MAPA

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sábado, 12 de janeiro de 2013

Uma Heróica Missão


Uma Heróica Missão

Hiram Reis e Silva, Ipixuna, AM, 09 de janeiro de 2013.


Chegamos a remar quase 100 km em um único dia tendo em vista os grandes vazios demográficos no Rio Juruá e as poucas pesquisas que aí tivemos oportunidade de realizar. As margens inundadas e pródigas em piuns determinaram uma mudança de rotina de somente aportarmos no nosso destino depois de remar uma média de 8h30 diárias ou quando precisássemos coletar informações sobre as comunidades. A ingestão d’água ou alimento foi feita no meio do rio com o propósito de evitar o assédio desses terríveis insetos. As comunidades ribeirinhas são formadas por verdadeiros heróis e na acepção literal da palavra e não naquela que a mídia sensacionalista prima em empregar. Os “heróis midiáticos” não seriam capazes de suportar uma semana se quer o desafio cotidiano das barrancas da bacia do Juruá.

A histórica insalubridade da região agravada pela falta de políticas publicas de longo prazo que melhorem as condições de vida da população tem provocado um êxodo continuo para os grandes aglomerados urbanos, o grande número de eleitores concentrados nessas regiões faz com que os politiqueiros de plantão não se preocupem com a rarefeita população marginal de cujo voto não dependem, absolutamente, para se eleger. A Amazônia precisa com urgência de um ministério que trate de suas endêmicas e seculares questões. Carece de planos plurianuais e não de medidas emergenciais que atendam apenas as necessidades eleitoreiras momentâneas de seus idealizadores e que não solucionam os problemas que se arrastam há décadas, quero deixar aqui patente meu apreço por estes homens e mulheres que nos acolheram no seio de suas casas e comunidades, partilharam suas refeições conosco, nos contaram suas histórias de vida e ouviram emocionados nossos relatos conquistando por fim nossos corações e mentes.


-  Movimento Pró-Acre

A proximidade física de Guajará e de Ipixuna, municípios do sul do Amazonas criaram uma dependência extrema ao Estado do Acre através de Cruzeiro do Sul, e está ligado ao resto do país, ainda que precariamente pela BR 364. A distância dos grandes centros do Estado do Amazonas, a dificuldade de atendimento as questões sanitárias e educacionais agravadas pelos problemas de abastecimento no período da estiagem vem simulando um movimento sutil que ambiciona que os municípios de Guajará e Ipixuna passem a integrar o estado do Acre e não do Amazonas. É interessante verificar que um estado que tanto lutou para que o Acre fosse integrado ao seu território se veja agora envolvido num processo que coloca em risco sua própria integridade.


-  Ipixuna, AM (09.01.2013)
Pela primeira vez desde que iniciamos nossas amazônicas expedições estamos encontrando sérias dificuldades logísticas e consequentes implicações financeiras. A ausência de um suprimento de fundos para arcar com as despesas de combustível com a lancha de apoio tem sido o item mais preocupante. Felizmente, em Ipixuna, a promessa feita pelo empresário Sr. Abraão Cândido se realizou e além de conseguirmos autorização para aportar nossas embarcações no seu porto flutuante, fomos abastecidos com 115 litros de combustível gratuitamente. Estes “ermos sem fim” determinam que só tenhamos a possibilidade de abastecer daqui a 570 km em Eirunepé dificuldade que se estende até a foz do Juruá. A quantidade de combustível que precisa ser carregada a bordo aumenta consideravelmente o seu consumo. Este fator acrescenta uma dificuldade maior ainda a essa já tão complexa e difícil missão de descer de caiaque os 3000 km do Juruá e os 900 km de sua foz, pelo Solimões, até Manaus.

Mais uma vez agradecemos à pronta e gentil acolhida, em Ipixuna de nossos caros amigos da Polícia Militar do Estado do Amazonas, na pessoa do seu comandante o Primeiro Tenente Rodney Barros Ferreira, que providenciou hotelaria, abrindo mão de seu próprio quarto no hotel e o de um de seus auxiliares para nos acomodar, além de providenciar três refeições diárias aos membros da expedição durante esses dois dias de permanência na sua cidade. Faço votos para que em Eirunepé tenhamos a ventura de encontrar outros amigos de mesmo quilate.

Mais uma vez fazemos um apelo desesperado a nossos investidores para que continuem colaborando, cada um dentro de suas posses, para que possamos cumprir a meta de chegar a Manaus. Aqueles que ainda não conhecem nosso projeto peço que visitem o Blog:



-  Investimento em Soberania

Conta Bancária de Hiram Reis e Silva
Banco do Brasil (001)
Agência: 4 8 4 8 - 8
Conta Corrente: 117 889 - X
CPF: 415 408 917 04
Endereço: Rua Dona Eugênia, 1227
CEP 90630-150 - Porto Alegre - RS
Telefones: (51) 3508 6265 / (51) 9234 2378
E-mails: hiramrs@terra.com.br
             hiramrsilva@gmail.com



-  Livro do Autor

O livro “Desafiando o Rio-Mar – Descendo o Solimões” está sendo comercializado, em Porto Alegre, na Livraria EDIPUCRS – PUCRS e na rede da Livraria Cultura (http://www.livrariacultura.com.br). Para visualizar, parcialmente, o livro acesse o link:

http://books.google.com.br/books?id=6UV4DpCy_VYC&printsec=frontcover#v=onepage&q&f=false

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Solicito publicação:
Coronel de Engenharia Hiram Reis e Silva
Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS);
Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional.
E-mail: hiramrs@terra.com.br

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Cruzeiro do Sul/Ipixuna


Cruzeiro do Sul/Ipixuna

Hiram Reis e Silva, Ipixuna, AM, 08 de janeiro de 2013.

-  Partida para o Extremo da Boa Fé (05.01.2012)

Nossa partida de Cruzeiro do Sul foi adiada tendo em vista o feriadão da passagem do ano que retardou as medidas administrativas necessárias a enfrentar os 2.745 km que nos separavam da 16º Brigada de Infantaria de Selva – a Brigada das Missões, comandada pelo General Paulo Sérgio, onde poderíamos contar, novamente, com o apoio do Exército Brasileiro.

Partimos às 06h30 (hora oficial do Acre) com a ideia de percorrer os 260 km que nos separavam de Ipixuna em quatro dias, uma média de 65 km/dia que poderia ser alcançada, confortavelmente, com sete horas de remo diárias. Aqui no Amazonas, como no Acre, os ribeirinhos ainda não adotaram a mudança de horário decretada pelo governo, e ainda consideram uma hora a menos que o horário oficial como pudemos verificar na Comunidade de Porungaba/AC. Como impor um horário oficial a um povo cujo trabalho está ligado diretamente às leis da natureza?

Quando ultrapassamos o limite entre o Estado do Acre e do Amazonas o relógio do celular, automaticamente, alterou o horário e mais uma vez verificamos a incoerência de se adotar o mesmo fuso horário para um Estado Continental como este. Aqui os ribeirinhos, também, continuavam com o chamado “horário velho”.

O dia transcorreu sem grandes alterações, continuei marcando a localização e o número de famílias das Comunidades e não avistamos, neste dia, nenhum afluente do Juruá. Os pequenos e graciosos botos tucuxis apareceram diversas vezes e pareciam mais preocupados em demonstrar suas habilidades acrobáticas do que realmente pescar. Por volta das doze horas solicitei ao Soldado Mário que nos ultrapassasse e procurasse alguma comunidade que possuísse uma escolinha onde pudéssemos acampar com certo conforto. Eu e o Marçal estávamos preparados para remar por mais umas duas horas, mas o Mário aportou em uma pequena Comunidade à frente onde conseguiu autorização da esposa do Sr. Expedito Braz da Conceição para que acantonássemos na escolinha da pequena Comunidade Extremo da Boa Fé. Havíamos remado 80 km neste dia.

A quantidade de piuns era impressionante, depois de tomar banho no Rio, entrei para barraca, montada na sala de aula da Comunidade e dei início à digitação dos dados coletados. Os piuns, para os quais não existe qualquer tipo de repelente nativo ou industrializado, me atormentavam. Os pequeninos insetos passavam pela tela da barraca como se ela não existisse.

A noite foi relativamente tranquila, exceto pelos grunhidos dos porcos que tinham se abrigado da chuva sob o piso da escolinha e passaram a noite inteira grunhindo e por vezes brigando.

-  Partida para a Comunidade Boca do Campina (06.01.2012)

Remamos pouco menos de 20 km e chegamos ao chamado por alguns ribeirinhos de “Paraná Boa Fé”, que na verdade é um Rio, pois suas águas não ligam o Juruá a qualquer outro Rio como seria o destino de um verdadeiro Paraná.

Continuando nossa expedição abordamos o Estirão do Ipixuna, que se inicia desde a foz de um pequeno Igarapé que leva o mesmo nome do Estirão e que é conhecido por alguns ribeirinhos como Igarapé do Cagão (coordenadas da foz –07º14’03,7”S / 72º18’14,3”O). É, sem dúvida, até então, o trecho em que o Juruá é menos sinuoso, apenas nove curvas importantes, se estendendo por uns 30 km até as coordenadas 07º12’44,2”S / 72º07’03,2”O. Eu havia solicitado que o Mário marcasse algumas Comunidades para que pudesse confrontar os dados mais tarde com os meus e, graças a isso, ele só conseguiu nos alcançar nas proximidades da Comunidade da Boca do Campina, à margem direita do Juruá e do Igarapé Campina que faz a divisa dos municípios de Guajará e de Ipixuna. Havíamos remado 85 km neste dia.

Após contato com o professor Raimundo Nonato Andriola, da Escolinha Sólon Melo, conseguimos autorização para acantonar na mesma. Antes de ocuparmos a escolinha o professor determinou às filhas e sobrinha que fizessem uma faxina na mesma. A esposa do professor, Maria Gesilda Saturnino da Costa, agente de saúde da Comunidade, permitiu que o Marçal preparasse o nosso almoço na sua cozinha e mais tarde fizeram uma festa surpresa, em comemoração ao meu aniversário, com direito a bolo e refrigerante. O professor e sua família foram por demais prestativos e nos proporcionaram toda atenção possível.

Passeamos eu e o professor, pela Comunidade e, mais de uma vez ouvi as reclamações dos ribeirinhos em relação às restrições do pessoal ligado ao meio-ambiente que acabam provocando a evasão dos mesmos em direção aos grandes centros. Como se já não bastassem as precárias condições de vida que lhes inflige o meio extremamente hostil, lhes são impostas restrições de toda a ordem que impedem as comunidades de alcançar uma vida mais digna e com mais segurança. Nesta Comunidade existe um enorme Jacaré-açu que volta e meia lhes subtrai animais domésticos criados com tanta dificuldade. Na época da alagação, as águas permitem que este animal transite com liberdade pela Comunidade e sob as casas criando um clima de terror entre seus membros. O trânsito entre as residências é feito através de um terreno encharcado que poderia ser melhorado através de passarelas, mas seria necessário usar a madeira da mata vizinha e aí entram os talibãs verdes impedindo ou dificultando providências desta espécie. O professor estava de prontidão na hora de nossa despedida e partimos guardando em nossos corações, mais uma vez, o carinho e a consideração do povo das águas.

-  Partida para a Ipixuna (07.01.2012)

Partimos logo ao alvorecer tendo como objetivo aportar em Ipixuna, a 95 km de distância. Graças ao bom Deus a chuva intensa que caiu durante a noite arrefeceu a canícula amazônica e depois de pouco mais de hora de remo experimentamos uma chuvinha fina e agradável que refrescava nossos corpos atenuando em muito nosso esforço.

Demarcamos a Foz principal do Riozinho da Liberdade (07º10’51”S / 71º48’42”) e uma Foz mais a montante (07º11’21”S / 71º50’04,2”), que na época da alagação gera uma segunda Boca. Confirmamos essa nossa interpretação, baseada na fotografia aérea do Google Earth, de 31.12.1969, e de nossa observação do terreno, baseada no relevo e vegetação e confirmamos nossas expectativas com moradores locais

Há pouco mais de 30 km de Ipixuna, nas proximidades da Comunidade Nova Esperança, identificamos um Furo (07º08’32,5”S / 71º47’30,8”O). O tumultuário Rio eliminara, mais uma vez, um de seus inúmeros laços abreviando seu traçado. Na chegada a Ipixuna tentamos, sem sucesso, pedir apoio à expedição contatando com as autoridades Policiais Militares através da central de Manaus. Esta é minha quinta incursão pelos amazônicos caudais de modo que, lembrando de minha primeira expedição, pelo Solimões, pedi ao Sd Mário que solicitasse a um moto-táxi que avisasse de nossa presença no porto da cidade.

Mais uma vez, nossos amigos da Polícia Militar, desta feita representados pelo 1º Tenente Rodney Barros Ferreira, nos apoiaram incansavelmente. O Tenente nos colocou em contato com o representante do empresário Abraão Cândido, que conhecêramos em Manaus, com a finalidade de aportar as embarcações e guardar nossos pertences.

Depois de descarregarmos o material da lancha o Tenente nos levou até o restaurante da simpática acreana, Sra. Consuelo, que havia preparado uma saborosa refeição para os exaustos navegantes. O prestativo policial providenciou acomodações em um hotel e nos indicou aonde fazer as refeições. Graças ao novo amigo da PM do Estado do Amazonas conseguimos fortalecer nossos corpos antes de partirmos para uma jornada maior de 570 km até Eirunepé.


terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Kampũ – a Vacina do Sapo


Kampũ – a Vacina do Sapo

Hiram Reis e Silva, Cruzeiro do Sul, Acre, 04 de janeiro de 2013.

Este remédio extraído da rã de nome Kambô é bom porque traz felicidade e também para se caçar. Quando toma o Kambô a caça se aproxima curiosa, pois quem o toma passa a emitir uma luz verde e é esta luz que faz a caça e as coisas boas se aproximarem de nós. Serve para tirar a panema (preguiça, perda de ânimo) e também desentope as veias do coração e faz circular o sangue do ser humano como um todo. O uso do Kambô é milenar em nossa tradição: vem da sabedoria dos nossos ancestrais. (Pajé Assis André Katukina)

-  Phyllomedusa bicolor

A Phyllomedusa bicolor ou rã Kampũ, Kambo, Kambô, Cambo ou Sapo Verde, é uma rã arborícola encontrada na Bolívia, Peru, Venezuela e Guianas, na Amazônia e em algumas vegetações ribeirinhas do Cerrado brasileiro. É um anfíbio da Família Hylidae da família das pererecas (Hylidae), apresenta placas aderentes na ponta dos dedos, que facilitam a escalada dos troncos. É a maior espécie do gênero, podendo chegar a quase 12 cm de comprimento. A Phyllomedusa possui hábitos noturnos e os machos nos meses de reprodução cantam empoleirados na vegetação em alturas de até 10 metros. Os ovos são colocados sobre folhas nas margens de igapós e lagos permitindo que os girinos ao eclodir caiam diretamente no ambiente aquático.

-  O Kambô e os Katukina e Kaxinawá

Os animais são capturados, pelos pajés, durante a madrugada para extrair deles sua secreção cutânea considerada como um antibiótico natural poderoso capaz de combater e eliminar diversas moléstias. Embora não existam pesquisas científicas que comprovem sua eficiência, alguns pesquisadores acreditam que ela possa ser utilizada nos tratamentos do câncer e da AIDS, pois consideram que ela reforça o sistema imunológico destruindo as membranas celulares das bactérias.

Os pajés consideram as doenças como um espírito negativo que ataca o indivíduo. Os nativos fazem uso do Kambô para afastar o inimigo, acabar com o desânimo e falta de vontade para caçar, para estimular a libido, afugentar a má sorte, a tristeza, combater a baixa estima, fortalecer o corpo, a mente e o espírito, e fundamentalmente, para buscar a harmonia com a natureza, melhora o fluxo sanguíneo permitindo mais ativamente circular a emoção, o sentimento e o amor. Os líderes espirituais afirmam que o remédio traz a sorte para quem caça, fazendo com que o animal se aproxime curiosamente do caçador já que ao ser tratado com o Kambô ele passa a emitir uma luz verde que faz a caça se aproximar.

Os Katukinas, nunca matam os Kambô, pois acham que se o fizerem, poderão ser picados por cobras. Os Ashaninkas, afirmam que se o sapo cantar próximo de uma cabana, ele precisa ser imediatamente capturado e, a seguir, o nativo precisa queimar os pulsos e, no alvorecer do dia seguinte, bater nas costas do sapo, para ele soltar o veneno que será passado sobre o local.

-  Pesquisa Internacional
    Fonte - Amazonlink

Pesquisas científicas vem sendo realizadas sobre as propriedades da secreção da Phyllomedusa bicolor desde a década de 80. O primeiro a “descobrir” as propriedades da secreção para a ciência moderna foi um grupo de pesquisadores italianos. Amostras das rãs foram levadas do Peru por um pesquisador para os EUA (o mesmo pesquisador que já tinha pesquisado e patenteado anteriormente substâncias da rã Epipedobates tricolor, utilizada tradicionalmente pelos povos indígenas do Equador). Também foram publicadas pesquisas sobre as propriedades da secreção por pesquisadores franceses e israelitas. Mais recente, a Universidade de Kentucky (EUA) está pesquisando (e patenteando) uma das substâncias encontradas na secreção do sapo em colaboração com a empresa farmacêutica Zymogenetics. Diversos laboratórios internacionais já estão interessados no veneno do kambô para desenvolver um medicamento que pode levar à cura do câncer.

-  Resultados surpreendentes
    Fonte - Amazonlink

As pesquisas revelaram que a secreção do Phyllomedusa bicolor contém uma série de substâncias altamente eficazes, sendo as principais a dermorfina e a deltorfina, pertencentes ao grupo dos peptídeos. Estes dois peptídeos eram desconhecidos antes das pesquisas com o Phyllomedusa bicolor. Dermorfina é um potente analgésico e deltorfina pode ser aplicada no tratamento da Ischemia (um tipo de falta de circulação sanguínea e falta de oxigênio, que pode causar derrames). As substâncias da secreção do sapo também possuem propriedades antibióticas e de fortalecimento do sistema imunológico e ainda revelaram grande poder no tratamento do mal de Parkinson, AIDS, câncer, depressão e outras doenças. Deltorfina e Dermorfina hoje estão sendo produzidos de forma sintética.

-  Doenças combatidas pelo kambô

O medicamento vem sendo desenvolvido e mostrado bons resultados nas pessoas que se encontram com dores e inflamação em geral: musculares, coluna, ciática, artrite, reumáticas, tendinite, enxaqueca e outros. Cansaço nas pernas, dor de cabeça crônica, asma, bronquite, rinite, sinusite, acne, alergias, gastrite, úlcera, diabetes, pressão arterial, obesidade, problemas circulatórios, formigamento, retenção de líquido, colesterol, cateterismo, doenças do coração em geral, hepatite, cirrose, malária (aguda) e pós malária, labirintite, epilepsia, TPM, irregularidades menstruais, infertilidade, impotência, redução da libido, depressão e suas consequências, ansiedade, insônia, irritação, insegurança, nervosismo, medo, stress, fadiga, sistema nervoso abalado, esgotamento físico, mental, emocional, desintoxicação, dependência química e tabagismo são algumas das possíveis doenças tratadas pela Vacina do Sapo. Trata distúrbios nos órgãos genitais, pulmão, rim, vesícula, baço-pâncreas, bexiga, coração, estômago, intestino, tiróide, fígado, garganta.

-  Reação

A reação da vacina dura cinco minutos. Nesse tempo ocorre a limpeza no campo físico, energético, emocional e espiritual. Após cinco minutos a sensação é de limpeza, leveza, tranquilidade, bem estar, paz interior e conscientização do desequilíbrio ou distúrbio a ser tratado. Depois de 30 minutos da aplicação, a pessoa já está apta para suas atividades normais. (...)

-  Aplicação é Indolor e os Efeitos Imediatos

A coleta da substância da rã é feita sem machucá-la, no tempo certo e na lua certa. Conhece-se o animal pelo canto. Logo que a secreção é retirada, ele é devolvido à mata. Após seis meses a rã pode ser reutilizada. Na aplicação não utilizam-se agulhas. São feitos os pontos para introduzir a vacina no organismo com um cipó em brasa (lembra um incenso), fazendo uma leve escamação na pele, em contato com a pele, retira um pedaço pequeno, deixando a circulação exposta, onde é aplicada a substância. O cipó usado é anti-inflamatório e após a aplicação não é necessários cuidados especiais, pois a cicatrização dos pontos é rápida. O tratamento é composto de três aplicações com intervalo de 30 dias para cada aplicação.

-  Pesquisa “in loco”

O Soldado Delcio Ubim Tesquim, do 61º BIS e membro da Terra Indígena Poyanawas (Dukuda Kayapaika), município de Mâncio Lima, AC, apresentou-nos ao Pajé José Luiz (Puwẽ). Infelizmente, não conseguimos realizar a aplicação da Vacina do sapo na quarta-feira, 02.12.2013, como era nossa intenção, o Pajé afirmou que tinha usado seu último estoque da secreção e agendamos, então, para o dia seguinte (03.12.2013).

Chegando cedo à aldeia, o Pajé José Luiz, devidamente paramentado, levou-nos até a Arena, conhecida por eles como “Casa, Floresta de Todos Nós” (Dimanã Ẽwê Yubabu) onde realizam diversos eventos culturais, entre eles os “Jogos da Celebração”. Eu e o Marçal fomos orientados a beber goles generosos de Caiçuma. Sou abstêmio convicto, mas o pajé garantiu que a bebida tinha um teor alcoólico bastante baixo e fazia parte do ritual, por isso, bebi.

Caiçuma: não perguntei como eles preparavam a bebida, mas, normalmente, as mulheres da comunidade depois de cozinharem a macaxeira reúnem-se para a mastigarem, colocando a mistura em um recipiente feito de argila. A massa sofre fermenta e apresenta no final do processo um sabor levemente adocicado e azedo de textura e cor semelhante ao leite. Quanto maior o tempo de maturação do produto maior seu teor alcoólico. (Nota do Autor)

Após a ingestão da bebida fomos levados por uma trilha para o interior da mata onde ingerimos mais caiçuma. O Soldado Tesquim foi encarregado de fazer as tomadas das cenas. O Pajé preparou um cipó-titica e com ele em brasa somente aproximou-o de meu braço fazendo cinco aplicações com o intuito de remover parte da pele. O processo foi totalmente indolor.

Cipó-titica: é da espécie botânica Heteropsis flexuosa, encontrada na Amazônia, nas áreas de terra firme. Quando adulto, o caule grosso, lenhoso, resistente e durável, é utilizado na indústria moveleira e no artesanato. (Nota do Autor)

Após isso adicionou um pouco de água a uma pequena espátula de madeira onde se encontrava a secreção do Kampũ. Passou então uma pequena porção da mistura em cada um dos cinco pontos preparados do braço esquerdo. O Soldado Tesquim, neste momento, aproximou-se disse que a máquina estava sem memória para continuar as gravações. Eu tinha esquecido de deletar as fotografias anteriores, tentei removê-las, mas o efeito da vacina já começara a agir, passei a máquina para o Marçal que limpou a memória toda, por isso perdemos a gravação da primeira parte do ritual.

Fui orientado pelo Pajé a me deitar nas palhas que haviam sido colocadas para isso e literalmente apaguei, não sei como cheguei até lá. Comecei a vomitar e o Pajé e seus assistentes, Isa e Xĩdu procurara me deixar sentado. Só fiquei sabendo disso, depois, pelas gravações. Durante todo o tempo tivemos acompanhamento constante do Pajé e de seus assistentes. Volta e meia ele vinha até nós e usava sobre nossos corpos a fumaça do cachimbo. Os mesmos procedimentos foram aplicados ao Marçal que teve uma reação muito melhor que a minha. Levei mais de vinte minutos para ter condições de me levantar, depois de ter vomitado diversas vezes.

Fomos levados então para tomar um banho nas águas geladas do Igarapé Traíra. Foi um banho revigorante após o qual nos sentimos em condições de voltar a Aldeia. Na casa do Pajé experimentei o rapé já que, desde o ritual, saia de minhas narinas uma abundante secreção. Ficamos conversando sobre a cultura dos nativos e de como as novas religiões trazida para as Aldeias pelos Padres e Pastores vem determinando a perda de identidade dos povos. A esposa do Pajé, a Sra. Awĩ Vari (Mulher Sol) se prontificou a fazer uma pintura de jenipapo no meu braço direito e no do Marçal.

Foi uma experiência bastante interessante que guardaremos com carinho por toda vida, mas, muito além disso foi importante reconhecer no jovem casal dois guerreiros que trabalham e lutam para manter viva sua cultura e a identidade de seu povo.

-  Conclusão

Hoje, por volta do meio-dia, estaremos na TV Juruá (SBT) concedendo nossa última entrevista ao repórter Leandro Altheman Lopes e amanhã, voltaremos a enfrentar as águas tumultuárias do Juruá. Estamos programando nossa chegada a Ipixuna, AM, na terça-feira. Queremos deixar patente nosso agradecimento especial ao 61º Batalhão de Infantaria de Selva, na pessoa de seu Comandante Tenente-coronel Alexandre Guerra e ao Capitão Gustavo Mayrink Pedro da Silva, que não mediram esforços para tornar nossa estada em Cruzeiro do Sul a mais agradável possível além de apoiar-nos irrestritamente no tocante a Expedição General Belarmino Mendonça.

Fontes:

SOUZA, Moisés B. Diversidade de Anfíbios nas Unidades de Conservação Ambiental: Reserva Extrativista do Alto Juruá (REAJ) e Parque Nacional da Serra do Divisor (PNSD), Acre – Brasil – UNESP- Rio Claro, SP. 2003, p.56-57. (Tese de doutorado).

SOUZA, Moisés B. et al. Anfíbios. In: CUNHA, M. C. da; ALMEIDA, M. B. (Orgs.). Enciclopédia da Floresta: O Alto Juruá: Práticas e Conhecimentos das Populações, São Paulo - SP., Companhia das Letras, 2002, p.608-610.

Irmandade da Santa Cruz


Irmandade da Santa Cruz

Hiram Reis e Silva, Cruzeiro do Sul, Acre, 30 de dezembro de 2012.

En Brasil el surgimiento y arraigo de movimientos socio-religiosos como el Movimiento de la Santa Cruz, motivó la afluencia de población Ticuna del Perú y de Colombia, contribuyendo a la formación de aldeas con Ticunas adeptos a este movimiento. (...) Porto Cordeirinho, como muchas otras aldeas Ticuna del territorio brasilero, fue creada en los años setenta debido a la influencia del movimiento religioso de la Santa Cruz, liderado por el brasilero José Francisco da Santa Cruz quien a su paso por la región generó un fuerte impacto sobre los pueblos indígenas, especialmente sobre los Cocama y Ticuna, quienes lo consideraron el Mesías que venía para redimirlos de sus pecados. (GARCÉS).

-  Primeiro Contato com a Irmandade na Descida do Solimões

Quando realizei minha primeira incursão pelos amazônicos caudais, de 1º dezembro de 2008 a 26 de janeiro de 2009, tive a oportunidade de vislumbrar os enormes cruzeiros que altaneiros ocupavam posições de destaque na maioria das comunidades ribeirinhas pelas quais eu passava. Em Belém do Solimões, a maior de todas as Comunidades Ticunas, situada à margem esquerda do Rio que lhe empresta o nome, observei curioso não só o templo da Irmandade e sua grande cruz característica, mas, sobretudo a vestimenta de alguns membros da seita que vestiam longas togas brancas e traziam invariavelmente cruzes de madeira penduradas ao pescoço.

-  A OCCAE e os Cocamas

Quando contatei os Cocamas, também em dezembro de 2008, na Comunidade Prosperidade, liderada pelo Cacique Almir, estes me relataram que na década de setenta muitos deles haviam aderido ao chamamento do líder messiânico José Francisco da Cruz participando ativamente desde a fundação da Ordem Cruzada Católica, Apostólica e Evangélica (OCCAE). O OCCAE é um movimento messiânico–milenarista que influenciou significativamente as atividades sociais, culturais, econômicas e políticas das comunidades ribeirinhas indígenas e não-indígenas. Atualmente, os Cocama adeptos da OCCAE tentam resgatar sua identidade indígena encontrando um ponto de equilíbrio entre as rígidas regras de conduta impostas pelo movimento religioso e seus costumes ancestrais.

-  Irmandade da Santa Cruz e a Descida do Juruá

Nesta expedição pelo Juruá colhi, novamente, informações a respeito da Irmandade da Cruz, desta feita na Comunidade dos Cintra através da Sra. Maria de Nazaré de Souza Correia que fez menção a um milagre alcançado através de um chá feito com uma lasca da cruz erigida na Comunidade pelo próprio Irmão José Francisco da Cruz nos idos de 1968.

A fé inquebrantável da Sra. Maria de Nazaré despertou, definitivamente, minha atenção para este movimento messiânico que como tantos outros, através dos tempos, emergem na Amazônia galvanizando simpatizantes de todos os matizes e credos.

-  Irmão José Francisco da Cruz

O movimento messiânico liderado pelo Irmão José foi desencadeado após o mesmo ter uma visão “celestial divina”, nos idos de 1960, que lhe orientava partir para uma missão redentora pelas América Latina levando na mão direita “a cruz” e na esquerda o “santo evangelho”. Tomou, então, o nome religioso de José Francisco da Cruz, missionário do Sagrado Coração de Jesus, apóstolo dos últimos tempos.

El impacto de la visita Del Hermano José Francisco da Cruz fue impressionante porque coincidió com um aumento del nível maxímo del Rio Amazonas, dos metros por encima de nível de la década anterior, que se mantuvo durante la década seguinte. (REGAN)

O momento em que o Irmão José Francisco da Cruz se apresentou aos seus futuros seguidores não poderia ter sido mais propício. Foi um período atípico em que as águas do Solimões se mantiveram, durante uma década, no seu nível máximo o que era interpretado pelos seus seguidores como um sinal do final dos tempos. O movimento tinha uma visão de mundo nitidamente apocalíptica. Acreditavam que o mundo estava em crise e somente um grande cataclismo seria capaz de desencadear um salutar processo de renovação. Certamente a década das grandes cheias foi um dos elementos fundamentais que permitiram que a pregação apocalíptica fosse capaz de contagiar os corações e as mentes dos ribeirinhos.

O Irmão José pregou pelo Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, Peru e foi expulso da Colômbia em 1969. O pregador curava os doentes com orações, medicava-os e deixava em cada comunidade uma junta diretiva para a Irmandade e um estatuto para orientar os cultos e normas de conduta dos fiéis. Os enormes cruzeiros eram manufaturados com a madeira da árvore Palo Sangre.

Em 1971, chegou a Iquitos, e plantou a cruz em Morona Cocha. Regressando ao Brasil, em 1972, criou um povoado na margem do igarapé Juí, pequeno afluente do Rio Içá, afluente da margem esquerda do Rio Solimões, num lugar que denominou de Lago Cruzador onde edificou a sede espiritual da Irmandade transformando-a num centro dedicado à produção agropecuária, à saúde e à educação. Nesse local faleceu, no dia 23 de junho de 1982, aos 69 anos de idade. Antes de falecer, indicou o seu sucessor, um descendente de índios Cambeba, chamado José Walter Neves. Neves tão logo assumiu a sua função reorganizou a hierarquia da ordem nomeando uma nova diretoria administrativa privilegiando indígenas e levando em frente o projeto do seu fundador de construir a Vila Espiritual da Irmandade de Santa Cruz. Estima-se que no Brasil existam 20 mil adeptos da seita sendo a metade de Ticunas.

-  II - Origens da Missão Cristã com os Ticuna
   5. A Irmandade da Cruz
Fonte: Irmão Édson Hüttner

No ano de 1972, o irmão José da Cruz implanta a Ordem Cruzada Católica, Apostólica e Evangélica (OCCAE) nas Comunidades ribeirinhas e nas aldeias Ticuna do Alto Solimões. Irmão José Francisco da Santa Cruz foi considerado como profeta e messias entre os índios e a população do Alto Solimões.

Nasceu no dia 3 de setembro de 1913, em Várzea Alegre, município de Cristina, no Estado de Minas Gerais.

Reza a lenda que sua mãe, no sexto mês de gravidez, adoeceu gravemente. Um de seus parentes a fez prometer perante o Sagrado Coração de Jesus que, se ela e a criança sobrevivessem, seu filho seria servo de Deus. (Hiram Reis e Silva)

Casou-se com 24 anos e teve sete filhos. No ano de 1944, após assistir às missões dos padres redentoristas, teve a visão do coração sagrado de Jesus, a Cruz na mão direita e o evangelho na mão esquerda. Na segunda noite, viu as três pessoas da santíssima trindade. As visões levaram-no a retirar-se com uma cruz para um lugar isolado para meditar.

Sofrendo de hanseníase a família pretendia interná-lo em um leprosário, mas fugiu levando uma Bíblia e prometeu que, se fosse curado, tornar-se-ia um pregador e ergueria cruzes por onde passasse. (Hiram Reis e Silva)

No ano de 1962, saiu em peregrinação de Norte ao Sul do Brasil. Passou também na Argentina, Paraguai, Peru e Colômbia. No Peru, em 1969, começou a escrever os estatutos e normas de seu movimento. Depois, em 1972, vai para a Colômbia, mas expulso pelas autoridades, se dirige para o Alto Solimões (na margens do igarapé Juí afluente do Rio Içá). A este lugar deu o nome de Lago Cruzador, que passou a ser a sede e ponto de divulgação de seu movimento, até o dia em que faleceu, no mesmo lugar, em 23 de julho de junho de 1982. Ele mesmo se chamou de “Missionário do Coração de Jesus”.

O impacto da OCCAE sobre brancos e índios deve-se à pregação e às exigências feitas nas Comunidades. Guareschi escreve sobre o tipo de religião pregada pelo Irmão José:

A religião da Cruz é essencialmente “espiritual”, recusando-se a tratar assuntos que sejam “sociais”, de uma maneira ou outra. As pregações apelam para a conversão individual do coração e da mente ao Senhor. Qualquer assunto que tenha a ver com a política em geral (e muito mais com a política partidária) não pertence à religião. (...) Na realidade, e por isso mesmo, a religião da Cruz não deixa de ser política. Ao proibir e ao se recusar a discutir este assunto, ela toma partido, justamente pelo fato de se alienar. (...)

Na doutrina da Santa Cruz há um respeito e um culto bastante acentuado à bíblia, seja ela católica, protestante ou qualquer outra. O movimento está baseado na doutrina e liturgia da Igreja Católica. (...)

A religião da Cruz é ainda extremamente sacramental, mítica. (...)

Cremos que não se pode negar que o Movimento da Cruz tenha diversos traços messiânicos, como a presença do Irmão José Francisco da Cruz, como messias (...)

A maior parte dos Ticuna do Solimões decidiu seguir o movimento do irmão José dentro dos pressupostos de todas as suas normas, doutrinas, bem como a exigência de um novo estilo de Comunidade orientada pelo signo da cruz. De acordo com os estatutos da OCCAE, verifica-se os seguintes eixos da sua doutrina:

-  A crença num único Deus Todo-poderoso, criador do céu e da terra e do mar.
-  Jesus Cristo é o único meio de salvação.
-  A bíblia é a fonte da doutrina.
-  Ser católico significa ser honesto, praticante de boas obras.
-  O sacerdote nomeado pela Ordem tem autoridade para celebrar o batismo, casamentos e confissões.
-  Adorar a cruz todos os dias.

Em entrevista gravada com o irmão Valter Neves da Cruz numa de suas igrejas em Tabatinga, perguntei-lhe sobre o significado da cruz para a Irmandade. Ele resnondeu:

Vou lhe dizer uma coisa, a cruz é o sinal do cristão (...)
Nós temos 94 pontos que guardamos sobre a cruz;
Primeiro: a cruz é aliança de Deus com os homens
Árvores da vida, farol de esperança,
sinal do perdão, escadaria do céu,
primeira porta do Brasil, forma a ligação com os povos.

O movimento da Cruz não tem nenhum vínculo com a igreja católica, visto que em seus estatutos não admitem que seus membros participem de outra religião. A ruptura que se estabeleceu com a Igreja Católica, segundo Ari Oro, foi pelo fato de que os missionários capuchinhos negaram o sacramento do batismo aos Ticuna da OCCAE, o que levou o fundador a institucionalizar a figura do sacerdote. Outro aspecto é que os Ticuna da Cruz não reconheceram os Ticuna católicos, pois não se consideravam como índios.

Numa Comunidade da Cruz, ainda hoje, o cotidiano dos índios se identifica àquele pensado c determinado pelo irmão José. Na Irmandade da Cruz, a igreja (feita de madeira, sempre junto a uma grande cruz erguida ao lado) representa o vínculo de encontro e doutrinação. Todos os dias, às 6 horas da manhã, é feito o hasteamento da bandeira da cruz, e pela tarde, às 18 horas, é feito o louvor da mesma com cantos. Quando chega a noite, às 19h30, todos se reúnem na igreja para celebrar o culto. Os Ticuna, nas celebrações, e em geral durante todo o dia, vestem-se de branco e carregam uma pequena cruz de madeira presa por cordão ao peito. Toda essa estrutura religiosa, embora enfraquecida, permite assegurar no dia-a-dia a fisionomia de um novo “etos” religioso e comunitário que, por um lado, proíbe os vícios, mas que neutraliza a cultura, a experiência mística original indígena do sagrado enraizado no significado da terra. A Irmandade da Cruz proibiu a festa da moça nova em suas Comunidades. Na entrevista que fiz com o irmão Valter das Neves Cruz, perguntei-lhe o por quê dessa proibição. Ele disse:

Nossa Irmandade não permite, pois, se você quiser pertencer à Cruz, deve deixar de lado as festas e as bebidas, por isso nós proibimos.

Fontes:

GARCÉS, Claudia Leonor López Tesis. Ticunas Brasileros, Colombianos y Peruanos: Etnicidad y Nacionalidad en la Región de fronteras del alto Amazonas/Solimões – Tese de Doctorado – Brasil, Brasília – CEPPAC – UNB, 2005.

HÜTTNER, Édson. A Igreja Católica e os Povos Indígenas do Brasil: os Ticuna da Amazônia – Brasil, Porto Alegre EDIPUCRS, 2007.

IGLESIAS Francisco. Caatingas e Chapadões: (Notas, Impressões e Reminiscências do Meio-norte Brasileiro, 1912-1919) – Brasil, Rio de janeiro – Companhia Editora Nacional, 1958.

REGAN, Jaime. Messianismo Cocama: uno Movimento de Resistência en la Amazônia Peruana. In América Indígena. Ano XLVIII vol. XLVIII. Nº 1, 1988.

REGAN, Jaime. Hacia la Tierra sin Mal – La Religión del Pueblo en la Amazonía. Peru, Iquitos, CETA – Centro de Estudios Teológicos de La Amazonía, 1993.