Na pousada consegui secar as roupas molhadas e me reorganizar para a próxima empreitada. O atendimento cordial da gerência, o preço diferenciado para idosos e a qualidade das instalações da Pousada da Laguna Apart Hotel, certamente nos servirá de referência para a próxima travessia em abril de 2012.
– Partida de São Lourenço (19 de setembro)
O merecido descanso em São Lourenço nos recompôs e partimos confiantes para a terceira etapa de nossa travessia na Laguna dos Patos rumo ao Rio Camaquã. Os ventos, porém, e as ondas de través não haviam diminuído sua intensidade exigindo de nós um esforço muito grande para progredir. Fizemos uma parada intermediária (31°19’58,83”S/51°55’40,26”O) antes da Ponta do Quilombo de onde rumamos diretamente para Este pegando, a partir daí, o vento de proa, novamente o Professor Hélio conseguiu assumir o comando de seu voluntarioso caiaque “Anaico” e avançamos celeremente a uma velocidade de 4nós (7,2km/h).
Paramos na Ponta do Quilombo (31°20’00,83”S/51°51’20,96”O) e mostrei ao Hélio nosso objetivo a Nordeste, a Foz do Camaquã, ele sugeriu uma parada a uns cinco quilômetros adiante no que parecia, pelo mapa do Google Earth, uma extensa praia de areias brancas. O vento ia golpear o caiaque do Hélio com ondas de través, novamente prejudicando-lhe a progressão. Avancei diretamente para o ponto sugerido (31°17’58,45”S/51°49’32,76”O) e aguardei o amigo em terra. O Hélio mal parou para descansar e resolveu continuar a progressão acompanhando a costa enquanto eu, depois de aguardar um tempo, procurei orientar minha rota diretamente para a foz do Camaquã.
Aportei próximo à foz (31°17’10,18”S/51°46’17,01”O) e arrastei o caiaque para um banco de areia mais ao Sul deixando-o de lado para que o professor pudesse avistá-lo de longe. Calibrei o GPS e fiquei, algum tempo, admirando as aves que emprestavam um colorido especial à mesopotâmia camaquense. Um enorme bando de colhereiros cor-de-rosa chamou-me, em especial, a atenção com suas graciosas evoluções e cores que se mesclavam com o azul celeste.
Colhereiros cor-de-rosa (Platalea ajaja): para obter alimento, a ave arrasta o seu bico sensível em forma de colher de um lado para o outro revirando o lodo. No período reprodutivo, exibe uma bela plumagem cor-de-rosa. A ingestão de peixes, insetos, camarões, moluscos e crustáceos que contenham carotenóides dão uma coloração rosada ao colhereiro, que se torna mais intensa na época da reprodução.
O Hélio demorou um pouco, pois confundira-se com a trama aquática da região e depois de descansar um pouco partimos pelo delta assoreado do Camaquã para nosso destino na Ilha de Santo Antônio.
Avistamos uma pequena ilha na entrada da Barra Grande e penetramos confiantes nas águas do Camaquã. Logo na entrada observei intrigado uma estranha embarcação que se aproximava. Era o amigo Pedro Auso Cardoso da Rosa e sua esposa Vera Regina Sant’Anna Py em seu caiaque oceânico duplo totalmente modificado com dois estabilizadores na popa e suportes para carga na proa.
Os amigos nos conduziram até uma cabana (31°14’42,63”S/51°44’54,37”O) de seu amigo Henrique, na Ilha de Santo Antônio, onde pernoitaríamos. Na cabana nos aguardavam o Coronel Sérgio Pastl e seu dois netos Pedro Sérgio Londero Pastl e Brian Pastl Wechenfelder. O Mestre Pedro fez questão de transportar os caiaques no seu reboque da praia até a cabana. Depois de arrumarmos nossas tralhas e tomarmos um bom banho saboreamos a refeição preparada pelo nosso dileto amigo Pastl. Dormimos cedo para enfrentar a jornada seguinte.
– Vera Regina Sant’Anna Py
Matas, rios, estradas,
Capoeiras e banhados,
Servem de rumos
Para eu deixar de ser gente
E transcender...
Junto d’alma da terra mãe. (...)
O segredo da felicidade
Humm... deve ser decodificado
Escute, mergulhe, entre e perfure... (...)
(Vera Regina)
A professora Vera Regina, gaúcha de Guaíba, reside em Camaquã, RS, é graduada em Ciências, especialista em meio ambiente e toxicologia aplicada. A canoagem lhe proporcionou uma mágica aventura pelo cânion Fortaleza, em Cambará do Sul, RS, que ela procurou materializar, pela primeira vez, através de um poema. Companheira fiel de seu esposo Pedro Auso Cardoso da Rosa ela o acompanha nas remadas, caminhadas, pedaladas e outras tantas aventuras radicais pelos nossos rincões. A poetisa-escritora faz uma crítica contundente ao desrespeito à natureza promovido pelo ser humano afirmando: “acho que o homem necessita acordar urgentemente para um verdadeiro respeito pela natureza”.
Vera Regina presenteou-nos com seu belo e inspirado livro “O rio Camaquã e a Canoa” que como ela mesma afirma: “é um entrelaçar de esporte e poesia, com conhecimento ecológico, pois percorri os 230km do rio e quero que vocês também o façam comigo”.
– Partida para a Casa Vermelha (20 de setembro)
Os amigos aguardavam a balsa para transpor o Camaquã quando descemos o Camaquã rumo à Casa Vermelha como a professora Vera identificara nosso destino final. O vento forte nos fez procurar abrigo na margem esquerda do Rio e chegamos à foz sem grandes problemas. Iríamos enfrentar fortes ventos de proa, novamente, e sugeri uma parada intermediária e nela aguardei o Hélio admirando e fotografando a vegetação do entorno.
Quando decidi seguir rumo à Ponta do Vitoriano meu suporte do leme partiu e comecei a sofrer com os problemas de navegação similares aos que afligiam o professor Hélio. Depois de tentar, durante algum tempo, impingir uma rota fixa ao “Cabo Horn” forçando por demais o braço direito já que as ondas de través atingiam primeiramente a popa à Boreste arrastando o caiaque para a direita, decidi remar naturalmente. Deixava o caiaque fazer uma longa curva na direção das ondas me afastando da margem e depois surfava até a costa aproveitando as ondas de popa, era um ziguezaguear constante que embora aumentasse a distância me poupava o desgaste do braço direito. A meio caminho entre a foz do Camaquã e a Ponta do Vitoriano avistamos uma bóia de sinalização encalhada e depois, na Ponta do Vitoriano, mais outras duas. O Cel Pastl me assegurou que por mais de uma vez fez reclamações junto às autoridades competentes, mas que até hoje nada foi providenciado deixando os grandes e perigosos Bancos de Areia sem qualquer tipo de sinalização visual.

Da Ponta do Vitoriano avistamos a chaminé de uma antiga instalação do IRGA (31°12’03,49”S/51°38’34,34”O) na Praia do Areal e mais adiante a tal casa vermelha mencionada pela amiga Vera Regina. O Hélio seguiu costeando e eu apontei a proa para a chaminé surfando nas ondas de través. Sem o leme, porém, a tendência do “Cabo Horn” era desviar para Boreste, dificultando um pouco a navegação. Aportei nas proximidades da chaminé junto a um grupo de pescadores que retirava o fruto de seu labor das redes. Estavam, já há algum tempo, instalados no complexo do IRGA e, como a instalação tinha sido vendida a particulares, teriam de abandonar o local. Combinei com o Hélio a próxima rota, diretamente para a casa vermelha mencionada pela amiga Vera e parti.
Aportei na praia da tal Casa Vermelha - Fazenda Flor da Praia (31°08’25,59”S/51°37’06,85”O), e procurei alguém para me informar onde estariam meus parceiros. As instalações da fazenda eram impressionantes e achei que desta vez usufruiríamos de acomodações confortáveis para o pernoite. Ledo engano, o capataz, devidamente armado, apareceu muito tempo depois e nos informou que não recebera nenhuma ordem no sentido de nos hospedar e que nossos amigos deveriam estar mais adiante nas antigas instalações da fazenda onde estavam acampados outros pescadores. Nesta altura o Hélio e eu muito cansados e encarangados tivemos, desolados, de nos resignar e continuar até a instalação indicada.
Acabei de falar com o Sr Gabriel da Fazendo Flor da Praia que nos autorizou a entrar na propriedade e acampar na beira da Praia. Peguei, também uma carta na 1ª DL, que nos dá a posição do local como: 31°54’10”S/51°40’11”W. Há três prédios pela vista da carta (galpões bem junto à praia). Como referência é mais ou menos o dobro da distância entre a raiz do Banco do Vitoriano e a chaminé do engenho da Praia do Areal. (E-mail do Cel Pastl - 16/09/11)
O último lance foi especialmente complicado para o Hélio que virou por mais de uma vez o caiaque golpeado pelas fortes ondas de través. Resolvi picar a voga para não virar também e para tentar conseguir um barco de resgate. Cheguei à praia (31°07’42,23”S/51°34’41,57”O) onde avistei o Pedro Sérgio e o Brian, netos do Cel Pastl, que me informaram que só eles estavam ocupando as instalações, portanto não havia nada a ser feito a não ser esperar pelo Hélio que chegou, depois de algum tempo, a pé depois de deixar o caiaque escondido numa vala.
– São Pedro de Cafarnaum x Sr Pedro de Camaquã
Por isso Eu te digo: tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder da morte nunca poderá vencê-la. (São Mateus, 16, 18)
Até então São Pedro de Cafarnaum (Aldeia de Naum), o “príncipe dos apóstolos”, conhecido também como “porteiro do céu”, “padroeiro dos pescadores” e, sobretudo, “manda-chuva” tinha imposto à nossa travessia todo o tipo de obstáculos e dificuldades. Dificuldades essas que foram amenizadas, em grande parte, com a chegada de seu xará o Senhor Pedro de Camaquã (Rio Correntoso). Os amigos brigadianos de Camaquã comandados pelo Sargento PM Juliano, atendendo ao pedido do Cel Pastl que solicitara a indicação de um vaqueano da região, conhecedor não somente dos locais de paragem ao longo da Laguna dos Patos, mas que fosse prestativo e tivesse livre transito entre os moradores da região, chegaram, finalmente, ao amigo Pedro graças à indicação de seu sobrinho Josemar Rosa de Sousa.
Raramente em minhas seis décadas de vida tive a oportunidade de conhecer uma pessoa mais afável, criativa e prestativa. O Pedro só sossegou depois de resgatar o caiaque do Hélio que tinha ficado na margem. A operação, que se estendeu noite adentro, enfrentou porteiras fechadas a cadeado e com isso a equipe formada pelo Sr. Pedro, Professor Hélio, Cel Pastl e seus dois netos, teve de carregar na mão, por quase três quilômetros, o caiaque até o reboque antes de transportá-lo ao acantonamento. Em Porto Alegre haviam adaptado um leme no caiaque do Hélio que não estava sendo utilizado porque o tinham colocado totalmente fora do alinhamento além de furarem o casco. O Pedro resolveu então substituir o meu suporte do leme quebrado pelo do caiaque do Hélio e só retornou à sua cidade depois de concretizar sua missão. A colocação resolveria meu problema de navegação, mas o professor Hélio continuaria enfrentando mais surpresas pela frente.
Belo Rio Camaquã!
Do serpentear do teu leito
Levamos a grata lembrança
Do vigilante Martim-pescador,
Do vôo da Garça moura,
Do saltar da tainha,
Da espuma da correnteza,
Da rede do pescador...
(Vera Regina)
Finalmente, um dia de sol e ventos amenos. A noite foi longa, a residência não tinha portas nem janelas e o vento frio castigou-nos durante toda a noite. O saco de dormir estendido diretamente sobre o piso duro também não era nada confortável. Saímos depois das sete horas para permitir que o sol aquecesse um pouco o ambiente e secasse nossas roupas de viagem. O Cel Pastl partiu com os netos prometendo deixar acertado nosso pernoite nas instalações do destacamento da Brigada Militar de Arambaré.
– Partida da Fazenda Flor da Praia (21 de setembro)
Indescritível o cenário e a hospitalidade na Costa Oeste. Somente conhecendo o povo, especialmente na Fazenda Flor da Praia e na Ilha do Camaquã, e os brigadianos da região para aquilatar. O tempo atrasou nossos nautas entre o Laranjal e a Feitoria, que chegaram apenas domingo à tarde em São Lourenço. Segunda-feira rumaram ao Camaquã, na Ilha St° Antônio, onde tivemos apoio do Sr Pedro Auso e sua Senhora, Profª Vera, pessoas de fino trato e robustas nas aventuras de caiaque pelas águas do Rio Grande. Na terça chegaram os nautas, com luta, quebra de leme, capotagens no ventão até a Fazenda Flor da Praia, e hoje em Arambaré. Amanhã irão a Tapes, onde haverá pausa até sábado, quando partirão para a Ilha Barba Negra. Vamos contar com o Maj Vitor Hugo e o Major Nunes nesta perna da jornada. Breve mandaremos relatos mais completos. Por enquanto muito obrigado, vocês são mesmo pessoas muito importantes e boas apoiando este projeto. (E-mail do Cel Pastl - 21/09/11)
Iniciamos nossa remada até o Banco da Dona Maria imprimindo um ritmo forte e constante de 4 nós (7,2km/h). Fizemos uma parada intermediária em um ponto de captação d’água para as plantações de arroz (31°06’10,73”S/51°30’05,34”O), a vegetação nativa esbanjava beleza com inúmeras bromélias e orquídeas e as várias pegadas de pequenos animais na areia e nas trilhas mostravam que ali a natureza se encontrava em perfeito equilíbrio.
Descansados, continuamos nossa navegação e mais adiante passamos pelas ruínas mencionadas pelo amigo Pedro Auso. O Pedro já acampara ali uma vez aproveitando a proteção da construção de alvenaria. Paramos na Ponta da Dona Maria e mostrei para o Hélio o canal de acesso à Lagoa do Graxaim em cujas margens se encontra a cidade de Santa Rita do Sul. O sol forte e os ventos fracos contrastavam com as condições climáticas que enfrentáramos até então.
Aportamos na boca da Lagoa do Graxaim (31°03’50,74”S/51°28’01,12”O) onde consegui me comunicar com o pessoal de apoio pela Operadora VIVO. As grandes Garças Mouras e um descuidado João Grande pescavam despreocupadamente na margem da Lagoa parecendo não notar nossa presença. Continuamos costeando e admirando a mata nativa e as belas figueiras encasteladas nas enormes dunas de areia. Um conjunto, em especial chamou-me a atenção e paramos para escalar as dunas e admirar as figueiras, totalmente tomadas pelas bromélias e orquídeas (31°01’35,98”S/51°29’09,89”O). Os monumentos arbóreos cravaram suas raízes nas voláteis e alvas areias tentando, em vão, equilibrar-se enquanto as areias lenta, inexorável e criminosamente escoavam duna abaixo expondo mais e mais as magníficas fundações das centenárias figueiras. A beleza do entorno era fantástica, infelizmente minha máquina fotográfica emperrara e eu não pude materializar a bela paisagem que nos cercava.
Topamos no caminho com algumas lontras ariscas que nadavam graciosamente em busca de suas presas e logo adiante vislumbramos ao longe a chaminé do antigo complexo do Hotel e Engenho da Família Cibilis que na década de 40 e 50 era o esteio da economia do Município de Arambaré. Admiramos a bela praia da Costa Doce de aproximadamente 6 km de extensão de muita beleza e entramos no Arroio Velhaco que nasce na cidade de São Jerônimo. Logo em seguida aportamos no Clube Náutico (30°54’38,01”S/51°29’47,50”O) onde estacionamos nossos caiaques e fomos procurar abrigo junto ao Destacamento da Brigada Militar.
Fomos gentilmente recebidos pelo Soldado PM Paulo que depois de nos instalar nas dependências do Destacamento levou-nos até o Posto de Saúde para que o Professor Hélio fosse atendido. O Hélio estava com uma infecção no tornozelo e foi prontamente atendido e medicado nas instalações impecáveis do Posto. Fizemos ainda um pequeno “tour” pela cidade para conhecer parte das quase duzentas figueiras cadastradas no perímetro urbano e a maior figueira do estado. Às belas figueiras urbanas e domesticadas falta, no entanto, o encanto das selvagens e fundamentalmente a magia da beleza agreste do seu entorno. A luta constante contra as intempéries empresta a essas um charme impregnado de poesia e coragem que as suas irmãs citadinas desconhecem.
O contraste entre a beleza do ambiente que cerca as figueiras selvagens e as “domésticas” fizeram-me lembrar as considerações de Madame Elizabeth Cary Agassiz e do naturalista suíço Luis Agassiz no seu “Relato de viagem ao Brasil em 1865-1866” em relação às vitórias amazônicas (vitórias régias):
Por mais maravilhosa que ela pareça quando admirada na bacia de um parque artificial, onde faz maior efeito pelo seu isolamento, tem, contemplada no meio que lhe é próprio, um encanto ainda maior; o da harmonia com tudo o que a rodeia, com a massa compacta da floresta, com as palmeiras e as parasitas, as aves de brilhante plumagem, os insetos de cores vivas e maravilhosas, com os próprios peixes que, escondidos nas águas, por baixo dela, têm suas cores não menos ricas e variadas do que as dos seres vivos do ar. (AGASSIZ)
À noite o Sr. Pedro Auso apareceu com o leme de seu caiaque para adaptá-lo no caiaque do professor Hélio. Teríamos apenas que regulá-lo na margem de acordo com o ângulo de incidência das ondas de través.
– Capital das Figueiras
Inicialmente chamava-se “Barra do Velhaco”, por estar situada na Foz do Arroio Velhaco. Em 1938 passou a denominar-se “Paraguassu” e, em 1945, adotou o nome de “Arambaré”, que quer dizer “o sacerdote que espalha luz”. Nesta localidade, conhecida desde os tempos coloniais de 1714, moravam índios com costumes especiais - pescadores e comerciantes de peles que tinham mãos e pés bem desenvolvidos. Eram os índios Arachas, também conhecidos como Arachanes ou Arachãs, que na língua tupi significa “patos”. Por volta de 1763 casais açorianos vindos para o sul estabeleceram-se na margem esquerda do estuário do Guaíba e na margem direita da Lagoa dos Patos, fundando fazendas e charqueadas até o rio Camaquã. Desde essa época, os habitantes do então distrito de Arambaré uniram-se na busca do desenvolvimento através da agricultura, da pecuária e, sobretudo pelo grande potencial turístico e pela beleza natural da localidade, emancipada em 20 de março de 1992 do município de Camaquã e de parte do município de Tapes. (http://www.portalarambare.rs.gov.br/)
– Partida de Arambaré (22 de setembro)
Partimos cedo contando mais uma vez com o apoio dos amigos brigadianos. O tempo favorecia e chegamos em tempo recorde até o Banco dos Desertores onde o amigo Pedro Auso eventualmente acampa (30°52’43,87”S/51°23’22,13”O). Infelizmente, alguns campistas ignorantes fazem fogo junto às raízes das seculares figueiras que hoje dão visíveis sinais de fragilidade e dentro em breve tombarão vítimas silentes da inconsequência do ser humano.
Ultrapassamos o Banco dos Desertores e seguimos rumo Norte penetrando na enorme enseada conhecida como “Saco de Tapes”. Os bosques de pinus, ao longe, não respeitam as fronteiras humanas e invadem lenta e progressivamente as áreas de mata nativa, derramando-se pelas areias brancas das dunas. Como os hunos de outrora, as hordas bárbaras sufocam e padronizam com sua intensa monotonia os belos campos. Indefesas figueiras prestes a serem sufocadas pelos pinheiros aguardam estáticas as impiedosas mortalhas que avassaladoras se aproximam.
Outros sinais fatídicos da presença humana se fazem presentes na poluição das águas, o mau cheiro e a espuma flutuando na superfície marcam sua presença. A enseada que protege Tapes de poluições de outros centros não permite esconder o descaso dos seus governantes em relação ao sagrado manancial que poluem sem qualquer critério, um crime ambiental para uma cidade que se propõe a abrigar um balneário turístico às margens da Lagoa. Encontramos, numa das paradas, uma pequena tartaruguinha que tentava nadar nas águas agitadas, resolvi deixá-la em um pequeno afluente mais calmo.
Chegaram hoje às 15h em Tapes os nautas, que tiveram ontem novamente o inestimável apoio do Sr Pedro Auso de Camaquã, bem como da guarnição da BM de Arambaré, destacando-se o Sd PM Paulo, Sd PM Lima e o Sd PM Guastuci. Pernoitaram e fizeram as refeições no Destacamento, e o Sd PM Guastuci gentilmente despachou o material de dormitório e cozinha hoje pelo ônibus para Tapes, onde o apanhei às 16h. No Clube Náutico Tapense fizeram uma refeição forte no Restaurante do Sr Roger, e hospedaram-se na casa de veraneio do Valmir e da Nara (ele é irmão da Aninha), no Balneário Pinvest. (E-mail do Cel Pastl - 22/09/11)
– Namorada da Lagoa
A região foi habitada por índios da tradição Tupi-Guarani. Por volta de 1808, atraídos pela fertilidade do solo e pela abundância das pastagens da região, imigrantes açorianos estabeleceram-se na área, instalando estâncias e charqueadas que foram a base da economia local por algum tempo. Posteriormente, decorrentes da própria configuração geográfica, desenvolveram-se a prática da agricultura e da pecuária que constituem atualmente a principais riquezas do Município. Mesclado com a cultura indígena, os açorianos e negros, seguidos dos imigrantes, desenvolveram aqui suas tradições, seus usos e costumes que hoje ainda fazem parte do nosso cotidiano. Em 1824, Patrício Vieira Rodrigues, adquiriu antiga a Sesmaria de Nossa Senhora do Carmo. No ano seguinte, estabeleceu uma charqueada na foz de um arroio na Lagos dos Patos, e passou a chamar-se Arroio da Charqueada. Em função desta atividade é criado no local, um porto, que deu origem à Cidade de Tapes. A primeira sede do Município, denominada Freguesia de Nossa Senhora das Dores de Camaquã, foi criada dia 29 de Agosto de 1833. Sua emancipação política e administrativa ocorreu em 12 de Maio de 1857, mas por questões políticas ou econômicas, a Freguesia passava a integrar ora no território de Porto Alegre, ora de Camaquã, chegando inclusive a pertencer a Triunfo e Rio Pardo. Em 16 de Dezembro de 1857, foi elevada à categoria de Vila, sendo esta a data considerada como a de emancipação política do Município. Em 25 de Junho de 1913, o Município desincorporou-se definitivamente de Porto Alegre e, em 22 de Maio de 1929, através de um plebiscito, foi realizada a transferência da Sede da Vila de Nossa Senhora das Dores para o Porto de Tapes, então 2º distrito. Posteriormente, o Decreto nº 10 de 21 de Setembro de 1929, muda o nome de “Município de Dores de Camaquã” para “Município de Tapes”, sendo Primeiro Intendente o Sr. Manoel Dias Ferreira Pinto. (www.riogrande.com.br)
– Partida para Costa de Santo Antônio (24 de setembro)
Amanhã deverão repousar e partirão sábado às 05h30, em direção o Acampamento do Sr. Willi (Capão da lancha), farão a travessia dos caiaques pela areia da restinga do pontal, e prosseguirão costeando ao norte em direção à Ilha da Barba Negra. De outra banda, o Cmt Vitor Hugo com este colaborador e o Major Nunes partiremos às 08h de sábado no impecável Marbe 24 do Comandante Vitor em direção contrária, estimando o Vitor Hugo cinco horas até Itapuã e mais duas horas e meia até o Morro da Formiga, a partir de onde iremos descendo costeando ao Sul. Combinei com o Comandante Hiram que ao crepúsculo, se ainda não tivermos nos encontrado que ele aportará a terra, e nós prosseguiremos com as luzes acesas no veleiro, e então ele lançará sinalizadores ao nos avistar. Estimamos chegar ao meio dia de domingo no Farol de Itapuã, e às 15h no Clube Náutico Itapuã. (E-mail do Cel Pastl - 22/09/11)
Tentamos passar a noite, na véspera da partida, no veleiro do Cel Pastl, mas os fortes ventos tornaram isso impossível. Partimos antes das seis horas depois de pernoitar na sauna do Clube Náutico Tapense. Os ventos de Este de 15 nós (27 km) não permitiam que atacássemos diretamente o estreito da restinga do Pontal de Tapes e apontamos a proa para o acampamento do Sr. Willi. No meio da travessia o vento mudou para Sudeste permitindo que eu alterasse a rota diretamente para o local da passagem. O Hélio resolveu seguir mais próximo à costa para se proteger um pouco da ação dos ventos. A marcação pelo GPS não podia ser mais precisa. No ponto de travessia terrestre havia um pequeno rebaixamento que certamente, na cheia, deve servir de passagem das águas da Laguna dos Patos até o Saco de Tapes.
Carregamos os caiaques e as tralhas pelo estreito para a margem da Laguna, parodiando numa escala infinitamente menor a travessia de Giuseppe Garibaldi, da Lagoa do Capivari até Tramandaí. Comunicamos nossa passagem ao Cel Pastl que se preparava com o Comandante Vitor Hugo para zarpar do Clube Náutico Itapuã. A navegação transcorreu favoravelmente até as 13h quando atracamos a uns quatro quilômetros do ponto previsto para nosso acampamento. Mantendo este ritmo conseguiríamos ultrapassar em uns 10 km o ponto previsto para estacionamento. Descansamos um pouco e nesse intervalo o vento alterou novamente para Este e aumentou sua intensidade para 25nós (45 km/h) dificultando bastante a progressão. Há exatos 999 metros do ponto, o caiaque do Hélio virou e ele resolveu rebocá-lo pela margem até o ponto de encontro com a equipe de apoio. Brinquei com o professor que a culpa era da numerologia escrevendo a distância que faltava na areia e pedindo que ele a lesse mantendo-se de frente para mim (666). Naveguei vigorosamente até o local previsto, estacionei o caiaque e peguei uma corda para ajudar a rebocar o caiaque do Hélio. Amarrei a corda nas alças de proa e popa e inclinei o caiaque 45° com a direção das ondas e deixei que elas o empurrassem até o acampamento.
Carregamos, exaustivamente, toras de lenha seca durante três horas para usar como sinalização para a equipe de apoio que infelizmente não apareceu. Improvisamos um acampamento no alto de uma duna protegido dos ventos. Passei a noite inteira alimentando uma pequena fogueira para nos aquecer e vez por outra subia até o topo da elevação para ver se avistava as luzes da embarcação da equipe de apoio. Levantei antes do sol raiar e chamei o Hélio para iniciarmos os preparativos para vencer o último lance de nossa travessia.
Os ventos de Este continuavam vigorosos e o Hélio teve de parar logo à frente. A proa do caiaque enfraquecida pelos quatro furos feitos para a colocação do leme improvisado tinham enfraquecido a estrutura e a popa apresentava uma fissura pela qual a água entrava com facilidade. Não havia mais condições do parceiro continuar naquelas condições. Subi até a duna mais alta e, como na tarde e noite anterior, não consegui contatar a equipe de apoio, relatei então ao amigo Pedro Auso nossa situação que me assegurou que tomaria alguma providência.
No final de todo imbróglio tivemos de deixar o caiaque pilotado pelo professor Hélio escondido nas dunas para ser resgatado oportunamente e o “Cabo Horn” foi tracionado pelo veleiro que teve de lançar mão do motor de popa para vencer os ventos de proa. Mais uma vez o “Cabo Horn”, da Opium Fiberglass, que durante todo o percurso dera mostras de sua capacidade de enfrentar ondas de todos os tipos e tamanhos percorreu durante quase três horas o percurso até o Morro da Formiga sem apresentar qualquer tipo de dificuldade no seu controle mesmo enfrentando ondas superiores a 2 metros.
No Morro da Formiga encontramos o amigo Pedro Auso e sua esposa Vera Regina que se deslocaram especialmente de Camaquã para nos apoiar até o Destacamento da Brigada Militar de Barra do Ribeiro onde a querida Rosângela Schardosim nos resgatou.
– Analogias à Parte
Mete-te no teu caiaque
e sem medo faz-te ao rio
e sente no coração um baque
e a adrenalina de fio a pavio...
E grita e tuas emoções liberta,
vence um e mais outro rápido
até chegares a zona aberta
onde o rio para perdido...
Faz-te ao rio ardiloso,
e sente-te vivo, bem vivo,
sente-te o ser mui poderoso
que tens o mundo em ti cativo
São esses desafios muito duros
que te põem as resistências
à prova e derrubas muros
e que felicidade provas!
(Maria Augusta Sá - Enfrenta tudo sem medo!)
Nossa jornada e a de Garibaldi tiveram trechos comuns como a foz do São Lourenço. A travessia contou, também, com uma parte terrestre, guardada as devidas proporções. Uma das embarcações, o Farroupilha, de Garibaldi naufragou antes de completar a missão de atingir Laguna, SC, o mesmo acontecendo com o caiaque pilotado pelo professor Hélio que avariado não pode chegar até o Guaíba. O apelo histórico talvez tenha sido forte demais e tenha interposto obstáculos adicionais à consecução de nossa proeza. Esse foi apenas um treinamento para que em abril do ano que vem possamos realizar a travessia, sem surpresas, em homenagem ao Centenário do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA).
Estamos envidando esforços de todo o tipo para que o Professor Hélio consiga, para aquela travessia, um caiaque oceânico modelo “Cabo Horn”. Isto evitaria surpresas e um desgaste físico desnecessário, já que este modelo é, sem sombras de dúvida, o caiaque ideal para enfrentar a Laguna dos Patos e suas condições meteorológicas adversas.