MAPA

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015
Pousada Rio Roosevelt – Pousada Amazon Roosevelt
Hiram Reis e Silva (*), Bagé,
RS, 12 de janeiro de 2015.
07.11.2014 (sexta-feira)
– AC15 (KM 602 – Pousada Rio Roosevelt) – AC16 (KM 628 ‒ Ilha)
O dia iniciou com a passagem dos Rápidos do Infernão.
Tínhamos deixado para trás a Cachoeira mas não seus Rápidos. Fui à frente
reconhecendo as possibilidades que são muitas tendo em vista a largura do Rio
chegar a 800 metros permeada de Ilhas e rochedos, felizmente ultrapassamos sem
maiores dificuldades os obstáculos apresentados.
Cachoeira da Glória
Logo adiante, a 3 km, a Cachoeira da Glória, que se
estende por quase 2 km, cujas corredeiras podem ser transpostas facilmente
exceto a que fica a meio curso dela (08°28’18,5”S / 60°58’37,4”O). Parei em
umas pedras (08°28’48,8”S / 60°58’40,0”O) antes da curva à esquerda onde se
iniciam os rápidos e aguardei o Dr. Marc se aproximar. Informei-lhe que ele
devia colar na margem esquerda logo depois da curva e me acompanhar até onde eu
aportasse. O Dr. Marc fez a curva aberta demais e teve, depois, de passar por
uma rota menos segura, pedi a ele que orientasse os “camaradas” e que eles aportassem em segurança logo adiante porque
eu precisava fazer um reconhecimento à frente.
Desembarquei na margem esquerda para reconhecer o
melhor ponto de passagem e depois me desloquei até meus parceiros
informando-lhes que iria atravessar e verificar se era seguro eles descerem por
ali também. Coloquei a saia no caiaque, por precaução, e atravessei a torrente
veloz, o problema não era a queda nem a velocidade das águas eram os grandes
redemoinhos que se apresentavam logo depois, o rebojo formado por eles poderia
provocar um desastre. Aportei mais adiante e pedi que eles viessem para a
margem esquerda onde transporíamos as embarcações à sirga. Felizmente
conseguimos vencer esta etapa sem grandes problemas.
Cachoeira do Inferninho
Navegamos em águas calmas, pelos dez quilômetros de
uma longa curva à esquerda, antes de encontrar o “Inferninho”, que também se estende por uns dois quilômetros. Fui à
frente e a primeira passagem à esquerda foi simples, mas os obstáculos se
sucediam e, em um deles, tivemos de usar o recurso da sirga por garantia para
transpor a canoa. Foram muitas as surpresas, não tive tempo de reconhecer cada
passagem, demoraria demais, então atravancamos. Depois do Inferninho
encontramos mais algumas rochas e rápidos que não apresentavam nenhuma
dificuldade. Aportei em uma Ilha (08°22’11,2”S / 60°59’42,8”O) onde decidíramos
acampar e embora tivesse sugerido aos “camaradas”
o uso da sirga em um local bastante seguro para isso eles preferiram realizar a
passagem à remo. Ganhavam confiança, dia-a-dia, nossos “camaradas” depois de enfrentar tantos desafios. Foram 26 km de pura
emoção.
08.11.2014 (sábado)
– AC16 (KM 628 – Ilha) – AC17 (KM 658 – Acampamento de apoio da Pousada Rio
Roosevelt)
O dia anterior tinha sido cheio de emoções em vivo
contraste com o de hoje que transcorreu num marasmo só. Eu tinha programado
alcançar a Foz do Rio Machadinho (08°22’11,2”S / 60°59’42,8”O) que estava a
exatos 30 km da Ilha onde acampáramos. Segundo informação dos funcionários da
Pousada Rio Roosevelt alguns metros à montante do Machadinho e na mesma margem
estava localizado o Acampamento de apoio da Pousada Rio Roosevelt onde
poderíamos pernoitar.
Cheguei cedo, a cozinha e casa de hóspedes estavam
fechados com cadeado, os dois aposentos destinados aos funcionários, porém,
estavam abertos. Depois de colocar a barraca para secar fiz uma faxina nos
quartos e montei a barraca em um deles. Tomei um bom banho de chuveiro, a caixa
d’água estava abastecida, e fiquei aguardando meus parceiros. O Jeffrey montou
a barraca no outro aposento espalhando seu material por todo canto. O Angonese
ia dormir no mesmo aposento que eu e não sobraria espaço para o Dr. Marc montar
sua barraca no aposento em que estava o Jeffrey. Nosso caro Mestre já estava
montando, resignadamente, sua barraca ao relento quando resolvi organizar as
coisas. Reposicionei a barraca e as tralhas do Jeffrey e coloquei a barraca do
Angonese que era menor que a do Dr. Marc no mesmo cômodo e com isso o caro
Mestre podia ocupar confortavelmente o mesmo aposento que eu.
Desde pequeno meu velho pai me ensinou a olhar ao
redor e verificar se minhas ações poderiam estar causando algum transtorno a alguém.
Coisas simples como num dia de chuva, portando guarda-chuva não andar sob as
marquises ‒ deixe-as para quem está desabrigado, em um supermercado, ao parar,
cole o carrinho junto aos balcões e entre dois produtos expostos, assim você
não interrompe o tráfego e não bloqueia o acesso das pessoas aos gêneros.
Infelizmente o individualismo parece estar cada vez mais e mais presente nas
ações das pessoas de todas as classes sociais que jamais se preocupam com o
coletivo. Os japoneses, na última Copa aqui no Brasil, foram os verdadeiros
campeões ao recolher o lixo deixado pelos torcedores relaxados.
O Cel Angonese pescou 12 belos tucunarés no Rio
Machadinho, em apenas 30 minutos, soltou dez e separou dois belos espécimes
para degustarmos no nosso “almojanta”.
Limpei os peixes e o Angonese assou-os.
09.11.2014 (domingo)
– AC17 (KM 658 – Acampamento de apoio da Pousada Rio Roosevelt) – AC18 (KM 692 –
Pedras)
Parti cedo, como de costume e parei na casa do Dr.
Rogério para um café. Os paranaenses parecem se adaptar excepcionalmente na
Amazônia. Parti logo em seguida pois queria achar um local confortável para
acampar. Eu marcara umas Ilhas de pedra a 34 km de onde pernoitáramos como
ponto mais curto para acampar e caso o local não fosse satisfatório eu iria continuar
procurando avante.
Novamente a equipe demorou-se para sair e parou tempo
demasiado na casa do Dr. Rogério, o resultado dessa combinação fatídica de
atrasos foi que enfrentaram fortes ventos de proa que os impediu de prosseguir
até que a ventania diminuísse seu ímpeto. Eles vinham dando oportunidade, desde
o início da Expedição, para que isso acontecesse e apesar de tudo continuaram a
agir de igual forma do primeiro até o último dia de viagem.
Eu tinha chegado cedo à referida Ilha, antes das
11h00. Preparei o local do fogo coloquei os esteios para fixação da lona, colhi
lenha para o fogo, cobri a lenha com um plástico, fixei a trempe, montei minha
barraca, lavei minhas roupas, tomei banho, troquei a roupa e nada do restante
da equipe chegar. Os camaradas chegaram somente por volta das 17h00 e o Dr.
Marc visivelmente cansado, chegou logo depois, achando que tinha sido deixado
para trás e quase resolvera acampar em outro local. A desorganização pode
provocar fadiga e os dois juntos levam-nos a tomar decisões que podem
comprometer a segurança e o bom andamento de um projeto. Eu sabia que isso
viria a acontecer mais cedo ou mais tarde desde que não corrigíssemos alguns
desvios de conduta.
10.11.2014 (segunda-feira)
– AC18 (KM 692 – Pedras) – AC19 (KM 717 – Montante da Cachoeira Carapanã)
Parti sozinho por um longo Estirão, quase 10km, e logo
depois de uma suave curva à esquerda avistei, à margem direita, a Foz do
Igarapé Caripe e estava passando por
umas pequenas corredeiras quando ouvi um grito, olhei para trás e só então
enxerguei, à margem esquerda, a Casa de Apoio que um ribeirinho, que passou por
mim de voadeira, mencionara no dia anterior, quando cruzara por mim na sua
voadeira. Aportei e fui até a casa onde ficamos conversando durante algum
tempo, ele me informou que por ali passara, também, a equipe capitaneada pelos
americanos Paul Schurke e Dave Freeman mas que ao contrário da nossa desciam
juntos e se comunicando pelo rádio durante todo o tempo.
José Caripe: foi nessa região que a expedição
original encontrou o Sr. Caripe proprietário de um armazém e que Cherrie afirmou
que “imperava como o Rei da extração da
borracha” no Rio Roosevelt. (Hiram Reis)
O prestativo amigo reforçou, mais uma vez, que na
Cachoeira do Infernão eu deveria procurar apoio do caseiro Kleber que
trabalhava na Pousada do Vitão. Orientou-me à respeito da localização da trilha
que permitiria contornar a Cachoeira Carapanã. Despedi-me do prestativo
ribeirinho e continuei minha descida.
A pouco mais de um quilômetro Rio abaixo passei à
direita da Ilha Santa Rosa, que tem uns 03km de comprimento, e onde o Rio
apresenta sua largura recorde de 1,3km. Após a Ilha o Rio inflete para a
direita, as águas calmas prenunciam um grande obstáculo mais à frente, a região
é muito bela e tranquila o som das águas revoltas ainda não chegaram aos meus
ouvidos.
Mantenho a rota junto à margem esquerda conforme
mencionara, pela primeira vez, o paranaense que trabalhava com o Dr. Rogério.
Vou margeando uma grande Ilha à minha direita até avistar a entrada da referida
Trilha (07°47’41,3”S / 60°54’48,1”O). Desembarco e ando pela trilha mais de
03km (seis de ida e volta) e não encontro nada, meus informantes não haviam me
repassado as distâncias, volto e resolvo navegar mais à frente e encarar a
famosa Cachoeira do Carapanã. Embora a largura de margem a margem ultrapasse os
700 metros, grande parte do caudal é carreado, graças a um infindável número de
Ilhas e rochas de todos os tamanhos e formas, para a margem esquerda à uma
velocidade impressionante.
Deixo o caiaque ancorado entre as rochas e atravessado
em relação à torrente para que meus parceiros possam avistá-lo à distância
quando se aproximarem e vou até a margem verificar se existe alguma outra
trilha mais curta. Não existe nenhuma trilha recente e a passagem embora
relativamente curta (400 m) necessitaria ser aberta à facão até uma pequena
praia à jusante onde depois encontrei o reboque e as voadeiras do Vitão.
Retorno à trilha anterior e resolvo medir a distância
até a referida praia pela trilha usada pelo pessoal do manejo florestal. Foram
aproximadamente 3.900 metros até a praia que ficava à jusante da Carapanã e a
aproximadamente 1.200 metros à jusante havia outro Salto que teríamos também de
desbordar. A mata fervilhava de vida, avistei pacas, cutias, caitetus, ouvi o
barulho de um animal rompendo a mata em desabalada carreira que só podia estar
sendo produzido por uma anta, mutuns de várias espécies (mutum-cavalo,
mutum-de-fava, mutum-de-penacho), bandos de jacamins, macacos prego, aranha e barrigudos,
enfim um paraíso ecológico sem precedentes.
Voltei até a margem onde deixara meu caiaque e lá
encontrei meus parceiros, eu tinha acabado de andar mais de 15 quilômetros e
estava exausto. Reportei as distâncias encontradas e afirmei que a melhor e
praticamente a única opção plausível era conseguirmos apoio mecanizado com o
tal do Kleber. O Angonese e o Jeffrey, depois de descansarem um pouco
resolveram encarar a mesma trilha que eu percorrera 03km. Os dois regressaram à
noite e o Angonese disse que andaram por volta de 10 km até chegar a uma
pousada onde contataram o Kleber que ficou de conseguir algum apoio para o dia
seguinte.
11.11.2014 (terça-feira)
– AC19 (KM 717 – Montante da Cachoeira Carapanã)
Não acordamos muito cedo aguardando o desenrolar dos
acontecimentos. Caso o Kleber conseguisse algum apoio ele só iria aparecer à
tarde. O Dr. Marc conseguiu convencer o Angonese de reconhecer a margem direita
da Cachoeira Carapanã. Não achei viável a empreitada tendo em vista a
disponibilidade de tempo do Jeffrey. A “portagem”
das próximas cachoeiras serio extremamente exaustiva e demorada demais.
À tarde, depois de permanecer um bom tempo de “molho” nas águas límpidas do Roosevelt,
parti com o Angonese, no encalço do Kleber carregando, nas mochilas, material
para acantonamento na Pousada do Vitão, se fosse o caso. Tínhamos caminhado
pouco mais de dois quilômetros pela trilha quando surgiu uma camionete pilotada
pelo Sr. Antônio, doravante tratado por nós de Santo Antônio.
Fomos até o porto à jusante da Cachoeira Carapanã
buscar o reboque do Vitão e, em seguida, até o acampamento onde a dupla
americana permanecera. Colocamos os dois caíques no reboque e os carregamos com
uma carga leve, em cima dos caiaques colocamos a canoa e o material mais pesado
foi na caçamba da camionete. Passamos pela Pousada do Vitão e fomos direto até
a margem do Roosevelt descarregar o material no local da partida, já que
teríamos de nos deslocar para lá a pé no dia seguinte. Levamos apenas o
material imprescindível de acantonamento já que na pousada encontraríamos um
local abrigado e colchões.
Despedimo-nos do prestativo Santo Antônio que adiara
uma viagem já agendada para nos apoiar. A noite foi muito agradável, a Pousada
tem uma infraestrutura privilegiada, a energia é gerada por uma Pequena Central
Hidrelétrica (PCH), há uma bela estrutura de madeira, com churrasqueira, mesas,
enfim um fantástico restaurante encravado sobre as águas de um agradável
Igarapé em plena selva amazônica. O Kleber cobriu-nos de gentilezas, conseguiu
carne para o churrasco, arroz, ovos, enfim um jantar gastronomicamente
equiparado ao do nosso amigo Jair da Buritizal.
12.11.2014 (quarta-feira)
– AC20 (KM 727 – Porto da Pousada do Vitão) – AC21 (KM 736 – Praia)
Saímos um pouco tarde da Pousada e ainda tínhamos uma
longa caminhada até o Rio. Partimos do Porto do Vitão (07°42’59,9”S /
60°55’14,6”O) juntos já que existiam muitas corredeiras pela frente.
A uns 700 metros resolvemos, por segurança, passar à
sirga sem grande problemas e continuamos colados à margem esquerda como
recomendara o Kleber, mais algumas corredeiras pequenas e de repente a temível
Cachoeira Samaúma acostamos e enquanto fui à frente verificar se era possível
transpô-la o Cel Angonese achou a entrada da trilha de 250m que a desbordava. A
Samaúma podia ser transposta a remo mas não com os nossos caíques oceânicos.
Transportamos todo o material para uma agradável praia
à jusante de uma pequena Capela que os ribeirinhos veneram. No jardim uma
grande cruz de metal com a inscrição “Semaúma”,
e na capela, diversas muletas, pernas e braços de madeira, fotos, roupas e
outros objetos ofertados por crentes agradecidos. O Kleber havia-nos dito que “Semaúma” fora uma menina que morreu, há
muitos anos, afogada nas águas da Cachoeira Samaúma e foi enterrada ali mesmo
onde hoje é o jardim da atual Capela que mais tarde foi construída em sua
homenagem. “Semaúma”, desde então,
vem operando verdadeiros milagres.
Meus parceiros ficaram aguardando na praia enquanto eu
fui verificar se havia um local de passagem no Canal do Meio ou o Canal da
direita já que o Angonese constatara que o da esquerda era inviável para a
canoa. Aproei para montante direto para a Samaúma, eu tinha de atravessar o Rio
e não queria que a força de suas águas me desviasse para jusante. Aportei
próximo ao Canal do Meio em uma zona de águas calmas e atravessei um banco de
areia submerso para analisar o Canal. Tive de escalar diversas rochas para
conseguir uma visada mais adequada e por fim constatei que a transposição, por
ali, também era inviável.
Voltei ao caiaque e naveguei rumo à margem direita que
encontrei bloqueada por rochedos. Subi o Rio margeando até que avistei, depois
de uma estreita passagem, um Canal que descia sem muito estardalhaço o que
poderia significar uma boa alternativa para descermos. Aportei e novamente tive
de escalar os rochedos acompanhando toda a rota até chegar a um lugar de
remanso, encontrei, no caminho, uma isca artificial que entreguei ao Angonese,
havia algumas passagens mais estreitas mas contornáveis até chegar à última
abordagem que tinha duas opções, a da esquerda embora mais tranquila tinha à
sua frente um paredão que bloquearia perigosamente quem por ali adentrasse e a
da direita era mais estreita e de menor calado mas não tinha nenhum obstáculo à
sua frente – descidi que naquele ponto cruzaríamos pela direita.
Regressei, muito cansado, até a praia e informei a
meus companheiros o que tinha decidido. Carregamos os caiaques e a canoa e
partimos para a travessia do Canal da Direita. Na chegada confundi-me com uma
das entradas de acesso ao Canal mas voltei a tempo de orientar corretamente os
camaradas, o cansaço começava a prejudicar meu discernimento. Fomos
ultrapassando os obstáculos com sucesso até chegar ao último, antes do remanso.
Os camaradas estacionaram diante das duas opções à sua frente e embora eu já
tivesse decidido que a melhor era à da direita ultrapassei-os e enveredei pela
da esquerda. Passei tranquilamente pela estreita garganta mas depois fui
atirado pela torrente veloz contra o paredão de arenito, a proa chocou-se
violentamente contra as pedras e o caiaque adernou violentamente para a direita
e inclinou-se para a esquerda empurrando-me para baixo. Segurei-o firmemente, e
tentava evitar que ele soçobrasse, O Dr. Marc surgiu não sei de onde e me
ajudou a mantê-lo fora d’água, retirei a câmera fotográfica e entreguei-a ao
Dr. informando-lhe- que não conseguiríamos segurá-lo durante muito tempo e a
solução era empurrá-lo no sentido da corrente. Foi o que fizemos, agarrei-me a
Cabo Horn e fui conduzindo-o para uma área remansosa. Retirei a água do caiaque
enquanto recuperava o fôlego. A “portagem”,
os reconhecimentos e agora esse quase naufrágio, o segundo em mais de 40.000 km
de navegação em um caiaque Cabo Horn, tinham-me exaurido as poucas forças que
ainda me restavam. Naveguei até as rochas onde o Dr. Marc tinha deixado minha
câmera, havia perdido, nesta ocasião, meu boné e os mapas, continuamos nossa
emocionante jornada. As águas continuavam rápidas, as inúmeras Ilhas só perdiam
em beleza para as do Alto Rio Negro. Tivemos alguns sobressaltos aqui e ali mas
nada de muito sério.
Por fim o Angonese, que tinha uma 2ª via dos mapas,
optou por parar numa extensa faixa de areia (07°40’46,8”S / 60°53”16,9”O).
Coloquei meu material para secar e ajudei o Angonese catando lenha e na
proteção do fogo. Ouvíamos o ruído dos motores que passavam na BR-230 distante
apenas 1.300m de onde estávamos e, de repente, escutamos, pela primeira vez no
Rio Roosevelt, o bufo conhecido de um boto-vermelho
(Inia geoffrensis) macho. A presença de um boto em qualquer região é o
prenúncio de navegação tranquila à jusante. As cachoeiras são barreiras
geográficas que os botos não conseguem transpor, portanto, isso significava que
a partir dali até o Rio Madeira não existia nenhum obstáculo significativo à
navegação.
À título de ilustração gostaria de citar o caso do Rio
Madeira, onde existem duas espécies de botos-vermelhos que estão separadas por estas
barreiras geográficas. No Alto Madeira, existem 16 cachoeiras que separam duas
espécies distintas – a Inia boliviensis “endêmica”
da região acima das cachoeiras, e a Inia geoffrensis, abaixo delas.
Os Sistemas de Transposição de Peixes construídos nas
Hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio levaram em conta esse fator impedindo,
como antes, que os botos, que vivem a jusante destes obstáculos naturais, possam
utilizar, agora, estes sistemas para subir o Rio, comprometendo todo o
ecossistema a montante das Hidrelétricas. Esta realidade poderá ser alterada
num futuro próximo quando a Hidrovia do Madeira for definitivamente implantada.
As eclusas vão permitir que os mamíferos aquáticos e outros peixes as usem para
alcançar áreas que antes a natureza se encarregara impedir. Percorrêramos 09km
de muitas emoções.
13.11.2014 (quinta-feira)
– AC21 (KM 736 – Praia) – AC22 (KM 765 – Pousada Amazon Roosevelt)
Último dia de navegação no Roosevelt foram 21 dias de
muita emoção, aprendizado e camaradagem, com uma breve interrupção de dois dias
entre a 1ª e 2ª Fase, totalizando 23 dias. Cada remada fazia-me recordar a
determinação e coragem de um veterano que do alto de seus 68 anos abandonou o
conforto e a tranquilidade da longínqua Califórnia para se aventurar nos ermos
sem fim de um Rio tumultuário, inóspito por vezes, mas pleno de vida e de uma
beleza sem par. Rarefeito em termos de população mas não de hospitalidade,
encontramos em cada lar, em cada parada uma mão estendida pronta para dividir o
pouco que tinham. A cordialidade típica do ribeirinho sempre me encantou em
cada uma de minhas amazônicas jornadas e continua me maravilhando. A coragem
desses homens e mulheres capazes de sobreviver com tão pouco esbanjando tanta
alegria e afetividade.
Tenho certeza de que este velho Mestre brasileiro de
coração e americano por adoção guardará eternamente com muito carinho a
odisséia que cumpriu com a fibra e determinação inquebrantável de um guerreiro
Mundurucu de outrora e a serenidade ancestral dos Lamas tibetanos.
Obrigado, mais uma vez, Dr. Marc pelo convite. Como
disse antes mais uma convocação do que um chamado, foi um privilégio participar
com o amigo desta épica jornada.
O Angonese, velho amigo, companheiro de outras
jornadas, não me surpreendeu, apenas confirmou ser um militar de escol,
competente como “Jungle Expert” e
remador audaz. Parceiro para todas as missões, não mediu esforços para que
conseguíssemos abreviar o tempo de deslocamento e nos tranquilizasse quanto à
segurança e destreza que imprimia na condução da pesada e pouco manobrável
canoa. O Angonese permitiu que variássemos nosso cardápio da ração americana
liofilizada trazida pelo Dr. Marc, com saborosos carreteiros e, principalmente,
no Médio e Baixo Roosevelt, com peixes pescados e assados por ele próprio.
Nas proximidades da Confluência do Aripuanã
encontramos alguns pescadores, que estavam hospedados na Pousada Amazon
Roosevelt, que nos presentearam com refrigerantes gelados – muito bem vindos.
Aportamos no píer da Pousada depois de percorremos 29 km.
Nesta pousada, diferente da anterior, o gerente foi
bastante solicito e embora estivesse com a lotação esgotada permitiu que
acampássemos nas suas instalações e desfrutássemos das comodidades das
instalações sanitárias, área de lazer e refeições junto com os demais hóspedes.
O Dr. Marc, o Cel Angonese e o Jeffrey foram até a
Balsa (Vila do Carmo), Rio Abaixo, combinar com o “Pelado” nossa viagem de camionete até Humaitá onde estaria
esperando-nos o Sgt BM Douglas para conduzir-nos até Vilhena. Preferi relaxar e
permanecer na área de lazer da pousada, minha missão, finalmente, estava
concluída. Nas minhas outras descidas a programação geral, as metas diárias
enfim todas as variáveis eram decididas apenas por mim. Nesta missão o Dr. Marc
era o coordenador e eu tentei me ater tão somente à segurança no deslocamento,
escolha dos acampamentos e contatos prévios para transposição das cachoeiras. É
difícil, para alguém acostumado a liderar, transformar-se, de uma hora para
outra, em apenas mais um membro da equipe, tentei cumprir meu papel, por vezes
bufei, mas acho que no final conseguimos chegar a um consenso. Agradeço aos
meus parceiros a compreensão e a paciência.
Minha intransigência quanto aos horários e distâncias
diárias a serem percorridas visava tão somente acelerar nossa progressão o
suficiente para que, ao enfrentar as grandes Cachoeiras como Carapanã, Apuí e
Samaúma tivéssemos tempo suficiente para analisá-las e transpô-las, sem
necessitar de socorro de terceiros, desfrutando das sua belezas naturais e
curtindo seus desafios.
Fazenda Buritizal – Pousada Rio Roosevelt
Hiram Reis e Silva (*),
Porto Alegre, RS, 14 de dezembro de 2014.
03.11.2014
(segunda) – AC11 (KM 477 – Fazenda Buritizal) – AC12 (KM 501 – Sítio do Sr.
Arão)
Depois de
navegarmos, em águas calmas, por uns 06 km surgiram alguns rápidos que foram
transpostos pelo canal da esquerda que se estendia ao longo de duas pequenas
Ilhas (09°13’18,9”S / 60°42’26,3”O), de uns 300m de comprimento cada uma,
conforme nos orientara o amigo Jair. Seis quilômetros adiante, depois de passar
por mais alguns rápidos, avistamos a Foz do Igarapé Panelas (09°11’33,4”S /
60°44’35,4”O) e, 2,5km a jusante, a pequena Comunidade de Panelas onde existe
uma balsa. Parei pouco depois do acesso da balsa, à margem direita, e consultei
dois ribeirinhos a respeito da trilha apontada pelo Jair para desbordar a
Cachoeira Panelas. A precisão das informações do Jair era impressionante,
continuei remando, a cavaleiro da margem direita, contornando uma série de
rochedos até encontrar uma pequena Baía onde avistei o velho barco exatamente
no local e posição que ele descrevera. A proa da embarcação apontava para uma
trilha de uns 300m que dava acesso a um pequeno porto à jusante da Cachoeira
das Panelas. Neste local fotografei a bela borboleta “Urania leilus” que eu encontrara, pela primeira vez, no Rio
Tapajós, depois de realizar minha terceira descida pelos amazônicos caudais
(Amazonas I ‒ Manaus-Santarém).
Conseguimos
fazer a “portagem” em pouco mais de
duas horas e partimos sabendo que logo à frente enfrentaríamos um novo
labirinto formado por diversas Ilhas e inúmeros rochedos e onde a largura do
Rio ultrapassava os 500 metros. A imagem do Google Earth estava encoberta por
nuvens e tive de usar minha experiência e bom senso para escolher os canais
mais adequados para a descida. Estes caminhos mais seguros eram sempre os mais
longos, a cada bifurcação eu analisava a cota dos canais à minha frente e
optava, invariavelmente, pela mais baixa que, logicamente, não tinha ou pelo
menos deveria apresentar menos obstáculos a reter as águas do Rio. Agindo dessa
maneira evitamos maiores sobressaltos e chegamos até um ponto onde estes
diversos canais convergiam para um único com uma largura de aproximadamente 200
metros e onde as águas estavam mais serenas.
Fizemos uma
parada em um pedral à margem esquerda e por volta das 15h00, depois de
percorrer 24km indiquei aos meus amigos uma casa abandonada (AC12 ‒
09°08’04,8”S / 60°41’42,8”O) onde poderíamos pernoitar com certo conforto, o
único inconveniente era a altura do barranco. Fiz contato com o Sr. Arão, um
seringueiro aposentado, que morava numa pequena casa nos fundos da casa grande,
e ele concordou que ali passássemos a noite. Segundo ele, o dono da
propriedade, que a usava quando vinha pescar com os familiares no Rio
Roosevelt, falecera em um desastre aéreo. O Sr. Arão, a pedido do Dr. Marc,
esquentou a água para preparar as rações. O pequeno seringueiro jantou conosco
mas não apreciou o sabor da comida importada.
04.11.2014
(terça) – AC12 (KM 501 – Sítio do Sr. Arão) – AC13 (KM 525 – Sítio abandonado)
Desmontamos o
acampamento e parti antes de meus amigos avisando que esperaria por eles quando
encontrasse algum obstáculo e caso isso não acontecesse eu os aguardaria na
Ilha do Cotovelo (08°59’55,3”S / 60°43’57,9”O) que estava localizada a uns 18
km da residência do Sr. Arão. Remei forte e a uns 3km da referida Ilha contatei
alguns ribeirinhos (09°00’39,7”S / 60°42’55,6”O) solicitando a eles que
informassem aos “camaradas” que os
aguardaria na Ilha do Cotovelo onde cheguei por volta das 10h00. As únicas
formações rochosas desde o AC12 ficavam a pouco mais de um quilometro da Ilha e
não ofereciam qualquer tipo de dificuldade. Ao chegar na Ilha espantei, sem
querer um pequeno jacaré que dormitava tranquilamente nas pedras da Ilha. Aqui
como nas demais Ilhas pedregosas de todo o Rio Roosevelt encontrei diversos
arbustos de Camu-camu.
Camu-camu (Myrciaria dúbia): arbusto
também conhecido como caçari ou araçá encontrado na Amazônia às margens dos
Rios e Lagos. A planta pode permanecer submersa de 4 a 5 meses e frutifica,
nestes locais, no período que vai de novembro a março. Na terra firme, a
floração pode ocorrer durante o ano inteiro. Os frutos são esféricos de 01 a
3,2 cm de diâmetro, de coloração avermelhada ou roxa. Possui 20 vezes mais
vitamina C (ácido ascórbico) do que a acerola. (Hiram Reis)
Até então eu não
sabia que frutas eram essas e se eram ou não comestíveis. Só alguns dias mais
tarde quando elas já começavam a rarear é que fiquei sabendo, pelo Kleber, na
altura da Cachoeira Carapanã, de que eram os tão cobiçados frutos ricos em
vitamina C. Eu arriscara provar apenas um deles tendo em vista que as frutas
maduras não apresentavam bicadas de pássaros e as caídas no chão não tinham
sido comidas por pequenos mamíferos. Dizem os especialistas que 90% do que os
animais comem também pode ser consumido pelos seres humanos. A bela fruta de um
roxo intenso e sabor levemente ácido mas agradável não era “CAL” ‒ Cabeluda, Amarga ou Leitosa. No
Curso de Operações na Selva, do CIGS, haviam-nos ensinado que se uma fruta
apresentasse essas três características não se deveria comê-la embora a
existência de apenas uma ou duas dessas características não a tornasse, necessariamente,
imprópria ao consumo.
Aguardei até o
Dr. Marc aparecer e como as antigas fotos da Ilha eram muito diferentes da
aparência que ela tinha hoje resolvi explorar sua ponta de jusante que a foto
do Google Earth mostrava estar coberta pela mata mas que segundo a
hidrodinâmica encontraríamos um banco de areia onde seria possível aportar e
nos refrescar dentro d’água na sombra das árvores. Assim que iniciamos a
descida surgiram os “camaradas” logo
a montante da Ilha. Aguardamos a dupla na ponta de jusante um bom tempo e como
eles não aparecessem deduzimos que tinham aportado na Ilha. Descemos lentamente
e estacionamos na margem direita do Rio ainda aguardando os “camaradas”. O Dr. Marc, enquanto isso,
aproveitou para contatar o pessoal de terra, através do telefone satelital,
repassando nossa posição atual.
Finalmente
apareceram os “camaradas”, o Jeffrey
tinha aproveitado para realizar algumas filmagens desde a Ilha do Cotovelo e
por isso tinham demorado tanto.
Relata o Cel
Angonese:
Nós
encontramos uma montaria (embarcação a remo construída de um tronco de árvore)
com uma senhora, uma criança de colo mais 4 crianças. Moravam nas imediações da
Ilha do Cotovelo. O chefe da família, Sr. Francisco, era um dos últimos que
continuavam com a antiga profissão de seringueiro. Todo dia partia em sua
trilha percorrendo seu seringal colhendo o látex daquelas árvores que renderam tantas
divisas ao Brasil e que agora tão poucos se dedicam a esse trabalho. A técnica
de preparo foi aperfeiçoada dos antepassados. Antigamente a “pela” era preparada na fumaça de um fogo
lento. Agora o látex é colocado em um recipiente e endurecida com coalho. O
seringueiro do Rio Roosevelt esta vendendo seu produto a R$ 4,50 o kg do látex.
Preparação da
“Pela”
Antigamente
para colher a goma, cingia-se a árvore com um cipó que envolvia o tronco
obliquamente a um metro e setenta do solo até o chão onde era colocado um pote
de argila. Eram, então, feitos diversos cortes na casca acima do cipó que
aparava a seiva e a conduzia até o pote. Este processo de sangria exagerada,
conhecida como “arrocho”, acabava
matando a árvore e foi abandonado há muito tempo. Com o passar dos anos o
método tornou-se mais racional visando preservar a integridade da “árvore da vida”.
O
seringueiro parte, de seu tapiri, a cada dois ou três dias, de madrugada,
carregando todos os seus apetrechos pela “estrada”.
Este intervalo, antigamente desrespeitado, permite à árvore se recuperar da
última sangria. Ele para, em cada uma das seringueiras, e parte para a extração
da seringa que é feita através de pequenas incisões de 25 a 30 centímetros
descendentes e paralelas na casca da planta, que começam a uma altura de
aproximadamente dois metros acima do solo. Une depois, cada uma das
extremidades inferiores dos cortes através de um talho vertical de maneira que
o leite escorra dentro do traço para o fundo da cuia. A cuia é embutida na
casca cortada para este fim e, eventualmente, pode ser usada uma argila para
fixá-la no tronco.
Os cortes
são feitos, normalmente até as onze horas, em todas as árvores da “estrada”, exceto nos meses de agosto e
setembro época da floração. Pelo meio-dia ele começa a recolher as cumbucas
despejando o látex coagulado nas cuias em um balde ou então em um saco “encauchado” (impermeabilizado com látex).
A tarde, por volta das 14h00, volta para o rancho, almoça e inicia a defumação
do material recolhido que leva umas duas horas para ficar pronto. O fogo é
feito debaixo da terra para que a fumaça saia por um furo ao nível do chão.
A melhor
fumaça é a de coco de babaçu, mas, no Rio Purus usava-se para esta operação os
frutos da palmeira urucuri; no Rio Autaz os da palmeira iuauaçu e no Rio Jaú e
onde estas palmeiras são mais raras utilizavam-se madeiras como a carapanaúba e
a paracuúba. A bola de borracha (“pela”)
é rodada em volta de uma vara de aproximadamente um metro e meio de comprimento
chamada “cavador”. Para iniciar a
bola enrola-se na vara um “tarugo” de
goma coagulada no qual o leite gruda facilmente. O seringueiro vai despejando o
leite com uma cuia ou uma grande colher de pau, ao mesmo tempo em que gira o “cavador”, a parte líquida se evapora
imediatamente, e forma-se uma fina camada de goma elástica, e a bola vai
engrossando, cada dia um pouco mais. Uma “pela”
pronta, depois de vários dias, pesa em média de 50 quilos, é, então, exposta ao
sol, quando toma a coloração escura e assim permanece até ser comercializada.
Látex “in
natura”
Os
seringueiros transferem o látex coletado para “bombonas”, que serão enviadas para a fábrica, estes recipientes
contêm hidróxido de amônia, composto altamente tóxico, que preserva o leite, durante
alguns dias. Caso o látex seja conservado “in
natura” por muito tempo depois de extraído o produto coalha tornando-se inaproveitável
tanto para a produção fabril como a artesanal.
Pouco mais de um
quilometro depois da Ilha do Cotovelo o Rio faz uma curva abrupta à direita
permitindo com isso que ali se forme um belo banco de areia onde estavam
pousadas diversas Talha-mares.
Talha-mar: conhecido também como
Corta-água, Talha-mar-preto, Corta-mar, Bico-rasteiro, Gaivota-de-bico-tesoura ou
ainda Paaguaçu. A Talha-mar voa rasante à água e com a parte inferior do bico (bem
maior que a parte superior) mergulhada com o objetivo de capturar pequenos peixes
e crustáceos próximos à superfície. (Hiram Reis)
Estávamos em
pleno Parque Estadual Guariba e daqui em diante o mapa não mostrava nenhuma
casa ou clareira onde pudéssemos acampar sem que fosse necessária uma derrubada
de mata. A última parada possível estava situada logo adiante e que acabamos
verificando se tratar de um Sítio abandonado (AC13 ‒ 08°59’58,1”S /
60°46’01,5”O) no alto de um barranco. O Jeffrey não entendeu porque estávamos
parando tão cedo depois de ter navegado apenas 25 km desde o Sítio do Sr. Arão
e o Dr. Marc encarregou-se de fazer as devidas explicações. À noite o Angonese
pescou um belo espécime de pirarara
e algumas piranhas e o Dr. Marc aproveitou para medir a força da mordida das
temíveis predadoras.
05.11.2014
(quarta-feira) – AC13 (KM 525 – Sítio abandonado) – AC14 (KM 560 – Foz Igarapé
São Liberato)
Parti cedo
informando meus parceiros que tentaria achar um acampamento próximo à Foz do
Igarapé São Liberato, localizado no Estado do Amazonas, à uns 05 km da
Fronteira Estadual entre o MT e o AM. Eles deveriam preparar-se para navegar no
mínimo 35 km compensando o curto percurso do dia anterior.
Eu esperava
encontrar na Foz do Liberato um banco de areia propício à montagem do
acampamento tendo em vista o processo natural de assoreamento provocado por um
afluente na sua Foz.
O vazio
demográfico impressionava, não havia viva alma por aquelas bandas. Os barrancos
e a vegetação densa não mostravam nenhum lugar propício a um acampamento.
Passei pela Foz de um Igarapé onde havia uma mesa na barranca, aproximei-me do
local e avistei as instalações de um acampamento de pescadores dentro do Parque
Estadual Guariba.
A partir das
12h30, antes mesmo de avistar a Foz do Igarapé São Liberato, eu ziguezagueava
de uma margem à outra tentando, infrutiferamente, achar um local adequado para
nosso acampamento. Finalmente aproei, por volta das 13h30, para a almejada Foz
esperando ali encontrar as condições adequadas para nossa estadia. Ao
aproximar-me avistei um banco de areia quase ao nível d’água, arvorei remo, e
ergui os olhos para os céus agradecendo ao Senhor de todos os Exércitos a bela
visão. O idílico momento durou muito pouco pois ao volver novamente os olhos
para a terra dei de cara com a cabeça de um enorme jacaré-açu que pescava
despreocupadamente piraputangas na Boca do belo Igarapé de águas pretas.
A cabeça do
enorme réptil tinha uns 70 cm, e o animal ultrapassava seguramente os 5,5
metros. Com um movimento muito rápido o gigantesco sauro lançou-se às águas do
Rio Roosevelt e desapareceu num piscar de olhos, não sei quem se assustou mais
com a presença do outro se eu ou o colossal jacaré, que o Jeffrey teima em
chamar de aligátor. Foi o único animal deste porte avistado pela equipe em todo
o Roosevelt, os demais eram pequenos e não chegavam aos dois metros de comprimento.
Na minha descida pelo Rio Solimões, ao passar pela RDS Mamirauá observei e
fotografei grande quantidade destes sauros gigantescos e muito gordos que
ultrapassavam os seis metros, felizmente era uma área pródiga em recursos
naturais e eles raramente atacavam os seres humanos. Felizmente nosso amigo não
deu mais as caras e conseguimos montar acampamento e descansar sem grandes
preocupações. Quando a equipe chegou eu já tinha limpado a área, montado a
barraca e preparado o local do fogo. O Cel Angonese havia pescado dois belos
tucunarés mas, infelizmente, descuidou-se por um momento e uma piranha
cortou-lhe o dedo, o Dr. Marc preparou-lhe um curativo bem apertado. Montei a
barraca do amigo com o objetivo de poupar-lhe a mão sequelada e à noite degustamos
os tucunarés assados.
06.11.2014
(quinta-feira) – AC14 (KM 560 – Foz Igarapé São Liberato) – AC15 (KM 602 – Pousada
Rio Roosevelt)
Este dia seria o
mais longo de todos, teríamos de navegar 42 km até a famosa Pousada “Pousada Rio Roosevelt”. Não havia
obstáculos pelo caminho e as águas eram mais rápidas, por isso, adiantei-me
para providenciar apoio para a “portagem”
mecanizada na Cachoeira do Infernão evitando o carregamento exaustivo do
material por uma trilha de mais de um quilometro.
Próximo ao nosso
acampamento, à margem esquerda, passei por um confortável acampamento de apoio
da Pousada Rio Roosevelt infestado por macacos que empoleirados numa enorme
mangueira devoravam as frutas freneticamente.
Chegando no
Infernão, aportei numa balsa próxima ao campo de pouso da pousada, e segui por
uma bela trilha até chegar à Pousada Rio Roosevelt. Contatei os funcionários
com o intuito de conseguir, além da “portagem”,
o pernoite e um jantar. Rapidamente resolvemos o assunto que era mais premente
que era o da transposição – um trator tracionando um reboque foi deslocado para
montante da Cachoeira onde ficamos aguardando os parceiros chegarem.
Depois de duas
horas de espera nossos amigos foram com uma voadeira ver onde eles se
encontravam e os encontraram ainda à montante do Rio Madeirinha. Foi uma espera
de mais de três horas e meia. Quando chegaram, embarcamos o material e enquanto
o trator se deslocava pela trilha externa fomos pela interna destinada aos
pedestres.
Os companheiros
ficaram radiantes ao avistarem as luxuosas instalações, infelizmente o gerente
queria cobrar R$ 400,00 de cada um por apenas um pernoite e decidimos montar as
barracas na praia. Depois de um banho reconfortante fomos convidados cortesmente
para jantar. O Angonese não se conteve e mesmo com o dedo enfaixado pescou uma
enorme bicuda (Boulengerella maculata).
AC08 – Fazenda Buritizal
Hiram Reis e Silva (*),
Porto Alegre, RS, 14 de dezembro de 2014.
31.10.2014 (sexta-feira)
– AC08 (KM 375 – Ilha) – AC09 (KM 403 – Cachoeira das Três Piranhas)
A jornada foi tranquila e fizemos uma parada mais
longa por volta das 12h00 em um ponto do Mapa 094 onde eu assinalara como sendo
um “Areal” (09°50’18,5”S /
60°40’40,7”O) e que na verdade eram rochedos. A baixa qualidade das fotos
aéreas do Google Earth não permitia, por vezes, observar os detalhes
corretamente.
Continuamos nossa jornada e pouco mais de uma hora
depois, a uns oito quilômetros do “Areal”,
comecei a ouvir um rugido conhecido de águas revoltas. Avisei meus parceiros
que iria à frente fazer um reconhecimento e piquei a voga. A série de
cachoeiras (Três Piranhas – 09°47’49”S / 60°40’24”O) era formada por um pequeno
arquipélago e o Rio fluía por três canais permeados de rochedos formando cinco
degraus distintos e distantes de uns 50 a 100 metros uns dos outros. Verifiquei
que a melhor opção era contornarmos pela margem direita. O primeiro foi
facilmente transposto a remo, no segundo embora a queda não chegasse a um metro
de altura optamos por conduzir as embarcações à sirga tendo em vista que as
rochas poderiam danificar os cascos das mesmas. O terceiro foi transposto sem
problemas pelos caiaques e ficamos observando e torcendo para que os “camaradas” o ultrapassassem, com
sucesso, com sua pesada canoa. Os “camaradas”
já dominavam com muita segurança a técnica de navegação da instável e pesada
canoa e venceram esta etapa sem qualquer contratempo. O quarto degrau,
semelhante ao primeiro, foi transposto sem qualquer dificuldade. Descuidei-me,
por alguns segundos, e quase fui tragado pelo quinto e mais desafiador
obstáculo de quase dois metros de altura que naquele local era formado por um
intrincado labirinto de pedras aguçadas. Fiz um reconhecimento mais adiante e
descobri, colado na margem direita, um local que me pareceu mais adequado a
realizar a passagem à sirga de todas as embarcações. Foi com dificuldade que o
vencemos depois de muito esforço e sofrer alguns arranhões e hematomas.
Embora tivéssemos percorrido apenas 28km, resolvemos
acampar à jusante da Cachoeira, estávamos muito cansados depois de transpor à
sirga a Cachoeira das Três Piranhas. O local era aprazível, sem barrancos,
relativamente limpo, lenha à vontade e o mais importante, graças ao Angonese,
saboreamos três piranhas assadas que nomearam a Cachoeira.
01.11.2014 (sábado)
– AC09 (KM 403 – Cachoeira das Três Piranhas) – AC10 (KM 440 – Cachoeira)
O dia transcorreu célere e de águas calmas. Lá pelas
10h00 avistamos uma anta que saboreava, despreocupada, um barreiro (terreno salitroso onde os animais se nutrem de sal) numa
barranca à margem direita do Rio. O dócil animal permitiu que eu me aproximasse
para fotografá-la, o tapir aguardou, pacientemente, a chegada de todo o grupo
e, depois de algum tempo, retirou-se sem pressa barranco acima.
Cheguei à Fazenda Buriti que eu referenciara no mapa.
Lá encontrei dois homens que, segundo eles, tinham sido contratados para
desmontar algumas benfeitorias da mesma. Eles informaram que a fazenda era de
propriedade de um grupo alemão que queria deixar a floresta intacta, removendo
inclusive as benfeitorias da sede da fazenda, com o objetivo de negociar
créditos de carbono. Consegui algumas frutas com eles, aguardei meus parceiros
chegarem e como tínhamos parado a pouco continuei logo a navegação enquanto
meus parceiros resolveram, não sei por que, fotografar a fazenda. Ato temerário
considerando o lugar ermo e a possibilidade daqueles homens estarem cometendo
algum ato ilícito.
A Foz do Rio Branco (KM 427 – 09°38’15,9”S /
60°38’51,9”O) ficava a apenas 1.200 metros da última parada, aguardei meus
amigos e como não aparecessem continuei remando até uma pequena Ilha (KM 430 –
09°37’07,2”S / 60°39’44,3”O) à frente do Porto de uma grande fazenda. Permaneci
na Ilha que estava tomada por quero-queros
(Vanellus chilensis) por mais de meia hora e, estranhando a demora do grupo,
remei Rio acima para ver o que se passava. Depois de remar uns 500 metros
avistei os três. É preciso em qualquer missão manter o foco e não consumir
tempo ou energia em eventos que não sejam estritamente condizentes com os
objetivos propostos, começo a achar que minhas metas e as de meus parceiros americanos
são bastante diversas.
Sugeri que acampássemos por ali já que a apenas uns
dez quilômetros teríamos de enfrentar uma nova Cachoeira e que seria preferível
fazê-lo descansados e não no final de uma jornada. Fui com os “camaradas” fazer contato com o gerente
da fazenda que nos presenteou com algumas frutas e água fresca, para minha
surpresa, ao voltar, meus parceiros resolveram continuar a descida.
Cheguei à Cachoeira (KM 440 – 09°33’37,5”S /
60°36’12,1”O) por volta das 17h00 e fui, imediatamente, analisar os locais de
passagem. Estava reconhecendo a margem esquerda quando os “camaradas” chegaram e pedi ao Angonese que verificasse a existência
de alguma trilha naquela margem. Naveguei até o meio do Rio tentando visualizar
alguma outra passagem já que a trilha na margem esquerda era inviável. Escolhi
minha rota e chamei os parceiros para observarem minha passagem. Executei a
passagem com o caiaque sem dificuldade mas consideramos que seria temerário
tentar fazer o mesmo com a pesada canoa. Achei uma passagem à sirga a cavaleiro
da margem direita e auxiliado pelos “camaradas”
realizamos a difícil e dorida transposição. Solicitei autorização do Dr. Marc
para transpor seu caiaque, não consegui regular o pedal do leme que tinha sido
apertado com alguma ferramenta e, além disso, o remo era muito diferente do
meu. O resultado é que senti dificuldade em manobrá-lo na veloz torrente e bati
o casco em uma das pedras, a mesma que eu conseguira desviar, sem problemas,
pilotando meu caiaque, felizmente a embarcação não sofreu nenhum dano e
poupamos assim de ter de conduzir o caiaque à sirga ferindo-nos como acontecera
na descida da canoa.
Tínhamos navegado 34km e transposto uma Cachoeira
média. O local de acampamento à jusante da corredeira era aprazível e o fragor
das águas embalou nossos sonhos.
02.11.2014 (domingo)
– AC10 (KM 440 – Cachoeira) – AC11 (KM 477 – Fazenda Buritizal)
A navegação foi quase toda por rápidos, as rochas
emergiam das águas e pareciam observar curiosas nossa progressão. Depois de
navegar uns 10 km chegamos à outra Cachoeira (KM 450 – 09°29’38,6”S /
60°35’21,8”O), perguntei a alguns pescadores que estavam na margem esquerda se
ela tinha alguma passagem e eles me informaram que os práticos cruzavam pelo
lado direito sem grandes problemas – se eles passavam nos também o faríamos.
Enquanto eu realizava o reconhecimento meus parceiros ficaram conversando com
os pescadores. Verifiquei as duas opções possíveis, chamei meus companheiros, e
lhes indiquei a mais viável. Passei primeiro mostrando que devíamos passar bem
à direita e não seguir a torrente principal pois esta jogaria a embarcação
sobre uma grande pedra. Desci sem mesmo colocar a saia, atirei o corpo para
trás para o caiaque não mergulhar a proa, tangenciei a margem direita
exatamente como pretendia e o leme deu um leve toque em uma pequena rocha, como
eu previra, deixando a perigosa pedra bem à minha esquerda. Os camaradas e o
Dr. Marc passaram igualmente com tranquilidade. O Dr. Marc que no primeiro dia
naufragara por duas vezes enroscando-se nas galhadas meio submersas agora
saia-se airosamente passando nas quedas como um legítimo veterano. Como só
teríamos pela frente alguns rápidos informei aos companheiros que iria à frente
para contatar o Jair Schiavi , Gerente da Fazenda Buritizal, para que ele nos
auxiliasse na travessia da Cachoeira do Chuvisco, caso contrário, teríamos de
realizar uma “portagem” de mais de 1.000m. O Jair Schiavi tinha sido indicado
pelo Lourival, gerente da Fazenda Perautas.
Seguindo a orientação do Lourival desembarquei, na
margem direita, próximo à segunda casa e segui a trilha que me conduziria rumo
Norte até encontrar uma estrada. Estava quase chegando quando ouvi vozes de
dois homens que ali estavam colhendo mangas. Eram amigos do Jair Schiavi e as
frutas eram para os porcos dele, eles me levaram de barco até a margem oposta e
me apresentaram ao Jair Schiavi. Muito falante e prestativo o Gerente da
Buritizal disse que eu chegara em boa hora pois no dia seguinte ele sairia cedo
para resolver alguns problemas particulares. Perguntei se ele tinha condições
de nos abrigar e alimentar informando que estávamos prontos a pagar-lhe pelos
serviços. Ele apenas sorriu, chamou a esposa que aquiesceu em preparar-nos o
jantar. Embarquei na lancha e ele pilotou habilmente pelas estreitas passagens
da Cachoeira Chuvisco. Quando chegamos ao local, aonde eu deixara o meu
caiaque, meus companheiros tinham acabado de desembarcar. Carregamos na lancha
do Jair Schiavi a carga da canoa e partimos céleres atrás dele, nosso anfitrião
pilotava com rara habilidade. Ele foi um guia extraordinário mostrando os
locais exatos por onde deveríamos passar e nos aguardando quando nos
atrasávamos um pouco.
Aportamos, depois de navegar por 37
km, e levamos a bagagem estritamente necessária para dormirmos já que o Jair
nos disponibilizou uma casa para o pernoite. Tomamos um bom banho com água
translúcida e fomos jantar na casa do Gerente da Buritizal. Sua esposa Edna
Maria de Lima Schiavi tinha preparado um verdadeiro banquete, eles nos contaram
que tinham abrigado, também, os canoístas americanos Paul Schurke e Dave
Freeman, além de cinco canoístas brasileiros, que realizaram uma descida de
438km pelo Rio Roosevelt em homenagem à Expedição original. Schurke e Freeman
também interromperam, como nós, sua jornada na Ponte Tenente Marques mas
reiniciaram, segundo o Dr. Marc, a descida na Foz do Rio Branco (KM 427), bem
abaixo do KM 280 de onde partimos para executar a 2ª Fase até o Aripuanã.
O Jeffrey aproveitou para usar a
internet e enviar algumas notícias. Tive de chamar a atenção dele de que já
eram 23h00 e que devíamos deixar os donos da casa descansar. A dona da casa e o
filho Jackson Schiavi já tinham dado visíveis sinais do adiantado da hora
retirando-se da mesa e nosso anfitrião fazia força para manter os olhos
abertos. Meu amigo não tinha se dado conta de que o relógio dele ainda estava
com o fuso horário de Rondônia (22h00) e que não devíamos abusar das gentilezas
de nossos anfitriões. No Rio Grande do Sul, permanecer na casa de alguém após
as 23h00 é considerado uma indelicadeza imperdoável, não sei se nos EUA é
diferente.
Na
hora da partida fui com o Jackson Schiavi colher algumas laranjas e mangas.
Enchemos um dos sacos com laranjas sempre tomando cuidado para que os porcos
que ficavam à espreita não as roubassem. Depois fomos pegar algumas mangas,
sempre seguidos pelos esfaimados suínos, descuidei-me, por um instante, e uma
das porcas abocanhou um dos sacos e saiu arrastando-o espalhando as laranjas
campo afora. Corremos atrás dela tentando recuperar o fruto do seu furto
quando, de repente, o animal pisou na borda do saco e deu uma incrível pirueta
mortal estabacando-se espetacularmente. A porca, contrariada, e amuada
afastou-se grunhindo e nós conseguimos reaver a maioria das laranjas furtadas.
O Angonese comentou que no Sul do país esta não era época de colher laranjas.
Estrada Maraquitã – AC08 (Ilha)
Cada torrão desta terra é sagrado para meu
povo, cada folha reluzente de pinheiro, cada praia arenosa, cada véu de neblina
na floresta escura, cada clareira e inseto a zumbir são sagrados nas tradições
e na consciência do meu povo. A seiva que circula nas árvores carrega consigo
as recordações do homem vermelho. O homem branco esquece a sua terra natal,
quando – depois de morto – vai vagar por entre as estrelas. Os nossos mortos
nunca esquecem esta formosa terra, pois ela é a mãe do homem vermelho. Somos
parte da terra e ela é parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs; o
cervo, o cavalo, a grande águia – são nossos irmãos. (Cacique Seattle)
27.10.2014 (segunda-feira)
– Vilhena, Ro – AC05 (KM 126 ‒ Estrada Maraquitã)
Em Vilhena,
ficamos hospedados, sábado e domingo, no Hotel Colorado, e depois de nos
reorganizarmos e identificarmos o ponto mais favorável para dar continuidade à
nossa Expedição partimos, na segunda-feira, de Vilhena com destino à Balsa do “Condomínio Aprovale” (KM 268 desde a
nascente do Roosevelt ‒ 10°40’16,3” S / 60°30’58,9”O). A viagem transcorreu sem
grandes novidades até alcançarmos a TI dos Zoró, onde era intenso o movimento
de caminhões carregados com toras de madeira. Observamos algumas destas toras
sem a devida identificação e outras cortadas dentro da TI aguardando transporte
‒ sinais claros de exploração madeireira irregular dentro da Área Indígena.
Assim como os Cinta-Larga, os Zoró barganham, sem qualquer controle suas
riquezas naturais mostrando total despreocupação com o legado de seus
antepassados. Certamente eles não partilham da mesma filosofia do Cacique
Seattle cujas palavras encabeçam este capítulo. Felizmente ninguém nos cobrou
pedágio na passagem da cancela por uma de suas Aldeias. Às margens do Roosevelt,
constatamos sua pujança depois de receber seu mais poderoso afluente – o Rio
Cardoso. Embora a balsa seja uma propriedade particular, bancada pelo “Condomínio Aprovale” (Associação dos
Produtores Rurais do Rio Roosevelt), fomos levados cortesmente até a margem
direita sem qualquer empecilho. Precisávamos de um lugar para acantonar e o
balseiro nos informou que encontraríamos guarida na Serraria Madeireira Ita da
Fazenda Fonte Viva que ficava a apenas 05km adiante. A Fazenda Fonte Viva faz
parte de um belo projeto de desenvolvimento sustentável que explorava os
recursos naturais através do manejo
sustentável.
Manejo sustentável: administração da
vegetação natural para a obtenção de benefícios econômicos, sociais e
ambientais, respeitando-se os mecanismos de sustentação do ecossistema objeto
do manejo e considerando-se, cumulativa ou alternativamente, a utilização de
múltiplas espécies madeireiras ou não, de múltiplos produtos e subprodutos da
flora, bem como a utilização de outros bens e serviços. (Lei Federal N° 12.651,
de 25.05.2012)
Para a execução do manejo florestal é necessária a
elaboração de Plano Operacional Anual (POA) definindo o cronograma de
atividades, os métodos de operação e manejo florestal a serem aplicados na
colheita.
1ª Fase: realiza-se o inventário florestal levantando
todas as árvores de valor comercial existentes numa área de exploração anual, o
traçado e dimensões das estradas e pátios de estocagem, corte das árvores e
arraste de toras.
2ª Fase: visa a identificação da área do projeto, dos
talhões, marcação das áreas permanentes, demarcações de faixas e picadas nos
talhões, árvores porta sementes, árvores de corte e árvores proibidas de corte.
3ª Fase: faz-se o cálculo do inventário florestal e o
cálculo do volume comercial.
4ª Fase: compreende a segurança no trabalho e
infra-estrutura do acampamento.
5ª Fase: corresponde ao abate de árvores propriamente dito que envolve as
técnicas a serem empregadas no corte, segurança dos operadores, definição das
estradas e trilhas de arraste, pátios de estocagem, carregamento das toras e
monitoramento da exploração florestal.
O manejo visa, então, uma exploração racional da
floresta respeitando sua dinâmica natural. Ao longo do Rio Roosevelt observamos
várias áreas semelhantes onde o respeito a essas técnicas vem permitindo que
além da flora a fauna se reproduza abundantemente. Na serraria fomos muito bem
recebidos e conseguimos um lauto jantar e um local para dormir. Conhecemos o
simpático Sr. Zé Patroleiro, um paranaense cujo pai veio, como tantos, para a
região depois de vender suas terras no Sul com o sonho de comprar uma gleba
suficiente para ser dividida pelos futuros herdeiros. Infelizmente o sonho
transformou-se em pesadelo ao ser enganado por um corretor inescrupuloso e
verificar que a área da terra comprada era muito menor do que lhe anunciara o
malfadado vendedor. O pai sempre se culpou pela desdita a que condenara toda a
família e o desgosto foi-lhe aos poucos minando as forças e a saúde. Os filhos
tiveram de procurar emprego e foi assim que o Zé transformou-se de agricultor
em operador de máquinas. Mas como reza a peça de teatro de Shakespeare “All's Well That Ends Well” (Tudo está
bem quando termina bem), o Zé é hoje o orgulhoso pai de uma estudante de
medicina e os filhos que não quiseram continuar os estudos são como o pai
operadores de máquinas. O Coronel Angonese, cuja filha Rafaela também é uma
discípula de Hipócrates (o pai da medicina), sabe muito bem o custo que isso
representa para um assalariado.
28.10.2014
(terça-feira) – Rio Roosevelt (KM 284) – AC06 (KM 314 – Ponte da Aprovale)
Tivemos muita
dificuldade na hora de partir, a bateria do carro dos bombeiros, que estava com
todo o nosso material, estava totalmente descarregada e, embora o Zé Patroleiro
insistisse em que se trocassem as baterias do carro com as de sua máquina, o
pessoal ficou insistindo durante muito tempo usando os cabos para dar a famosa
“chupeta”. O motor só deu partida
depois da troca recomendada pelo Zé, o passo seguinte foi a recolocar,
novamente a bateria velha e tomar cuidado para não desligar o motor.
Percorremos uma
das trilhas usada pelos pescadores para chegar até a margem direita do Rio, descarregamos
as embarcações e a carga e reiniciamos nossa jornada. O Rio Roosevelt tinha
agora outras características, a correnteza, a largura eram maiores, a fauna
mais diversificada com a presença das belas e solitárias garças mouras (Ardea
cocoi) que agora davam seu ar de graça.
As aves mais
comuns em toda extensão continuavam sendo as andorinhas-de-peito-branco
(Atticora tibialis), os martins-pescadores-pequenos (Chloroceryle americana) e martins-pescadores-grandes
(Megaceryle torquata), os biguás (Phalacrocorax brasilianus) e os socós-boi
(Tigrisoma lineatum). As araras Canindé (Ara ararauna) de vistosa coloração
azul ultramarino no dorso e amarelo-dourado na parte inferior que avistamos na
1ª Fase de nossa descida (Rondônia) foram, progressivamente, substituídas aqui
pelas belas Araracanga (Ara macao) de intensa coloração vermelha escarlate;
asas tricolores (vermelho, amarelo na parte média e azul intenso nos extremos),
rabadilha e base do rabo azul.
Aportamos, por
volta das 14h00, na margem esquerda, em um aprazível lugar à montante da Ponte
da Aprovale (KM 314 – 10°21’55,7”S / 60°36’14,9”O), depois de percorrer 30Km. O
local era usado sistematicamente por pescadores e as áreas de acampamento e
fogo já estavam praticamente prontas, bastava, apenas, uma pequena limpeza.
Avistei uma família de capivaras na cabeceira da ponte, e à noite fomos
visitados por um tatu. O Jeffrey como de costume, apesar de ter sido advertido,
por diversas vezes, por mim e pelo Angonese para que não o fizesse, à noite, se
refrescava, no Rio, ficando apenas com a cabeça de fora e desta feita afirma
ter levado choque de um poraquê.
Relata o Coronel
Angonese:
Na ponte, o
Jeffrey foi tomar banho no Rio devido ao calor. Ficou alguns minutos n’água,
quando deu um baita berro. Eu que estava arrumando meu material fui correndo
até a margem para acudi-lo. Na saída ele deu outro grunhido, relatando, logo em
seguida, que tinha recebido duas descargas elétricas de Poraquê. Disse que
estava muito dolorido mas logo se recuperou do susto e foi deitar-se. De
madrugada Jeffrey acordou com barulho perto da barraca, com a lanterna avistou
um tatu passeando pelo acampamento.
29.10.2014
(quarta-feira) – AC06 (KM 314 – Ponte da Aprovale) – AC07 (KM 345 – Fazenda Bom
Jardim)
Definimos como
objetivo para este dia como local de acampamento a Fazenda Bom Jardim, a 31km de
distância do acampamento atual. A progressão foi igualmente tranquila e só
precisei reconhecer a passagem por uma Ilha (Mapa 69 – 10°28’21”S /
60°31’30”O). Ao aportar assustei um cardume de piraputangas (Brycon hilarii) e
depois de realizado o reconhecimento partimos pelo braço esquerdo sem qualquer
percalço.
Chegamos no
nosso destino (KM 345 – 10°08’27,4”S / 60°38’55,7”O) que eu marcara no mapa
como “Porto” e realmente nele estava
ancorado um barco de alumínio. O aprazível recanto tinha, à sua frente, uma
pequena e bela Ilha pedregosa e era, também, um local usado por pescadores,
tinha mesa, bancos e grelha à nossa disposição. Como o mapa mostrava a sede de
uma fazenda a apenas 1.500m de onde estávamos resolvi, depois de montar a
barraca, pedir autorização ao encarregado. Na sede, encontrei o gerente,
chamado Lourival, um mineiro de boa cepa, muito prestativo e falante que me
levou na sua camionete de volta até o acampamento, foi uma carona muito bem
vinda, já que eu estava de pés descalços.
Ele se
apresentou ao pessoal, deu-nos algumas dicas do que iríamos encontrar pela
frente e recomendou-nos procurar o Jair quando chegássemos à Cachoeira do
Chuvisco, depois disso voltou aos seus afazeres ficando de retornar mais tarde.
O Angonese achou uma tapera e um antigo pomar onde conseguimos colher algumas
mangas verdes já que as maduras, ou de vez, os animais selvagens já as tinham
consumido. À noite o Lourival e a esposa vieram nos convidar para ir até sua
casa e, como estávamos muito cansados, somente o Jeffrey aceitou o convite
visando carregar as baterias de seus equipamentos eletrônicos. Em sua casa, o
Lourival, como bom mineiro, convidou o Jeffrey para degustar uma cachacinha e
os dois voltaram bem mais tarde muito eufóricos e trouxeram de brinde uma
garrafa d’água bem gelada que foi muito apreciada.
30.10.2014
(quinta-feira) – AC07 (KM 345 – Fazenda Bom Jardim – AC08 (KM 375 – Ilha)
Partimos por
volta das 08h00. O Lourival tinha prometido vir se despedir, antes da partida,
mas acho que a cachacinha noturna tinha vergado a determinação de nosso amável
anfitrião. Encontramos alguns rápidos e pequenas cachoeiras pelo caminho que
não obstaculizaram nossa progressão. Eu vinha acompanhando a progressão de meus
companheiros até que, depois de navegarmos quase 20km, decidi ir à frente e
esperá-los em um lugar mais aprazível. Aportei em uma bela Ilha (09°58’39,3”S /
60°38’11,9”O) aproveitando para esticar as pernas, hidratar-me e refrescar-me
mergulhando nas límpidas águas do arenoso leito do Rio Roosevelt. Aguardei
durante uma hora e como meus camaradas não aparecessem resolvi verificar se
tinha acontecido algum imprevisto. Depois de remar mais de 02km Rio acima,
enxerguei o trio descendo calmamente. Eu ainda não tinha assimilado que as
longas paradas faziam parte da “americana”
rotina da equipe. Aguardei-os e prosseguimos juntos passando pela aprazível
Ilha em que eu tinha feito meu alto-horário, pela Foz do pequeno Igarapé Santa
Maria (09°58’05,73”S / 60°37’51,4”O), situada à margem direita, e aportamos na
praia de uma Ilha (09°57’34,0”S / 60°39’18,8”O) a exatos 30km do acampamento anterior. O local
apresentava vestígios de estar sendo usado sistematicamente por pescadores que
ali estacionavam e estavam massacrando em lenta agonia a mais bela e frondosa
árvore da Ilha fazendo fogo junto às suas raízes. O Angonese, como de costume,
foi tentar a sorte na pescaria enquanto aprontávamos o acampamento.
Os Cinta-Larga
Hiram Reis e Silva (*), Porto Alegre, RS, 08 de dezembro
de 2014.
O grupo,
originalmente, usava uma larga faixa confeccionada da entrecasca de tauari (Couratari
spp) que lhes cingia a cintura e, por isso, os regionais passaram a denominá-los
Cinta-Larga codinome que foi adotado pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI).
Na verdade sob a denominação de Cinta-Larga foram aglutinados três grupos
distintos, que possuem língua e cultura semelhantes, autodenominados Kabã,
Kakin e Mã.
As Terras Indígenas
(TI) Cinta-Larga, Zoró e Suruí estão inseridas no Parque Indígena (PI) Aripuanã
localizado no Leste do Estado de Rondônia e Noroeste do Mato Grosso somando uma
área total de aproximadamente 2,8 milhões de hectares. A FUNAI criou, no último
decênio do século XX, quatro TI adjacentes dentro do território ocupado pelos
Cinta-Larga – PI Aripuanã, Área Indígena (AI) Roosevelt, AI Serra Morena e AI
Aripuanã cuja população está distribuída em 33 aldeamentos.
Questão Cinta-Larga
Até o final dos anos 1960, os Cinta Larga, ocupavam (e dominavam) uma
área de 4,5 milhões de hectares entre os Rios Roosevelt e Aripuanã, repleto de
riquezas historicamente exploradas por seu valor de mercado: primeiro como uma
província seringueira, depois mineral, depois madeireira e hoje ambas. Foi com
seringueiros e garimpeiros que invadiram seu território que os Cinta-Larga
contataram os “zaryj” (civilizados),
em uma região pródiga em borracha, ouro, diamante e madeiras nobres.
Os Cinta-Larga observaram que esses inimigos tinham as cobiçadas
ferramentas de metal, sobretudo machados e terçados
(facões), já que no começo desprezavam e não viam utilidade nas espingardas.
Justamente aí tem início a “Questão Cinta-Larga”, na divulgação regional e
nacional das riquezas minerais em suas terras e da sua antropofagia, noticiadas
na imprensa nos anos 1960. A FUNAI somente chegaria à região após essas
notícias, alguns anos depois de a maioria dos grupos locais Cinta-Larga do
Aripuanã e do Roosevelt terem contatado garimpeiros e visitado a estação
telegráfica de Vilhena.
As primeiras ações desses funcionários foram justamente as de expulsar os
“amigos garimpeiros” e tomar o lugar
deles, inclusive instalando-se em suas casas, dando aos Cinta-Larga as tão
desejadas ferramentas – além de remédios e sementes. Os funcionários do órgão indigenista (FUNAI) passaram,
pouco depois, a organizar a vida aldeã, convocando os Cinta-Larga para o
trabalho na roça, corte de seringa e outras atividades cotidianas, de modo a
concorrer com o próprio “zapivaj”, como
é chamado o chefe da aldeia.
No fim dos anos 1980, críticas e ameaças contra a “mesquinhez” da FUNAI se tornaram regra entre os Cinta Larga que
foram sendo transformadas em indiferença ao longo desta última década. Por essa
razão, os Cinta-Larga substituíram a FUNAI pelos “amigos madeireiros”, os novos doadores de ferramentas – e moradias,
estradas e Toyotas e L200. Quando a FUNAI deixou de se comportar “no registro de zapivaj”, deixando de
concorrer com os verdadeiros donos da casa, tudo voltou como antes na ordem
sociopolítica Cinta-Larga.
Assim, a iniciativa dos contratos de madeira, se no começo dessa
atividade (1986-1988) passava pelos funcionários da FUNAI, foi completamente
assumida pelos “zapivaj” de todas as
aldeias quando esses funcionários foram afastados e aqueles que entraram tinham
como postura predominante o “não se meter”.
“Liberar” a exploração de madeira ou
garimpo para “pegar dinheiro”,
visando atender suas necessidades atuais de bens e serviços (como moradias,
saúde, educação) – dado que a FUNAI, falida, não os propicia, “como no começo fazia” – passou a ser a
regra dominante da economia política dos Cinta Larga. (BETO & FANY)
Progressivamente
a cobiça desenfreada pelos recursos naturais na TI Cinta-Larga passou a contar
com a participação efetiva e ostensiva de funcionários da FUNAI que contavam
com o beneplácito dos mais altos escalões do órgão pseudo-indigenista. As
máfias ligadas à exploração madeireira e garimpo passaram a fazer uso de “contratos” estabelecendo como moeda de
troca com os líderes indígenas corruptos e corruptores, todo o tipo de
mercadorias, caminhonetes e dinheiro vivo ‒ fruto da participação nos “lucros” que pretensamente dariam
respaldo às invasões e demais atos ilícitos. Desde então o patrimônio cultural,
moral e natural dos Cinta-Larga foi sendo sistematicamente dilapidado.
Os Kimberlitos da TI Cinta-Larga
“Lá está a riqueza que os
estrangeiros e os políticos querem tirar do meu povo. Tudo o que saiu é pouco.
Os garimpeiros estão somente arranhando a rocha maior (kimberlito), abaixo do
igarapé, onde está o grosso do diamante”.
(Tataré Cinta-Larga – Isto É, Edição: 1731, 05.12.2002)
Os kimberlitos
são a mais importante fonte de diamantes e sua existência só foi comprovada nos
idos de 1866. Kimberlito é uma homenagem a Kimberly, na África do Sul, onde a
existência destas miraculosas chaminés foi comprovada pela primeira vez.
A maioria dos
diamantes que encontramos hoje formaram-se há milhões de anos e violentas
erupções de magma trouxeram-nos até a superfície através das chaminés de
kimberlito. Estas chaminés foram criadas à medida que o magma emergia pelas mais
profundas fissuras da Terra empurrando os diamantes e outros minerais para a
superfície da crosta terrestre. Após o magma esfriar ele deixava atrás de si as
características veias cônicas da rocha de kimberlito.
Embora alguns de
nossos mais ilustres magistrados manifestem-se contrários à exploração mineral
nas TI os caciques Cinta-Larga continuam zombando da Lei e gerindo suas terras
como se não fizessem parte de nosso País. A prepotência se deve simplesmente à
ausência de medidas coercitivas que os atinjam, a morte de centenas de
garimpeiros, a ingerência até mesmo em terras que não lhes pertencem, os “contratos” permitindo o garimpo e a
exploração madeireira atentam contra tudo e contra todos.
Filhos da
Terra, 15.07.2014 – Redação 24 Horas News
Extração de diamantes em terra indígena
em MT atrai conflitos e mortes, ladrões, prostitutas e contrabandistas.
A partir de
agora, devem ser cancelados os requerimentos para realização de pesquisa
mineral em terras indígenas da comunidade Cinta-Larga e no seu entorno,
conforme decisão obtida pelo Ministério Público Federal (MPF) junto ao Tribunal
Regional Federal da 1ª Região (TRF1). No dia 1º de julho, o Superior Tribunal
de Justiça concedeu liminar para retirar efeito suspensivo que impedia a
decisão do TRF1 de ser cumprida. Desde a ação civil pública em primeira
instância, o MPF demonstrou que as pesquisas e lavras autorizadas pelo
Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) no interior da terra indígena
têm servido para aumentar a criminalidade na área.
Relatório da
Polícia Federal (PF) citado nas peças do MPF assinala os conflitos gerados
entre garimpeiros, minerados e indígenas por causa da comercialização ilícita
de diamantes extraídos nas terras ocupadas pelos índios Cinta Larga, com
produção avaliada em torno de US$ 20 milhões mensais. Segundo apuração da PF em
Rondônia, a vida dos contrabandistas tem sido facilitada pela concessão de
licenças de pesquisas minerais próximas às áreas indígenas pelo DNPM e “a presença de mineradoras nas áreas
circunvizinhas às terras indígenas fomenta o contrabando e o crime organizado
que atua contrariamente aos interesses indígenas”.
A área
indígena dos Cinta-Larga possui um raro kimberlito – rocha vulcânica onde é
encontrado o diamante – que, segundo estudo da Companhia de Pesquisa e Recursos
Minerais, órgão do Ministério das Minas e Energia, é único no país, podendo
gerar uma mina industrial de diamante de gema com capacidade para produzir, no
mínimo, um milhão de quilates de pedras preciosas por ano.
Além disso,
a exploração atrai ladrões de pedras, prostitutas e traficantes para a região.
Já provocou a morte de pelo menos cem garimpeiros, índios e contrabandistas nos
últimos dois anos, e é responsável por sérios danos ambientais, tais como o
assoreamento do Rio Roosevelt. (...)
Certamente será
mais uma Lei que não será cumprida, parece-me que teríamos de começar
encarcerando as autoridades do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM)
que autorizaram este tipo de pesquisa e lavra.
Fonte: BETO
& FANY, Beto Ricardo & Fany Ricardo. Povos indígenas no Brasil,
2006/2010– Brasil – São Paulo – Pancrom Indústria Gráfica, 2011.
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