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sábado, 22 de janeiro de 2011

Desafiando o Rio-mar – Morada dos Deuses



Desafiando o Rio-mar – Morada dos Deuses

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“Alenquer, Vila considerável, abastada e bem situada sobre o desaguadouro central do Lago Surubiú, quatro léguas longe do Amazonas, e treze ao Norte de Santarém. É terra infestada do mosquito carapanã: a sua matriz demanda a Santo Antônio. Seus habitantes cultivam mandioca, milho, arroz, tabaco, e ótimo cacau, sua principal riqueza. A carne de gado, que se cria no seu contorno, é deliciosa”.
 (Manuel Aires de Casal - 1817)

- Partida para Alenquer (19/20 de janeiro de 2011)

Na noite anterior eu e o Teixeira participamos de uma ágape oferecida pelos gentis irmãos da Loja Força e Harmonia nº 19 do Oriente de Óbidos. Recolhemo-nos cedo, tendo em vista que a jornada fluvial começaria muito cedo. Partimos às 5h30, do dia dezenove, como ainda estava muito escuro liguei, por segurança, minha lanterna e parti, colado na margem esquerda, imprimindo um ritmo forte, rumo ao Paraná Mirim de Óbidos. Depois de remar 20 quilômetros, durante duas horas, avistei meu primeiro ponto de referência: a ponta Oeste da Ilha do Meio. Continuei remando próximo à margem direita e adentrei pelo Paraná do Piaba mantendo a média dos 11km/h. Cheguei ao destino programado, a 46 km de Óbidos, por volta das 10h20 e decidi continuar remando para encurtar a jornada do dia seguinte prevista para 56km. Chamei a equipe de apoio pelo rádio e informei minha decisão de continuar remando até o meio-dia quando escolheríamos um local adequado para aportar o Piquiatuba. As águas calmas e espelhadas, a brisa suave e fresca e a chuva fina e refrescante anunciavam que nossa estada na Morada dos Deuses seria bastante promissora. Por volta das 11h40min estacionei satisfeito, sem dores musculares e grande cansaço, concluindo um trajeto de 61 quilômetros, na Comunidade Centro Comercial. Fizemos, na oportunidade, uma pequena doação de gêneros aos ribeirinhos.

Partimos às 5h30, do dia vinte, rumo a Alenquer. O trajeto era curto, de aproximadamente 40 km e decidi remar sem paradas somente ingerindo água e alimentos em curtas paradas sem aportar. A chegada, em Alenquer, às dez horas da manhã teve apoio da mídia local e uma recepção sem precedentes pelos irmãos maçons da Loja Fraternidade Alenquerense capitaneados pelo Venerável Emanoel Lopes Bentes e do Presidente da Câmara de Vereadores e Prefeito Interino.


- Visita à Morada dos Deuses (21 de janeiro de 2011)


Conforme acordado no dia anterior foi colocado um micro-ônibus à nossa disposição a partir das oito horas para visitar a Morada dos Deuses, mas a chuva que havia caído à noite inteira e até o momento da partida não dera trégua obrigou-nos a transferir a saída para as treze horas. Acompanhados pelo filho do dono da propriedade, o Irmão Maçom Márcio Monteiro, finalmente chegamos à Morada dos Deuses, o nome não poderia ser mais adequado. As magníficas formações de arenito impressionam pela diversidade de formas impregnando o local de profunda energia telúrica e forte apelo místico convidando à meditação e a contemplação das belas obras de arte moldadas, pessoalmente, pelas mãos do Grande Arquiteto do Universo. Grandes monólitos de pedra quadrangulares dispostos horizontalmente um ao lado do outro lembram túmulos de antigos deuses. A explicação de alguns especialistas para as curiosas esculturas naturais seria a de que a região fora antes um rio caudaloso que paciente e esmeradamente esculpira as curiosas formações. Continuo afirmando que mesmo que essa explicação seja a verdadeira, o fato é que as águas nada mais foram do que um fluído pincel nas mãos do Criador.



- Reflexões na Rota Alenquer

As longas e solitárias marchas fluviais nos remetem à meditação. A distância e a falta de comunicação nos afastam, por vezes, da realidade e do dia-a-dia daqueles que nos são mais caros. Somente ontem fiquei sabendo do falecimento de minha querida prima Jussara Pacheco de Campos, no sábado passado, vítima de um cruel e mortal câncer que a acompanhava há anos. Desde o início ela lutou corajosamente sem demonstrar, jamais, qualquer temor em relação ao mal que a acometia. Envio meus sinceros sentimentos aos sobrinhos Fernanda e Diogo e a todos familiares bem como minhas desculpas em não poder comparecer ao féretro.

Recebi, recentemente, a correspondência indignada de um caro amigo canoísta denunciando que participou de uma fraude patrocinada por uma equipe de TV e pseudo desportistas. A proposta “I Expedição de Caiaque Manaus-Belém”, em parceria com as Federações Amazonense e Paraense de canoagem tinha como objetivo, além da descida de caiaque de Manaus a Belém, levar educação ambiental e social aos moradores das comunidades ribeirinhas. Infelizmente, a famigerada trupe forjava a suposta descida do Amazonas emperiquitada no barco de apoio e só colocavam os caiaques n’água quando estavam a pouca distância das comunidades e embarcavam tão logo passavam por elas. Tal fato foi confirmado por diversos ribeirinhos que encontramos ao longo do caminho. Meu amigo, um verdadeiro desportista, ficou indignado com o procedimento anti-esportivo e anti-ético e abandonou os farsantes em Santarém. Reproduzo, textualmente, seu e-mail: “No final de abril/início de maio, ‘embarcado’ na ‘canoa furada’ do Evaldo Malato, fizemos Manaus/Santarém. No início a programação foi seguida à risca, depois disso a equipe de TV da Amazon Sat deslumbrou o Malato e passamos, todos, a ser figurantes da programação de TV e de um documentário ‘mentiroso’. Remar? Última forma! Navegar no barco de apoio e desembarcar 15 minutos antes de chegar às povoações, assim simulando remadas de 100 km”.
Essa mentira patrocinada pela mídia local fez-me recordar o da jornalista presa no Paraná por envolvimento com traficantes e que obtinha informações privilegiadas sobre o local onde seriam encontradas as vítimas da quadrilha. A jornalista Maritania Forlin da Rede Independência de Comunicação (RIC), da Rede Record no Paraná, ao ser presa negou qualquer tipo de participação no tráfico e que apenas mantinha relacionamento amoroso com Gilmar Tenório Cavalcanti, chefe do bando, também preso. As gravações de áudio feitas pelos investigadores comprovam o envolvimento de Maritania. A mentalidade vigente de que os fins justificam os meios parece estar cada vez mais presente no comportamento das pessoas. A humanidade parece estar esquecendo de que o mais importante não é se chegar ao topo, mas sim como se chegou lá.

- Partida para Santarém (21/22 de janeiro de 2011)

Chegamos por volta das dezessete horas da Morada dos Deuses, imediatamente troquei de roupa e embarquei no caiaque para remar até o escurecer já que a distância de Santarém era muito longa para ser vencida em apenas uma jornada (aproximadamente 85 quilômetros). Percorri aproximadamente 15 quilômetros antes do anoitecer e aportamos em um local infestado de carapanãs para pernoitar. Programei a saída para às cinco horas, mas como acordei mais cedo, preocupado com a jornada que se aproximava, acabei partindo por volta das 4h35. Era um trecho diferente do programado, os atalhos pelas lagoas infestadas de canaranas impediriam minha progressão e tive de adotar o trajeto normal das embarcações. Sem referência alguma eu naveguei na esteira do Piquiatuba não tendo noção das distâncias a serem enfrentadas. Partimos, inicialmente, rumo Leste afastando-nos cada vez mais de nosso objetivo até que, finalmente, rumamos para o sul até encontrar o braço norte do Amazonas que depois de uma grande curva voltada para o sudoeste apontou diretamente para Santarém. Somente a aproximadamente 30 quilômetros de distância, quando as nuvens se dissiparam é que pude avistar a Serra de Piquiatuba. O efeito foi instantâneo ganhei novo ânimo e imprimi um ritmo mais forte já que agora tinha a noção exata do meu destino. Eu tinha avisado ao Coronel Aguinaldo da Silva Ribeiro, comandante do 8º Batalhão de Engenharia de Construção (8º BECnst), que nossa chegada seria por volta das quinze horas, mas, como tinha navegado à noite, pedi ao Sargento Barroso para comunicar que chegaríamos mais cedo, por volta das 13 horas.

Próximo a Santarém, aportamos para aguardar que os repórteres, oficiais e familiares do Batalhão embarcassem na Rondon (embarcação do 8º BECnst) e se deslocassem para acompanhar nossa chegada. Aproveitei para tomar um banho, colocar a camiseta do Grupo Fluvial do 8º BECnst; avisados de que a Rondon estava a caminho reiniciamos a navegação. Foi uma recepção apoteótica, além de meu amigo Aguinaldo e seus oficiais, havia repórteres da Globo, Bandeirantes e Record aguardando-nos para a entrevista. No Batalhão fomos brindados com diversos “mimos” e um especial que muito me emocionou, uma placa com o brasão do 8º BECnst e miniaturas de um trator e de um caiaque.
Comentei com o Aguinaldo meu desejo de visitar o Tapajós e vizinhanças ao que ele de pronto autorizou. Quero deixar, mais uma vez, registrado meu agradecimento ao meu ex-cadete 44 Aguinaldo e a seus subordinados pelo apoio fundamental para que a 3ª Fase da jornada do Desafiando o Rio-mar fosse coroada de pleno êxito e com muito conforto e segurança.

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