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terça-feira, 29 de janeiro de 2013
segunda-feira, 28 de janeiro de 2013
Eirunepé - Itamarati
Eirunepé - Itamarati
Hiram
Reis e Silva, Itamarati, Amazonas, 27 de janeiro de 2013.
Antes
de iniciar este artigo queremos direcionar nossas preces a todos familiares e
amigos dos envolvidos direta ou indiretamente no trágico incêndio de uma boate
em Santa Maria, RS, e, em especial, pelo pronto restabelecimento de nossos diletos
ex-alunos do Colégio Militar de Porto Alegre Guilherme e Emanuel. Que o Grande
Arquiteto do Universo fortaleça, ilumine e guarde a querida família de nosso grande
amigo, parceiro de épicas jornadas pela Laguna dos Patos, Comandante Coronel PM
Pastl e sua dileta esposa Dona Ana Claci.
- Eirunepé - Comunidade Aquidabã, 72 km (21.01.2013)
Antes
das 5h30, eu e o Marçal nos deslocamos até o Posto da Polícia Militar para
preparar os caiaques para a nova jornada enquanto o Mário aguardava, no Hotel
Líder, a viatura da PM para carregar o material para a lancha de apoio. Os
policiais só estavam aguardando a hora combinada para iniciar a operação e
avisar o Tenente Ricardo que foi pessoalmente se despedir dos expedicionários.
Levamos os caiaques para a escadaria da orla, enquanto o Mario foi conduzido na
camionete da PM até onde estava aportada a lancha. O Mário, depois de deixar
pronta a embarcação para a nova jornada aportou a “Mirandinha” na orla e concluímos os preparativos. Antes de
partirmos o Tenente PM Ricardo recomendou que, em Itamarati, procurássemos o
Sargento PM Barbosa. Despedimo-nos dos prestativos amigos da Polícia Militar,
sempre prontos a nos auxiliar nestas amazônicas missões.
Uma
chuvinha fina nos acompanhou durante todo o percurso arrefecendo salutarmente
nossos corpos. Passamos pela Foz do Tarauacá e sentimos nossos caiaques
melhorarem seu desempenho graças à energia adicional deste magnífico tributário
do Juruá. A navegação continuou sem grandes novidades exceto pela passagem das
barulhentas araras, das magníficas garças surfistas equilibrando-se graciosamente
nos troncos levados pela torrente e do coral de guaribas que nos acompanhou
durante todo o dia. Pena que a caça indiscriminada destes macacos cantores os
tenha afastado das margens do Juruá em todo o Acre e, no Norte do Amazonas, nos
municípios de Guajará e Ipixúna.
Confirmamos,
na Comunidade Pau D’alho a localização de Aquidabã, nosso destino, e, novamente,
na Comunidade Morada Nova. Nesta última uma das moradoras alertou-nos que o
casarão era mal-assombrado e recomendou que procurássemos abrigo em outro
local. Por volta das 12h40, avistamos, no alto de um morro, o grande e
majestoso casarão de madeira. A dificuldade consistia em carregar nossas
tralhas até ele pela trilha íngreme e escorregadia, mas resolvemos acantonar
por ali mesmo já que nestes “ermos sem
fim” as opções de encontrarmos abrigo noutro local antes de escurecer eram pequenas.
Ajudei os guerreiros Mário e Marçal a carregar a primeira leva do material e
permaneci no casarão para fazer uma limpeza sumária varrendo a casa com uma
vassoura improvisada de cacho de açaí.
A
quantidade de grandes aranhas, morcegos e penas de urubu cuidadosamente unidas
com uma fibra negra espalhadas pelos quatro cantos da morada emprestavam um
sinistro ar ao abrigo. O Mário não se abalou e foi para um canto da varanda
pedir autorização para o guardião espiritual do local, se o procedimento foi
necessário e se surtiu o efeito desejado ou não jamais o saberemos o fato é que
passamos uma noite bastante agradável neste belo casarão abandonado que possui
de seu avarandado uma belíssima vista para o Rio.
A
construção de madeira de lei, os detalhes das amplas aberturas (janelas e portas)
sextavadas e a perfeição da construção das tesouras que suportam o telhado de
telhas de barro mostravam a qualidade técnica e material de uma residência que
foi construída com muito esmero. Nos mapas do DNIT a Comunidade consta como
ativa embora esteja abandonada há anos. Colhemos, para a viagem, no variado
pomar algumas goiabas, açaís, limas e graviolas.
- Comunidade Aquidabã – Jacaré, 83 km (22.01.2013)
Quando
acordei, por volta das seis horas, meus fiéis parceiros já estavam ultimando os
preparativos da “Mirandinha”. A chuva
que se iniciara na véspera de nossa partida só havia dado uma pequena trégua
quando já havíamos carregado todas as tralhas para o casarão e eu me preparava
para colher a água numa calha improvisada para um banho restaurador sem ter de
escalar a íngreme e enlameada encosta até o Rio – artimanhas de São Pedro. A
chuva parece servir de estimulo aos macacos cantores e o coral de guaribas
ecoava de uma e de outra margem, como se grupos rivais estivessem disputando o
prêmio de um melhor arranjo e harmonia. O mapa do DNIT nos indicava a
Comunidade Jacaré como a melhor alternativa para nossa próxima progressão em
relação à distância e ao fato de a mesma possuir uma escolinha onde poderíamos
acampar sem incomodar os amigos ribeirinhos, opção que foi confirmada em mais
de uma oportunidade nas Comunidades pelas quais passamos.
Na
Comunidade Jacaré o Sr. Antônio Francisco Santos Guimarães prontamente
autorizou acantonarmos na escolinha. Descarregamos a tralha e o Mário,
imediatamente, iniciou a montagem da barraca. Após um revigorante banho de Rio
eu fui atualizar os dados obtidos no trajeto, dentro da barraca protegido dos
terríveis piuns, o Marçal foi preparar nosso “almojanta” e o Mário, nosso homem da Comunicação Social,
parlamentar com nossos anfitriões. Depois da refeição fomos até a casa do Sr.
Antônio Francisco conversar um pouco, nesta ocasião ele disse que nós não
devíamos nos preocupar tanto com o fato da Comunidade selecionada ter ou não
escola porque ninguém nas barrancas do Juruá deixaria de oferecer abrigo aos
navegantes. Verificaríamos, mais tarde, no decorrer de nossa viagem que o
hospitaleiro ribeirinho estava com toda a razão.
- Comunidade Jacaré – Praia Alta, 56 km (23.01.2013)
A
chuva persistia e só parou quando nos aproximamos de nosso destino. Os botos
continuavam nos acompanhando como de costume. Os tucuxis realizavam audaciosas
acrobacias enquanto os vermelhos pareciam se divertir soltando seus bufos ou
emergindo muito próximos aos caiaques. Pena que o ruído irritante das rabetas,
que de tempos em tempos passavam, interrompesse repentinamente estes idílicos
momentos. Pretendíamos estacionar na Comunidade Soledade, mas fomos informados
na Comunidade “Praia Alta” localizada
a 500 metros
a montante dela que a mesma não mais existia. O Mário estabeleceu os contatos
necessários e imediatamente os ribeirinhos se mobilizaram para deixar a
escolinha em condições de nos receber.
A
Comunidade está localizada, praticamente, na fronteira do Município de Eirunepé
e Itamarati. A passarela de madeira precisa de reparos imediatos, pois as
tábuas soltas já provocaram alguns acidentes. Tomamos banho no Igarapé Preto,
pois as águas contaminadas do entorno não eram, absolutamente próprias para o
banho, depois seguimos nossa espartana rotina.
- Comunidade Praia Alta – Gaviãozinho, 95 km (24.01.2013)
O
dia amanheceu claro e sem nuvens prenunciando uma canícula que incrementaria
uma maior dificuldade a um trajeto bastante longo (120 km ). Os moradores haviam
nos avisado da existência de um furo à pequena distância da Comunidade.
Resolvemos aproveitar o atalho enquanto o Mário percorreria o caminho normal
para georeferenciar a Comunidade que ali existia. Percorremos com cautela a
margem direita tentando vislumbrar o Furo do Gaviãozinho. Embora tivéssemos confirmado
com um ribeirinho, que navegava nas proximidades, a localização do Furo mesmo
assim passamos por ele sem notá-lo. O amável ribeirinho verificando que
ultrapassáramos a entrada do Furo foi até nós e nos rebocou com sua canoa até a
boca do atalho. Havia uma grande quantidade de toras de madeira bloqueando e
camuflando seu acesso, por isso ele passara despercebido. Acelerei o caiaque e investi
sobre a entrada, acabei ficando preso sobre as toras, mas com algum esforço me
liberei e entrei no furo, o Marçal procedeu de maneira idêntica. As Comunidades
de Veneza e Gaviãozinho fazem a manutenção do furo que mais parece um jardim de
tão bem cuidado, livre de qualquer tipo de entulho e roçado em ambas as
margens, dentro em breve será mais um Arrombado a encurtar distâncias para todo
tipo de embarcação neste tumultuário Juruá, que se modifica constantemente pela
ação de suas próprias águas, mas que tem, sem sombra de dúvida como agente
catalisador os ribeirinhos.
![]() |
Furo do Gaviãozinho |
Mais
adiante encontramos o Arrombado Cubiu (06º27’31,0”S / 68º34’54,9”O), moldado
pela cheia de 2005, e o Arrombado Valter Buri (06º28’06,5”S / 68º28’34,3”O),
criado pela cheia de 2009. Graças a esses providenciais atalhos conseguimos
chegar, com tranquilidade, à Comunidade Cantagalo, uma Comunidade bem instalada
na Terra-firme. O Mário estava realizando os devidos contatos quando lá
chegamos de maneira que estacionamos os caiaques junto a uma embarcação da
Fundação Nacional da Saúde (FNS).
Após
o Mário ter confirmado onde ficaríamos acantonados puxamos os caiaques para terra.
Como de rotina cuidamos, antes de tudo, de nossos caiaques, limpando e
retirando a água e depois começamos a levar a tralha para a casa dos
professores. Entrei na casa coloquei o material em um dos quartos e quando voltei
para ajudar a carregar o resto do material verifiquei, surpreso, que o Sr.
Antônio Cavalcanti de Souza e seus filhos Elisson, Dione, Nunes e Cláudio já o haviam
trazido, inclusive os pesados corotes de 50 litros de combustível.
Desde que iniciei minhas descidas pelos imensos caudais amazônicos eu só
presenciara tamanha solicitude em uma comunidade indígena chamada Prosperidade,
da etnia Kokama, quando lá aportei em 14 de dezembro de 2008.
O
pessoal da FNS estava presente na Comunidade coletando sangue e fazendo sua
análise já que três membros da comunidade tinham sido contaminados com o vírus
da malária. À noite, toda a área foi pulverizada com o conhecido “fumacê” para combater o vetor da doença,
o mosquito anófeles.
Um
dos membros da equipe da FNS apontou a falta de equipamentos e pessoal como um
dos grandes empecilhos para que se combata com mais efetividade as endemias.
Nas áreas indígenas este combate se torna ainda mais difícil, pois os mesmos
raramente seguem o tratamento até o fim, além do que sua alta mobilidade
dificulta ou até mesmo impossibilita o acompanhamento dos nativos infectados
pelos vírus que acabam servindo de vetores da doença transportando-a para
outras Comunidades.
A
região do Cantagalo é bem agradável e se pode percorrer a Comunidade sem ficar
pisando na mistura de lama e dejetos como nas Comunidades dos Municípios de
Guajará, Ipixúna e Eirunepé. A maioria das Comunidades do Município de
Itamarati está assentada em terra firme o que contribui para uma maior
salubridade e consequentemente melhor estado de saúde e humor de seus
concidadãos.
Esperando
um sono reparador deitei-me cedo. Na noite anterior os porcos não permitiram
isso, desta feita foram os galos, talvez venha daí o nome da Comunidade
Cantagalo. Os galináceos assíncronos passaram a noite inteira cantando como se
o dia já estivesse raiando. Foi mais uma noite difícil e nada reparadora.
- Comunidade Canta-galo – Itamarati, 63 km (26.01.2013)
Acordamos
mais tarde (6h30), o curto percurso de sessenta e poucos quilômetros poderia
ser vencido em seis horas sem grande esforço e precisávamos descansar. O dia amanheceu
claro e com muitas nuvens, marcamos as poucas Comunidades que nos separavam de
Itamarati, todas em terra firme. Nas proximidades de Itamarati avistamos os
grandes morros que a caracterizam e aportamos nas instalações portuárias
construídas pelo DNIT por volta das treze horas. Contatamos o Sgt PM Barbosa e
este com a cortesia que caracteriza nossos amigos das Polícias Militares
encaminhou-nos até a Pousada Itamarati de propriedade da Sra. Francisca
Cristina Pinheiro de França e do Sr. Manuel Raimundo Medeiros Campelo, irmão do
Prefeito da cidade.
quarta-feira, 23 de janeiro de 2013
Hospitaleira Eirunepé
Hospitaleira Eirunepé
Hiram
Reis e Silva, Eirunepé, Amazonas, 20 de janeiro de 2013.
A
recepção em Eirunepé foi muito cordial, a Guarda Municipal, tão logo, chegamos
nos acolheu e nos indicou uma área para aportar temporariamente as embarcações,
até que o Comandante da Polícia Militar, 1º. Ten PM Ricardo chegasse com seus
homens e viaturas. Deixamos nosso material nas instalações da PM e nos
encaminharam ao Hotel Líder onde fomos acomodados confortavelmente pela sua
querida gerente Eny Martins de Alencar. Foi muito bom desfrutar novamente de
instalações sanitárias descentes e tomar banho com água inodora e incolor.
O
Ir:. Francisco Dejanir, venerável da loja Maçônica Luz e Ordem do Juruá nº. 14
veio até o hotel nos cumprimentar logo depois do almoço. Partimos em busca do
jovem prefeito Joaquim Bara Neto. Eu tinha ficado impressionado com os relatos
dos ribeirinhos sobre ele e queria conferir com meus próprios olhos. Conheci
também nesse dia o Sr. Pedro Souza, parente do Cel Pastor que se prontificou a
nos ajudar no que precisássemos.
- “Ser pobre e humilde não é defeito, queremos
Bara para prefeito”
Só
conseguimos encontrar o prefeito no dia seguinte e me surpreendi quando me
apontaram um trabalhador carregando um carrinho de cimento que me garantiram se
tratar do prefeito Bara. O carismático líder estava no comando e na execução da
operação “tapa-buracos”, da via que dá acesso à Universidade do Estado do
Amazonas (UEA) preocupado em concluir a operação antes das aulas.
No
dia seguinte encontramos novamente o Prefeito capitaneando um mutirão
cívico-sanitário e dali fomos juntos para um restaurante mais reservado onde
pude realizar uma entrevista que pretendo relatar na íntegra no meu livro. O Prefeito
foi pescador e agricultor e tornou-se mais tarde vereador de Eirunepé. Nas
últimas eleições resolveu candidatar-se prefeito com o intuito de auxiliar o
então prefeito Dissica que tentava a reeleição. Sua intenção era captar parte
dos votos do adversário de Dissica, mas o que aconteceu é que Bara acabou se elegendo
por uma diferença de 396 votos. O Prefeito cercou-se de um secretariado
capacitado e competente com o qual tivemos oportunidade de conviver nesses
poucos dias. O Sr. Ribamar, Secretário da Cultura Ex-ativista da UNE nos
franqueou as instalações da UEA para que pudéssemos atualizar nossas
informações e proporcionou-nos uma visita prazerosa ao Lago dos Portugueses que
banha a sua cidade
- Agradecimentos
Eirunepé
foi a primeira cidade do Juruá em que pudemos contar com o apoio irrestrito de
representantes dos seguimentos mais importantes da sociedade. Guardaremos, com
muito carinho, os bons momentos que desfrutamos com cada um de vocês.
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
Ipixuna - Eirunepé
Hiram
Reis e Silva, Eirunepé, Amazonas, 17 de janeiro de 2013.
Ao partirmos de Ipixuna gostaria de agradecer, mais uma vez, o apoio prestado à
Expedição pelo empresário Sr. Abraão Cândido, pelo 1º Tenente PM Rodney Barros
Ferreira da Polícia Militar do Estado do Amazonas e demais policiais militares
do Destacamento de Ipixuna. Vamos, igualmente, guardar carinhosamente na
lembrança a atenção que nos dedicaram os amigos Maria Consuelo e Raimundo da
Pensão Juruá.
- Expedição Belarmino Mendonça
A
Expedição composta pelo Coronel Hiram
Reis e Silva, do Colégio Militar de Porto Alegre, RS, e os soldados Mário Elder Guimarães Marinho e Marçal Washington Barbosa Santos,
ambos do 8º. Batalhão de Engenharia de Construção,
Santarém, PA, está realizando
o reconhecimento do Rio Juruá, afluente da margem direita do Rio Amazonas.
Estamos dedicando todos os esforços possíveis, dentro dos escassos meios
disponíveis para que a Missão em homenagem ao General Belarmino Augusto de
Mendonça Lobo esteja à altura de seu nome.
- Soldado Mário Elder Guimarães Marinho
O
Sd Mário é o exímio piloto da lancha de apoio e encarregado de nossa logística.
Para evitarmos os piuns que infestam as margens lodosas do Juruá e
desnecessárias paradas, Mário nos abastece com água, frutas e bolachas no
talvegue do Rio. Ele é o encarregado, também, de encontrar o local ideal para
montarmos nosso acantonamento nas comunidades ribeirinhas, no interior das
escolas, templos ou residências, isso é feito a partir das catorze horas,
depois de termos remado aproximadamente 85 km em oito horas consecutivas. Algumas
condicionantes alheias à nossa vontade podem alterar esta programação como, por
exemplo, longos trechos de até 40
km dentro de áreas indígenas (Comunidade Condor – Comunidade
Santa Maria) sem uma única Comunidade não indígena. Quando eu e o Marçal
chegamos à Comunidade, o Mário já havia montado o acampamento e descarregou o
material da lancha.
- Soldado Marçal Washington Barbosa Santos
O
Sd Marçal é meu parceiro de remadas e o cozinheiro da Expedição. Sabendo que os
desafios do Juruá seriam maiores que os dos Rios Madeira e Amazonas, treinou
com afinco nas águas turbulentas do Tapajós. Temos, eventualmente, remado mais
de cem quilômetros em um único dia e o formidável guerreiro Munduruku chega ao
final da jornada cantando sem esboçar qualquer sinal de cansaço. A primeira
providência ao aportar é preparar os caiaques para a próxima jornada e logo
concluída esta etapa o nosso cozinheiro se dedica à preparação do nosso delicioso
“almojanta”, já que fazemos uma única
refeição ao dia. Algumas vezes o preparo dos alimentos é feito na cozinha dos
amigos ribeirinhos e condimentada com temperos retirados da horta dos mesmos.
- Partida para a Comunidade Ituxi (10.01.2013)
Acordamos
às 5h30, horário antigo, e nos deslocamos para o Porto Juruá II, do empresário
Abraão Cândido, onde estavam estacionadas nossas embarcações. Partimos ao
alvorecer, as poucas nuvens tornavam a progressão mais difícil debaixo do sol
abrasador. Informações desencontradas quanto à distância das comunidades
forçou-nos a ultrapassar a meta dos 85 km e chegamos, finalmente, à Comunidade
Ituxi, às 15h30, depois de remar 102
km . O Mário tinha conseguido autorização para acamparmos
na Escola Manoel Fernandes, a residência do professor, contígua à sala de aula
estava ocupada pela família do pescador Francisco Sales da Silva que estava de
mudança para Ipixuna. Depois do banho e do “almojanta”
ficamos ouvindo histórias de pescadores.
- Partida para a Comunidade Das Piranhas (11.01.2013)
Mantendo
nossa rotina diária partimos antes do sol nascer. Logo depois da partida
iniciou uma chuvinha fina e gelada que nos acompanhou até nosso destino na
Comunidade das Piranhas, a 85
km de distância. O Sr. Antônio Santana da Silva permitiu
que nos instalássemos na casa do professor ao lado da Escola. A Falta de
higiene nas Comunidades é muito grande, na maioria delas não existe uma
passarela de madeira que permita um deslocamento seguro sem ter de pisar na
fétida mistura de lama e fezes de animais que perambulam livremente e se
refugiam da chuva ou ao anoitecer sob as casas. As casinhas (sanitários),
quando existem, são meros estrados com um buraco na madeira e os dejetos caem
diretamente no chão onde os suínos dão prosseguimento ao tratamento dos mesmos.
- Partida para a Comunidade Condor (12.01.2013)
No
dia anterior o Sr. Antônio nos informou que a Comunidade Monte Lígia, terra
firme, estava a apenas uma hora de uma voadeira com motor tipo rabeta de 8 Hp,
não quis arriscar e optamos por pernoitar na Comunidade das Piranhas.
Alcançamos a Comunidade Monte Lígia às 08h20, duas horas exatas depois de
partir. Infelizmente as referências de que dispúnhamos para tomar a decisão não
eram suficientes para escolher a melhor opção. Chegamos, às 11h30, à Comunidade
Condor depois de remar apenas 55
km . Tínhamos um enorme vazio, de 40 km , a partir daí até a
Comunidade Santa Maria.
Instalamo-nos
na escolinha, como de praxe e depois do banho e do “almojanta” veio nos procurar um dos membros da Comunidade, visivelmente
embriagado, que suspeitava que fôssemos da Polícia Federal. Argumentei que se
fossemos da Federal a lancha seria muito mais potente e não de 13 Hp como a
nossa, e que se os agentes tivessem de pernoitar no local o fariam em sua
confortável embarcação e jamais em pequenas barracas.
Novamente
os ribeirinhos relataram sua preocupação em relação ao comportamento dos
Kulinas que promovem saques nas residências em que gentilmente são acolhidos.
Infelizmente, alguns pequenos grupos liderados por chefes sem escrúpulo criam
um estigma perigoso em relação a todo povo kulina.
Kulinas:
os Kulina têm seu habitat tradicional nas planícies dos rios Juruá e Acurauá,
afluentes do Solimões e pertencem à família linguística arawá. Os Kulina se
autodenominam Madija, que significa “os
que são gente”. Os Kulina formam um grupo de pouco mais de 700 membros e
ainda preservam sua língua e cultura. (Nota do autor)
Em
Ipixuna topamos, diversas vezes, com um bando sujo e maltrapilho de Kulinas que
bebiam álcool puro indiscriminadamente. Os homens agrediam violentamente suas crianças
e mulheres durante estas bebedeiras. É uma pena observar a decadência de alguns
grupos contaminados por tuxauas sem escrúpulo.
- Partida para a Comunidade São José (13.01.2013)
Somente
depois de remar durante quatro horas avistamos a Comunidade Santa Maria.
Somente uma pequena Aldeia Kulina às margens do Igarapé Penedo próxima da foz
no Juruá. Ao ultrapassarmos o Rio Gregório fomos informados da existência de um
furo próximo à Comunidade Cordeiro. Depois de certificar-me de que não havia
nenhum acidente natural ou Comunidade no laço que deixaríamos para trás decidi
experimentar o furo na forma de um “S”
muito aberto. A correnteza obviamente era forte já que, em vez dos quase 7 km , percorreríamos pouco
mais de cem metros. O Marçal levou uma queda, mas agilmente montou no caiaque e
continuou a navegação. Passamos a chamar o furo de Marçal já que este ainda não
tinha sido batizado.
Lago maldito
Jonas
Fontenelle da Silva
Se
hoje, em surdina, o teu pesar disfarças,
Ouvindo
o canto das jaçanãs morenas,
Sentes,
minh’alma, as aflições e as penas
De
um Lago azul sem jaçanãs nem garças.
Lago
em que havia à superfície esparsas
Grandes
vitórias-régias e falenas
E
em que hoje existe a canarana apenas ...
Fomos
informados do Furo Cavado (06º47’36,5”S / 70º32’16,2”O), próximo à Comunidade
São José e partimos para ele. O Furo que fica no final de um enorme “M” invertido. O furo, pela lógica deveria
estar localizado no meio da curva à esquerda, mas considerando que os rios de
terras baixas mudam constantemente enveredamos pelo primeiro furo que achamos,
mais a montante do “Cavado”. Era na
realidade o Igarapé do Pinheiro que dá acesso a um Lago interior coberto de
canaranas e a um Igapó que mais parece um labirinto. Retiramos os troncos que
fechavam a entrada e enveredamos pela estreita montanha russa fluvial.
Enganchamos
eu e o Marçal sob um enorme tronco, o Marçal caiu do caiaque e empurrou o meu
que estava trancado sobre enormes toras. Não consegui frear e fui levado pela
rápida correnteza. Depois de diversas curvas, cheguei a um escuro e enorme
igapó à direita de minha rota uma claridade chamou minha atenção e rumei para
lá. Chamei, em vão, pelo Marçal, perdera minhas cartas na descida abrupta e não
encontrava meus óculos, eu estava desorientado. Achei que se seguisse a
correnteza poderia sair daquele medonho labirinto. Esperei pelo companheiro e
nada, naveguei sobre as canaranas enroscando nos intransponíveis cipós
tiriricas, as afiadas bordas das canaranas cortavam e enchiam minha pele de
minúsculas farpas.
Meu
colossal caiaque “Cabo Horn” não fora
projetado para aquelas paragens o suporte do leme enroscava na vegetação, o
esforço era sobre-humano. Fui forçado a passar por cima de enormes vitórias
amazônicas (vitórias régias) e depois de me arrastar por uns quinhentos metros
que mais pareceram dezenas de quilômetros desisti de encontrar caminho pelo
maldito Lago do Pinheiro.
Voltei
até o ponto de onde abandonara o igapó e tentei navegar entre as árvores submersas
e, novamente, a progressão era dificultada pelo tamanho do “Cabo Horn”, depois dessa frustrada
tentativa voltei para o Lago para descansar. Recuperei o fôlego e tentei, de
novo, achar o caminho pelo igapó. Exausto voltei para o Lago e decidi me preparar
para dormir naquele local e tentar novamente no dia seguinte. Tentei me amarrar
em uma árvore para dormir, mas fui expulso pelas terríveis tachi (formigas)
voltei para uma área limpa do Lago e me preparei para passar a noite embarcado.
Fiz uma limpeza sumária no caiaque vesti o salva-vidas e coloquei em cima da
embarcação um material alaranjado que o Angonese comprara para servir de acento
no caiaque e que poderia ser avistado à distância. O sol já estava quase sobre
o horizonte quando ouvi, ou senti, o ruído de uma rabeta. Ao longe consegui
distinguir a silhueta do Marçal sobre uma voadeira, o suplício havia terminado.
O
Sr. Francisco de Assis Cassiano da Costa e seu filho Antônio José da Silva
Costa colocaram o caiaque sobre a voadeira e com uma habilidade extrema me
conduziram pelo mesmo Igarapé que entrara. Enquanto o filho Antônio, na popa,
manejava a rabeta com muita agilidade seu pai Francisco, na proa, corrigia o
rumo com o remo. Um final feliz para um dia de pouca progressão, mas que
servirá de ensinamento para o resto da vida de cada um de nós.
Sr. Francisco |
Seja
em operações militares ou mesmo nos deslocamento de ribeirinhos os furos devem
ser usados com muita cautela tendo em vista as radicais modificações a que
estão sujeitos. Da noite para o dia seu curso pode ser interrompido ou
obstaculizado por árvores caídas. Nos deslocamentos onde se utilizem diversas
embarcações deve-se empregar precursores devidamente assessorados por
habitantes locais. A economia de tempo e combustível indica que estes atalhos sejam
utilizados devidamente. Não há condições de se manter atualizadas as
informações sobre cada um deles tendo em vista a inconstância tumultuária do
Rio Juruá, basta ver a quantidade de arrombados, sacados e furos que são
criados continuamente.
O
Mário, preocupado conosco desencadeara uma verdadeira operação de guerra.
Abastecera as rabetas dos ribeirinhos da Comunidade São José e do Bóia (Srs.
Daniel Gomes da Silva e Francisco Gomes de Souza) com nossa reserva de
combustível e graças a isso não tivemos de experimentar um solitário e perigoso
pernoite no Lago do Pinheiro. Ficamos hospedados nessa noite na sala da casa do
Sr. Francisco. O Marçal preparou um saboroso carreteiro para treze pessoas,
nosso anfitrião tem quatro filhos homens e quatro mulheres. Durante a refeição
comentei com ele que o santo padroeiro dos engenheiros militares é são
Francisco de Assis, seu homônimo, e que meu pai se chamava Cassiano.
- Partida para a Comunidade da Praia do
Hilário (14.01.2013)
Chegamos
à graciosa Comunidade cedo, o dia anterior tinha exigido por demais de nossos
corpos e precisávamos recuperar nossas energias antes de nos atirarmos a uma
longa jornada. Dizem que a primeira impressão é que conta e esta foi a mais
agradável possível. As residências da Comunidade estão perfeitamente alinhadas
e ostentam à sua frente uma bela passarela de madeira construída pela
Prefeitura de Eirunepé e a Escolinha embora careça de manutenção é muito melhor
projetada que as dos Municípios de Guajará e Ipixuna. O único problema que vimos
foi novamente porcos perambulando soltos. O Sr. Francisco, líder da Comunidade,
gentilmente convidou-nos para jantar. Durante a refeição os porcos alojados sob
a sua casa faziam o maior estardalhaço e ele nos confiou que os animais eram do
vizinho e que não reclamava para não comprometer a amizade entre eles. A grande
reivindicação da Comunidade era a respeito da Escola Nossa Srª. da Auxiliadora
que precisava de dedetização para desalojar morcegos e formigas e que fosse
concluída a instalação dos sanitários.
- Partida para a Comunidade Miriti (15.01.2013)
Recuperados
decidimos remar cem quilômetros para deixar os últimos 70 para o último dia.
Novamente os botos deram seu ar de graça e um casal deu um show à parte
executando piruetas com seus belos corpos totalmente fora d’água. Chegamos
bastante cansados à Comunidade Miriti da família Evangelista de Souza. Os
Evangelistas permitiram que ocupássemos as instalações da Assembleia de Deus. A
gurizada se encantou com os filmetes de nossa amazônica jornada.
- Partida para a Eirunepé (16.01.2013)
Partimos
cedo e nossa jornada foi abreviada por conta de mais um destes “arrombados” do Juruá. Logo que a
operadora do celular deu sinal liguei para o Tenente PM Ricardo pedindo apoio.
Fomos encaminhados pelo Comandante Ricardo ao Hotel Líder capitaneado pela Srª.
Eny Martins de Alencar. Fomos acomodados no primeiro andar e cordialmente
tratados. Depois do banho fomos convidados gentilmente pela simpática Srª. Eny
para almoçar apesar do adiantado da hora. Logo em seguida apareceu o Venerável Francisco
Dejanir da Grande Loja Maçônica de Eirunepé e
tentamos localizar, em vão, o Prefeito.
sábado, 12 de janeiro de 2013
Uma Heróica Missão
Uma Heróica Missão
Hiram
Reis e Silva, Ipixuna, AM, 09 de janeiro de 2013.
Chegamos
a remar quase 100 km em um único dia tendo em vista os grandes vazios
demográficos no Rio Juruá e as poucas pesquisas que aí tivemos oportunidade de
realizar. As margens inundadas e pródigas em piuns determinaram uma mudança de
rotina de somente aportarmos no nosso destino depois de remar uma média de 8h30
diárias ou quando precisássemos coletar informações sobre as comunidades. A
ingestão d’água ou alimento foi feita no meio do rio com o propósito de evitar
o assédio desses terríveis insetos. As comunidades ribeirinhas são formadas por
verdadeiros heróis e na acepção literal da palavra e não naquela que a mídia
sensacionalista prima em empregar. Os “heróis midiáticos” não seriam capazes de
suportar uma semana se quer o desafio cotidiano das barrancas da bacia do
Juruá.
A
histórica insalubridade da região agravada pela falta de políticas publicas de
longo prazo que melhorem as condições de vida da população tem provocado um
êxodo continuo para os grandes aglomerados urbanos, o grande número de
eleitores concentrados nessas regiões faz com que os politiqueiros de plantão
não se preocupem com a rarefeita população marginal de cujo voto não dependem,
absolutamente, para se eleger. A Amazônia precisa com urgência de um ministério
que trate de suas endêmicas e seculares questões. Carece de planos plurianuais
e não de medidas emergenciais que atendam apenas as necessidades eleitoreiras
momentâneas de seus idealizadores e que não solucionam os problemas que se
arrastam há décadas, quero deixar aqui patente meu apreço por estes homens e
mulheres que nos acolheram no seio de suas casas e comunidades, partilharam
suas refeições conosco, nos contaram suas histórias de vida e ouviram emocionados
nossos relatos conquistando por fim nossos corações e mentes.
- Movimento Pró-Acre
A
proximidade física de Guajará e de Ipixuna, municípios do sul do Amazonas
criaram uma dependência extrema ao Estado do Acre através de Cruzeiro do Sul, e
está ligado ao resto do país, ainda que precariamente pela BR 364. A distância
dos grandes centros do Estado do Amazonas, a dificuldade de atendimento as
questões sanitárias e educacionais agravadas pelos problemas de abastecimento
no período da estiagem vem simulando um movimento sutil que ambiciona que os
municípios de Guajará e Ipixuna passem a integrar o estado do Acre e não do
Amazonas. É interessante verificar que um estado que tanto lutou para que o
Acre fosse integrado ao seu território se veja agora envolvido num processo que
coloca em risco sua própria integridade.
- Ipixuna, AM (09.01.2013)
Pela
primeira vez desde que iniciamos nossas amazônicas expedições estamos
encontrando sérias dificuldades logísticas e consequentes implicações
financeiras. A ausência de um suprimento de fundos para arcar com as despesas
de combustível com a lancha de apoio tem sido o item mais preocupante.
Felizmente, em Ipixuna, a promessa feita pelo empresário Sr. Abraão Cândido se
realizou e além de conseguirmos autorização para aportar nossas embarcações no
seu porto flutuante, fomos abastecidos com 115 litros de combustível
gratuitamente. Estes “ermos sem fim” determinam que só tenhamos a possibilidade
de abastecer daqui a 570 km em Eirunepé dificuldade que se estende até a foz do
Juruá. A quantidade de combustível que precisa ser carregada a bordo aumenta
consideravelmente o seu consumo. Este fator acrescenta uma dificuldade maior
ainda a essa já tão complexa e difícil missão de descer de caiaque os 3000 km
do Juruá e os 900 km de sua foz, pelo Solimões, até Manaus.
Mais
uma vez agradecemos à pronta e gentil acolhida, em Ipixuna de nossos caros
amigos da Polícia Militar do Estado do Amazonas, na pessoa do seu comandante o
Primeiro Tenente Rodney Barros Ferreira, que providenciou hotelaria, abrindo
mão de seu próprio quarto no hotel e o de um de seus auxiliares para nos
acomodar, além de providenciar três refeições diárias aos membros da expedição
durante esses dois dias de permanência na sua cidade. Faço votos para que em Eirunepé
tenhamos a ventura de encontrar outros amigos de mesmo quilate.
Mais
uma vez fazemos um apelo desesperado a nossos investidores para que continuem
colaborando, cada um dentro de suas posses, para que possamos cumprir a meta de
chegar a Manaus. Aqueles que ainda não conhecem nosso projeto peço que visitem
o Blog:
- Investimento em Soberania
Conta
Bancária de Hiram Reis e Silva
Banco
do Brasil (001)
Agência:
4 8 4 8 - 8
Conta
Corrente: 117 889 - X
CPF:
415 408 917 04
Endereço:
Rua Dona Eugênia, 1227
CEP
90630-150 - Porto Alegre - RS
Telefones:
(51) 3508 6265 / (51) 9234 2378
E-mails:
hiramrs@terra.com.br
hiramrsilva@gmail.com
- Livro do Autor
O
livro “Desafiando o Rio-Mar – Descendo o Solimões” está sendo comercializado, em Porto Alegre , na
Livraria EDIPUCRS – PUCRS e na rede da Livraria Cultura (http://www.livrariacultura.com.br).
Para visualizar, parcialmente, o livro acesse o link:
http://books.google.com.br/books?id=6UV4DpCy_VYC&printsec=frontcover#v=onepage&q&f=false
----------------------------------
Solicito
publicação:
Coronel de
Engenharia Hiram Reis e Silva
Professor do Colégio
Militar de Porto Alegre (CMPA);
Presidente da
Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
Membro da
Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
Membro do
Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS);
Colaborador
Emérito da Liga de Defesa Nacional.
E-mail:
hiramrs@terra.com.br
quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
Cruzeiro do Sul/Ipixuna
Cruzeiro do Sul/Ipixuna
Hiram
Reis e Silva, Ipixuna, AM, 08 de janeiro de 2013.
- Partida para o Extremo da Boa Fé (05.01.2012)
Nossa
partida de Cruzeiro do Sul foi adiada tendo em vista o feriadão da passagem do
ano que retardou as medidas administrativas necessárias a enfrentar os 2.745 km que nos separavam
da 16º Brigada de Infantaria de Selva – a Brigada das Missões, comandada pelo
General Paulo Sérgio, onde poderíamos contar, novamente, com o apoio do Exército
Brasileiro.
Partimos
às 06h30 (hora oficial do Acre) com a ideia de percorrer os 260 km que nos separavam de Ipixuna
em quatro dias, uma média de 65 km/dia que poderia ser alcançada,
confortavelmente, com sete horas de remo diárias. Aqui no Amazonas, como no
Acre, os ribeirinhos ainda não adotaram a mudança de horário decretada pelo
governo, e ainda consideram uma hora a menos que o horário oficial como pudemos
verificar na Comunidade de Porungaba/AC. Como impor um horário oficial a um
povo cujo trabalho está ligado diretamente às leis da natureza?
Quando
ultrapassamos o limite entre o Estado do Acre e do Amazonas o relógio do
celular, automaticamente, alterou o horário e mais uma vez verificamos a
incoerência de se adotar o mesmo fuso horário para um Estado Continental como
este. Aqui os ribeirinhos, também, continuavam com o chamado “horário velho”.
O
dia transcorreu sem grandes alterações, continuei marcando a localização e o
número de famílias das Comunidades e não avistamos, neste dia, nenhum afluente
do Juruá. Os pequenos e graciosos botos tucuxis apareceram diversas vezes e
pareciam mais preocupados em demonstrar suas habilidades acrobáticas do que
realmente pescar. Por volta das doze horas solicitei ao Soldado Mário que nos
ultrapassasse e procurasse alguma comunidade que possuísse uma escolinha onde
pudéssemos acampar com certo conforto. Eu e o Marçal estávamos preparados para
remar por mais umas duas horas, mas o Mário aportou em uma pequena Comunidade à
frente onde conseguiu autorização da esposa do Sr. Expedito Braz da Conceição
para que acantonássemos na escolinha da pequena Comunidade Extremo da Boa Fé.
Havíamos remado 80 km
neste dia.
A
quantidade de piuns era impressionante, depois de tomar banho no Rio, entrei
para barraca, montada na sala de aula da Comunidade e dei início à digitação
dos dados coletados. Os piuns, para os quais não existe qualquer tipo de
repelente nativo ou industrializado, me atormentavam. Os pequeninos insetos
passavam pela tela da barraca como se ela não existisse.
A
noite foi relativamente tranquila, exceto pelos grunhidos dos porcos que tinham
se abrigado da chuva sob o piso da escolinha e passaram a noite inteira grunhindo
e por vezes brigando.
- Partida para a Comunidade Boca do Campina
(06.01.2012)
Remamos
pouco menos de 20 km
e chegamos ao chamado por alguns ribeirinhos de “Paraná Boa Fé”, que na verdade é um Rio, pois suas águas não ligam
o Juruá a qualquer outro Rio como seria o destino de um verdadeiro Paraná.
Continuando
nossa expedição abordamos o Estirão do Ipixuna, que se inicia desde a foz de um
pequeno Igarapé que leva o mesmo nome do Estirão e que é conhecido por alguns
ribeirinhos como Igarapé do Cagão (coordenadas da foz –07º14’03,7”S / 72º18’14,3”O).
É, sem dúvida, até então, o trecho em que o Juruá é menos sinuoso, apenas nove
curvas importantes, se estendendo por uns 30 km até as coordenadas 07º12’44,2”S /
72º07’03,2”O. Eu havia solicitado que o Mário marcasse algumas Comunidades para
que pudesse confrontar os dados mais tarde com os meus e, graças a isso, ele só
conseguiu nos alcançar nas proximidades da Comunidade da Boca do Campina, à
margem direita do Juruá e do Igarapé Campina que faz a divisa dos municípios de
Guajará e de Ipixuna. Havíamos remado 85 km neste dia.
Após
contato com o professor Raimundo Nonato Andriola, da Escolinha Sólon Melo,
conseguimos autorização para acantonar na mesma. Antes de ocuparmos a escolinha
o professor determinou às filhas e sobrinha que fizessem uma faxina na mesma. A
esposa do professor, Maria Gesilda Saturnino da Costa, agente de saúde da
Comunidade, permitiu que o Marçal preparasse o nosso almoço na sua cozinha e
mais tarde fizeram uma festa surpresa, em comemoração ao meu aniversário, com
direito a bolo e refrigerante. O professor e sua família foram por demais
prestativos e nos proporcionaram toda atenção possível.
Passeamos
eu e o professor, pela Comunidade e, mais de uma vez ouvi as reclamações dos ribeirinhos
em relação às restrições do pessoal ligado ao meio-ambiente que acabam
provocando a evasão dos mesmos em direção aos grandes centros. Como se já não
bastassem as precárias condições de vida que lhes inflige o meio extremamente
hostil, lhes são impostas restrições de toda a ordem que impedem as comunidades
de alcançar uma vida mais digna e com mais segurança. Nesta Comunidade existe
um enorme Jacaré-açu que volta e meia lhes subtrai animais domésticos criados
com tanta dificuldade. Na época da alagação, as águas permitem que este animal
transite com liberdade pela Comunidade e sob as casas criando um clima de
terror entre seus membros. O trânsito entre as residências é feito através de
um terreno encharcado que poderia ser melhorado através de passarelas, mas
seria necessário usar a madeira da mata vizinha e aí entram os talibãs verdes
impedindo ou dificultando providências desta espécie. O professor estava de
prontidão na hora de nossa despedida e partimos guardando em nossos corações,
mais uma vez, o carinho e a consideração do povo das águas.
- Partida para a Ipixuna (07.01.2012)
Partimos
logo ao alvorecer tendo como objetivo aportar em Ipixuna, a 95 km de distância. Graças ao
bom Deus a chuva intensa que caiu durante a noite arrefeceu a canícula
amazônica e depois de pouco mais de hora de remo experimentamos uma chuvinha
fina e agradável que refrescava nossos corpos atenuando em muito nosso esforço.
Demarcamos
a Foz principal do Riozinho da Liberdade (07º10’51”S / 71º48’42”) e uma Foz
mais a montante (07º11’21”S / 71º50’04,2”), que na época da alagação gera uma
segunda Boca. Confirmamos essa nossa interpretação, baseada na fotografia aérea
do Google Earth, de 31.12.1969, e de nossa observação do terreno, baseada no
relevo e vegetação e confirmamos nossas expectativas com moradores locais
Há
pouco mais de 30 km
de Ipixuna, nas proximidades da Comunidade Nova Esperança, identificamos um Furo
(07º08’32,5”S / 71º47’30,8”O). O tumultuário Rio eliminara, mais uma vez, um de
seus inúmeros laços abreviando seu traçado. Na chegada a Ipixuna tentamos, sem
sucesso, pedir apoio à expedição contatando com as autoridades Policiais
Militares através da central de Manaus. Esta é minha quinta incursão pelos
amazônicos caudais de modo que, lembrando de minha primeira expedição, pelo
Solimões, pedi ao Sd Mário que solicitasse a um moto-táxi que avisasse de nossa
presença no porto da cidade.
Mais
uma vez, nossos amigos da Polícia Militar, desta feita representados pelo 1º Tenente
Rodney Barros Ferreira, nos apoiaram incansavelmente. O Tenente nos colocou em
contato com o representante do empresário Abraão Cândido, que conhecêramos em
Manaus, com a finalidade de aportar as embarcações e guardar nossos pertences.
Depois
de descarregarmos o material da lancha o Tenente nos levou até o restaurante da
simpática acreana, Sra. Consuelo, que havia preparado uma saborosa refeição
para os exaustos navegantes. O prestativo policial providenciou acomodações em
um hotel e nos indicou aonde fazer as refeições. Graças ao novo amigo da PM do
Estado do Amazonas conseguimos fortalecer nossos corpos antes de partirmos para
uma jornada maior de 570 km
até Eirunepé.
terça-feira, 8 de janeiro de 2013
Kampũ – a Vacina do Sapo
Kampũ – a Vacina do Sapo
Hiram
Reis e Silva, Cruzeiro do Sul, Acre, 04 de janeiro de 2013.
Este remédio extraído da rã de nome
Kambô é bom porque traz felicidade e também para se caçar. Quando toma o Kambô
a caça se aproxima curiosa, pois quem o toma passa a emitir uma luz verde e é
esta luz que faz a caça e as coisas boas se aproximarem de nós. Serve para
tirar a panema (preguiça, perda de ânimo) e também desentope as veias do
coração e faz circular o sangue do ser humano como um todo. O uso do Kambô é milenar
em nossa tradição: vem da sabedoria dos nossos ancestrais. (Pajé Assis André
Katukina)
- Phyllomedusa bicolor
A
Phyllomedusa bicolor ou rã Kampũ, Kambo, Kambô, Cambo ou Sapo Verde, é uma rã
arborícola encontrada na Bolívia, Peru, Venezuela e Guianas, na Amazônia e em
algumas vegetações ribeirinhas do Cerrado brasileiro. É um anfíbio da Família
Hylidae da família das pererecas (Hylidae), apresenta placas aderentes na ponta
dos dedos, que facilitam a escalada dos troncos. É a maior espécie do gênero,
podendo chegar a quase 12 cm
de comprimento. A Phyllomedusa possui hábitos noturnos e os machos nos meses de
reprodução cantam empoleirados na vegetação em alturas de até 10 metros . Os ovos são
colocados sobre folhas nas margens de igapós e lagos permitindo que os girinos ao
eclodir caiam diretamente no ambiente aquático.
- O
Kambô e os Katukina e Kaxinawá
Os
animais são capturados, pelos pajés, durante a madrugada para extrair deles sua
secreção cutânea considerada como um antibiótico natural poderoso capaz de
combater e eliminar diversas moléstias. Embora não existam pesquisas
científicas que comprovem sua eficiência, alguns pesquisadores acreditam que
ela possa ser utilizada nos tratamentos do câncer e da AIDS, pois consideram
que ela reforça o sistema imunológico destruindo as membranas celulares das
bactérias.
Os
pajés consideram as doenças como um espírito negativo que ataca o indivíduo. Os
nativos fazem uso do Kambô para afastar o inimigo, acabar com o desânimo e
falta de vontade para caçar, para estimular a libido, afugentar a má sorte, a tristeza,
combater a baixa estima, fortalecer o corpo, a mente e o espírito, e fundamentalmente,
para buscar a harmonia com a natureza, melhora o fluxo sanguíneo permitindo
mais ativamente circular a emoção, o sentimento e o amor. Os líderes
espirituais afirmam que o remédio traz a sorte para quem caça, fazendo com que
o animal se aproxime curiosamente do caçador já que ao ser tratado com o Kambô
ele passa a emitir uma luz verde que faz a caça se aproximar.
Os
Katukinas, nunca matam os Kambô, pois acham que se o fizerem, poderão ser
picados por cobras. Os Ashaninkas, afirmam que se o sapo cantar próximo de uma cabana,
ele precisa ser imediatamente capturado e, a seguir, o nativo precisa queimar
os pulsos e, no alvorecer do dia seguinte, bater nas costas do sapo, para ele
soltar o veneno que será passado sobre o local.
- Pesquisa
Internacional
Fonte - Amazonlink
Pesquisas
científicas vem sendo realizadas sobre as propriedades da secreção da
Phyllomedusa bicolor desde a década de 80. O primeiro a “descobrir” as propriedades da secreção para a ciência moderna foi
um grupo de pesquisadores italianos. Amostras das rãs foram levadas do Peru por
um pesquisador para os EUA (o mesmo pesquisador que já tinha pesquisado e
patenteado anteriormente substâncias da rã Epipedobates tricolor, utilizada
tradicionalmente pelos povos indígenas do Equador). Também foram publicadas
pesquisas sobre as propriedades da secreção por pesquisadores franceses e
israelitas. Mais recente, a Universidade de Kentucky (EUA) está pesquisando (e
patenteando) uma das substâncias encontradas na secreção do sapo em colaboração
com a empresa farmacêutica Zymogenetics. Diversos laboratórios internacionais
já estão interessados no veneno do kambô para desenvolver um medicamento que
pode levar à cura do câncer.
- Resultados
surpreendentes
Fonte - Amazonlink
As
pesquisas revelaram que a secreção do Phyllomedusa bicolor contém uma série de
substâncias altamente eficazes, sendo as principais a dermorfina e a
deltorfina, pertencentes ao grupo dos peptídeos. Estes dois peptídeos eram
desconhecidos antes das pesquisas com o Phyllomedusa bicolor. Dermorfina é um
potente analgésico e deltorfina pode ser aplicada no tratamento da Ischemia (um
tipo de falta de circulação sanguínea e falta de oxigênio, que pode causar
derrames). As substâncias da secreção do sapo também possuem propriedades
antibióticas e de fortalecimento do sistema imunológico e ainda revelaram
grande poder no tratamento do mal de Parkinson, AIDS, câncer, depressão e
outras doenças. Deltorfina e Dermorfina hoje estão sendo produzidos de forma
sintética.
- Doenças
combatidas pelo kambô
O
medicamento vem sendo desenvolvido e mostrado bons resultados nas pessoas que
se encontram com dores e inflamação em geral: musculares, coluna, ciática,
artrite, reumáticas, tendinite, enxaqueca e outros. Cansaço nas pernas, dor de
cabeça crônica, asma, bronquite, rinite, sinusite, acne, alergias, gastrite,
úlcera, diabetes, pressão arterial, obesidade, problemas circulatórios,
formigamento, retenção de líquido, colesterol, cateterismo, doenças do coração
em geral, hepatite, cirrose, malária (aguda) e pós malária, labirintite,
epilepsia, TPM, irregularidades menstruais, infertilidade, impotência, redução
da libido, depressão e suas consequências, ansiedade, insônia, irritação,
insegurança, nervosismo, medo, stress, fadiga, sistema nervoso abalado,
esgotamento físico, mental, emocional, desintoxicação, dependência química e
tabagismo são algumas das possíveis doenças tratadas pela Vacina do Sapo. Trata
distúrbios nos órgãos genitais, pulmão, rim, vesícula, baço-pâncreas, bexiga,
coração, estômago, intestino, tiróide, fígado, garganta.
- Reação
A
reação da vacina dura cinco minutos. Nesse tempo ocorre a limpeza no campo
físico, energético, emocional e espiritual. Após cinco minutos a sensação é de
limpeza, leveza, tranquilidade, bem estar, paz interior e conscientização do
desequilíbrio ou distúrbio a ser tratado. Depois de 30 minutos da aplicação, a
pessoa já está apta para suas atividades normais. (...)
- Aplicação
é Indolor e os Efeitos Imediatos
A
coleta da substância da rã é feita sem machucá-la, no tempo certo e na lua
certa. Conhece-se o animal pelo canto. Logo que a secreção é retirada, ele é
devolvido à mata. Após seis meses a rã pode ser reutilizada. Na aplicação não
utilizam-se agulhas. São feitos os pontos para introduzir a vacina no organismo
com um cipó em brasa (lembra um incenso), fazendo uma leve escamação na pele,
em contato com a pele, retira um pedaço pequeno, deixando a circulação exposta,
onde é aplicada a substância. O cipó usado é anti-inflamatório e após a
aplicação não é necessários cuidados especiais, pois a cicatrização dos pontos
é rápida. O tratamento é composto de três aplicações com intervalo de 30 dias
para cada aplicação.
- Pesquisa
“in loco”
Vídeo: http://youtu.be/iZ4q3hEVhW0
O Soldado Delcio Ubim Tesquim, do
61º BIS e membro da Terra Indígena Poyanawas (Dukuda Kayapaika), município de
Mâncio Lima, AC, apresentou-nos ao Pajé José Luiz (Puwẽ). Infelizmente, não
conseguimos realizar a aplicação da Vacina do sapo na quarta-feira, 02.12.2013,
como era nossa intenção, o Pajé afirmou que tinha usado seu último estoque da
secreção e agendamos, então, para o dia seguinte (03.12.2013).
Chegando cedo à aldeia, o Pajé José
Luiz, devidamente paramentado, levou-nos até a Arena, conhecida por eles como “Casa, Floresta de Todos Nós” (Dimanã Ẽwê
Yubabu) onde realizam diversos eventos culturais, entre eles os “Jogos da Celebração”. Eu e o Marçal
fomos orientados a beber goles generosos de Caiçuma. Sou abstêmio convicto, mas
o pajé garantiu que a bebida tinha um teor alcoólico bastante baixo e fazia
parte do ritual, por isso, bebi.
Caiçuma:
não perguntei como eles preparavam a bebida, mas, normalmente, as mulheres da
comunidade depois de cozinharem a macaxeira reúnem-se para a mastigarem,
colocando a mistura em um recipiente feito de argila. A massa sofre fermenta e apresenta
no final do processo um sabor levemente adocicado e azedo de textura e cor
semelhante ao leite. Quanto maior o tempo de maturação do produto maior seu
teor alcoólico. (Nota do Autor)
Após a ingestão da bebida fomos
levados por uma trilha para o interior da mata onde ingerimos mais caiçuma. O
Soldado Tesquim foi encarregado de fazer as tomadas das cenas. O Pajé preparou
um cipó-titica e com ele em brasa somente aproximou-o de meu braço fazendo
cinco aplicações com o intuito de remover parte da pele. O processo foi
totalmente indolor.
Cipó-titica:
é da espécie botânica Heteropsis flexuosa, encontrada na Amazônia, nas áreas de
terra firme. Quando adulto, o caule grosso, lenhoso, resistente e durável, é
utilizado na indústria moveleira e no artesanato. (Nota do Autor)
Após isso adicionou um pouco de água
a uma pequena espátula de madeira onde se encontrava a secreção do Kampũ.
Passou então uma pequena porção da mistura em cada um dos cinco pontos
preparados do braço esquerdo. O Soldado Tesquim, neste momento, aproximou-se
disse que a máquina estava sem memória para continuar as gravações. Eu tinha
esquecido de deletar as fotografias anteriores, tentei removê-las, mas o efeito
da vacina já começara a agir, passei a máquina para o Marçal que limpou a
memória toda, por isso perdemos a gravação da primeira parte do ritual.
Fui orientado pelo Pajé a me deitar
nas palhas que haviam sido colocadas para isso e literalmente apaguei, não sei
como cheguei até lá. Comecei a vomitar e o Pajé e seus assistentes, Isa e Xĩdu
procurara me deixar sentado. Só fiquei sabendo disso, depois, pelas gravações. Durante
todo o tempo tivemos acompanhamento constante do Pajé e de seus assistentes.
Volta e meia ele vinha até nós e usava sobre nossos corpos a fumaça do
cachimbo. Os mesmos procedimentos foram aplicados ao Marçal que teve uma reação
muito melhor que a minha. Levei mais de vinte minutos para ter condições de me
levantar, depois de ter vomitado diversas vezes.
Fomos levados então para tomar um
banho nas águas geladas do Igarapé Traíra. Foi um banho revigorante após o qual
nos sentimos em condições de voltar a Aldeia. Na casa do Pajé experimentei o
rapé já que, desde o ritual, saia de minhas narinas uma abundante secreção.
Ficamos conversando sobre a cultura dos nativos e de como as novas religiões
trazida para as Aldeias pelos Padres e Pastores vem determinando a perda de
identidade dos povos. A esposa do Pajé, a Sra. Awĩ Vari (Mulher Sol) se prontificou
a fazer uma pintura de jenipapo no meu braço direito e no do Marçal.
Foi uma experiência bastante
interessante que guardaremos com carinho por toda vida, mas, muito além disso
foi importante reconhecer no jovem casal dois guerreiros que trabalham e lutam
para manter viva sua cultura e a identidade de seu povo.
- Conclusão
Hoje, por volta do meio-dia,
estaremos na TV Juruá (SBT) concedendo nossa última entrevista ao repórter
Leandro Altheman Lopes e amanhã, voltaremos a enfrentar as águas tumultuárias
do Juruá. Estamos programando nossa chegada a Ipixuna, AM, na terça-feira. Queremos
deixar patente nosso agradecimento especial ao 61º Batalhão de Infantaria de
Selva, na pessoa de seu Comandante Tenente-coronel Alexandre Guerra e ao
Capitão Gustavo Mayrink Pedro da Silva, que não mediram esforços para tornar
nossa estada em Cruzeiro do Sul a mais agradável possível além de apoiar-nos
irrestritamente no tocante a Expedição General Belarmino Mendonça.
Fontes:
SOUZA, Moisés B. Diversidade de Anfíbios nas Unidades
de Conservação Ambiental: Reserva Extrativista do Alto Juruá (REAJ) e Parque
Nacional da Serra do Divisor (PNSD), Acre – Brasil – UNESP- Rio Claro, SP. 2003,
p.56-57. (Tese de doutorado).
SOUZA, Moisés B. et al. Anfíbios. In: CUNHA, M. C. da;
ALMEIDA, M. B. (Orgs.). Enciclopédia da Floresta: O Alto Juruá: Práticas e
Conhecimentos das Populações, São Paulo - SP., Companhia das Letras, 2002,
p.608-610.
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