MAPA

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quarta-feira, 16 de maio de 2012

Laguna dos “Patos”

Os Lusíadas
(Luís Vaz de Camões)
Canto II – 20

Já na água erguendo vão, com grande pressa,
Com as argênteas caudas, branca escuma;
Cloto eo’o peito corta e atravessa
Com mais furor o Mar do que costuma.
Salta Nise, Nerine se arremessa,
Por cima da água crespa, em força suma.
Abrem caminho as ondas encurvadas,
De temor das Nereidas apressadas.

A origem do nome da Laguna dos Patos é, por demais, contraditória. A literatura do século XVI vincula o seu nome às aves palmípedes e a partir do século XVII faz alusão aos Índios Patos, como eram chamados os Carijós que povoavam a zona litorânea.

Nas minhas Travessias pela Laguna dos Patos tenho encontrado diversos Capororocas, Patos-do-mato (também conhecido como pato-crioulo, pato-bravo, cairina, pato-argentino, pato-selvagem ou pato-mudo), biguás (também chamado corvo-marinho, pata-d'água, biguaúna, imbiuá, mergulhão e miuá) e outros tantos palmípedes que povoam nossas lagunas litorâneas e que podem ter sido os responsáveis pelo batismo da Laguna dos Patos.

Capororoca (Coscoroba coscoroba): possui plumagem branca com a ponta das asas negras, o bico e os pés são vermelhos. O capororoca parece mais um ganso, mas os biólogos o classificam como cisne tendo em vista seu grande porte. Encontrados desde a Patagônia até o Uruguai, Paraguai e Brasil, onde pequenos bandos habitam lagunas, pântanos e banhados próximos ao litoral Gaúcho.

Capororoca (Coscoroba coscoroba)
Pato-do-mato (Cairina moschata): vive em pequenos grupos, de até uma dúzia. Pousa sobre árvores desfolhadas para observar os arredores, descansar ou dormir. Faz seus ninhos nos ocos das árvores e em palmeiras mortas próximos à água. Raramente avistado nas proximidades da Laguna.

Pato-do-mato (Cairina moschata)
Biguá (Phalacrocorax brasilianus): mergulha para pescar e para facilitar a imersão elimina o ar que fica normalmente entre as penas. É visto em grandes bandos voando rente à água, em formação em “V”, sendo essas revoadas semelhantes à dos patos, fazendo com que sejam confundidos como tais.

Biguá (Phalacrocorax brasilianus)
Não creio que tenha sido uma determinada espécie o que mais chamou a atenção dos cronistas pretéritos para nominar nossos acidentes geográficos e sim a abundância destas aves. A narrativa de Francisco Lopez de Camará mencionando “patos negros sin pluma, y con el pico curvo”, nos leva a considerar o biguá que possui o bico encurvado e que depois de mergulhar parece mesmo não possuir penas, além disso, até hoje os intermináveis e numerosos bandos impressionam a quem os avista.

Outros pesquisadores, no entanto, defendem a tese de que o nome da Laguna teria sua origem nos tais Índios Patos, o que acho menos plausível.

O biógrafo, historiador, ensaísta, lexicógrafo, romancista e professor brasileiro Afonso d’Escragnolle Taunay, nascido em Nossa Senhora do Desterro (Florianópolis), SC, em 11 de julho de 1876 narra na sua “História Geral Bandeiras Paulistas”, editada em 1928, pela Typographia Ideal, que:

Um grupo de Índios Carijós que vivia na região da Laguna, em SC, conhecidos no Brasil como Patos.

O historiador brasileiro Capitão-tenente Lucas Alexandre Boiteux nascido em Nova Trento, SC, no dia 23 de outubro de 1881, membro da Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro, do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e da Academia Catarinense de Letras, faz um relato esclarecedor nas suas “Notas para a História Catarinense”, editado em 1912, pela Livraria Moderna, que:

A grande tribo dos Carijós limitava-se ao Nordeste com os Tupinikins, ao Norte com os Guayanás, a Noroeste com os Cai-acangs, a Oeste com os Guandos, e finalmente ao Sul com os Tapes. Querem alguns historiadores que a nossa costa tivesse sido também habitada por uma tribo chamada – Patos. Os nossos cronistas antigos não se referem a ela. A confusão provém de terem sido denominados - dos Patos - a Bahia e Porto de Santa Catarina, que lá habitavam, diziam - os Índios dos Patos, e daí os Índios Patos, os Patos, etc. O Padre Simão de Vasconcellos nos explica que esta tribo era a mesma dos Carijós e que assim a denominavam porque habitavam a costa.

Sabe-se, através de sítios arqueológicos e sambaquis, que os Índios Carijós, do grupo Tupi-guarani, habitavam o litoral Sul do país há aproximadamente 4.000 anos, e que alguns de seus membros domesticavam o Pato-do-mato, o que poderia ter levado os europeus a denominá-los de Índios dos Patos. O fato de alguns pesquisadores, menos informados, vincularem ao nome de Patos o fato destes, supostamente, possuírem pés grandes tem uma explicação lógica tendo em vista a confusão entre Patos e Patagones (Patagões). Vamos rememorar.

Fernão de Magalhães, servindo ao Rei de Espanha, ao realizar a primeira viagem de circum-navegação pela Terra, foi o primeiro europeu a atravessar o Estreito de Magalhães, batizado com o seu nome, e a navegar o Oceano Pacífico. Ao desembarcar no extremo Sul da América Latina, Magalhães encontrou a região povoada pelos “Tehuelches”, caçadores nômades que utilizavam couros de Guanaco para se protegerem do frio. Os Tehuelches cobriam os pés com as mesmas peles aparentando ter os pés grandes. Como a palavra “pata”, significa “perna” ou mesmo “”, no espanhol coloquial, esses nativos de grandes “patas” foram denominados, então, de Patagões e sua região de Patagônia.

Guanaco (Lama guanicoe): mamífero ruminante semelhante às lhamas (Lama glama). Alcança cerca de 1 a 1,25m de altura nas espáduas. O pelo é longo e macio, castanho-avermelhado em cima, e branco embaixo. Os guanacos vivem em grupos nas montanhas e planícies e, outrora vagavam em grandes bandos. O lhama e a alpaca (Vicugna pacos) da América do Sul são descendentes do guanaco.

O marinheiro, geógrafo e escritor italiano Antonio Pigafetta nascido em Vicenza, Itália, em 1491, pagou expressiva quantia para acompanhar Fernão de Magalhães em sua viagem. Pigafetta foi o cronista da viagem, e um dos dezoito homens que logrou retornar à Espanha, com vida, em 1522, depois de completar a circum-navegação, sob o comando de Juan Sebastián Elcano, após a morte de Magalhães. Pigafetta assim mencionou seu encontro com os nativos da patagônia:

Um dia, de repente viu um homem nu, de estatura gigantesca, na margem do porto, dançando, cantando, e jogando terra sobre a cabeça. O Comandante-geral enviou um de nossos homens até o gigante, para que ele pudesse interpretar nossas ações como um sinal de paz. Tendo feito isso, o homem levou o gigante para uma ilhota onde o Capitão-general estava esperando. Quando o gigante se aproximou do Capitão-geral, ele maravilhou-se, e fez sinais com um dedo levantado para cima, acreditando que o mesmo tinha vindo do céu. Ele era tão alto que um de nossos homens, de estatura mediana, só lhe atingia a cintura, e ele era bem proporcionado... Em 1766, um boato vazou ao retornar à Grã-Bretanha que a tripulação do HMS Dolphin, capitaneada por Commodore John Byron, tinha visto uma tribo de nativos da Patagônia com 9 pés de altura (2,74m), quando passaram por lá em sua circunavegação do globo. No entanto, quando uma recém-editada revisão dessa viagem saiu em 1773, os patagônios foram registrados como sendo 6 pés e 6 polegadas de altura (1,98m); enquanto a estatura média de um europeu na época era de 1,68m.

O médico e historiador brasileiro Alexandre José de Mello Moraes, nascido em Maceió, AL, no dia 23 de julho de 1816, relatou na sua “Corographia Histórica, chronographica, genealógica, nobiliária, e política do Império do Brazil”, editada pela Typographia Americana, em 1858, que:

(...) Magalhães dera o nome de Patagões, aos habitantes das terras do Sul da América conhecidos pelos outros gentios pelo nome de Morcas, por terem os pés como patos, e estarem envolvidos em pele de um animal, que parecia ter cabeça e orelhas grandes, como mula, com corpo de camelo, e cauda de cavalo; e acrescenta mais, que os Patagões, que estiveram a bordo eram gigantes, e que um homem de estatura ordinária chegava-lhe com a cabeça à cintura. Tudo isto é completamente falso, ou exagerado. (...) a pele de animal com que se cobria o Patagônio era de Lhamas do Peru ou do Chile, e das Cordilheiras do Estreito de Magalhães; e os tais gigantes, nunca tiveram a estatura notada por Pigafetta: mas, todavia são homens mui altos, chegando a seis pés e três polegadas inglesas o mais robusto e corpulento, que se tem encontrado nestes últimos tempos; e é provável, que desde o ano de 1518 ou 1519 até agora, esta raça de homens da natureza não tenha degenerado.

A revista do Museu Paulista publicou interessante artigo a respeito do tema em questão em 1907.

REVISTA DO MUSEU PAULISTA

Publicada por Rodolpho von Ihering

Diretor Interino do Museu Paulista

Volume VII

S. PAULO

Typ. Cardozo, Filho & Ciª

35, Rua Direita, 35

1907


Os Índios Patos e o nome da Lagoa dos Patos
pelo Dr. Hermann von Ihering

Tendo vivido por muitos anos à margem da Lagoa dos Patos e publicado sobre ela dois estudos, liguei interesse especial ao nome desta Lagoa e por fim adotei a opinião de que este nome não lhe provinha das aves aquáticas denominadas “Patos”, mas de uma tribo de Índios, aliás, pouco conhecida, dos Patos. Esta opinião foi combatida por Alfredo F. Rodrigues no seu artigo “O nome de Lagoa dos Patos” declarando ele imaginária a dita tribo dos Patos.

Pretendendo em seguida tratar por extenso do assunto, reproduzo aqui a maior parte do referido artigo do Snr. Alfredo F. Rodrigues.

Com referência à ideia de que a Lagoa dos Patos tomou o nome de uma tribo de Índios, que habitara em suas margens, ele diz o seguinte:

O erro data de Ayres de Casal, ou pelo menos foi ele que o vulgarizou, pela notoriedade que alcançou a sua “Chorographia Brazileira”. Diz ele que: a Lagoa dos Patos tomou o nome de uma nação hoje desconhecida.

Referindo-se ao canal entre a ilha de Santa Catarina e o continente, diz também:

Rio dos Patos lhe chamavam os primeiros descobridores, porque servia de limite entre os Índios deste nome que se estendiam até S. Pedro e os Carijós para o Norte até Cananéia.

Contra esta afirmativa foi o primeiro a protestar o Visconde de S. Leopoldo, nos “Annaes da Província de S. Pedro”, citando a opinião do Padre Simão de Vasconcellos:

A origem deste apelido esquadrinhou e nos transmitiu o Padre Simão de Vasconcellos, que procedeu de uma armada espanhola, que, em viagem para o Rio da Prata, 1554, obrigada por temporais, arribou à deserta ilha denominada ao depois de Santa Catarina e deixara ali alguns patos que, procriando maravilhosamente, se foram espalhando em copiosíssimos bandos por todo aquele litoral; e foi a causa donde a lagoa toda aquela terra se chamavam dos Patos e até hoje lhes dura este nome.

Em nota acrescenta ainda:

Nestes pontos de pura tradição, inclino-me a seguir antes o Padre Vasconcellos, que, provincial e cronista da Companhia de Jesus no Brasil, escrevendo na Bahia, pelos anos de 1663, viveu mais próximo aos fatos e teve mais proporções de averiguá-los do que o Padre Casal na “Chorographia Brasileira” que, aliás, merecendo grande conceito no que escreveu das Províncias do Norte, que examinou ocularmente, não passando do Rio de Janeiro para o Sul, escreveu por meras informações; por isso não é muito que claudicasse a ponto de adicionar Províncias ao Império do Brasil que não lhe pertenciam, e entre outras cousas mais, dando existência a uma Nação dos Patos de que não se encontram os mínimos vestígios. Vide a enumeração que faz das Nações Índias o mesmo Padre Vasconcellos nas Notícias antecedentes das cousas do Brasil, n° 151 e 152.

A mesma versão se encontra no Santuário Mariano, crônica escrita pelos jesuítas, cujo primeiro volume se publicou em 1707, aparecendo o último em 1723:

Ilha de Santa Catarina — Patos — Cobrem estas aves as praias e terras da beira-mar, por distância de 50 léguas e mais. São os mesmos da Europa. Ali os soltaram uns espanhóis que faziam viagem para o Rio da Prata em 1554.

Enganaram-se na data, porém, tanto o Visconde de S. Leopoldo como os dois cronistas jesuítas, pois que aí já existiam patos muitos anos antes, sendo conhecidos por este nome diversos lugares na costa desde Santa Catarina até o Rio da Prata.

De fato, João Dias de Solis, chegando, em princípios de 1516, à Ilha de Santa Catarina, deu-lhe o nome de Ilha dos Patos; e na embocadura do Rio da Prata, denominou Rio dos Patos a um arroio entre 35° e 34 1/3°. Não existe o roteiro da viagem de Solis, por isso não se pode precisar o motivo por que ele escolheu o nome Patos para esses dois lugares.

Pode-se, porém, afirmar que não o tirou de uma tribo de Índios, pois que nenhum dos historiadores do século XVI, que se referem à sua viagem (Oviedo, Guevara e Herrera, 1535, 1552 e 1601) faz menção de tais Índios, citando pelo contrário os Charruas e outros. Devia, portanto, provir o nome da grande quantidade de patos ai encontrados.

Isto não é uma simples conjectura sem base, porém um fato confirmado por documentos que datam de poucos anos depois. No roteiro da viagem de Diogo Garcia, realizada em 1526 e 1527, lê-se o seguinte:

E andando en el camino allegamos a un río que se llama el río de los Patos questá a 27 grados, que ay una buena geracion que hacen muy buena obra a los cristianos, e llaman-se los Carrioces, que ali nos deram muchas vituallas que se llama millo é harina de mandioca, e muchas calabazas e muchos patos e otros muchos bastimentos porque eran buenos indios.

Na carta em que Luiz Ramirez descreve a viagem de Sebastião Gaboto, realizada ao mesmo tempo que a de Garcia, tendo-se os dois exploradores encontrado em Santa Catarina, lê-se também:

Dijeron que cuatro meses poco más ó menos antes allegásemos a este puerto de los Patos, que así se llamaba de elles estaban (...) En esta isla había muchas palmas en este puerto nos traían los indios infinito bastimento así de faisanes, de gallinas, babas, patos, perdices, venados, que de esto todo y de otras muchas maneras de caza había en abundancia y mucha miel.

Em nenhum destes dois documentos, que assinalam a existência de patos em Santa Catarina, se fala em Índios com tal nome, apesar de virem relacionadas as tribos encontradas pela costa. Diogo Garcia dá mesmo o nome dos Índios de Santa Catarina, os Carrioces.

Outro testemunho confirma ainda estes dois. O Adelantado D. Álvaro Nunes Cabeça de Vaca, tendo arribado a Santa Catarina, em 29 de Março de 1541, cruzou dali em direção ao Paraguai, pelo sertão, onde encontrou, dias depois, uma tribo de Índios, que o receberam com mostras de amizade.

Adelantado ou adiantado: funcionário do Reino de Castela que tinha a máxima autoridade judicial e governativa sobre um distrito.

Nos Comentários da expedição, lê-se:

Esta nação chama-se Guarani, são lavradores que, duas vezes por ano, semeiam milho. Cultivam também mandioca (caçabi), criam galinhas e patos à maneira de Espanha e em suas habitações têm muitos papagaios.

Há ainda uma objeção a refutar, e esta oposta pelo Dr. Hermann von Ihering, que, encarando a questão sob um ponto de vista diferente, negou a existência na Lagoa e em Santa Catarina do Pato Comum (Pato do mato - Cairina moschata), concluindo daí que não podia ter ele dado origem ao nome, que no seu entender provêm dos Índios Patos. O argumento do ilustre naturalista, que a primeira vista parece resolver a questão, não resiste a exame. Os primeiros exploradores da costa, não sendo entendidos em história natural, podiam tomar pelo Pato Europeu qualquer outro palmípede, que se lhe assemelhasse um pouco.

Do exposto podem-se tirar três conclusões:

- Em toda a costa de Santa Catarina ao Rio da Prata havia grande abundância de patos, que foram vistos por Solis, Diogo Garcia, Sebastião Gaboto e Cabeça de Vaca;

- Nenhum dos cronistas e roteiros do século XVI faz menção de Índios Patos, apesar de relacionarem as tribos da Costa;

- Simão de Vasconcellos explicou bem a origem dos nomes Lagoa dos Patos, Rio dos Patos, Laguna dos Patos; porém enganou-se, afirmando que os patos começaram a procriar aí em 1554.

Deve ficar, portanto, como certo, que o nome da Lagoa dos Patos, provém das aves desse nome e não de uma tribo de Índios assim chamada.

A questão tem, como se vê, duas faces, uma ornitológica e outra etnográfica, que em seguida trataremos separadamente.

- O ponto de vista ornitológico

As opiniões dos autores divergem muito sobre esta questão, opinando uns por aves domésticas importadas, outros por diversas aves indígenas, entre as quais é preciso mencionar particularmente: o Pato do Brasil, Biguá e o Pinguim. O nome “Pato” cabe em geral às espécies maiores dos Palmípedes comestíveis da família Anatidæ, cujas espécies menores são denominadas Marrecas. Esta palavra de “Pato” acha-se, em sua aplicação no Brasil, restrita à Cairina moschata (Linn.), denominada “Pato real” pelos espanhóis. Esta espécie pertence em geral mais às regiões centrais do Brasil, sendo rara, ou faltando mesmo, na maior parte do nosso litoral. No Rio Grande do Sul é encontrada particularmente ao longo dos grandes rios, marginados por mato alto; mas não é ave da Lagoa dos Patos.

Há nesta um cisne, Cygnus melanocoryphus (cisne-de-pescoço-negro), denominado “Pato arminho”. Embora seja certo que o número das aves aquáticas nas margens da “Lagoa dos Patos” diminuiu bastante nos últimos cinquenta anos, assim mesmo perto da cidade do Rio Grande obtive nada menos de 14 espécies de Anatidas; não estava incluído, entretanto, neste número a Cairina moschata. Como as minhas observações estão de acordo com as de Wied, Azara e outros observadores, é certo que o nome da Lagoa dos Patos não pode ser derivada de patos silvestres do gênero Cairina, posto que se tome por base as atuais condições faunísticas. Este fato, contudo, não exclui a hipótese de este nome provir de patos domesticados. Infelizmente é muito insuficiente o nosso conhecimento das aves criadas pelos indígenas antigos do Brasil. Uma das informações mais valiosas neste sentido devemos a Alvar Nunes Cabeça de Vaca, que em sua expedição pelo interior do Estado de Santa Catarina em 1541 notou que os indígenas “criam galinhas e gansos à maneira dos Espanhóis”. Esta indicação evidentemente se refere a Jacus e Patos e observo que eu mesmo tive, no terreiro da minha propriedade na Barra do Camaquã, Jacus e também uma Cairina moschata silvestre, em estado mais ou menos domesticado.

Penso que entre todas nossas aves o pato é o que com mais facilidade pode ser domesticado e cruzado com as marrecas e patos criados. Os Jacus também são amansados com relativa facilidade, mas de noite não são capazes de entrar no galinheiro, empoleirando-se, pelo contrário, na cumeeira da casa.

Von Martins diz que na região amazônica se criam espécies de Psophía e Crax e no Brasil Oriental o Mutum (Crax carunculata Temm.). Markgrav descreve bem o pato, mas não diz que seja criado pelos indígenas, acontecendo o mesmo com Azara, Wied e tantos outros autores, que consultei. O Padre Nóbrega diz que no Estado de S. Paulo houve muita caça de mato e patos, que os Índios criam; bois, vacas, ovelhas, cabras e galinhas se dão também na terra e há delas grande quantidade. Outra informação valiosa referente ao Estado da Bahia devemos a Gabriel Soares que, diz:

criam-se mais ao longo destes rios e nas lagoas muitas aves, a que o gentio chama “upeca”, que são da feição das da Espanha, mas muito maiores, as quais dormem em árvores altas, e criam no chão perto da água. Comem peixe, e da mandioca que está a curtir nas ribeiras, tomam os Índios estas aves, quando são novas, e criam-nas em casa, onde se fazem muito domésticas.

É certo que o Pato europeu não é mais senão um descendente da Cairina moschata da América Meridional. Han diz que já em tempos remotos se criavam patos na América.

Na sua segunda viagem Colombo viu destas aves em S. Domingos e entre elas também brancas. Southey, conta que os indígenas no Paraguai criavam nas suas casas patos almiscarados, o que se refere à Cairina moschata. Presume-se que o pato, que era a única ave criada pelos antigos Peruanos chamado “nuñuma” veio do Peru à Europa, passando pela África.

A primeira descrição desta ave deu, na Europa, Conrad Gesner, em 1555, e no mesmo ano em Paris já se ofereciam patos como fina iguaria. Na América Meridional os patos eram criados, segundo estes dados, no Peru, Paraguai e no Brasil.

Parece, entretanto, pouco provável, que já então houvessem patos domesticados na costa, como se depreende também do trecho indicado de Alvar Nunes Cabeça de Vaca. Por esta razão não podemos admitir que a ilha de Santa Catarina e diversos rios, portos e a Lagoa dos Patos tivessem recebido seus nomes de patos domesticados do gênero Cairina.

F. F. Outes dá sobre o nome da ilha de S. Catarina a seguinte informação:

Santa Cruz en su “Islario” da a entender claramente que tanto á la isla de Santa Catarina como al territorio continental adyacente se conocía en la primera época del descubrimiento bajo el nombre de los Patos “por los muchos de ellos que allí se vieron la primera vez que fue descubierto”. Esta afirmación del ilustre cosmógrafo se halla confirmada en muchos documentos de la época. Me bastará citar las declaraciones de Antonio de Montoya y El “maestre” Juan en respuesta á la 20ª pregunta del interrogatorio en el pleito del Capitán Francisco del Rojas con Sebastian Caboto. Entre los autores modernos todos han aceptado La denominación antedicha ...

La causa del mencionado nombre parece estar en la gran cantidad de “patos negros sin pluma, y con el pico curvo”, conforme a expressão de Francisco Lopez de Camará (Historia general de las Indias, in Historiadores primitivos de Indias). Estas aves, continua Outes, alguns autores supunham serem pinguins.

Estas informações antes dificultam do que facilitam a explicação. Não podemos admitir que estes patos tivessem sido Pinguins - Spheniscus magellanicus (pinguim-de-magalhães) porque estes, embora aparecendo as vezes nas costas do Brasil Meridional, nunca entram na água doce, não podendo, por conseguinte, dar o seu nome a rios e lagoas. Além disto, a cor é diferente e também o bico, é direito sem ponta recurvada.

O caráter indicado do bico nos faz pensar no Biguá (Carbo vigua Vieill.) que também é de cor uniforme preta, mas a expressão “sem penas” não pode ser aplicada nem a esta, nem com relação a qualquer outra espécie. Além disto, o Biguá, muito semelhante a espécie congênere da Europa, conhecido como “Corvo marinho”, não pode ser confundido com patos e marrecas e ocorre nas costas da América Meridional desde a Patagônia até a Guiana.

Observo ainda que não é fácil explicar o nome de “Biguassú” ou Biguá grande, dado a um rio de Santa Catarina, visto que há uma só espécie de Biguá. Há outra ave, bastante diferente em cor e bico, que é denominada Biguá-tinga (Plotus anhinga L.), porém é mais ou menos do mesmo tamanho e não ocorre na costa, mas nos grandes rios no interior do Brasil.

Biguá-tinga: conhecido também como carará na Amazônia.

Deste modo entende-se que os patos a que se referem os historiadores não podem ter sido nem pinguins nem biguás, sendo possível que se tratasse da Cairina moschata, provavelmente então muito mais comum na zona litoral do Brasil Meridional do que hoje.

Ponto de vista etimológico

Numerosos escritores dos séculos XVIII e XIX referem-se a uma tribo de Índios Patos. Sobre o domicilio dela diz o Coronel José J. Machado de Oliveira:

O rio dos Patos é hoje conhecido com o nome de Biguassú, que desemboca no canal que separa do continente a ilha de Santa Catarina; servia ele de confins as tribos dos Carijós e dos Patos, que habitavam a primeira, o litoral entre a Conceição e o Biguassú, e a segunda o que decorre deste para o Sul.

Na sua história da Capitania de S. Vicente, publicada em 1772, diz Pedro Taques de Almeida Paes Leme:

É certo que da Vila de S. Vicente saíram, em 24 de Agosto de 1554, os Padres jesuítas Pedro Corrêa e João de Souza para a missão dos gentios Tupis e Carijós dos Patos e ambos foram mortos pela barbaridade destes Índios, como escreve o Padre Simão de Vasconcellos na “Chronica do Brazil”, onde mostra que Pedro Corrêa era sujeito de nobreza conhecida, e se fizera opulento na Vila de S. Vicente, para onde tinha vindo com o fidalgo Martim Alfonso de Souza, porém que, deixando a vida secular, tomara a roupeta (hábito talar dos sacerdotes) no Colégio de S. Vicente, e, ordenado, de presbítero, empregara o seu talento e ciência da língua dos gentios em converte-los à fé católica, até que encontrara com a coroa do martírio pelos bárbaros Índios Carijós do Sertão dos Patos.

Outras informações sobre a região ocupada pelos Patos encontram-se no artigo de Felix F. Outes, “El puerto de los patos”, que reproduz vários mapas antigos do Brasil e do Paraguai, que, além dos dados geográficos, contém indicações sobre as diversas tribos indígenas. Estes mapas dão para a região do Rio Grande do Sul e parte contígua de Santa Catarina o nome dos Índios Patos. O mais antigo destes mapas com tal indicação é o da Est. VIII, “construido por los jesuitas (1646-1649)”. Todos os outros mapas seguintes indicam na mesma região os Índios Patos. Os mapas mais antigos, publicados por Outes, não dão os nomes das tribos indígenas.

Não parece existir nenhuma informação exata sobre estes Patos. Tomando em consideração que o território do Rio Grande do Sul nos tempos antigos não foi explorado e só bem tarde foi colonizado, não é de admirar que sejam escassos e insuficientes os dados referentes aos primitivos habitantes do Rio Grande do Sul. É singular, entretanto, que o livro do Padre Gay, tratando minuciosamente dos indígenas do Brasil Meridional e do Paraguai nem sequer nos transmita o nome de uma nação dos Patos. É bastante notável neste sentido o manuscrito do ano de 1612 que Gay reproduz com referencia aos indígenas do Rio Grande do Sul, mencionando Guaranis, Arachanes, Charruas e Goianás. Nem o manuscrito anônimo de 1584, nem Gabriel Soares mencionam os Patos, tratando, aliás, apenas dos indígenas desde o Pará até Santa Catarina.

Com referência ao livro de Ayres Casal diz Alfredo F. Rodrigues, ter ele sido o primeiro a mencionar os Índios Patos, ao passo que segundo F. Outes ele se teria referido não a Índios, mas à ave Pato. Neste sentido trata-se de um engano do último dos dois autores, visto que o livro de Ayres Casal se refere exclusivamente a Índios - “A Lagoa dos Patos, que tomou o nome duma Nação desconhecida ...”

Em geral podemos verificar que os escritores do século XVI não mencionam Índios Patos, referindo-se apenas às aves palmípedes e que nas publicações do século XVII se acha registrada uma tribo de Patos, sem que, entretanto, fossem dadas informações exatas.

Conclusões

Resulta da exposição precedente que, para a explicação dos nomes da Lagoa dos Patos, do Rio dos Patos, etc. na literatura antiga há duas versões: Uma que se refere às aves palmípedes de que trata a literatura do século XVI e outra referente aos Índios Patos segundo a literatura do século XVII e seguintes. Contra esta segunda opinião pode-se objetar a falta de informações, referentes a estes indígenas na literatura mais antiga e isto no próprio manuscrito anônimo de 1612, publicado por Gay. É preciso, entretanto, considerar que algum dos outros nomes de tribos Rio-grandenses, indicados naquele manuscrito, pode ser sinônimo do dos Patos e, mais, que argumentos de caráter negativo nada provam, particularmente, sendo, como é, a literatura antiga deficiente em informações etnográficas aproveitáveis. Por sua vez a literatura do século XVI contém várias informações sobre a origem ornitológica destas denominações, mas as mesmas são contraditórias entre si. As aves a que se referem os antigos escritores, é licito supor-se, não devem ter sido nem pinguins ou biguás nem marrecas ou patos domesticados. Já João Dias de Solis, em 1515, deu à Ilha de S. Catarina o nome de Ilha dos Patos, sendo impossível supor que isto dissesse respeito a aves domesticadas, importadas da Europa.

Se as diversas denominações dos “Patos” fazem referência à aves aquáticas, pode-se tratar apenas do “Pato Real” (Cairina moschata), devendo-se supor que esta ave tenha existido naquela época em muito maior número que hoje, nas costas do Brasil Meridional. Se assim for, não seria para admirar que os exploradores tivessem dado a várias localidades a denominação dos “Patos”, visto representar esta ave, sem dúvida, a caça mais valiosa entre as aves aquáticas daquela região.

Em favor desta hipótese posso acrescentar o resultado de um estudo geológico por mim publicado, que prova uma modificação profunda no caráter da vegetação no litoral do Rio Grande do Sul. Perto da costa observei, na vizinhança da cidade de Rio Grande do Sul, colinas, coroadas de uma vegetação de arbustos espinhosos, que mostravam pouco em baixo da superfície uma camada argilosa, humosa, com conchas terrestres e fluviais, que sugerem uma modificação profunda da flora e da fauna.

De experiências desta ordem devem lembrar-se os engenheiros que pretendera melhorar as condições da Barra; recomenda-se, como auxílio indispensável, a defesa das terras por meio de vegetação, não só nas margens do canal, mas também numa faixa de 1 a 2 léguas de largura.

É preciso confessar que os dados aqui expostos não conduziram a um resultado seguro.

Admitindo que os autores que falam de Índios Patos tivessem cometido um erro, a mesma suposição é aplicável aos autores do século XVI, cujas informações a respeito das aves “patos” são contraditórias, mas também em parte incompreensíveis e evidentemente falsas. A explicação, entretanto, que nas atuais circunstâncias mais se recomenda, é a do Sr. Alfredo F. Rodrigues, que precisa ser modificada só no que diz respeito às aves que causaram a dita denominação. O caso seria então o de ter sido, antigamente, o Pato Real muito mais frequente no Brasil Meridional do que atualmente, tendo causado a denominação de várias localidades porque, como excelente caça que é, tornou-se digno de toda atenção por parte dos descobridores. O que neste sentido nos confirma mais nesta opinião é o fato de existirem também em outros Estados do Brasil localidades com a denominação de “Patos”, como nos estados de Minas Gerais e Paraíba. Não podemos atribuir estes nomes também naqueles Estados a uma tribo desconhecida dos Patos, sendo ao contrário evidente que a explicação, que deriva de uma origem comum a todas estas denominações, é a mais aceitável.

São Paulo, 8 de Agosto de 1903

domingo, 13 de maio de 2012

Travessia da Laguna dos Patos III – Uma Ode ao CMPA

Canção do CMPA
(Letra: Barbosa e Souza, Música: Arão Lobo)

Somos espadas de um povo altaneiro,
Somos escudos de grande nação,
Em nossos passos marcham guerreiros
Avança a glória num pendão.

Na nossa escola forja-se a grandeza,

Temos no peito amor juvenil,
Em nossas cores toda a natureza,
Nós somos filhos do Brasil. (…)

Amigas e amigos de todos os rincões manifestaram-se preocupados com meu longo afastamento da web. Agradeço, sensibilizado, sua preocupação, mas estava por demais envolvido no treinamento, planejamento e execução de mais uma épica jornada na Laguna dos Patos. Infelizmente, meu treinamento para a Travessia da Margem Ocidental da Laguna dos Patos, em homenagem ao Centenário do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA), tanto nas Lagunas Litorâneas, como no “Rio” Guaíba e na represa da Granja do Valente, de propriedade da família Schiefelbein, em Bagé, foi bastante prejudicado por diversos problemas alheios à minha vontade. Eu teria, desta feita, de enfrentar “inconstância tumultuária” da Laguna dos Patos sem estar gozando de minha condição física ideal.

  Equipe de Apoio


O Coronel PM Sérgio Pastl e o Comandante Norberto Weiberg, da bela e hospitaleira cidade de Canela, RS, embarcados no “Hagar” um pequeno e versátil veleiro “Day Sailer”, capaz de nos apoiar nas águas rasas e ultrapassar os extensos bancos de areia dos “Pontais” da Laguna sem a necessidade de longas desbordagens, nos aguardavam desde a véspera, de 12 de abril, na boca da Lagoa Pequena, proximidades da Ponta da Feitoria. Graças ao Professor Paulo César Camargo Teixeira, Diretor da Escola Estadual de Ensino Médio Leopoldo Maieron – CAIC, de Bagé, minha querida e parceira de aventuras Rosângela Maria de Vargas Schardosim pode me acompanhar na primeira perna da Travessia desde a Praia do Laranjal, em Pelotas até São Lourenço do Sul. O Professor Paulo, desde que tomou conhecimento de nosso Projeto, tem sido um incansável incentivador do mesmo.

  Partida de Bagé (11 de abril)

Saímos de Bagé, eu e a Rosângela, depois do almoço, do dia 11 de abril, rumo à Praia do Laranjal, em Pelotas. Contatamos, pelo celular, o Professor Hélio Riche Bandeira, por volta das 16 horas, na Praia do Laranjal e nos deslocamos até a Pousada em que ele estava. A tarde sem vento prenunciava uma largada tranquila e sem as dificuldades enfrentadas em setembro do ano passado. Depois de devidamente instalados recebemos a visita do Sr. Joel Ramos, um veterano e entusiasta canoísta da região com quem permanecemos conversando até tarde.

  Partida da Praia do Laranjal (12 de abril)

Os Lusíadas
(Luís Vaz de Camões)
Canto I – 43

Tão brandamente os ventos os levavam,
Como quem o Céu tinha por amigo;
Sereno o ar e os tempos se mostravam
Sem nuvens, sem receio de perigo. (…)


Partimos às 05h40 e aportamos, às 07h57, na Ponta da Feitoria (31°41’36,50”S / 52°02’22,18”O), depois de percorrer pouco mais de 21 km a aproximadamente 9,2 km/h.  Desta vez os ventos suaves de popa nos permitiram atacar o primeiro ponto mantendo uma trajetória bastante retilínea. Contatamos a equipe de apoio e depois de descansar, uns trinta minutos, partimos. Contornamos a Ponta da Feitoria e avistamos, na sua face Este, diversos acampamentos de pescadores envolvidos na pesca do camarão. Este ano a salinidade vinda do oceano, através da Barra de Rio Grande, chegou até São Lourenço. A falta de chuvas nas cabeceiras dos Rios que deságuam na Laguna manteve o nível do Mar de Dentro bastante baixo, permitindo a entrada de água salgada, própria para o desenvolvimento do camarão produzindo uma safra abundante.

Aportamos às 09h35, sob as belas raízes de uma enorme figueira próxima às belas ruínas da centenária sede da Estância Soteia (31°37’52,31”S / 52°00’57,38”O) mais conhecida como Casarão da Soteia (casa com terraço),  construído pelos índios Guaranis, nos idos de 1780, e que remonta à época da Real Feitoria de Linho Cânhamo embora não tenha sido a sede da mesma. Apesar do triste estado em que se encontram as ruínas ainda é possível visualizar-lhe o belo terraço, de frente para a Laguna dos Patos, que lhe empresta o nome.

Ano passado, depois de enfrentar ventos fortes de proa durante todo o trajeto, tínhamos chegado exaustos à Soteia por volta das dezesseis horas onde o senhor Flávio Oliveira Botelho gentilmente nos abrigou e nos brindou com um saboroso carreteiro. Este ano, ao contrário do ano passado, a sujeira gerada pelo desleixo dos pescadores que acampam no entorno e nas instalações da Soteia maculavam a centenária construção. Já estávamos partindo quando avistamos a equipe de apoio, conversamos com os amigos reiniciamos nossa jornadas às 10h40 rumo ao Arroio Grande onde fizemos uma parada para o almoço antes de rumarmos para São Lourenço do Sul onde aportamos às 16h02.

  São Lourenço do Sul

  
Na Pérola da Laguna, “Terra de Todas as Paisagens”, ficamos hospedados na Pousada da Laguna Apart Hotel administrada, com esmero, pelo Sr, Alberto Furlanetto, onde consegui me preparar para a próxima empreitada. O atendimento cordial da gerência, o preço diferenciado para idosos e a qualidade das instalações, colocam a Pousada na Laguna como ponto de referência para os turistas que procuram bons preços e qualidade de serviços ao visitar São Lourenço do Sul. Aproveitamos o bom tempo da sexta-feira, 13 de abril, para conhecer um pouco o belo Município e sua história visitando a Fazenda do Sobrado, Boqueirão, São João da Reserva e a Coxilha do Barão, onde conhecemos a casa de Jacob Rheingantz.


-  Jacob Rheingantz
  
Fonte: Vivaldo Coaracy – A Colônia de São Lourenço e seu fundador

Jacob Rheingantz, comerciante e administrador alemão, nasceu no dia 13 de agosto de 1817 em Sponheim, Hamburgo. Filho de Johann Wilhelm Rheingantz e Anna Maria Kiltz, dedicou-se inicialmente ao comércio e, em 1839, partiu para a França, onde trabalhou como produtor de Champagne. Em 1840, foi para os Estados Unidos da América onde permaneceu até 1843, quando veio para o Rio Grande do Sul, estabelecendo-se em Rio Grande, como empregado na casa comercial de Guilherme Ziegenbein.

Em 9 de julho de 1848, casou-se com Maria Carolina Fella, passando a residir em Pelotas. Em 1856, comprou terras devolutas na Serra de Tapes, com o objetivo de fundar uma colônia. Fundou a Colônia São Lourenço, em 1958, em sociedade com José Antônio de Oliveira Guimarães.

Na Pátria-mãe, a Dúvida, o Sonho
No Mar, a Vela, a Incerteza, a Dor, a Saudade.
Em São Lourenço do Sul, a Fé, a Esperança, a Coragem, a Vida.


A primeira leva de imigrantes partiu de Hamburgo com 88 pessoas, vindos no navio holandês “Twee Vrienden”. Mudou-se com a família para a própria colônia onde era a autoridade máxima. No ano de sua morte sua colônia era um sucesso, já tinha um total de 52 mil hectares e mais de 6.000 moradores, além de 16 escolas particulares destinadas à educação da nova geração.

  Partida de São Lourenço (14 de abril)

Às 06h00, partimos confiantes para a segunda etapa de nossa travessia na Laguna dos Patos rumo à Fazenda Flor da Praia. A suave brisa permitia que apontássemos proa diretamente para a Ponta do Quilombo (31°20’00,83”S / 51°51’20,96”O) onde aportamos às 07h40 e fizemos uma parada de vinte minutos. A partir do Quilombo, enfrentando ventos de 20km/h vindos de Sudeste, rumamos diretamente para a Foz do Camaquã onde aportamos em um bosque de eucaliptos (31°16’44’’S / 51°44’16’’W).

A Procela
(Fausta Nogueira Pacheco)

Sucumbido pela tempestade,
entre ondas gigantescas em cega fúria,
debate-se contra a força atróz dos
o barco frágil nas águas desses mares

A terrível procela destemida avança,
Arrebentando suas onda no convés.
A tripulação vê o horror se aproximando
E de joelhos prostrada clama aos céus!

Os ventos aumentaram significativamente, a temperatura despencou e uma chuva gelada começou a cair antes de partirmos. Partimos para a Ponta do Vitoriano e tivemos de fazer uma parada intermediária, para nos aquecermos, em um pequeno bosque próximo a um captador de água (31°16’11’’S / 51°38’40’’W) depois de remar quase 10 km.

Havíamos enfrentando ventos de través, vindos de Sudeste, de 30 Km/h com rajadas de 50 Km/h e ondas de até 1,5 metros. Depois desta parada resolvemos remar diretamente para a Fazenda Flor da Praia (31°08’25,59”S / 51°37’06,85”O).

As enormes ondas nos forçavam a fugir da rebentação e a apenas 1,7 km de distância de nosso objetivo me distraí, por um momento, e permiti que uma enorme onda rebentasse sobre o indomável Cabo Horn virando-o. Apenas um pequeno e gelado susto já que eu estava próximo a margem, foi com muito esforço que arrastei o pesado caiaque até a praia e retirei a água que invadira o seu “cockpit” até a altura do convés superior. O Jornal O SUL estamparia na edição do dia seguinte:

Jornal O SUL, 15.04.2012

Velejadores são resgatados no Guaíba

Quatro velejadores foram resgatados ontem após acidente com um barco no Rio Guaíba, em Porto Alegre. A embarcação virou com forte vento. O grupo ficou agarrado nos pilares da ponte. Após este salvamento, os bombeiros foram ao Arroio das Garças, em Canoas, atender outra ocorrência de barco que virou. Ninguém ficou ferido.

Aportei na praia da Fazenda Flor da Praia às 15h30 e procurei o capataz que permitiu que acantonássemos em um dos galpões da Fazenda. Tivemos de deixar a luz acesa à noite, pois o galpão estava infestado de ratos.

  Partida da Fazenda Flor da Praia (15 de abril)

O sol reinava soberano e apenas uma leve brisa acariciava levemente a superfície da Laguna, condições bastante diferentes do dia anterior. Iniciamos nossa remada, às 08h05, até o Pontal Dona Maria (31°05’16’’S / 51°26’19’’W) aonde aportamos, às 11h20, e de onde podíamos observar o canal de acesso à Lagoa do Graxaim em cujas margens se encontra o povoado de Santa Rita do Sul, Distrito de Arambaré. As figueiras e pequenos arbustos bioindicavam a direção predominante dos ventos oriundos de Este e Nordeste que açoitam sistematicamente a vegetação nativa.


Do Pontal Dona Maria aproamos, às 11h40, diretamente para o conjunto de figueiras que ostentavam grinaldas de bromélias e orquídeas (31°01’35,98”S / 51°29’09,89”O) e cuja beleza eu não pudera  materializar, no ano passado, tendo em vista que minha Canon emperrara. Os monumentos arbóreos tinham cravado suas raízes nas voláteis e alvas dunas tentando, em vão, manter o equilíbrio enquanto as areias lenta, inexorável e criminosamente escoavam cômoro abaixo expondo mais e mais as magníficas fundações das centenárias figueiras. Depois de fotografar de todos os ângulos possíveis daquela paisagem fantástica partimos para o monumento que “homenageia” o General Francisco Pedro de Abreu (31°00’10’’S / 51°29’35’’W), onde chegamos às 14h20.


Nas proximidades deste local, em 16.04.1839, o Gal Francisco Pedro de Abreu desembarcou Tropas Imperiais para o malogrado ataque ao estaleiro  Farroupilha  na  Barra  do Camaquã. Independentemente do alinhamento ideológico daqueles bravos, o CTG Camaquã, entidades tradicionalistas e o povo de Arambaré reverenciam suas memórias.

Continuamos nossa jornada rumo a Arambaré. Navegamos bem próximo à bela praia da Costa Doce, entramos no Arroio Velhaco e aportamos no Clube Náutico (30°54’38,01”S/51°29’47,50”O) onde estacionamos nossos caiaques e fomos procurar abrigo no Destacamento da Brigada Militar comandado pelo Sargento PM Juliano.

  Capital das Figueiras (16 de abril)

No dia seguinte o Sargento PM Juliano nos proporcionou um pequeno “tour” pela cidade e depois nos levou até Santa Rita do Sul onde visitamos a “Arrozeira Camaquense”, fundada em 10 de junho de 1948, onde um enorme e antigo gerador a lenha ocupava lugar de destaque. O equipamento, na época, proporcionava energia suficiente para alimentar além do complexo industrial a Vila. Depois de Santa Rita fomos até a Fazenda da Quinta.

-  Arrozeira Camaquense

Silvio Luís, Franscisco Luís e Lauro Azambuja constituíram a Arrozeira Camaquense, em 10.06.1948, uma Sociedade Anônima, com participação de outros associados, de Barra do Ribeiro e Tapes. A sociedade adotou o processo de arrendamento de suas terras. O sistema de arrendamento da empresa de secagem e beneficiamento do arroz fez crescer o número de produtores de arroz, aumentando a mão-de-obra onde predominava o trabalho braçal. No final da década de 1960, a empresa passou a ser propriedade exclusiva de um dos acionistas. A partir de então se iniciou o declínio do empreendimento e de Santa Rita do Sul. A Arrozeira Camaquense foi comprada por José Cândido Godói Neto, um grande acionista da empresa que comprou as ações de todos os outros sócios. Após a Revolução Redentora de 1964 o governo investiu em uma política agrícola que priorizava a produção e produtividade. Adotou-se um sistema de créditos e subsídios fomentando a pesquisa, a assistência técnica, a adoção de tecnologia, o que aumentou intensamente a utilização de máquinas e insumos de origem industrial.


No final da década de 1980 a política agrícola sofreu profundas alterações e os proprietários das terras voltaram a vender o patrimônio fundiário. Apenas uma pequena quantidade de produtores conseguiu manter-se na condição de orizicultor. O maior empregador local passou a ser a indústria de beneficiamento de arroz, mas como não conseguia absorver toda a mão-de-obra da atividade agrícola, os trabalhadores migraram em massa aos trabalhadores da Vila.

– Partida de Arambaré (17 de abril)

Preocupados com nossa equipe de apoio que partira de Tapes tentamos, sem sucesso, contato via rádio. Permanecemos, até ao anoitecer, postados no trapiche e nada, resolvemos então deixar  rádio ligado para que quando eles se aproximassem mais pudéssemos fazer contato. Mais tarde tomamos conhecimento que eles estavam operando no Canal 16 e não no Canal 6 como havíamos combinado anteriormente. Nesse ínterim veio nos visitar no Destacamento da Brigada o amigo Pedro Auso, de Camaquã, e quando este já estava de saída aproveitamos a carona para ir até o Clube Náutico de Arambaré.  Lá chegando deparamos com nossa equipe de apoio que estava aportando.


A equipe de apoio chegou à noite ao Clube Náutico orientada pelo Sr. Charles Rodrigues Berçot. Berçot é um nauta, com espírito de escoteiro, que se compraz em auxiliar o próximo. Seu relato pessoal a respeito da recuperação do Farol do Cristovão Pereira mostra muito bem esse seu lado de bom samaritano (http://www.popa.com.br/diarios/arambareh_cristovao.htm)

No dia 18 de setembro corrente, eu, Charles Berçot, juntamente com o Adriano Becker, em um Guanabara (Ibaré) e, a reboque, um O’Day 12(Beluga), cruzamos a Lagoa dos Patos em direção ao farol Cristóvão Pereira, saímos as 9:45 do dia 18 e chegamos ao outro lado(atracamos) as 16h15mim, exatamente 6h30min de travessia, muito tranquila, apesar da fome, o que nos ansiava para chegada e o início do almoço. (…) No domingo dia 19, pela manhã, resolvemos fazer um rapel no farol, o que conseguimos com facilidade, lá chegando fomos a exploração, ao subir no farol nos deparamos com a placa solar, caída e com um dos fios de alimentação solto, fizemos o conserto da melhor forma que nos possibilitou e fixamos novamente a placa solar.

O Coronel PM Sérgio Pastl faz o seguinte relato a respeito do deslocamento dele e do Comandante Norberto Weiberg desde o Clube Náutico Tapense (CNT) até o Clube Náutico de Arambaré no “Hagar”:

Saímos com o Hagar do CNT às 15h30 de 16 Abr 12, contornado a Ponta da  Helena ao anoitecer, e velejamos à noite na enseada de Arambaré. O Farolete que marca o ponto do canal está ás escuras, de modo que fomos pelas luzes da cidade e por marca do GPS da Foz do Arroio Velhaco, capturado no google pelo Norberto. A cerca de umas duas milhas ainda longe da cidade, o Norberto chamou no rádio portátil na freqüência marítima, canal 16, e o Charles Berçot atendeu, estava de plantão, como aficionado radio amador que é, além de grande nauta. Gentilmente deslocou-se até a extremidade Norte da cidade, sinalizando com os faróis de seu carro, e depois foi até a Foz do arroio, que está literalmente bloqueada não por um banco de areia, mas sim por um morro de areia. Orientou-nos a prosseguir mais 500 m para o Sul, rente à costa, e então subir rumo Norte, já por dentro do alfaque (Banco de areia). Não fosse ele, sem nenhuma chance, teríamos que aportar na praia e arrastar o Hagar a braços até a Foz. Ainda na Foz, nos indicou um tronco encalhado a desviar, e nos acompanhou até ancorarmos na marina. Como reza a tradição do mar, o homem é hospitaleiro, sábio e voluntarioso.

Apenas para ilustrar, nos anos 2004 ele foi com um veleiro guanabara e parceiros até o Farol Cristóvão Pereira, e restaurou sua luz de sinalização, sem ônus para o Estado nem para a União. Soube, também, pelo guarda da noite do Clube que quando ele estava na Comodoria do clube ele instalou às suas expensas uma estação de rádio, e treinou os funcionários para ficarem na escuta 24 h, para apoiar navegadores ao largo, mas a nova Comodoria decidiu retirar o equipamento. O homem é um grande altruísta, além de outras cavalheirescas virtudes, brindando-nos com um gostoso vinho naquela noite fria, quando o Nordeste nos incomodava (molhadinhos até os ossos, né). No Clube nos ajeitou local para a barraca, o uso da cozinha do Clube e seu quiosque e demais dependências, sem custo, um fidalgo verdadeiro. Estou em dívida com ele e espero poder retribuir oportunamente.

Partimos cedo, 06h30, contando mais uma vez com o apoio dos amigos brigadianos. Os ventos de proa freavam nosso deslocamento e só aportamos na Ponta da  Helena (30°52’43,87”S/51°23’22,13”O) às 08h20. Depois de contornar a Ponta da  Helena observamos contritos (mortificados, tristes) os bosques de “pinus”, ao longe, ultrapassando as permeáveis cercas que os confinam e invadindo inexorável e progressivamente as belas áreas de mata nativa. Como talibãs verdes, as hordas bárbaras vão estendendo seus tentáculos sufocantes envolvendo as majestosas figueiras que estóicas aguardam as impiedosas mortalhas. Os proprietários destes funestos bosques deveriam ser cobrados no sentido de manter incólume a região vizinha às suas plantações caso contrário as próximas gerações só terão conhecimento dos pretéritos bosques nativos por fotografias.

Prosseguimos rumo Norte e antes de penetrarmos na enorme enseada conhecida como “Saco de Tapes” fizemos uma parada, às 12h20, em um canal onde o Cel Pastl preparou um lauto almoço. Depois do almoço remei rápido para escapar da poluição das águas, do Saco de Tapes onde o mau cheiro e a espuma flutuando na superfície marcam sua presença. A enseada que protege Tapes de poluições de outros centros não permite esconder o descaso dos seus governantes em relação ao sagrado manancial que poluem sem qualquer critério, um crime ambiental para uma cidade que se propõe a abrigar um balneário turístico às margens da Laguna. Aportamos no Clube Náutico Tapense às 15h45.

– Tapes a Namorada da Lagoa (17/18 de abril)

O Cel Pastl regressou, de ônibus, à Porto Alegre, depois de nos instalar confortavelmente na residência de seus parentes. No dia seguinte (18.04.2012) de manhã, nos despedimos do Comandante Norberto Weiberg, e à tarde nos instalamos na sauna do Clube Náutico Tapense o que nos permitiria realizar as pesquisas necessárias na cidade e partir de manhã sem grandes transtornos. Depois de visitar a Casa de Cultura, onde selecionamos o material relevante, e jantar na cidade nos recolhemos às instalações da sauna do Clube para pernoite.

– Partida para a Ponta da Formiga (19 de abril)

Partimos às 06h30 depois de pernoitar na sauna do Clube Náutico Tapense. Os ventos de Oeste de 6 nós (10,8 km/h) permitiam que atacássemos diretamente o estreito da Restinga do Pontal de Tapes, a 13 km de distância, para onde apontamos a nossa proa. No ponto da travessia terrestre havia um pequeno rebaixamento que certamente, na cheia, deve permitir a passagem das águas da Laguna dos Patos até o Saco de Tapes. Chegamos ao estreito às 08h05, uma média superior aos 8 km/h, carregamos os caiaques e as tralhas pelo estreito para a face Este do Pontal. Comuniquei nossa passagem ao Cel Pastl e ao Cel Araújo, do CMPA.


Fizemos uma parada às dez horas na única ilha de mata nativa imersa no emaranhado dos pinus, onde existia o acampamento de um solitário pescador e uma matilha de cães, e depois, às 11h55, nos eucaliptos na costa de Santo Antônio (30°32’37’’S / 51°17’33’’W).

Fizemos uma outra parada, às 13h48, na região onde havíamos resgatado o caiaque Anaico pilotado pelo Hélio no ano passado (30°29’44,2”S / 51°16’23,5”O). Procurei a maior duna e informei, via celular, ao Cel Pastl que iríamos continuar até o Morro da Formiga aproveitando as condições do tempo.



Aportamos nas Falésias (30°26’07’’S / 51°14’19’’W) às 14h24. Subimos nas enormes Dunas de areia onde consegui contatar minha filha Vanessa, a Rosângela e o Cel Araújo e desfrutar da visão panorâmica privilegiada do local. Do alto podia-se avistar a Nordeste a Ilha do Veado e o Morro da Formiga, a Este a Ilha do Barba Negra e ao Sul o Pontal de Tapes. Partimos às 15h10 para nosso objetivo final que se encontrava a apenas 10 km de distância.


Chegamos ao acampamento de pescadores na Praia do Canto do Morro da Formiga (30°25’34’’S / 51°08’31’’W), às 16h20, onde fomos muito bem recebidos pelos amigos pescadores. Nosso anfitrião foi o Sr. Vlademir S. Rodrigues que nos proporcionou um beliche para dormir, e um jantar soberbo onde não faltou uma saborosa feijoada e peixe frito sem espinha que ele mesmo preparou. O Vlademir é um gráfico aposentado que complementa sua renda familiar com a pesca, cidadão bem informado discorre com fluência invulgar sobre os mais diversos temas.


Tive a oportunidade de apreciar, neste dia, um pôr-do-sol magnífico carregado de matizes suaves e nostálgicos sobre a Laguna. Era um sinal carinhoso de despedida desta querida amiga que por diversas vezes nos recebeu em seu seio, algumas vezes mal humorada e agressiva outras, porém, terna e carinhosa.

– Partida para a Vila de Itapoã (20 de abril)

Saímos sem pressa, às 07h25, estávamos muito adiantados na nossa programação, poderíamos aportar hoje mesmo em Ipanema, mas resolvemos manter a data/hora da chegada sem alteração. Os cardumes de tainhas brincavam nas águas rasas e mornas ao longo da Ponta da Formiga e da Ponta da Faxina. Fizemos uma parada numa enorme duna dourada na Ponta da Faxina e de lá ficamos observando as belas paisagens da Laguna e do Guaíba.


Saímos, às 09h47, rumo à ilha do Junco. Contornamos sua face Sul e aportamos nas praias de Leste, às 10h10. Aproveitei para lavar minha roupa e enviar uma mensagem para o Cel Pastl que partira de Tapes, acompanhado do Major PM Martins no veleiro Ana Claci. Fomos abordados por uma equipe de fiscalização do parque que informaram que era proibido aportar na Ilha. Havíamos parado apenas para descanso antes de continuar nossa jornada, mas, segundo eles, nem isso era permitido. Leis idiotas em um país onde tantas outras insanidades prevalecem sobre o bom senso e as leis maiores.


Partimos às onze para o último lance deste curto dia rumo à Vila de Itapoã. Passamos pela Ilha das Pombas, às 11h35, e aportamos na Vila, às 12:15. Instalamo-nos em uma Pousada e aguardamos notícia da equipe de apoio que chegou por voltadas das 14h00. O Major PM Martins assou algumas tainhas no quiosque da Pousada que degustamos com prazer. Depois do almoço a equipe de apoio se dirigiu ao estaleiro do Sr. Lessa.

– Partida para a Ilha de Francisco Manoel (21 de abril)

A Ilha Francisco Manoel, ou “Chico Manoel”, como os frequentadores a chamam, sempre foi um ponto de atração dos velejadores em seus passeios e excursões pelo Guaíba. Oferece abrigo natural a todos os ventos e o seu uso indiscriminado estavam causando a sua gradativa depredação, quer por navegadores inescrupulosos, com relação à ecologia, como por pescadores que ali acampavam. Ao assumir a Comodoria, Mário Bento Hoffmeister, ouviu do ex-Comodoro Jorge G. Bertschinger que a ilha Francisco Manoel estava abandonada e seria oportuno tentar conquistá-la para o Veleiros. Em entrevista com o governador Ildo Meneguetti, ele mostrou franca receptividade. Em segunda audiência, o governador comunicou que não “doaria” a ilha ao Veleiros, mas concederia o seu uso por 99 anos. Foi assim que, em 30.06.1966, o governador do Estado, Ildo Meneguetti, o secretário da fazenda Ary Burger e o secretário dos transportes Tertuliano Borfill assinaram o Decreto n° 17946 com cessão por 99 anos à Sociedade Náutica Veleiros do Sul, da Ilha Francisco Manoel. Na ocasião da doação, a Chico possuía apenas, além de dois molhes de pedra, uma casa velha de madeira do ex-Deprec, a cabana do velho pescador que lá residia, além do marco de triangulação geodésica, colocado em seu ponto culminante. (Folder do Veleiros do Sul, 28.01.2011)

Parti somente às onze horas, o tiro era curto. O Hélio ficou aguardando a esposa e a filha na pousada. Contatei no caminho alguns amigos canoístas e aportei na Ilha por volta das quinze horas onde fiquei aguardando o Hélio que estava com a barraca para montar acampamento. O Hélio me comunicou, mais tarde, que viria somente no dia seguinte. Improvisei um acampamento debaixo de uma mesa, ao relento, e me preparei para descansar até que o pessoal do Clube Veleiros do Sul apareceu e preocupados com meu conforto insistiram para que eu ocupasse as instalações do Clube para acantonar. Foi um socorro muito bem vindo, pois durante a noite a temperatura caiu muito. De manhã fiquei conversando com um grupo de velejadores dentre os quais se incluía o Comandante Luiz Alberto Pereira Morandi a quem eu havia solicitado, anteriormente, autorização para pernoitar na Ilha.
É impressionante verificar como a irmandade de remos e velas se entende, temos, sem dúvida, a mesma afinidade e respeito pelas águas e a natureza em geral, conduta muito diferente daqueles que fazem uso das embarcações a motor. Lembro que, no ano passado, visitando a paradisíaca Ilha do Chico Manoel, eu observava encantado os velejadores e familiares desfrutando do aprazível local e degustando placidamente seu almoço até que chegou um  grupo de seis pilotos de Jet Ski. Os mal-educados aceleravam ao máximo seus motores a poucos metros da praia provocando além da poluição sonora a poluição química.


– Partida para a praia de Ipanema (22 de abril)

O que importa é o grau de comprometimento envolvido numa causa, e não o número de seguidores! (Harry Potter)

O Hélio finalmente chegou e permanecemos durante algum tempo na Ilha conversando com os velejadores até as onze horas quando partimos, sem pressa, para nosso objetivo final. Fomos acompanhados por um dos velejadores até as proximidades da Ponta Grossa. Aportamos pouco antes da quinze horas e, embora nossa Travessia constasse como uma atividade oficial das Programações do Centenário do CMPA, apenas o Ir:. e amigo Coronel Leonardo Araujo, Chefe da Seção Comunicação Social do CMPA nos aguardava. Obrigado “Mano Velho”, são pessoas como você que nos motivam a prosseguir.



Após vocês enfrentarem uma tempestade com ondas de mais de 2 m, virarem os caiaques, arriscarem a vida e remarem tanto, era o mínimo que eu poderia fazer. Ficou célebre a frase de Harry Potter em “As Relíquias da Morte: Parte 2”: “O que importa é o grau de comprometimento envolvido numa causa, e não o número de seguidores!” (Leonardo Araujo)