47’17,9”S/52°20'42,7”O)

Chegamos às 06h35 e tivemos de aguardar até às 07h15 para que o vão central da Ponte Ferroviária fosse suspenso para o Zilda III passar.

A construção da Ponte Ferroviária, de 300 m de comprimento por 3,80 m de largura, tinha um centro giratório, que permitia a passagem dos vapores do Porto de Pelotas até Jaguarão e viabilizava o transporte ferroviário entre as cidades de Bagé e Pelotas ao porto de Rio Grande. O projeto foi aprovado pelo governo imperial em 1873, sua estrutura metálica foi fabricada na França, em 1882 e inaugurada pela Southerm Brazilian Rio Grande do Sul Railway Company, em 1884. Mais tarde o seu vão central giratório foi modificado para um levadiço de 39 m. Este vão central possibilita um tirante de ar de 20 m, na cheia, e de 23 m na vazante. O controle do transporte ferroviário, atualmente, é de responsabilidade da América Latina Logística (ALL).

Ponte Levadiça: ponte que se pode levantar ou baixar. (Dicionário Priberam da Língua Portuguesa)

Tirante de ar: altura livre que permite a passagem dos barcos. (Hiram Reis)

Ponte Léo Guedes (31°47’25,5”S/52°20'51,2”O)

Passamos, logo em seguida sob a ponte Léo Guedes. Esta ponte, de 1.020 m de comprimento, vão central de 109 m e tirante de ar de 18,4 m, na cheia, e de 21,3 m na vazante, teve sua construção iniciada, em abril de 1975, pela Sotege Engenharia S.A. que entregou-a ao tráfego em maio do ano seguinte.

Ponte Alberto Pasqualini (31°47’26,7”S/52°20'52,5”O)

Ao lado da Léo Guedes está a ponte Alberto Pasqualini que foi desativada em decorrência do tráfego pesado e sem controle usado para escoar a soja através do Porto de Rio Grande. A ponte de Classe I que deveria ser trafegada por veículos de até 36 TF (três eixos de 12 toneladas) suportou caminhões com mais 60 TF causando sérios danos à sua estrutura que teve de ser reforçada e carga máxima limitada a 24 TF trazendo sérias consequências para o escoamento da safra de 1974. A solução proposta pelo DNER foi, então, a construção de uma nova ponte.

Barragem do Centurião ‒ Eclusa (31°48’41,3”S/52°23'15,3”O)

Chegamos às 08h10 e aguardamos até as 09h00 para passar pela eclusa. Vários barcos de pescadores chegaram poucos minutos antes da operação de abertura da comportas. Em 1977, o fluxo natural do São Gonçalo foi alterado com a construção da Barragem do Centurião que tinha como objetivo impedir a intrusão das águas salgadas para a Lagoa Mirim garantindo assim a oferta de água potável para as cidades de Rio Grande e Pelotas além de evitar prejuízos às lavouras de arroz, cultura que predomina no entorno da Lagoa Mirim.

A barragem, transversal ao Canal São Gonçalo, tem 245 m de comprimento, 18 comportas basculantes, com 12 m de largura e 3,20 m de altura. A eclusa, com 120 m de comprimento, 17 m de largura e 5 m de profundidade foi erigida na margem esquerda do Canal. Seus portões basculantes tem 17 m de largura e 8 m de altura nivelam a altura da água dentro da eclusa permitindo, desta maneira, a passagem das embarcações. A responsabilidade pela manutenção e fiscalização da barragem eclusa é da Agência de Desenvolvimento da Bacia da Lagoa Mirim (ALM).

Eclusa ‒ Rio Piratini (32°00’57,7”S/52°25'13,6”O)

Raramente, nas minhas aquáticas jornadas, tenho a oportunidade de encarnar, de forma tão absoluta, a personagem de um mero espectador deixando de lado meu clássico papel de protagonista. Nos catorze dias que se seguiriam este foi o único em que, durante todo o dia, eu poderia desfrutar do conforto de um veleiro e observar as paisagens de uma cota mais privilegiada do que a que me proporciona o cockpit do Cabo Horn.

A Eclusa está inserida na Volta da Figueira que deixamos para trás ao entrar na Volta do Pesqueiro e logo depois na Volta do Brigadeiro, passamos a seguir pela Ilha das Moças, Passo do São José e Rio Piratini. As imensas áreas alagadas a cavaleiro do Canal abrigam uma imensa diversidade de aves. Na margem direita, próximo à Foz do Piratini há uma casa de alvenaria construída sobre pilares que substituiu uma de madeira (eucalipto) conforme nos relata o Comandante Décio Vaz Emygdio no seu livro “Lagoa Mirim ‒ um paraíso ecológico” (página 51).

Rio Piratini ‒ Ilha Grande (32°03’52,8”S/52°30'30,4”O)

A paisagem praticamente não variara desde que cruzamos pela eclusa, tínhamos passado pelo Passo do Liscano e pela Volta do Liscano até que de repente tudo começou a mudar quando vislumbramos, às 15h20, a ponta de jusante da Ilha Grande (32°03’20,3”S/52°29'15,3”O) e adentramos pelo braço sul (à bombordo), mais curto, deixando a Ilha à Boreste. A vegetação nativa dominada por belas Coronilhas (Scutia buxifolia) e algumas centenárias e portentosas figueiras, capivaras e ratões do banhado aproveitavam o calor dos raios solares olhando-nos preguiçosamente.

Atingimos a ponta de montante (32°04’52,3”S/52°31'17,8”O) da bela Ilha Grande e despedimo-nos deste magnífico oásis onde a fauna e a flora dominam o cenário.

Ilha Grande ‒ Sangradouro (32°08’48,5”S/52°37'21,6”O)

Após a Ilha Grande deixamos para trás a Volta do Firme, a Ilha Pequena e aportamos, às 17h25, para comprar alguns gêneros em Santa Isabel do Sul. Aqui, como na área portuária de Pelotas, a visão é igualmente desalentadora, o pequeno povoado é um retrato explícito do declínio e do abandono.

Santa Isabel do Sul

A comitiva triunfante do Imperador D. Pedro II sobre as hordas paraguaias deixou Uruguaiana, às 10h00 de 04.10.1865, com destino à Corte, depois de visitar diveras cidades gaúchas. Quando a comitiva saiu de Jaguarão com destino a Pelotas passou pela Vila de Santa Isabel, uma página gloriosa de um de um passado muito distante.

A Lei Provincial n° 1.368, em 09.05.1882, criou a Vila de Santa Isabel e em 1° de julho, do mesmo ano, foram realizadas eleições para vereadores e o Auto de Instalação deu-se no dia 27.01.1883. A Vila viria a se tornar município independente por 10 anos, de 1883 a 1893, com o nome de Santa Isabel dos Canudos.

Com o advento da República novas mudanças nas organizações administrativas e jurídicas municipais abalaram definitivamente os alicerces da incipiente Santa Isabel. O Ato n° 11, de 16.01.1893, promulgado por Júlio de Castilhos, Presidente do Estado do Rio Grande do Sul, suprimiu o Município isabelense transformando-o em Distrito de Arroio Grande.

Capela de Santa Isabel

A história da capela remonta aos primeiros habitantes do arraial, segundo Arlindo Rupert. O Capitão José Corrêa Mirapalheta e sua mulher, Dona Faustina Corrêa, doaram, em 02.08.1859, uma quadra de terreno com 56 braças de frente e 56 de fundo para que fosse erguida uma capela à Santa Isabel. No lugar denominado Canudos, acima do Passo de mesmo nome, à margem do Rio São Gonçalo, onde já havia uma bonita povoação, foi lançada a pedra fundamental, no dia 1° de novembro do referido ano, pelo vigário do Rio Grande, Padre José Maria Damásio Mattos.

Concluída a igreja em 1861, em 03.05.1863, foi benta por D. Sebastião Dias Laranjeiras, que no dia seguinte (04.05.1863) celebrou a primeira missa. No mesmo ano (1861), o Comendador Domingos Faustino Corrêa paramentou essa grande e bela igreja. Mais tarde, por desavenças com o Capitão Mirapalheta, retomou os ricos paramentos que doara. Pela Lei Provincial nº 586 de 07.12.1866, foi esta capela elevada à Paróquia. Por Provisão do Diocesano de 16.02.1882, foi canonicamente instituída, sendo designado para ela o Padre Antônio Troccoli (1882–1889) (MENDONÇA).

Foi um tiro curto até o Sangradouro (32°08’48,5”S/52°37'21,6”O). Como suas margens estavam totalmente inundadas sugerimos ancorar no São Gonçalo. Considerando que o veleiro estava superlotado, eu e o Hélio resolvemos acampar em uma pequena e agradável praia na margem esquerda da Boca do Canal. Retornamos, mais tarde, ao Zilda III para o jantar e na oportunidade ficamos observando algumas capivaras aproximarem-se da embarcação em busca de alimentos. Recolhemo-nos muito cedo, no dia seguinte a previsão de ventos de proa certamente exigiriam muito de nossos músculos. Eu nunca enfrentara em minha andanças pela Amazônia e Pantanal tal quantidade de mosquitos, entramos rapidamente na barraca e tivemos de ligar as lanternas para exterminar os vorazes insetos que ali tinham penetrado.



Fontes:

EMYGDIO, Décio Vaz. Lagoa Mirim - um Paraíso Ecológico – Brasil – Pelotas – Café Pelota Editora, 1997.

MENDONÇA, Cledenir Vergara. A Vila de Santa Isabel: Dignidade de um Povo – apud SALABERRY, Jeferson Dutra in Patrimônio e Identidade Local – Paranoá, n° 13 – Brasil – Brasília, 2014.



Nenhum comentário:

Postar um comentário