MAPA

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segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Eirunepé - Itamarati


Eirunepé - Itamarati

Hiram Reis e Silva, Itamarati, Amazonas, 27 de janeiro de 2013.

Antes de iniciar este artigo queremos direcionar nossas preces a todos familiares e amigos dos envolvidos direta ou indiretamente no trágico incêndio de uma boate em Santa Maria, RS, e, em especial, pelo pronto restabelecimento de nossos diletos ex-alunos do Colégio Militar de Porto Alegre Guilherme e Emanuel. Que o Grande Arquiteto do Universo fortaleça, ilumine e guarde a querida família de nosso grande amigo, parceiro de épicas jornadas pela Laguna dos Patos, Comandante Coronel PM Pastl e sua dileta esposa Dona Ana Claci.

-  Eirunepé - Comunidade Aquidabã, 72 km (21.01.2013)

Antes das 5h30, eu e o Marçal nos deslocamos até o Posto da Polícia Militar para preparar os caiaques para a nova jornada enquanto o Mário aguardava, no Hotel Líder, a viatura da PM para carregar o material para a lancha de apoio. Os policiais só estavam aguardando a hora combinada para iniciar a operação e avisar o Tenente Ricardo que foi pessoalmente se despedir dos expedicionários. Levamos os caiaques para a escadaria da orla, enquanto o Mario foi conduzido na camionete da PM até onde estava aportada a lancha. O Mário, depois de deixar pronta a embarcação para a nova jornada aportou a “Mirandinha” na orla e concluímos os preparativos. Antes de partirmos o Tenente PM Ricardo recomendou que, em Itamarati, procurássemos o Sargento PM Barbosa. Despedimo-nos dos prestativos amigos da Polícia Militar, sempre prontos a nos auxiliar nestas amazônicas missões.

Uma chuvinha fina nos acompanhou durante todo o percurso arrefecendo salutarmente nossos corpos. Passamos pela Foz do Tarauacá e sentimos nossos caiaques melhorarem seu desempenho graças à energia adicional deste magnífico tributário do Juruá. A navegação continuou sem grandes novidades exceto pela passagem das barulhentas araras, das magníficas garças surfistas equilibrando-se graciosamente nos troncos levados pela torrente e do coral de guaribas que nos acompanhou durante todo o dia. Pena que a caça indiscriminada destes macacos cantores os tenha afastado das margens do Juruá em todo o Acre e, no Norte do Amazonas, nos municípios de Guajará e Ipixúna.



Confirmamos, na Comunidade Pau D’alho a localização de Aquidabã, nosso destino, e, novamente, na Comunidade Morada Nova. Nesta última uma das moradoras alertou-nos que o casarão era mal-assombrado e recomendou que procurássemos abrigo em outro local. Por volta das 12h40, avistamos, no alto de um morro, o grande e majestoso casarão de madeira. A dificuldade consistia em carregar nossas tralhas até ele pela trilha íngreme e escorregadia, mas resolvemos acantonar por ali mesmo já que nestes “ermos sem fim” as opções de encontrarmos abrigo noutro local antes de escurecer eram pequenas. Ajudei os guerreiros Mário e Marçal a carregar a primeira leva do material e permaneci no casarão para fazer uma limpeza sumária varrendo a casa com uma vassoura improvisada de cacho de açaí.

A quantidade de grandes aranhas, morcegos e penas de urubu cuidadosamente unidas com uma fibra negra espalhadas pelos quatro cantos da morada emprestavam um sinistro ar ao abrigo. O Mário não se abalou e foi para um canto da varanda pedir autorização para o guardião espiritual do local, se o procedimento foi necessário e se surtiu o efeito desejado ou não jamais o saberemos o fato é que passamos uma noite bastante agradável neste belo casarão abandonado que possui de seu avarandado uma belíssima vista para o Rio.

A construção de madeira de lei, os detalhes das amplas aberturas (janelas e portas) sextavadas e a perfeição da construção das tesouras que suportam o telhado de telhas de barro mostravam a qualidade técnica e material de uma residência que foi construída com muito esmero. Nos mapas do DNIT a Comunidade consta como ativa embora esteja abandonada há anos. Colhemos, para a viagem, no variado pomar algumas goiabas, açaís, limas e graviolas.

-  Comunidade Aquidabã – Jacaré, 83 km (22.01.2013)

Quando acordei, por volta das seis horas, meus fiéis parceiros já estavam ultimando os preparativos da “Mirandinha”. A chuva que se iniciara na véspera de nossa partida só havia dado uma pequena trégua quando já havíamos carregado todas as tralhas para o casarão e eu me preparava para colher a água numa calha improvisada para um banho restaurador sem ter de escalar a íngreme e enlameada encosta até o Rio – artimanhas de São Pedro. A chuva parece servir de estimulo aos macacos cantores e o coral de guaribas ecoava de uma e de outra margem, como se grupos rivais estivessem disputando o prêmio de um melhor arranjo e harmonia. O mapa do DNIT nos indicava a Comunidade Jacaré como a melhor alternativa para nossa próxima progressão em relação à distância e ao fato de a mesma possuir uma escolinha onde poderíamos acampar sem incomodar os amigos ribeirinhos, opção que foi confirmada em mais de uma oportunidade nas Comunidades pelas quais passamos.

Na Comunidade Jacaré o Sr. Antônio Francisco Santos Guimarães prontamente autorizou acantonarmos na escolinha. Descarregamos a tralha e o Mário, imediatamente, iniciou a montagem da barraca. Após um revigorante banho de Rio eu fui atualizar os dados obtidos no trajeto, dentro da barraca protegido dos terríveis piuns, o Marçal foi preparar nosso “almojanta” e o Mário, nosso homem da Comunicação Social, parlamentar com nossos anfitriões. Depois da refeição fomos até a casa do Sr. Antônio Francisco conversar um pouco, nesta ocasião ele disse que nós não devíamos nos preocupar tanto com o fato da Comunidade selecionada ter ou não escola porque ninguém nas barrancas do Juruá deixaria de oferecer abrigo aos navegantes. Verificaríamos, mais tarde, no decorrer de nossa viagem que o hospitaleiro ribeirinho estava com toda a razão.

-  Comunidade Jacaré – Praia Alta, 56 km (23.01.2013)

A chuva persistia e só parou quando nos aproximamos de nosso destino. Os botos continuavam nos acompanhando como de costume. Os tucuxis realizavam audaciosas acrobacias enquanto os vermelhos pareciam se divertir soltando seus bufos ou emergindo muito próximos aos caiaques. Pena que o ruído irritante das rabetas, que de tempos em tempos passavam, interrompesse repentinamente estes idílicos momentos. Pretendíamos estacionar na Comunidade Soledade, mas fomos informados na Comunidade “Praia Alta” localizada a 500 metros a montante dela que a mesma não mais existia. O Mário estabeleceu os contatos necessários e imediatamente os ribeirinhos se mobilizaram para deixar a escolinha em condições de nos receber.

A Comunidade está localizada, praticamente, na fronteira do Município de Eirunepé e Itamarati. A passarela de madeira precisa de reparos imediatos, pois as tábuas soltas já provocaram alguns acidentes. Tomamos banho no Igarapé Preto, pois as águas contaminadas do entorno não eram, absolutamente próprias para o banho, depois seguimos nossa espartana rotina.

-  Comunidade Praia Alta – Gaviãozinho, 95 km (24.01.2013)

O dia amanheceu claro e sem nuvens prenunciando uma canícula que incrementaria uma maior dificuldade a um trajeto bastante longo (120 km). Os moradores haviam nos avisado da existência de um furo à pequena distância da Comunidade. Resolvemos aproveitar o atalho enquanto o Mário percorreria o caminho normal para georeferenciar a Comunidade que ali existia. Percorremos com cautela a margem direita tentando vislumbrar o Furo do Gaviãozinho. Embora tivéssemos confirmado com um ribeirinho, que navegava nas proximidades, a localização do Furo mesmo assim passamos por ele sem notá-lo. O amável ribeirinho verificando que ultrapassáramos a entrada do Furo foi até nós e nos rebocou com sua canoa até a boca do atalho. Havia uma grande quantidade de toras de madeira bloqueando e camuflando seu acesso, por isso ele passara despercebido. Acelerei o caiaque e investi sobre a entrada, acabei ficando preso sobre as toras, mas com algum esforço me liberei e entrei no furo, o Marçal procedeu de maneira idêntica. As Comunidades de Veneza e Gaviãozinho fazem a manutenção do furo que mais parece um jardim de tão bem cuidado, livre de qualquer tipo de entulho e roçado em ambas as margens, dentro em breve será mais um Arrombado a encurtar distâncias para todo tipo de embarcação neste tumultuário Juruá, que se modifica constantemente pela ação de suas próprias águas, mas que tem, sem sombra de dúvida como agente catalisador os ribeirinhos.

 Furo do Gaviãozinho

Mais adiante encontramos o Arrombado Cubiu (06º27’31,0”S / 68º34’54,9”O), moldado pela cheia de 2005, e o Arrombado Valter Buri (06º28’06,5”S / 68º28’34,3”O), criado pela cheia de 2009. Graças a esses providenciais atalhos conseguimos chegar, com tranquilidade, à Comunidade Cantagalo, uma Comunidade bem instalada na Terra-firme. O Mário estava realizando os devidos contatos quando lá chegamos de maneira que estacionamos os caiaques junto a uma embarcação da Fundação Nacional da Saúde (FNS).




Após o Mário ter confirmado onde ficaríamos acantonados puxamos os caiaques para terra. Como de rotina cuidamos, antes de tudo, de nossos caiaques, limpando e retirando a água e depois começamos a levar a tralha para a casa dos professores. Entrei na casa coloquei o material em um dos quartos e quando voltei para ajudar a carregar o resto do material verifiquei, surpreso, que o Sr. Antônio Cavalcanti de Souza e seus filhos Elisson, Dione, Nunes e Cláudio já o haviam trazido, inclusive os pesados corotes de 50 litros de combustível. Desde que iniciei minhas descidas pelos imensos caudais amazônicos eu só presenciara tamanha solicitude em uma comunidade indígena chamada Prosperidade, da etnia Kokama, quando lá aportei em 14 de dezembro de 2008.

O pessoal da FNS estava presente na Comunidade coletando sangue e fazendo sua análise já que três membros da comunidade tinham sido contaminados com o vírus da malária. À noite, toda a área foi pulverizada com o conhecido “fumacê” para combater o vetor da doença, o mosquito anófeles.

Um dos membros da equipe da FNS apontou a falta de equipamentos e pessoal como um dos grandes empecilhos para que se combata com mais efetividade as endemias. Nas áreas indígenas este combate se torna ainda mais difícil, pois os mesmos raramente seguem o tratamento até o fim, além do que sua alta mobilidade dificulta ou até mesmo impossibilita o acompanhamento dos nativos infectados pelos vírus que acabam servindo de vetores da doença transportando-a para outras Comunidades.

A região do Cantagalo é bem agradável e se pode percorrer a Comunidade sem ficar pisando na mistura de lama e dejetos como nas Comunidades dos Municípios de Guajará, Ipixúna e Eirunepé. A maioria das Comunidades do Município de Itamarati está assentada em terra firme o que contribui para uma maior salubridade e consequentemente melhor estado de saúde e humor de seus concidadãos.

Esperando um sono reparador deitei-me cedo. Na noite anterior os porcos não permitiram isso, desta feita foram os galos, talvez venha daí o nome da Comunidade Cantagalo. Os galináceos assíncronos passaram a noite inteira cantando como se o dia já estivesse raiando. Foi mais uma noite difícil e nada reparadora.

-  Comunidade Canta-galo – Itamarati, 63 km (26.01.2013)

Acordamos mais tarde (6h30), o curto percurso de sessenta e poucos quilômetros poderia ser vencido em seis horas sem grande esforço e precisávamos descansar. O dia amanheceu claro e com muitas nuvens, marcamos as poucas Comunidades que nos separavam de Itamarati, todas em terra firme. Nas proximidades de Itamarati avistamos os grandes morros que a caracterizam e aportamos nas instalações portuárias construídas pelo DNIT por volta das treze horas. Contatamos o Sgt PM Barbosa e este com a cortesia que caracteriza nossos amigos das Polícias Militares encaminhou-nos até a Pousada Itamarati de propriedade da Sra. Francisca Cristina Pinheiro de França e do Sr. Manuel Raimundo Medeiros Campelo, irmão do Prefeito da cidade.


quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Hospitaleira Eirunepé


Hospitaleira Eirunepé

Hiram Reis e Silva, Eirunepé, Amazonas, 20 de janeiro de 2013.

A recepção em Eirunepé foi muito cordial, a Guarda Municipal, tão logo, chegamos nos acolheu e nos indicou uma área para aportar temporariamente as embarcações, até que o Comandante da Polícia Militar, 1º. Ten PM Ricardo chegasse com seus homens e viaturas. Deixamos nosso material nas instalações da PM e nos encaminharam ao Hotel Líder onde fomos acomodados confortavelmente pela sua querida gerente Eny Martins de Alencar. Foi muito bom desfrutar novamente de instalações sanitárias descentes e tomar banho com água inodora e incolor.

O Ir:. Francisco Dejanir, venerável da loja Maçônica Luz e Ordem do Juruá nº. 14 veio até o hotel nos cumprimentar logo depois do almoço. Partimos em busca do jovem prefeito Joaquim Bara Neto. Eu tinha ficado impressionado com os relatos dos ribeirinhos sobre ele e queria conferir com meus próprios olhos. Conheci também nesse dia o Sr. Pedro Souza, parente do Cel Pastor que se prontificou a nos ajudar no que precisássemos.


-  “Ser pobre e humilde não é defeito, queremos Bara para prefeito”

Só conseguimos encontrar o prefeito no dia seguinte e me surpreendi quando me apontaram um trabalhador carregando um carrinho de cimento que me garantiram se tratar do prefeito Bara. O carismático líder estava no comando e na execução da operação “tapa-buracos”, da via que dá acesso à Universidade do Estado do Amazonas (UEA) preocupado em concluir a operação antes das aulas.

No dia seguinte encontramos novamente o Prefeito capitaneando um mutirão cívico-sanitário e dali fomos juntos para um restaurante mais reservado onde pude realizar uma entrevista que pretendo relatar na íntegra no meu livro. O Prefeito foi pescador e agricultor e tornou-se mais tarde vereador de Eirunepé. Nas últimas eleições resolveu candidatar-se prefeito com o intuito de auxiliar o então prefeito Dissica que tentava a reeleição. Sua intenção era captar parte dos votos do adversário de Dissica, mas o que aconteceu é que Bara acabou se elegendo por uma diferença de 396 votos. O Prefeito cercou-se de um secretariado capacitado e competente com o qual tivemos oportunidade de conviver nesses poucos dias. O Sr. Ribamar, Secretário da Cultura Ex-ativista da UNE nos franqueou as instalações da UEA para que pudéssemos atualizar nossas informações e proporcionou-nos uma visita prazerosa ao Lago dos Portugueses que banha a sua cidade




-  Agradecimentos

Eirunepé foi a primeira cidade do Juruá em que pudemos contar com o apoio irrestrito de representantes dos seguimentos mais importantes da sociedade. Guardaremos, com muito carinho, os bons momentos que desfrutamos com cada um de vocês.


sexta-feira, 18 de janeiro de 2013


Ipixuna - Eirunepé

Hiram Reis e Silva, Eirunepé, Amazonas, 17 de janeiro de 2013.

Ao partirmos de Ipixuna gostaria de agradecer, mais uma vez, o apoio prestado à Expedição pelo empresário Sr. Abraão Cândido, pelo 1º Tenente PM Rodney Barros Ferreira da Polícia Militar do Estado do Amazonas e demais policiais militares do Destacamento de Ipixuna. Vamos, igualmente, guardar carinhosamente na lembrança a atenção que nos dedicaram os amigos Maria Consuelo e Raimundo da Pensão Juruá.

-  Expedição Belarmino Mendonça

A Expedição composta pelo Coronel Hiram Reis e Silva, do Colégio Militar de Porto Alegre, RS, e os soldados Mário Elder Guimarães Marinho e Marçal Washington Barbosa Santos, ambos do 8º. Batalhão de Engenharia de Construção, Santarém, PA, está realizando o reconhecimento do Rio Juruá, afluente da margem direita do Rio Amazonas. Estamos dedicando todos os esforços possíveis, dentro dos escassos meios disponíveis para que a Missão em homenagem ao General Belarmino Augusto de Mendonça Lobo esteja à altura de seu nome.



-  Soldado Mário Elder Guimarães Marinho

O Sd Mário é o exímio piloto da lancha de apoio e encarregado de nossa logística. Para evitarmos os piuns que infestam as margens lodosas do Juruá e desnecessárias paradas, Mário nos abastece com água, frutas e bolachas no talvegue do Rio. Ele é o encarregado, também, de encontrar o local ideal para montarmos nosso acantonamento nas comunidades ribeirinhas, no interior das escolas, templos ou residências, isso é feito a partir das catorze horas, depois de termos remado aproximadamente 85 km em oito horas consecutivas. Algumas condicionantes alheias à nossa vontade podem alterar esta programação como, por exemplo, longos trechos de até 40 km dentro de áreas indígenas (Comunidade Condor – Comunidade Santa Maria) sem uma única Comunidade não indígena. Quando eu e o Marçal chegamos à Comunidade, o Mário já havia montado o acampamento e descarregou o material da lancha.

-  Soldado Marçal Washington Barbosa Santos

O Sd Marçal é meu parceiro de remadas e o cozinheiro da Expedição. Sabendo que os desafios do Juruá seriam maiores que os dos Rios Madeira e Amazonas, treinou com afinco nas águas turbulentas do Tapajós. Temos, eventualmente, remado mais de cem quilômetros em um único dia e o formidável guerreiro Munduruku chega ao final da jornada cantando sem esboçar qualquer sinal de cansaço. A primeira providência ao aportar é preparar os caiaques para a próxima jornada e logo concluída esta etapa o nosso cozinheiro se dedica à preparação do nosso delicioso “almojanta”, já que fazemos uma única refeição ao dia. Algumas vezes o preparo dos alimentos é feito na cozinha dos amigos ribeirinhos e condimentada com temperos retirados da horta dos mesmos.

-  Partida para a Comunidade Ituxi (10.01.2013)

Acordamos às 5h30, horário antigo, e nos deslocamos para o Porto Juruá II, do empresário Abraão Cândido, onde estavam estacionadas nossas embarcações. Partimos ao alvorecer, as poucas nuvens tornavam a progressão mais difícil debaixo do sol abrasador. Informações desencontradas quanto à distância das comunidades forçou-nos a ultrapassar a meta dos 85 km e chegamos, finalmente, à Comunidade Ituxi, às 15h30, depois de remar 102 km. O Mário tinha conseguido autorização para acamparmos na Escola Manoel Fernandes, a residência do professor, contígua à sala de aula estava ocupada pela família do pescador Francisco Sales da Silva que estava de mudança para Ipixuna. Depois do banho e do “almojanta” ficamos ouvindo histórias de pescadores.

-  Partida para a Comunidade Das Piranhas (11.01.2013)

 

Mantendo nossa rotina diária partimos antes do sol nascer. Logo depois da partida iniciou uma chuvinha fina e gelada que nos acompanhou até nosso destino na Comunidade das Piranhas, a 85 km de distância. O Sr. Antônio Santana da Silva permitiu que nos instalássemos na casa do professor ao lado da Escola. A Falta de higiene nas Comunidades é muito grande, na maioria delas não existe uma passarela de madeira que permita um deslocamento seguro sem ter de pisar na fétida mistura de lama e fezes de animais que perambulam livremente e se refugiam da chuva ou ao anoitecer sob as casas. As casinhas (sanitários), quando existem, são meros estrados com um buraco na madeira e os dejetos caem diretamente no chão onde os suínos dão prosseguimento ao tratamento dos mesmos.

-  Partida para a Comunidade Condor (12.01.2013)

No dia anterior o Sr. Antônio nos informou que a Comunidade Monte Lígia, terra firme, estava a apenas uma hora de uma voadeira com motor tipo rabeta de 8 Hp, não quis arriscar e optamos por pernoitar na Comunidade das Piranhas. Alcançamos a Comunidade Monte Lígia às 08h20, duas horas exatas depois de partir. Infelizmente as referências de que dispúnhamos para tomar a decisão não eram suficientes para escolher a melhor opção. Chegamos, às 11h30, à Comunidade Condor depois de remar apenas 55 km. Tínhamos um enorme vazio, de 40 km, a partir daí até a Comunidade Santa Maria.

Instalamo-nos na escolinha, como de praxe e depois do banho e do “almojanta” veio nos procurar um dos membros da Comunidade, visivelmente embriagado, que suspeitava que fôssemos da Polícia Federal. Argumentei que se fossemos da Federal a lancha seria muito mais potente e não de 13 Hp como a nossa, e que se os agentes tivessem de pernoitar no local o fariam em sua confortável embarcação e jamais em pequenas barracas.

Novamente os ribeirinhos relataram sua preocupação em relação ao comportamento dos Kulinas que promovem saques nas residências em que gentilmente são acolhidos. Infelizmente, alguns pequenos grupos liderados por chefes sem escrúpulo criam um estigma perigoso em relação a todo povo kulina.

Kulinas: os Kulina têm seu habitat tradicional nas planícies dos rios Juruá e Acurauá, afluentes do Solimões e pertencem à família linguística arawá. Os Kulina se autodenominam Madija, que significa “os que são gente”. Os Kulina formam um grupo de pouco mais de 700 membros e ainda preservam sua língua e cultura. (Nota do autor)

Em Ipixuna topamos, diversas vezes, com um bando sujo e maltrapilho de Kulinas que bebiam álcool puro indiscriminadamente. Os homens agrediam violentamente suas crianças e mulheres durante estas bebedeiras. É uma pena observar a decadência de alguns grupos contaminados por tuxauas sem escrúpulo.

-  Partida para a Comunidade São José (13.01.2013)

Somente depois de remar durante quatro horas avistamos a Comunidade Santa Maria. Somente uma pequena Aldeia Kulina às margens do Igarapé Penedo próxima da foz no Juruá. Ao ultrapassarmos o Rio Gregório fomos informados da existência de um furo próximo à Comunidade Cordeiro. Depois de certificar-me de que não havia nenhum acidente natural ou Comunidade no laço que deixaríamos para trás decidi experimentar o furo na forma de um “S” muito aberto. A correnteza obviamente era forte já que, em vez dos quase 7 km, percorreríamos pouco mais de cem metros. O Marçal levou uma queda, mas agilmente montou no caiaque e continuou a navegação. Passamos a chamar o furo de Marçal já que este ainda não tinha sido batizado.

Lago maldito
Jonas Fontenelle da Silva

Se hoje, em surdina, o teu pesar disfarças,
Ouvindo o canto das jaçanãs morenas,
Sentes, minh’alma, as aflições e as penas
De um Lago azul sem jaçanãs nem garças.

Lago em que havia à superfície esparsas
Grandes vitórias-régias e falenas
E em que hoje existe a canarana apenas ...

Fomos informados do Furo Cavado (06º47’36,5”S / 70º32’16,2”O), próximo à Comunidade São José e partimos para ele. O Furo que fica no final de um enorme “M” invertido. O furo, pela lógica deveria estar localizado no meio da curva à esquerda, mas considerando que os rios de terras baixas mudam constantemente enveredamos pelo primeiro furo que achamos, mais a montante do “Cavado”. Era na realidade o Igarapé do Pinheiro que dá acesso a um Lago interior coberto de canaranas e a um Igapó que mais parece um labirinto. Retiramos os troncos que fechavam a entrada e enveredamos pela estreita montanha russa fluvial.

Enganchamos eu e o Marçal sob um enorme tronco, o Marçal caiu do caiaque e empurrou o meu que estava trancado sobre enormes toras. Não consegui frear e fui levado pela rápida correnteza. Depois de diversas curvas, cheguei a um escuro e enorme igapó à direita de minha rota uma claridade chamou minha atenção e rumei para lá. Chamei, em vão, pelo Marçal, perdera minhas cartas na descida abrupta e não encontrava meus óculos, eu estava desorientado. Achei que se seguisse a correnteza poderia sair daquele medonho labirinto. Esperei pelo companheiro e nada, naveguei sobre as canaranas enroscando nos intransponíveis cipós tiriricas, as afiadas bordas das canaranas cortavam e enchiam minha pele de minúsculas farpas.

Meu colossal caiaque “Cabo Horn” não fora projetado para aquelas paragens o suporte do leme enroscava na vegetação, o esforço era sobre-humano. Fui forçado a passar por cima de enormes vitórias amazônicas (vitórias régias) e depois de me arrastar por uns quinhentos metros que mais pareceram dezenas de quilômetros desisti de encontrar caminho pelo maldito Lago do Pinheiro.

Voltei até o ponto de onde abandonara o igapó e tentei navegar entre as árvores submersas e, novamente, a progressão era dificultada pelo tamanho do “Cabo Horn”, depois dessa frustrada tentativa voltei para o Lago para descansar. Recuperei o fôlego e tentei, de novo, achar o caminho pelo igapó. Exausto voltei para o Lago e decidi me preparar para dormir naquele local e tentar novamente no dia seguinte. Tentei me amarrar em uma árvore para dormir, mas fui expulso pelas terríveis tachi (formigas) voltei para uma área limpa do Lago e me preparei para passar a noite embarcado. Fiz uma limpeza sumária no caiaque vesti o salva-vidas e coloquei em cima da embarcação um material alaranjado que o Angonese comprara para servir de acento no caiaque e que poderia ser avistado à distância. O sol já estava quase sobre o horizonte quando ouvi, ou senti, o ruído de uma rabeta. Ao longe consegui distinguir a silhueta do Marçal sobre uma voadeira, o suplício havia terminado.

O Sr. Francisco de Assis Cassiano da Costa e seu filho Antônio José da Silva Costa colocaram o caiaque sobre a voadeira e com uma habilidade extrema me conduziram pelo mesmo Igarapé que entrara. Enquanto o filho Antônio, na popa, manejava a rabeta com muita agilidade seu pai Francisco, na proa, corrigia o rumo com o remo. Um final feliz para um dia de pouca progressão, mas que servirá de ensinamento para o resto da vida de cada um de nós.

Sr. Francisco

Seja em operações militares ou mesmo nos deslocamento de ribeirinhos os furos devem ser usados com muita cautela tendo em vista as radicais modificações a que estão sujeitos. Da noite para o dia seu curso pode ser interrompido ou obstaculizado por árvores caídas. Nos deslocamentos onde se utilizem diversas embarcações deve-se empregar precursores devidamente assessorados por habitantes locais. A economia de tempo e combustível indica que estes atalhos sejam utilizados devidamente. Não há condições de se manter atualizadas as informações sobre cada um deles tendo em vista a inconstância tumultuária do Rio Juruá, basta ver a quantidade de arrombados, sacados e furos que são criados continuamente.

O Mário, preocupado conosco desencadeara uma verdadeira operação de guerra. Abastecera as rabetas dos ribeirinhos da Comunidade São José e do Bóia (Srs. Daniel Gomes da Silva e Francisco Gomes de Souza) com nossa reserva de combustível e graças a isso não tivemos de experimentar um solitário e perigoso pernoite no Lago do Pinheiro. Ficamos hospedados nessa noite na sala da casa do Sr. Francisco. O Marçal preparou um saboroso carreteiro para treze pessoas, nosso anfitrião tem quatro filhos homens e quatro mulheres. Durante a refeição comentei com ele que o santo padroeiro dos engenheiros militares é são Francisco de Assis, seu homônimo, e que meu pai se chamava Cassiano.

-        Partida para a Comunidade da Praia do Hilário (14.01.2013)

Chegamos à graciosa Comunidade cedo, o dia anterior tinha exigido por demais de nossos corpos e precisávamos recuperar nossas energias antes de nos atirarmos a uma longa jornada. Dizem que a primeira impressão é que conta e esta foi a mais agradável possível. As residências da Comunidade estão perfeitamente alinhadas e ostentam à sua frente uma bela passarela de madeira construída pela Prefeitura de Eirunepé e a Escolinha embora careça de manutenção é muito melhor projetada que as dos Municípios de Guajará e Ipixuna. O único problema que vimos foi novamente porcos perambulando soltos. O Sr. Francisco, líder da Comunidade, gentilmente convidou-nos para jantar. Durante a refeição os porcos alojados sob a sua casa faziam o maior estardalhaço e ele nos confiou que os animais eram do vizinho e que não reclamava para não comprometer a amizade entre eles. A grande reivindicação da Comunidade era a respeito da Escola Nossa Srª. da Auxiliadora que precisava de dedetização para desalojar morcegos e formigas e que fosse concluída a instalação dos sanitários.

-  Partida para a Comunidade Miriti (15.01.2013)

Recuperados decidimos remar cem quilômetros para deixar os últimos 70 para o último dia. Novamente os botos deram seu ar de graça e um casal deu um show à parte executando piruetas com seus belos corpos totalmente fora d’água. Chegamos bastante cansados à Comunidade Miriti da família Evangelista de Souza. Os Evangelistas permitiram que ocupássemos as instalações da Assembleia de Deus. A gurizada se encantou com os filmetes de nossa amazônica jornada.

-  Partida para a Eirunepé (16.01.2013)

Partimos cedo e nossa jornada foi abreviada por conta de mais um destes “arrombados” do Juruá. Logo que a operadora do celular deu sinal liguei para o Tenente PM Ricardo pedindo apoio. Fomos encaminhados pelo Comandante Ricardo ao Hotel Líder capitaneado pela Srª. Eny Martins de Alencar. Fomos acomodados no primeiro andar e cordialmente tratados. Depois do banho fomos convidados gentilmente pela simpática Srª. Eny para almoçar apesar do adiantado da hora. Logo em seguida apareceu o Venerável Francisco Dejanir da Grande Loja Maçônica de Eirunepé e tentamos localizar, em vão, o Prefeito.



sábado, 12 de janeiro de 2013

Localização dos navegadores em 10 e 11/01/2013:
Lat: S 6 50' 30"
Long: W 71 1' 21"
18h28min