MAPA

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segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Rumo a Porto Velho, RO

Rumo a Porto Velho, RO



Céus de Rondônia
(Letra: Joaquim de Araújo Lima
Música: José de Mello e Silva)



Quando nosso céu se faz moldura
Para engalanar a natureza
Nós, os bandeirantes de Rondônia,
Nos orgulhamos de tanta beleza.
Como sentinelas avançadas,
Somos destemidos pioneiros
Que nestas paragens do poente
Gritam com força: somos brasileiros! (...)



-  Partida de Porto Alegre (17.12.2011)


Chegamos ao Aeroporto Salgado Filho antes das sete horas, nosso vôo tinha a partida marcada para as 07h53. A enorme fila frente aos portões de embarque confirmava que o “caos aéreo” das festas de fim de ano já se instalara. Apesar do atendimento da Gol ter sido perfeito, as instalações aeroportuárias se mostravam extremamente acanhadas mesmo com o reduzido número de vôos previsto para aquele horário. A confusão era geral, partimos com 30 minutos de atraso. No deslocamento até Porto Velho constatamos uma total falta de educação dos passageiros em relação ao uso de aparelhos eletrônicos a bordo, apesar dos insistentes apelos da tripulação.

-  Chegada em Porto Velho (17.12.2011)

A viagem transcorreu sem maiores alterações e a aeronave pousou pontualmente às treze horas, hora local, no Aeroporto Internacional de Porto Velho – Aeroporto Governador Jorge Teixeira. Em virtude do fuso horário e horário de verão teríamos um extenso dia de 26 horas. O Tenente-Coronel da Arma de Engenharia Moacir Rangel Junior, Comandante do 5° Batalhão de Engenharia de Construção (5° BEC) - Batalhão Carlos Aloysio Weber, havia escalado o Tenente Thiago Teixeira Baptista e o Soldado Keiles para nos recepcionar no Aeroporto e nos alojar no Palacete do Rio Madeira. O Palacete é uma Casa de Apoio para Oficiais do 5° BEC, e tem a finalidade de apoiar oficiais e comitivas do 2º Grupamento de Engenharia que se deslocam para a guarnição de Porto Velho, a serviço.


Depois de devidamente recepcionados e instalados, pelo Soldado Guilherme Fialho, o Tenente Teixeira fez um “tour” pela cidade mostrando suas instalações mais relevantes e discorrendo sobre sua história. De todos os locais visitados o que mais nos impressionou foi o “Parque Memorial Madeira Mamoré”.

-  Questão do Acre e o Pusilânime “Tratado de Petrópolis”

Se a insistência da Bolívia fosse irredutível, seria melhor abrirmos mão das negociações, deixando-a entregue à sua fraqueza contra os insurgentes do Acre, mais capazes de resolver a questão do que o governo brasileiro, na situação a que o condena, por um lado, a debilidade lastimável dos nossos meios e ação militar, por outro a repugnância invencível da nossa gente em ceder ao estrangeiro um palmo de terra, ainda recebendo em retorno a vastidão territorial de um novo Estado.
 (Ruy Barbosa de Oliveira)

O tratado determinava que o Brasil indenizasse a Bolívia com 2 milhões de libras esterlinas em troca de um território que incorporaria. O Brasil comprometeu-se, ainda, a entregar áreas da fronteira do Mato Grosso que totalizavam 3.164 km², bem como iniciaria a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, a “Ferrovia do Diabo”.

-  Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM)
    Fonte: Antônio Cândido da Silva, 09 de Novembro de 2006

Bem no meio da mata
Onde o Rio serpenteia
Entre tarântulas às toneladas
Palmeiras e seringueiras
Há um bando de trabalhadores
Pegando pesado sem parar
Para terminar a ferrovia
Que levará borracha ao mar.
(Operário da EFMM)


 
A ocupação do Vale do Guaporé pelos portugueses, e mais tarde, o alto preço da borracha no mercado mundial, levou toda a região do alto Madeira e Mamoré a intensificar a produção da colheita do látex. Por outro lado, era já um sonho antigo a ligação do Mato Grosso (Vila Bela) com o Atlântico, pelos dos rios Guaporé, Mamoré, Madeira e Amazonas. A Bolívia, que fazia parte do território de Charcas, após a guerra pela independência, perdeu para o Peru a saída que tinha para o mar, nascendo daí o interesse em chegar ao Atlântico, pelos rios brasileiros.

As cachoeiras do Rio Madeira eram as grandes dificuldades naturais para o escoamento da produção comercial do Brasil e da Bolívia, pelos rios da região que agora, com o Tratado da Amizade, Limites, Navegação, Comércio e Extradição, promulgado em 27 de março de 1867, dava à Bolívia o direito de, pelos rios brasileiros, chegar com seus produtos até o Atlântico.

A idéia de se construir uma ferrovia partiu do general boliviano Quentin Quevedo e do engenheiro brasileiro João Martins da Silva Coutinho, o primeiro descendo o Rio Madeira em 1861, e o segundo subindo o Rio no mesmo ano, por determinação do presidente da província do Amazonas e de cujo relatório consta que:

“Da primeira a última cachoeira há 70 léguas, segundo o major Serra. O melhor meio de transpor esse obstáculo é abrir uma estrada que ligue os dois pontos extremos, pela margem direita. A estrada pode vir a ter 50 léguas, em conseqüência da grande curva que descreve o Rio ao poente. Da última cachoeira à Vila Bela podem navegar vapores que demandem de seis a sete palmos d’água. No caso de construir-se uma estrada de ferro para vencer as cachoeiras a viagem da Corte (Rio de Janeiro) à Vila Bela podia ser feita em um mês”.

Por ordem do imperador Dom Pedro II, em 27.03.1867, foi criada a Comissão chefiada por Fraz Keller para fazer os estudos preliminares para a construção de uma ferrovia na área das cachoeiras. Enquanto isso, no México, Quentin Quevedo veio conhecer George Earl Church que se interessou por seu projeto para construir a ferrovia. Após conseguir o aval do governo boliviano e a permissão brasileira para a construção, Church, na Inglaterra, conseguiu financiar o seu projeto com a condição de que a firma inglesa Public Works fosse a empresa construtora.

No dia 26 de junho de 1872, vinte e cinco engenheiros ingleses com grande quantidade de material, desembarcaram em Santo Antônio do Madeira, que seria o ponto inicial da ferrovia. Um ano depois, em 09.07.1873, os ingleses abandonaram tudo ao relento, vencidos pelas doenças que assolavam a região, sem haver assentado um único trilho.

Para tentar restabelecer a confiança no empreendimento, Church tenta conseguir uma empresa que com recursos próprios, iniciasse os trabalhos e implantasse os primeiros quilômetros da ferrovia. Essa firma seria a Dorsay & Caldwell, empresa americana, que assinou o contrato em 17 de setembro de 1873, comprometendo-se a implantar os 15 primeiros quilômetros da ferrovia com o material já existente em Santo Antônio, deixado pela Public Works.

Em fins de janeiro de 1874, um engenheiro, um ajudante e dez trabalhadores, chegavam a Santo Antônio, para voltar, poucos dias depois, doentes e apavorados pela morte de um dos trabalhadores e a empresa Dorsay & Caldwell, transfere a concessão para a construção da ferrovia à empresa empreiteira de Londres, a Reed Bross. & Co.

"No dia 24 de janeiro de 1874, chegaram a Manaus um engenheiro, um ajudante de engenheiro e dez trabalhadores, todos norte – americanos, enviados pela firma Dorsay & Caldwell. Imediatamente seguiram para Santo Antônio, onde iriam tomar as medidas necessárias para o início dos trabalhos"

A informação prossegue do seguinte modo:

"Vendo-os transitar de volta para os Estados Unidos, o engenheiro Souza (Antônio Alvares dos Santos Souza) registrou no seu diário, de maneira lacônica: regressaram com falta de um, por ter falecido".

Em agosto de 1875, a demanda judicial no tribunal inglês favorecia as aspirações de Church que tentou, junto À Reed Bross & Co., Iniciar os trabalhos, no entanto a empresa inglesa não demonstrou o menor interesse no negócio, por isso, em 18 de janeiro de 1877, Church anula o contrato com a empresa, indenizando-a em 25.000 libras, e parte para os Estados Unidos, desesperado, para reiniciar os trabalhos e provar que a Public Works não tinha razão quando declarou nos tribunais de Londres que a construção da ferrovia era uma missão impossível de ser realizada. O processo judicial movido contra a Madeira - Mamoré Railway Co. Ltda. favorecia os sonhos de Church; bastava que ele conseguisse uma empresa que, com recursos próprios, iniciasse a implantação da ferrovia, para que o dinheiro retido nos tribunais londrinos fosse liberado, em parcelas, de acordo com o andamento dos trabalhos. Na Filadélfia, Church conhece Franklin B. Gowen, Presidente da Philadelphia and Reading Coal and Iron Co., que previu a possibilidade de fornecer por meio de sua Companhia, o material necessário para a implantação da ferrovia, leva Church até os irmãos Phillip e Thomas Collins e o contrato entre a P.&T. Collins e a Madeira - Mamoré Railway Co. é assinado em 25 de outubro de 1877.

Os jornais americanos fizeram uma campanha maciça de divulgação, mostrando a competência da nação que ia implantar em plena selva amazônica uma estrada de ferro, e mostrar ao mundo as belezas do paraíso terrestre. Tudo era preparado em clima de festa, como se a grande tarefa não passasse de um piquenique que viriam fazer na floresta tropical. A partida se deu do porto da Filadélfia, no dia 4 de janeiro de 1878 e foi em clima de festa que o vapor Mercedita deixou o cais naquela noite, levando no seu bojo, 54 engenheiros que representavam a nata da engenharia americana na construção de ferrovias, grupo igual nunca antes reunido em empreitada desse tipo, além dos demais componentes da equipe, no total de 227 pessoas, o Mercedita transportava, ainda, 200 toneladas de máquinas e ferramentas e 350 toneladas de carvão mineral.

Em Belém, o grupo dividiu-se em dois e a primeira turma chegou a Santo Antônio no dia 19 de fevereiro no vapor Arari, fretado pela Companhia, e no dia 7 de março, rebocado pelo Arari, chega o Mercedita com o restante do pessoal. Além do Mercedita, outro navio, o Metrópolis, que também saiu do porto da Filadélfia, naufragou na praia de Currituck, onde foram recolhidos 80 mortos, dos duzentos e quarenta e seis passageiros embarcados, além de perder todo o material que transportava.

A insalubridade de “Santo Antônio, o lugar onde o diabo perdeu as botas”, aliada à falta de alimentação começaram a fazer as suas vítimas. No dia 23 de março, Thomas Collins chega a Santo Antônio e começam a construção de uma serraria, um armazém, duas residências e é iniciado, também, o “Casarão” que ainda hoje pode ser visto em Santo Antônio. Entre os trabalhadores trazidos por Thomas Collins vieram 218 italianos, que aqui passaram a exigir salários iguais aos americanos e irlandeses que faziam parte de uma turma de funcionários qualificados. Como não conseguiram seu intento, rebelaram-se. Thomas Collins prendeu e deportou para Manaus os líderes do movimento. Alguns desceram o Rio Madeira em jangadas e 75 deles fugiram pela mata em direção à Bolívia, sem nenhum instrumento, e nunca mais se teve notícia deles.

A partir de maio, praticamente todo o pessoal estava doente por causa da má alimentação e falta de medicamentos. A situação foi se agravando e em agosto, término do contrato, praticamente todo o pessoal abandonou o trabalho. Em julho, a situação se agravou e apesar de estar decretada a falência da empresa, Thomas Collins não perdia o entusiasmo. Em setembro, com a chegada de 400 nordestinos vindos do Ceará, sobreviventes da grande seca e da peste de 1877, o trabalho continua, no entanto, os nordestinos “morriam como moscas” e Santo Antônio era a imagem da desolação.

A partir de janeiro de 1879, não havia mais o que fazer. Os poucos americanos que resistiam estavam doentes e famintos. Mister Collins e George Gray foram atacados pelos índios e, apesar de flechados, escaparam com vida por milagre. Finalmente, no dia 19 de agosto de 1879, os últimos sobreviventes deixam Santo Antônio, abandonando tudo, deixando de positivo apenas sete quilômetros de trilhos assentados e o levantamento topográfico de cento e dez quilômetros. Três anos depois, por ordem do imperador do Brasil, foi criada em 25.11.1882, uma Comissão chefiada pelo engenheiro Carlos Alberto Morsing, destinada a fazer o levantamento para a construção da ferrovia. A sua chegada a Santo Antônio aconteceu em 19 de março de 1883. Pouco tempo depois, vários membros da Comissão encontravam-se doentes, inclusive Carlos Morsing, que viaja para tratamento de saúde, deixando na chefia o Engenheiro Júlio Pinkas que consegue resistir até o dia 19 de agosto desse mesmo ano quando viaja para Manaus com os demais sobreviventes.

Carlos Morsing retorna, chegando a Manaus no dia 4 de setembro, termina o levantamento e apresenta o seu relatório que foi contestado pelo Engenheiro Pinkas. Diante disso, o governo determina que Carlos Morsing volte e refaça o seu trabalho. Carlos Morsing se recusa e Pinkas é nomeado o novo chefe da Comissão, cujo resultado final também foi contestado pelos engenheiros que tinham em Carlos Morsing um exemplo de competência.

Com a assinatura do Tratado de Petrópolis em 17 de novembro de 1903, entre a Bolívia e o Brasil, agora sob o regime republicano, para resolver os problemas de fronteira entre os dois países. Com o incidente do Acre, o governo brasileiro obriga-se a construir uma ferrovia em território brasileiro no trajeto entre Santo Antônio, no Rio Madeira até Guajará-Mirim, no Rio Mamoré.

A concorrência foi vencida pelo Engenheiro Joaquim Catramby que, mais tarde, vendeu-a a Percival Farquar. Embora Santo Antônio já fosse um pequeno povoado, os americanos resolveram, por várias razões, iniciar a construção da ferrovia, sete quilômetros abaixo de Santo Antônio, no lugar denominado Porto Velho, levando com isso o governo brasileiro a renegociar a cláusula VII do Tratado de Petrópolis. Farquar criou a Madeira Mamoré Railway Co. e por meio dela contrata os serviços da empresa May & Jakyll que depois junta-se a John Randolph, formando assim a May Jakyll & Randolph, responsável pela construção. Os trabalhos seriam supervisionados pela Madeira – Mamoré Railway Co. Saíram de New York em 6 de maio de 1907 e chegaram a Santo Antônio em 20 de junho do mesmo ano. Naquele ano fizeram o levantamento do acervo deixado pela P.& T. Collins, foi construído o hospital da Candelária e os serviços de frente já se encontravam adiantados. No entanto, as doenças já faziam as suas primeiras vítimas e o relatório do hospital, naquele ano, registrava o falecimento de seis pessoas.

No final de 1909, a ferrovia já contava com 74 quilômetros construídos e Farquar consegue junto ao governo brasileiro, o arrendamento da ferrovia e de vários seringais, pelo prazo de 60 anos. Em dezembro desse ano, Rondon chegava a Porto Velho, concluindo a trilha para a implantação da linha telegráfica, Cuiabá – Santo Antônio.

No ano de 1910, Osvaldo Cruz e Belisário Pena estiveram no local da construção da ferrovia, para estudar uma maneira de fazer o saneamento da área e, também nesse ano, os trilhos chegavam à cachoeira de Três Irmãos.

No dia 7 de setembro de 1911, os trabalhos de implantação da ferrovia chegam a Abunã e, em 31 de abril do ano seguinte, atinge Guajará – Mirim, sendo inaugurada no dia 1º de agosto. Dos homens contratados pela empresa construtora, num total de 21.817, haviam falecido 1.522 durante o período da construção. A Estrada de Ferro Madeira – Mamoré estava concluída, no entanto a Bolívia, nesse ano, já chegava ao Pacífico por duas ferrovias e estava sendo concluída a sua ligação com o Atlântico, pela Argentina. O canal do Panamá estaria concluído dentro de três anos e, com isso, a Madeira – Mamoré só daria lucro nos dois primeiros anos de atividades, pois a produção ordenada dos seringais do Oriente fariam cair o preço da borracha no comércio internacional.

A grande recessão mundial, que começou em 1914, levou Percival Farquar à falência em 1919 e, só então, os investidores ingleses e canadenses que tinham recursos administrados por Farquar, verificaram que o dinheiro de suas ações havia sido utilizado para a constituição da Empresa Madeira – Mamoré Railway Co., e por força do contrato de concessão firmado com o governo Brasileiro foram obrigados a assumir a administração da ferrovia, o que fizeram durante doze anos. Em 30 de junho de 1931, os ingleses pararam as atividades da ferrovia durante 8 dias, e, com isso, o contrato foi rompido. Foi assim que, no dia 10 de julho de 1931, por determinação do Presidente Getúlio Vargas, Aluízio Pinheiro Ferreira, assume a direção da ferrovia, no entanto, somente em 5 de abril de 1937, o contrato foi oficialmente rescindido com o pagamento do acervo construído pela Madeira – Mamoré Railway Co.

Em 1966, depois de 54 anos de atividades, praticamente acumulando prejuízos durante todo esse tempo, o Presidente da República, Humberto de Alencar Castello Branco, em 25 de maio de 1966, determina a erradicação da Estrada de Ferro Madeira – Mamoré que seria substituída por uma rodovia. Em 10 de julho de 1972, as máquinas apitaram pela última vez e, a partir daí, o abandono foi total até, que em 1979, o acervo começou a ser vendido como sucata para uma siderúrgica de Mogi das Cruzes, em São Paulo. Com a mobilização popular, o empenho de Associações Paulistas ligadas à preservação ferroviária e do Governador Jorge Teixeira de Oliveira, a venda foi suspensa.

A Fundação Pró – Memória realizou um seminário em Porto Velho, de 26 a 29 de novembro de 1980, resultando na reativação da ferrovia em um trecho de 7 quilômetros, entre Porto Velho e Santo Antônio, inaugurado no dia 5 de maio de 1981. Hoje o trecho recuperado atinge a vila de Teotônio, no quilômetro 25, mas, por falta de recursos para manutenção, o trem trafega apenas no primeiro trecho, mesmo assim, precariamente.

-  Parque Memorial Madeira Mamoré

“as obras de restauração do conjunto rotunda/girador/oficina marcarão uma mudança no modo de ver a relação do Rio Madeira com Porto Velho. A cidade está virada ‘de costas’ para o Rio e a recuperação de uma área como o pátio da EFMM, complementada pela obra que se iniciou, fará que a população, através do contato, se aproprie do Rio como parte da paisagem. Esta obra será mais um passo para que a cidade una dois dos seus maiores patrimônios: o histórico (EFMM) e o natural (Rio Madeira). (Giovani Barcelos - arquiteto e urbanista do IPHAN)

No dia 10 de novembro de 2005, a ferrovia foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), e em 28 de dezembro de 2006, a Portaria 108, considerou a EFMM como Patrimônio Cultural Brasileiro. IPHAN, em novembro de 2011, iniciou as obras de restauração da grande oficina da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, que possui 5.700 m2 e 13 metros de altura. A previsão é de que as obras estejam concluídas até 2014 quando as locomotivas percorrerão um trecho 8 quilômetros entre a Estação de Porto Velho e Santo Antônio.




quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

A Magia do Camaquã

A Magia do Camaquã



Poema da Água
Raul Machado

A água também tem a sua infância
- quando apenas riacho cantarola
brinca de roda nos redemoinhos
salta os seixos que encontra
e faz apostas de corrida - travessa -
por entre as grotas e peraus
e arranca as flores que a marginam
para engrinaldar a cabeleira solta
sobre o leito revolto das areias...

-  Granja do Valente
O Amigo Pedro Auso Cardoso da Rosa estava programando uma descida pelas águas do Rio Camaquã, com direito a acampamento e tudo mais, infelizmente contratempos de toda a ordem forçaram-me a adiar o evento. Vim para Bagé com o propósito de dar continuidade ao meu treinamento na Granja do Valente, de propriedade da Família Schiefelbein, mas com a firme determinação de conhecer o Rio Camaquã. Na barragem o ninhal de maguaris, cheio de vida em setembro, estava abandonado, apenas vestígios de cascas de ovos sinalizavam sua eclosão e a passagem das majestosas aves pela área.

Soneto
Augusto dos Anjos
(Ao meu primeiro filho nascido morto com 7 meses incompletos
2 fevereiro 1911)



Agregado infeliz de sangue e cal,
Fruto lubro de carne agonizante,
Filho da grande força fecundante
De minha brônzea trama neuronia

Que poder embriológico fatal
Destruiu, com a sinérgia de um gigante,
Em tua morfogênese de infante
A minha morfogênese ancestral?!


Porção de minha plásmica substância,
Em que logar irás passar a infância,
Tragicamente anônimo, a feder?!...

Ah! Possas tu dormir feto esquecido,
Panteisticamente dissolvido
Na noumenalidade do NÃO SER!



Apenas o grande ninho do João Grande continuava ocupado como se a ave ainda estivesse chocando, cuidadosamente consegui me aproximar e fotografar o único ovo que restara dos três que examinara em setembro. Peguei o ovo, curioso, pois o período de eclosão desde há muito se passara. Confirmando as expectativas verifiquei que o mesmo estava gorado e o retirei do ninho. Nos dias seguintes verifiquei que a zelosa mãe não estava mais no seu ninho liberada que fora do compromisso de chocar a calcária câmara mortuária. Se a pobre ave soubesse o que estava chocando talvez fosse capaz de entender a desconsolada e trágica essência da poesia de Augusto dos Anjos.

A barragem continuava me surpreendendo, um casal de marrecas pés-vermelhos apresentava um comportamento estranho como se estivessem com dificuldades para voar, se aproximando bastante do caiaque sem demonstrar medo. Depois de algum tempo pude verificar a razão do bizarro comportamento, os pais tentavam desviar minha atenção de três marrequinhas que mergulhavam procurando esconder-se de minhas vistas. Uma delas, mais próxima da margem mergulhava comicamente apenas a cabeça deixando a cauda de fora, me aproximei mais um pouco para fotografá-la, e a pequenina mergulhou completamente acabando por se emaranhar nas finas algas. Agarrei-a e a desembaracei da fluída e verdolenga armadilha e ao soltá-la ela nadou rapidamente, chegando a correr sobre as águas, na direção dos pais que grasnavam freneticamente.

  Rio Camaquã

A Rosângela me apresentou o Dr. Diogo Madruga Duarte um vaqueano preservacionista e irmãos das águas. O Dr. Madruga coordena periódicas descidas no Rio Camaquã e me repassou algumas importantes dicas a respeito do trajeto que eu planejara para o sábado, sugerindo que eu partisse do Passo dos Enforcados (30°52’54,4” S / 53°35’53,3” O) e não da Ponte sobre o Rio Camaquã (30°51’46,1” S / 53°36’59,4” O) cujo acesso era praticamente impraticável. Disse que pretendia ir até o Passo do Cação (30°57’30,4” S / 53°28’56,6” O) onde a Rosângela me aguardaria para pernoitarmos na Fazenda Remanso da amiga Rosi Medeiros. Um deslocamento de aproximadamente 40 quilômetros que, graças à velocidade da correnteza do Rio poderia ser vencido em seis horas de navegação.

Parti do Passo dos Enforcados às 08h30 de sábado. O estreito canal fluía espremido por grandes paredões de arenito debruçados majestosamente sobre o Rio e que vez por outra se apresentavam somente em uma das margens. O arenito é o resultado da petrificação de partículas de areia que misturadas com minerais agregadores, como o quartzo e a calcita, foram submetidas à grande pressão, durante séculos. Imerso nas telúricas entranhas eu podia admirar as belas estratificações formadas pela alternância de camadas sedimentares com granulação e cores diferentes. As belas camadas de seixos de tamanho diferentes permitiam que eu comparasse os aspectos geológicos do erodido terreno atual com os do longínquo pretérito. No leito a ação das águas diluía a ação dos tempos, separando novamente as antigas partículas cimentadas em longínquas eras, permitindo que a imaginação vagasse pelo formoso túnel do tempo camaquense. As camadas sedimentares, qual páginas amarelecidas do livro da mãe Terra, contavam uma história de transformações mescladas de cataclismos radicais e pachorrentas acomodações ancestrais.

As belas formações moldadas pelas forças da natureza através dos tempos me encantavam e eu me sentia imensamente feliz em poder contemplar estas verdadeiras esculturas criadas pelas mãos do Grande Arquiteto do Universo. A diversidade de imagens, as nítidas colorações das camadas sedimentares, os seixos incrustados no arenito, o canto das aves, produziam um efeito transcendental em todo o meu ser, eu empreendera uma cruzada mágica.

Logo que iniciei minha jornada dois biguás me serviram de precursores. Assustados com a proximidade do caiaque voavam até a próxima curva do serpenteante manancial e esperavam que eu me aproximasse para repetir o gesto novamente. Fui encontrando outros grupos pelo caminho e quando cheguei a meu destino eram nove, as aves que me antecediam. Cruzei, no trajeto, por cinco veados-campeiros (Ozotocerus bezoarticus) que bebiam placidamente as águas do Camaquã e se afastaram vagarosamente ao notar minha presença. Dois grupos de capivaras, não foram tão discretos assim, atirando-se ruidosamente nas águas. Em um dos grupos pude perceber a presença de um grande macho, além do tamanho sua identificação é facilitada pela enorme glândula que possui entre o focinho e a testa. O cheiro forte e característico que dela emana serve para identificar as fêmeas conquistadas, seus filhotes e demarcar seu território. A pequena travessia foi uma das mais belas que empreendi até hoje e agradeço a todos que a tornaram possível e, em especial, minha cara Rosângela Schardosim.




quinta-feira, 13 de outubro de 2011

O Resgate do Bravo Anaico

O Resgate do Bravo Anaico

Pelas sombras temerosas
Onde vai esta canoa?
Vai tripulada ou perdida?
Vai ao certo ou vai à toa?

Semelha um tronco gigante
De palmeira, que s'escoa...
No dorso da correnteza,
Como bóia esta canoa! ...
(Castro Alves - A Canoa Fantástica)

Na última Travessia da Laguna dos Patos, Pelotas-Porto Alegre, fomos forçados a abandonar o destemido caiaque “Anaico”, pilotado pelo Professor Hélio Riche Bandeira, nos cômoros (dunas) da Costa de Santo Antônio (30°29’44,2”S/51°16’23,5”O), entre o Pontal de Tapes e o Morro da Formiga. A popa, avariada seriamente, apesar da colocação de fitas adesivas continuava fazendo água. Estávamos aguardando a manutenção do veleiro do Coronel Pastl para resgatá-lo, mas os adiamentos sucessivos aumentavam a probabilidade de não mais encontrarmos nosso velho parceiro. Comprei o “Anaico”, da KTM, na década de 80 e com ele desafiei as águas brancas e quedas d’água dos mananciais do Mato Grosso do Sul onde se mostrou insuperável nessa modalidade, o seu valor sentimental, portanto, não era, absolutamente, mensurável.

- Destacamento Precursor

Ele e sua esposa Vera já haviam encontrado o melhor e mais perto acesso por terra para cumprir esta missão. Era através da Fazenda Boa Vista, que se situava ao norte do município de Tapes e ia até a Laguna dos Patos junto do local em que estava o caiaque a ser resgatado. (Professor Hélio)

O amigo Pedro Auso e sua esposa Vera Regina, de Camaquã, decidiram fazer uma incursão terrestre exploratória com sua camionete, no dia 8 de outubro, sábado, e conseguiram autorização para adentrar na Fazenda Boa Vista. O Pedro tinha uma ideia aproximada da localização e conseguiu chegar com sua camionete o mais próximo possível das praias da Laguna, aproximadamente 1,7 km em linha reta. Comunicou-me a proeza e combinamos que, no dia seguinte, nos encontraríamos, acompanhados do Professor Hélio e sua filha Dafne para efetuarmos o resgate do “Anaico”.

- Fazenda Boa Vista

Localizada a 15 km da sede do Município de Barra do Ribeiro, a Fazenda Boa Vista (ou Fazenda do Zé Taylor) de propriedade do Dr. José Taylor Castro Fagundes, às margens da Laguna dos Patos, é pródiga em belas paisagens e diversidade de biomas. Borges de Medeiros, segundo o Dr. Taylor, cultivou arroz nestas paragens e as catorze figueiras, de sua antiga sede, teriam sido plantadas pelos Jesuítas. A Fazenda serve de referência para os adeptos das cavalgadas e jipeiros que a incluem, sistematicamente, no seu trajeto, além de proporcionar belos locais de pescaria em seus inúmeros açudes.

- Operação Resgate

Somente dia 9 de outubro, num domingo em que até o sol apareceu contrariando a previsão do tempo que era de chuvas esparsas em quase todo estado, conseguimos ir fazer o resgate do caiaque que havia ficado avariado e escondido atrás de uma duna de areia no último ponto de nossa travessia. Eram seis horas e trinta minutos quando eu e minha filha Dafne passamos na casa do Cel Hiram para então nos deslocarmos até o quilômetro 332 da BR116, em Tapes, onde nos encontraríamos com o nosso amigo Sr Pedro, mais identificado como “São Pedro” por toda sua proteção e ajuda a nós prestada. (Professor Hélio)




No domingo, 9 de setembro, partimos de Porto Alegre, às 6h40 em direção à BR 116, a meio caminho entre Barra do Ribeiro e Tapes, para encontrar o Pedro Auso no acesso à Fazenda Boa Vista.

Chegamos ao ponto de encontro com seu Pedro cronometradamente juntos e nos dirigimos para a sede da Fazenda Boa Vista, onde deixamos o carro do Cel Hiram e seguimos na camionete rural de seu Pedro, sendo que somente esta conseguiria vencer os precários caminhos a serem percorridos. Durante este trajeto de carro seu Pedro nos contou que no dia anterior ele e dona Vera já haviam ido a este local e caminhado diversos quilômetros tentando achar o caiaque, mas sem sucesso. Por este motivo que a dona Vera, embora tendo admirado muito o local, teve que ficar descansando em casa. (Professor Hélio)

Chegamos juntos ao local do encontro a exatos vinte minutos antes da hora marcada, oito horas. Como ele já tinha feito um reconhecimento prévio fomos até a sede da Fazenda, deixamos o meu carro e partimos, os quatro, na sua camionete. O trajeto até os limites da Fazenda com a região das Areias da margem da Laguna é de uma beleza impressionante. Chegando ao destino, verifiquei o GPS e constatei que o caiaque se encontrava a 4,5km ao Sul. Seguiríamos diretamente para a praia para diminuir a caminhada pelas dunas e, depois, pela praia até o caiaque. Hidratamo-nos, carregamos o mínimo de material necessário e partimos rumo à praia percorrendo dunas e terrenos alagadiços.

Perto da penúltima porteira transposta encontramos um bando de emas correndo pelos campos e avistamos a casa sede da antiga fazenda cercada por lindas e centenárias figueiras. Chegamos de camionete até um ponto que ficava aproximadamente um quilômetro e meio da laguna, formado por grandes dunas de areia e uma rica e bela vegetação nativa, e seguimos a pé até as margens desta. Chegando à praia constatamos que o caiaque estava a mais ou menos a três quilômetros e meio de distância em direção ao sul. A água da laguna estava bastante calma, totalmente diferente da do dia em que tivemos de abandonar o caiaque. (Professor Hélio)

Na praia identificamos os eucaliptos mencionados pelos pescadores e pelo Sr. Pedro, novamente verifiquei a distância até nosso objetivo – 3,3km. Caminhamos junto à água para evitar as areias fofas da margem e, no caminho, fomos admirando a vegetação, as imensas e sofridas figueiras e as inúmeras bromélias e orquídeas.


Ao caminhar pela praia também observamos belas orquídeas e bromélias junto das dunas contrastando com o lixo junto das margens levado pelas águas e inúmeros mexilhões dourados mortos, às vezes, causando mau cheiro. Por volta das dez e meia chegamos ao local do resgate onde encontramos o caiaque exatamente como o deixamos. Após avaliá-lo vimos que ele estava em condições de navegar em águas calmas o que nos pouparia esforços. Assim eu vim remando o caiaque próximo da praia e os outros três caminhando até o ponto mais próximo da laguna com o local que estava o carro. (Professor Hélio)

Depois de caminhar por uns quarenta minutos chegamos ao local onde deixáramos nosso caiaque e, felizmente, lá estava ele, o remo, leme, e a saia. Como as águas da Laguna ainda estavam bastante calmas sugeri ao Hélio que fosse remando até os eucaliptos e lá nos aguardasse.

Neste ponto, perto de uma grande duna coberta com vegetação nativa, paramos para descansar e fazer um lanche, enquanto minha filha aproveitou para andar um pouco de caiaque. (Professor Hélio)

Nos eucaliptos fizemos uma pausa para alimentação e hidratação antes de partirmos para o percurso mais estafante, carregar o caiaque pelas dunas e terrenos alagadiços.

O trecho seguinte do resgate, embora com cerca de apenas um quilômetro e meio, foi o mais desgastante, pois tivemos de carregar o caiaque através de dunas e banhados até o carro. Eu, o Cel Hiram e seu Pedro nos revezávamos nesta missão enquanto minha filha levava o remo e batia fotos.

Iniciei, com o Hélio, o transporte pelas dunas e logo de início verificamos o quanto seria estafante tal procedimento. A Dafne carregou o remo e fomos lentamente vencendo os obstáculos. Mais adiante o Pedro me substituiu e nos revezamos até chegar exaustos ao local onde estava estacionada a camionete.


Quando chegamos ao carro, descansamos um pouco, comemos algumas frutas, prendemos o caiaque e partimos satisfeitos pelo sucesso da missão cumprida. (Professor Hélio)


Fizemos uma parada para descanso e um pequeno lanche antes de carregarmos o caiaque na camionete e retornarmos à sede onde transferimos o caiaque para o meu carro. Encerramos nossa missão com um almoço no Restaurante das Cucas na BR 116, km 338. Nossas expedições pelos brasileiros caudais tem nos propiciado encontrar pessoas fantásticas e muito prestativas como o caso do amigo Pedro Auso e tantos outros cujas amizades fazemos questão de solidificar.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Travessia da Laguna dos Patos - Margem Ocidental

Travessia da Laguna dos Patos - Margem Ocidental


Eu vi corpos de tropas mais numerosas, batalhas mais disputadas, mas nunca vi, em nenhuma parte, homens mais valentes, nem cavaleiros mais brilhantes que os da bela cavalaria rio-grandense, em cujas fileiras aprendi a desprezar o perigo e combater dignamente pela causa sagrada das nações. Quantas vezes fui tentado a patentear ao mundo os feitos assombrosos que vi realizar por essa viril e destemida gente, que sustentou, por mais de nove anos contra um poderoso império, a mais encarniçada e gloriosa luta! (Giuseppe Garibaldi)

O treinamento na represa da Granja do Valente, de propriedade da família Schiefelbein, em Bagé, produziu-me um efeito salutar tanto físico como moralmente.



Eu estava, definitivamente, pronto para enfrentar, mais uma vez, a “inconstância tumultuária” da Laguna dos Patos. Minha apreensão anterior em relação à preparação física, prejudicada pelos rigores do inverno “pampeano”, foi substituída pela fé e pela confiança. A rigorosa travessia, realizada em plena “Semana Farroupilha” seria uma justa homenagem ao “herói de dois mundos” Giuseppe Garibaldi.

– Herói de dois mundos

Era belo e forte como um atleta, e as melenas alouradas caindo-lhe até os ombros, davam-lhe a mais romântica das aparências - uma estranha e buliçosa aparência de espadachim inquieto... (Brasil Gerson)

O Herói Farroupilha Giuseppe Garibaldi é conhecido, na historiografia, como “herói de dois mundos” por ter participado de conflitos na Europa e na América. Prestando serviço à marinha republicana, Garibaldi, recebeu a missão de construir embarcações e combater a frota imperial que patrulhava a Laguna dos Patos com o objetivo de evitar que o Porto de Rio Grande fosse tomado pelos Heróis Farroupilhas. Depois de concluir a construção dos lanchões Farroupilha e Seival no Rio São Lourenço, atravessou a Laguna dos Patos, Lagoa do Casamento e chegou à Laguna do Capivari. Determinou, então, a construção de duas grandes carretas, de 8 rodas de quase quatro metros de diâmetro cada uma.

As carretas foram empurradas Laguna do Capivari adentro e as naus, conduzidas com precisão, foram atreladas às carretas e, em seguida, puxadas para fora d’água por cem juntas de bois. No dia 5 de julho de 1839, o transporte das embarcações teve início e seguiu rumo Nordeste por mais de oitenta quilômetros, cruzando campos, terrenos alagadiços e regiões arenosas. As embarcações foram lançadas na Lagoa de Tramandaí no dia 11 de julho. A operação contou com a cumplicidade e o sigilo da população local o que garantiu o êxito do projeto. Na Lagoa de Tramandaí as embarcações foram artilhadas e cruzaram a Barra de Tramandai às 20 horas, rumo a Laguna, SC.

– Professor Hélio um Samurai das Águas

Emprestei a ele um antigo caiaque fabricado pela “KTM”, modelo Anaico, que usei nas provas de águas brancas (descidas de corredeiras e quedas d’água) no Mato Grosso do Sul, final da década de 80. É um caiaque super reforçado, mas que se torna um tanto bandoleiro quando recebe vento de popa e ondas de través. No último fim de semana testamos nossas forças saindo da Raia 1 até a Ilha do Chico Manoel, perfazendo quarenta quilômetros, num intervalo de cinco horas, de ida e volta sem demonstrarmos cansaço ou perda de ritmo.


Convidei, para parceiro deste Desafio, o Professor Mestre de Educação Física do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA) Hélio Riche Bandeira. O primeiro obstáculo a ser vencido pelo Professor Hélio era o domínio de um caiaque em águas turbulentas como as da Laguna dos Patos. Há duas décadas que venho apregoando que o conjunto Canoísta-caiaque tem de ser aperfeiçoado até que se tenha forjado um sistema singular e monolítico. As grandes ondas, os ventos fortes e as rajadas imprevistas, tão comuns na Laguna dos Patos, não concedem ao canoísta tempo suficiente para pensar na melhor maneira de reagir e podem, em frações de segundo, provocar um indesejado naufrágio. As reações precisam ser instintivas, rápidas, havendo necessidade de uma grande interação do conjunto Canoísta-caiaque com a natureza que o cerca, é fundamental saber interpretar o pulsar das águas e o compasso dos ventos com apurada precisão cartesiana, mas com a alma de um artista.

O Professor Hélio levou a sério os conselhos e treinou durante quase três semanas para a desafiadora jornada. A disciplina invulgar do Mestre de artes marciais aliada à sua determinação permitiu-lhe dominar a técnica da canoagem em poucos dias.

– Equipe de Apoio

A previsão de ventos fortes durante todo o trajeto impediu que o Coronel PM Sérgio Pastl nos apoiasse com seu veleiro Ana Cleci. Nosso fiel amigo escudeiro, porém não nos deixou na mão e o apoio naval foi então substituído pelo terrestre. O Cel Pastl contava, ainda, com o concurso dos destacamentos da Brigada Militar existentes ao longo do percurso, da parceira Rosângela Schardosim, dos novos amigos Pedro Auso Cardoso da Rosa e sua querida esposa Vera Regina Sant’Anna Py e dos dois netos do Cel Pastl Pedro Sérgio Londero Pastl e Brian Pastl Wechenfelder.

– Partida de Bagé (16 de setembro)

Saímos de Bagé depois do almoço, do dia 16 de setembro, rumo à Praia do Laranjal, em Pelotas. Contatamos o Professor Hélio, por volta das 15 horas, na Praia do Laranjal onde procuramos uma pousada para nos alojar. A Praia oferece ao visitante diversas opções de hospedagem embora careça de sinalização adequada. Os ventos fortes acima de 25 nós (45km/h) e ondas superiores a 1,5 metros prenunciavam dificuldades para o dia da largada.

– Partida da Praia do Laranjal (17 de setembro)


Fogem do vento que ruge
As nuvens aurinevadas,
Como ovelhas assustadas
Dum fero lobo cerval;
Estilham-se como as velas
Que no alto mar apanha,
Ardendo na usada sanha,
Subitâneo vendaval.

Bem como serpentes que o frio
Em nós emaranha, — salgadas
As ondas s’estanham, pesadas
Batendo no frouxo areal.

Disseras que viras vagando
Nas furnas do céu entreabertas
Que mudas fuzilam, — incertas
Fantasmas do gênio do mal!


(Gonçalves Dias - A Tempestade)

Partimos às 06h15 enfrentando o mesmo Nordestão e as mesmas ondas que avistáramos no dia anterior. Felizmente as ondas de proa podiam ser vencidas pelo caiaque de meu parceiro sem grandes dificuldades técnicas, mas, em contrapartida, exigiam de nós um grande esforço físico. Em condições normais nossa velocidade cruzeiro é de 4 nós (7,2km/h), o vento de proa, porém, não permitiu sequer que chegássemos aos 2 nós. Depois de 01h15, tendo navegado apenas três quilômetros e meio, fizemos a primeira parada numa praia (31°43’15,60”S/52°11’27,48” O) onde um amistoso e carente “guaipeca” se aproximou e foi brindado com um pedaçinho de barra de cereal. As perspectivas não eram alvissareiras, nesta velocidade chegaríamos a São Lourenço somente na madrugada do dia seguinte. Descansamos e prosseguimos nossa saga confiando que a meteorologia confirmasse seus prognósticos que anunciavam ventos do quadrante Sul a partir do início da tarde. Passamos pela grande Colônia de Pescadores Z3 (31°42’04,06”S/52°09’17,97”O).

Colônia de Pescadores Z3: também conhecida como Colônia de São Pedro ou Arroio Sujo, foi fundada em 29 de junho de 1921. Alguns moradores mais antigos afirmam que a família “Costa” foi uma das primeiras a se estabelecer na região personificada pelo casal Olegário e Adelaide Costa. No início eram poucas pessoas e famílias, vivendo em casas de madeira e palha, oriundas de diversas regiões. Na primeira fase, no início do século XX, os moradores eram do Estado do Rio Grande do Sul, agricultores de cidades como Piratini, Tapes, Viamão e Rio Grande. Já numa segunda fase, a partir da década de 1950, vieram grupos oriundos do Estado de Santa Catarina, de cidades como Laguna, Itajaí, Florianópolis, entre outras. Eram pescadores. A partir da década de 1960 começaram a vir famílias oriundas de uma ilha conhecida como “Ilha da Feitoria”, localizada à uma hora de barco da Colônia Z3. Numa fase final, a partir do início da década de 1990, começaram a surgir grupos oriundos das periferias urbanas e da zona rural de Pelotas. (Ecomuseu da Colônia Z3)

Fizemos nova parada na Margem Ocidental da boca da Lagoa Pequena sem notar qualquer mudança nas condições do tempo. Depois de comunicarmos ao pessoal de apoio nossa posição e nossas preocupações partimos rumo à Ponta da Feitoria, na Ilha da Feitoria. A meio caminho uma repentina mudança nos entusiasmou, os ventos abrandaram. A alegria durou pouco e uma chuva extremamente fria nos envolveu, São Pedro de Cafarnaum, o “manda-chuva” batizava o novo canoísta.

Aportamos, às 12h30, na Ponta da Feitoria (31°41’36,50”S/52°02’22,18”O) e novamente uma doce calmaria nos empolgou. Uma pequena capelinha e umas poucas casas de pescadores compunham o bucólico cenário. Estávamos há apenas 21km de distância, em linha reta, do ponto de partida, um terço do trajeto previsto. Fotografamos os arredores e animados partimos.



Contornamos a Ponta da Feitoria e nos defrontamos, novamente, com o “Nordestão” que não perdera sua impetuosidade. Navegamos por mais de uma hora e paramos frente a uma pequena moradia onde residia o seu Fernando. Conversamos com o solitário caseiro que contou-nos seu infortúnio, naufragara o pequeno barco e o seu motor de popa estava sem condições de uso. Fernando nos informou que mais adiante encontraríamos o senhor Flávio Oliveira Botelho e que ele certamente nos providenciaria abrigo. Comuniquei ao pessoal de apoio a mudança de planos, faríamos uma parada intermediária, em decorrência do vento que não sofreara seu ímpeto. Partimos para nosso último lance e aportamos junto às belas ruínas da centenária sede da Estância Soteia (31°37’52,31”S/52°00’57,38”O) mais conhecido como Casarão da Soteia (casa com terraço).


Construído pelos índios guaranis, nos idos de 1780, e que remonta à época da Real Feitoria de Linho Cânhamo embora não tenha sido a sede da mesma. Apesar do triste estado em que se encontram as ruínas ainda é possível visualizar-lhe o belo terraço, de frente para a Laguna dos Patos, que lhe empresta o nome. Nenhuma árvore foi plantada na frente, voltada para a Laguna, para não comprometer a visualização a partir do grande terraço. Em volta do casarão, porém, cinco estóicas paineiras dão um toque especial ao conjunto. Essas paineiras centenárias não possuem espinhos no caule e galhos mais baixos. Algumas paineiras costumam a partir dos vinte anos de idade, com o engrossamento da casca, a perder os espinhos inicialmente na parte mais baixa do caule e com o passar dos anos a queda se estende às partes mais altas da árvore.

Real Feitoria de Linho Cânhamo (1783-1789): instalada, em 1783, na região de Canguçu velho, município de Canguçu, sob a inspeção do Padre Francisco Xavier Prates, acompanhado de Antonio Gonçalves Pereira de Faria, um Furriel para Almoxarife, quatro soldados europeus, e quarenta escravos de Sua Majestade trazidos, do Rio de Janeiro, para trabalhar no cultivo e industrialização das duas plantas têxteis. Estes produtos, na época, eram empregados na fabricação de cabos e velas para embarcações.

O nome do município de Arroio do Padre tem origem em um acidente ocorrido com o Padre Francisco. Conta a tradição que o Padre e seu cavalo foram arrastados pelas águas do arroio e que ele só se salvou do afogamento porque conseguiu agarrar-se a alguns galhos. Desde então, o local ficou conhecido como Arroio do Padre. O Padre Francisco faleceu em 1784, a Feitoria, a partir de sua morte entrou em franco declínio, tendo em vista a pouca produtividade das colheitas, até ser transferida para São Leopoldo. Seu irmão Paulo Xavier Rodrigues Prates tornou-se mais tarde proprietário da região da cidade de Canguçu, da ilha da Feitoria e de todo o primitivo Rincão do Canguçu.

Leváramos o dobro do tempo previsto para percorrer pouco mais de 30km e seguramente a energia suficiente para percorrer 90km.

Nobre cardápio crioulo das primitivas jornadas,
Nascido nas carreteadas do Rio Grande abarbarado,
Por certo nisso inspirado, o xiru velho campeiro
Te batizou de “Carreteiro”, meu velho arroz com guisado.
(Jayme Caetano Braun)

O senhor Flávio Oliveira Botelho havia sugerido, inicialmente, que ocupássemos uma instalação ao lado do grande casarão e mencionou que precisava tirar um gato morto de lá antes de nos instalar-nos. Ao verificar que nossas embarcações eram simples caiaques o bom homem se comoveu, levou-nos para sua casa e brindou-nos com suas encantadoras histórias e um saboroso carreteiro permitindo ainda que usássemos as camas de sua moradia. Na propriedade existe a mais bela figueira que já tive a oportunidade de admirar, segundo o Sr. Flávio ela já foi fotografada para constar de calendários de Pelotas e São Lourenço. Foi uma noite agradável onde tivemos, graças à acolhida do senhor Flávio, a possibilidade de recuperar nossas energias para a empreitada do dia seguinte.

– Partida do Casarão da Soteia (18 de setembro)

Depois de uma boa noite de sono na casa do seu Flávio partimos, às 07h15, para São Lourenço. As condições meteorológicas haviam melhorado significativamente e fizemos três paradas estratégicas para poder observar as belezas naturais, em especial as frondosas figueiras e as belas orquídeas que emprestavam suas belas formas e cores aos troncos retorcidos arrebatados das margens pela fúria das águas da Laguna.


Avistamos, ao longe, São Lourenço por volta das 11 horas e a partir daí até nossa chegada, por volta das 13 horas, as tainhas saltavam graciosamente à frente das embarcações projetando seus belos, esguios e hidrodinâmicos corpos prateados sobre a linha do horizonte. Avistamos a Rosângela, o Cel Pastl e seus dois netos Pedro Sérgio Londero Pastl e Brian Pastl Wechenfelder que nos esperavam na foz do Rio São Lourenço (31°22’41,35”S/51°57’58,27”O).



– Pérola da Laguna

Em São Lourenço degustamos o precioso churrasco preparado pelo Cel Pastl no acampamento montado no Iate Clube, depois da refeição arrumamos nossos pertences. O Professor Hélio permaneceu no acampamento e eu fui para a Pousada da Laguna Apart Hotel reservada pela Rosângela. A confortável Pousada é a única que concede desconto de 50% para idosos e graças a isso pude aproveitar essa rara regalia. Depois de um reconfortante banho fomos conhecer a aprazível cidade com suas belas casas e a bela orla à margem esquerda do São Lourenço.



A origem do Município remonta ao final do século XVIII, quando a coroa portuguesa distribuiu terras nas margens da Lagoa dos Patos a militares que se destacaram nas guerras contra os espanhóis. Os proprietários erigiram capelas em devoção aos seus santos prediletos. Em 1807, os moradores da Fazenda do Boqueirão construíram a capela de Nossa Senhora da Conceição, ao redor da qual desenvolveu-se o povoado que é o berço do município. Em 1830, o povoado da Fazenda do Boqueirão, foi elevado à Freguesia, por Dom Pedro I, sendo desmembrado da Vila de Rio Grande e incorporado à Vila de São Francisco de Paula, atual Pelotas.

Na Fazenda de São Lourenço, sita na margem esquerda do arroio do mesmo nome, foi edificada em 1815 uma capela devotada a São Lourenço. No Arroio São Lourenço, o italiano Giuseppe Garibaldi, a serviço da República Riograndense, improvisou o estaleiro onde foram construídos os dois lanchões armados usados para combater a frota imperial baseada na Lagoa dos Patos e empregados mais tarde na expedição farroupilha à Laguna. As águas rasas do arroio serviam de refúgio para a flotilha farroupilha, sempre que ameaçada pelo maior poder de fogo dos barcos imperiais. São Lourenço foi palco de vários combates entre o exército farroupilha e o imperial.

Em 1850, o Coronel José Antonio de Oliveira Guimarães, doou parte das terras da fazenda para uma nova povoação e, em 1858, firmou contrato com o prussiano Jacob Rheingantz, para o estabelecimento de colonos alemães na região. O pequeno porto localizado na embocadura do Arroio São Lourenço, tornou-se então um dos mais importantes portos de veleiros mercantes do sul do Brasil, contribuindo para o progresso da colônia que foi grande produtora de batata durante o século XIX e parte do século XX.
A casa onde Rheingantz instalou a administração da colônia e a sua residência, está preservada e integrada ao patrimônio arquitetônico do Município. Muito embora a Freguesia de Boqueirão tenha sido elevada à condição de vila e emancipada de Pelotas em 26/4/84, a sede do novo município foi transferida em 15/2/1890 para São Lourenço, promovida então a vila. Em 31/3/1938 passa a ser cidade. (http://www.saolourencodosul.rs.gov.br/)

 
Em cada volta de praia
Em cada barranca do rio
Ficaram as pegadas somente
Da capivara assustada
E do canoísta
Que dali partiu.

Belo Rio Camaquã!
Do serpentear do teu leito
Levamos a grata lembrança
Do vigilante Martim-pescador,
Do vôo da Garça moura,
Do saltar da tainha,
Da espuma da correnteza,
Da rede do pescador...
(Vera Regina)

Na pousada consegui secar as roupas molhadas e me reorganizar para a próxima empreitada. O atendimento cordial da gerência, o preço diferenciado para idosos e a qualidade das instalações da Pousada da Laguna Apart Hotel, certamente nos servirá de referência para a próxima travessia em abril de 2012.

– Partida de São Lourenço (19 de setembro)

O merecido descanso em São Lourenço nos recompôs e partimos confiantes para a terceira etapa de nossa travessia na Laguna dos Patos rumo ao Rio Camaquã. Os ventos, porém, e as ondas de través não haviam diminuído sua intensidade exigindo de nós um esforço muito grande para progredir. Fizemos uma parada intermediária (31°19’58,83”S/51°55’40,26”O) antes da Ponta do Quilombo de onde rumamos diretamente para Este pegando, a partir daí, o vento de proa, novamente o Professor Hélio conseguiu assumir o comando de seu voluntarioso caiaque “Anaico” e avançamos celeremente a uma velocidade de 4nós (7,2km/h).



Paramos na Ponta do Quilombo (31°20’00,83”S/51°51’20,96”O) e mostrei ao Hélio nosso objetivo a Nordeste, a Foz do Camaquã, ele sugeriu uma parada a uns cinco quilômetros adiante no que parecia, pelo mapa do Google Earth, uma extensa praia de areias brancas. O vento ia golpear o caiaque do Hélio com ondas de través, novamente prejudicando-lhe a progressão. Avancei diretamente para o ponto sugerido (31°17’58,45”S/51°49’32,76”O) e aguardei o amigo em terra. O Hélio mal parou para descansar e resolveu continuar a progressão acompanhando a costa enquanto eu, depois de aguardar um tempo, procurei orientar minha rota diretamente para a foz do Camaquã.

Aportei próximo à foz (31°17’10,18”S/51°46’17,01”O) e arrastei o caiaque para um banco de areia mais ao Sul deixando-o de lado para que o professor pudesse avistá-lo de longe. Calibrei o GPS e fiquei, algum tempo, admirando as aves que emprestavam um colorido especial à mesopotâmia camaquense. Um enorme bando de colhereiros cor-de-rosa chamou-me, em especial, a atenção com suas graciosas evoluções e cores que se mesclavam com o azul celeste.

Colhereiros cor-de-rosa (Platalea ajaja): para obter alimento, a ave arrasta o seu bico sensível em forma de colher de um lado para o outro revirando o lodo. No período reprodutivo, exibe uma bela plumagem cor-de-rosa. A ingestão de peixes, insetos, camarões, moluscos e crustáceos que contenham carotenóides dão uma coloração rosada ao colhereiro, que se torna mais intensa na época da reprodução.


O Hélio demorou um pouco, pois confundira-se com a trama aquática da região e depois de descansar um pouco partimos pelo delta assoreado do Camaquã para nosso destino na Ilha de Santo Antônio.

Avistamos uma pequena ilha na entrada da Barra Grande e penetramos confiantes nas águas do Camaquã. Logo na entrada observei intrigado uma estranha embarcação que se aproximava. Era o amigo Pedro Auso Cardoso da Rosa e sua esposa Vera Regina Sant’Anna Py em seu caiaque oceânico duplo totalmente modificado com dois estabilizadores na popa e suportes para carga na proa.

Os amigos nos conduziram até uma cabana (31°14’42,63”S/51°44’54,37”O) de seu amigo Henrique, na Ilha de Santo Antônio, onde pernoitaríamos. Na cabana nos aguardavam o Coronel Sérgio Pastl e seu dois netos Pedro Sérgio Londero Pastl e Brian Pastl Wechenfelder. O Mestre Pedro fez questão de transportar os caiaques no seu reboque da praia até a cabana. Depois de arrumarmos nossas tralhas e tomarmos um bom banho saboreamos a refeição preparada pelo nosso dileto amigo Pastl. Dormimos cedo para enfrentar a jornada seguinte.

– Vera Regina Sant’Anna Py

Matas, rios, estradas,
Capoeiras e banhados,
Servem de rumos
Para eu deixar de ser gente
E transcender...
Junto d’alma da terra mãe. (...)

O segredo da felicidade
Humm... deve ser decodificado
Escute, mergulhe, entre e perfure... (...)
(Vera Regina)

A professora Vera Regina, gaúcha de Guaíba, reside em Camaquã, RS, é graduada em Ciências, especialista em meio ambiente e toxicologia aplicada. A canoagem lhe proporcionou uma mágica aventura pelo cânion Fortaleza, em Cambará do Sul, RS, que ela procurou materializar, pela primeira vez, através de um poema. Companheira fiel de seu esposo Pedro Auso Cardoso da Rosa ela o acompanha nas remadas, caminhadas, pedaladas e outras tantas aventuras radicais pelos nossos rincões. A poetisa-escritora faz uma crítica contundente ao desrespeito à natureza promovido pelo ser humano afirmando: “acho que o homem necessita acordar urgentemente para um verdadeiro respeito pela natureza”.

Vera Regina presenteou-nos com seu belo e inspirado livro “O rio Camaquã e a Canoa” que como ela mesma afirma: “é um entrelaçar de esporte e poesia, com conhecimento ecológico, pois percorri os 230km do rio e quero que vocês também o façam comigo”.

– Partida para a Casa Vermelha (20 de setembro)

Os amigos aguardavam a balsa para transpor o Camaquã quando descemos o Camaquã rumo à Casa Vermelha como a professora Vera identificara nosso destino final. O vento forte nos fez procurar abrigo na margem esquerda do Rio e chegamos à foz sem grandes problemas. Iríamos enfrentar fortes ventos de proa, novamente, e sugeri uma parada intermediária e nela aguardei o Hélio admirando e fotografando a vegetação do entorno.

Quando decidi seguir rumo à Ponta do Vitoriano meu suporte do leme partiu e comecei a sofrer com os problemas de navegação similares aos que afligiam o professor Hélio. Depois de tentar, durante algum tempo, impingir uma rota fixa ao “Cabo Horn” forçando por demais o braço direito já que as ondas de través atingiam primeiramente a popa à Boreste arrastando o caiaque para a direita, decidi remar naturalmente. Deixava o caiaque fazer uma longa curva na direção das ondas me afastando da margem e depois surfava até a costa aproveitando as ondas de popa, era um ziguezaguear constante que embora aumentasse a distância me poupava o desgaste do braço direito. A meio caminho entre a foz do Camaquã e a Ponta do Vitoriano avistamos uma bóia de sinalização encalhada e depois, na Ponta do Vitoriano, mais outras duas. O Cel Pastl me assegurou que por mais de uma vez fez reclamações junto às autoridades competentes, mas que até hoje nada foi providenciado deixando os grandes e perigosos Bancos de Areia sem qualquer tipo de sinalização visual.


Da Ponta do Vitoriano avistamos a chaminé de uma antiga instalação do IRGA (31°12’03,49”S/51°38’34,34”O) na Praia do Areal e mais adiante a tal casa vermelha mencionada pela amiga Vera Regina. O Hélio seguiu costeando e eu apontei a proa para a chaminé surfando nas ondas de través. Sem o leme, porém, a tendência do “Cabo Horn” era desviar para Boreste, dificultando um pouco a navegação. Aportei nas proximidades da chaminé junto a um grupo de pescadores que retirava o fruto de seu labor das redes. Estavam, já há algum tempo, instalados no complexo do IRGA e, como a instalação tinha sido vendida a particulares, teriam de abandonar o local. Combinei com o Hélio a próxima rota, diretamente para a casa vermelha mencionada pela amiga Vera e parti.

Aportei na praia da tal Casa Vermelha - Fazenda Flor da Praia (31°08’25,59”S/51°37’06,85”O), e procurei alguém para me informar onde estariam meus parceiros. As instalações da fazenda eram impressionantes e achei que desta vez usufruiríamos de acomodações confortáveis para o pernoite. Ledo engano, o capataz, devidamente armado, apareceu muito tempo depois e nos informou que não recebera nenhuma ordem no sentido de nos hospedar e que nossos amigos deveriam estar mais adiante nas antigas instalações da fazenda onde estavam acampados outros pescadores. Nesta altura o Hélio e eu muito cansados e encarangados tivemos, desolados, de nos resignar e continuar até a instalação indicada.

Acabei de falar com o Sr Gabriel da Fazendo Flor da Praia que nos autorizou a entrar na propriedade e acampar na beira da Praia. Peguei, também uma carta na 1ª DL, que nos dá a posição do local como: 31°54’10”S/51°40’11”W. Há três prédios pela vista da carta (galpões bem junto à praia). Como referência é mais ou menos o dobro da distância entre a raiz do Banco do Vitoriano e a chaminé do engenho da Praia do Areal. (E-mail do Cel Pastl - 16/09/11)

O último lance foi especialmente complicado para o Hélio que virou por mais de uma vez o caiaque golpeado pelas fortes ondas de través. Resolvi picar a voga para não virar também e para tentar conseguir um barco de resgate. Cheguei à praia (31°07’42,23”S/51°34’41,57”O) onde avistei o Pedro Sérgio e o Brian, netos do Cel Pastl, que me informaram que só eles estavam ocupando as instalações, portanto não havia nada a ser feito a não ser esperar pelo Hélio que chegou, depois de algum tempo, a pé depois de deixar o caiaque escondido numa vala.


– São Pedro de Cafarnaum x Sr Pedro de Camaquã

Por isso Eu te digo: tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder da morte nunca poderá vencê-la. (São Mateus, 16, 18)

Até então São Pedro de Cafarnaum (Aldeia de Naum), o “príncipe dos apóstolos”, conhecido também como “porteiro do céu”, “padroeiro dos pescadores” e, sobretudo, “manda-chuva” tinha imposto à nossa travessia todo o tipo de obstáculos e dificuldades. Dificuldades essas que foram amenizadas, em grande parte, com a chegada de seu xará o Senhor Pedro de Camaquã (Rio Correntoso). Os amigos brigadianos de Camaquã comandados pelo Sargento PM Juliano, atendendo ao pedido do Cel Pastl que solicitara a indicação de um vaqueano da região, conhecedor não somente dos locais de paragem ao longo da Laguna dos Patos, mas que fosse prestativo e tivesse livre transito entre os moradores da região, chegaram, finalmente, ao amigo Pedro graças à indicação de seu sobrinho Josemar Rosa de Sousa.

Raramente em minhas seis décadas de vida tive a oportunidade de conhecer uma pessoa mais afável, criativa e prestativa. O Pedro só sossegou depois de resgatar o caiaque do Hélio que tinha ficado na margem. A operação, que se estendeu noite adentro, enfrentou porteiras fechadas a cadeado e com isso a equipe formada pelo Sr. Pedro, Professor Hélio, Cel Pastl e seus dois netos, teve de carregar na mão, por quase três quilômetros, o caiaque até o reboque antes de transportá-lo ao acantonamento. Em Porto Alegre haviam adaptado um leme no caiaque do Hélio que não estava sendo utilizado porque o tinham colocado totalmente fora do alinhamento além de furarem o casco. O Pedro resolveu então substituir o meu suporte do leme quebrado pelo do caiaque do Hélio e só retornou à sua cidade depois de concretizar sua missão. A colocação resolveria meu problema de navegação, mas o professor Hélio continuaria enfrentando mais surpresas pela frente.

Belo Rio Camaquã!
Do serpentear do teu leito
Levamos a grata lembrança
Do vigilante Martim-pescador,
Do vôo da Garça moura,
Do saltar da tainha,
Da espuma da correnteza,
Da rede do pescador...
(Vera Regina)

Finalmente, um dia de sol e ventos amenos. A noite foi longa, a residência não tinha portas nem janelas e o vento frio castigou-nos durante toda a noite. O saco de dormir estendido diretamente sobre o piso duro também não era nada confortável. Saímos depois das sete horas para permitir que o sol aquecesse um pouco o ambiente e secasse nossas roupas de viagem. O Cel Pastl partiu com os netos prometendo deixar acertado nosso pernoite nas instalações do destacamento da Brigada Militar de Arambaré.

– Partida da Fazenda Flor da Praia (21 de setembro)

Indescritível o cenário e a hospitalidade na Costa Oeste. Somente conhecendo o povo, especialmente na Fazenda Flor da Praia e na Ilha do Camaquã, e os brigadianos da região para aquilatar. O tempo atrasou nossos nautas entre o Laranjal e a Feitoria, que chegaram apenas domingo à tarde em São Lourenço. Segunda-feira rumaram ao Camaquã, na Ilha St° Antônio, onde tivemos apoio do Sr Pedro Auso e sua Senhora, Profª Vera, pessoas de fino trato e robustas nas aventuras de caiaque pelas águas do Rio Grande. Na terça chegaram os nautas, com luta, quebra de leme, capotagens no ventão até a Fazenda Flor da Praia, e hoje em Arambaré. Amanhã irão a Tapes, onde haverá pausa até sábado, quando partirão para a Ilha Barba Negra. Vamos contar com o Maj Vitor Hugo e o Major Nunes nesta perna da jornada. Breve mandaremos relatos mais completos. Por enquanto muito obrigado, vocês são mesmo pessoas muito importantes e boas apoiando este projeto. (E-mail do Cel Pastl - 21/09/11)

Iniciamos nossa remada até o Banco da Dona Maria imprimindo um ritmo forte e constante de 4 nós (7,2km/h). Fizemos uma parada intermediária em um ponto de captação d’água para as plantações de arroz (31°06’10,73”S/51°30’05,34”O), a vegetação nativa esbanjava beleza com inúmeras bromélias e orquídeas e as várias pegadas de pequenos animais na areia e nas trilhas mostravam que ali a natureza se encontrava em perfeito equilíbrio.



Descansados, continuamos nossa navegação e mais adiante passamos pelas ruínas mencionadas pelo amigo Pedro Auso. O Pedro já acampara ali uma vez aproveitando a proteção da construção de alvenaria. Paramos na Ponta da Dona Maria e mostrei para o Hélio o canal de acesso à Lagoa do Graxaim em cujas margens se encontra a cidade de Santa Rita do Sul. O sol forte e os ventos fracos contrastavam com as condições climáticas que enfrentáramos até então.

Aportamos na boca da Lagoa do Graxaim (31°03’50,74”S/51°28’01,12”O) onde consegui me comunicar com o pessoal de apoio pela Operadora VIVO. As grandes Garças Mouras e um descuidado João Grande pescavam despreocupadamente na margem da Lagoa parecendo não notar nossa presença. Continuamos costeando e admirando a mata nativa e as belas figueiras encasteladas nas enormes dunas de areia. Um conjunto, em especial chamou-me a atenção e paramos para escalar as dunas e admirar as figueiras, totalmente tomadas pelas bromélias e orquídeas (31°01’35,98”S/51°29’09,89”O). Os monumentos arbóreos cravaram suas raízes nas voláteis e alvas areias tentando, em vão, equilibrar-se enquanto as areias lenta, inexorável e criminosamente escoavam duna abaixo expondo mais e mais as magníficas fundações das centenárias figueiras. A beleza do entorno era fantástica, infelizmente minha máquina fotográfica emperrara e eu não pude materializar a bela paisagem que nos cercava.

Topamos no caminho com algumas lontras ariscas que nadavam graciosamente em busca de suas presas e logo adiante vislumbramos ao longe a chaminé do antigo complexo do Hotel e Engenho da Família Cibilis que na década de 40 e 50 era o esteio da economia do Município de Arambaré. Admiramos a bela praia da Costa Doce de aproximadamente 6 km de extensão de muita beleza e entramos no Arroio Velhaco que nasce na cidade de São Jerônimo. Logo em seguida aportamos no Clube Náutico (30°54’38,01”S/51°29’47,50”O) onde estacionamos nossos caiaques e fomos procurar abrigo junto ao Destacamento da Brigada Militar.

Fomos gentilmente recebidos pelo Soldado PM Paulo que depois de nos instalar nas dependências do Destacamento levou-nos até o Posto de Saúde para que o Professor Hélio fosse atendido. O Hélio estava com uma infecção no tornozelo e foi prontamente atendido e medicado nas instalações impecáveis do Posto. Fizemos ainda um pequeno “tour” pela cidade para conhecer parte das quase duzentas figueiras cadastradas no perímetro urbano e a maior figueira do estado. Às belas figueiras urbanas e domesticadas falta, no entanto, o encanto das selvagens e fundamentalmente a magia da beleza agreste do seu entorno. A luta constante contra as intempéries empresta a essas um charme impregnado de poesia e coragem que as suas irmãs citadinas desconhecem.

O contraste entre a beleza do ambiente que cerca as figueiras selvagens e as “domésticas” fizeram-me lembrar as considerações de Madame Elizabeth Cary Agassiz e do naturalista suíço Luis Agassiz no seu “Relato de viagem ao Brasil em 1865-1866” em relação às vitórias amazônicas (vitórias régias):

Por mais maravilhosa que ela pareça quando admirada na bacia de um parque artificial, onde faz maior efeito pelo seu isolamento, tem, contemplada no meio que lhe é próprio, um encanto ainda maior; o da harmonia com tudo o que a rodeia, com a massa compacta da floresta, com as palmeiras e as parasitas, as aves de brilhante plumagem, os insetos de cores vivas e maravilhosas, com os próprios peixes que, escondidos nas águas, por baixo dela, têm suas cores não menos ricas e variadas do que as dos seres vivos do ar. (AGASSIZ)

À noite o Sr. Pedro Auso apareceu com o leme de seu caiaque para adaptá-lo no caiaque do professor Hélio. Teríamos apenas que regulá-lo na margem de acordo com o ângulo de incidência das ondas de través.


– Capital das Figueiras



Inicialmente chamava-se “Barra do Velhaco”, por estar situada na Foz do Arroio Velhaco. Em 1938 passou a denominar-se “Paraguassu” e, em 1945, adotou o nome de “Arambaré”, que quer dizer “o sacerdote que espalha luz”. Nesta localidade, conhecida desde os tempos coloniais de 1714, moravam índios com costumes especiais - pescadores e comerciantes de peles que tinham mãos e pés bem desenvolvidos. Eram os índios Arachas, também conhecidos como Arachanes ou Arachãs, que na língua tupi significa “patos”. Por volta de 1763 casais açorianos vindos para o sul estabeleceram-se na margem esquerda do estuário do Guaíba e na margem direita da Lagoa dos Patos, fundando fazendas e charqueadas até o rio Camaquã. Desde essa época, os habitantes do então distrito de Arambaré uniram-se na busca do desenvolvimento através da agricultura, da pecuária e, sobretudo pelo grande potencial turístico e pela beleza natural da localidade, emancipada em 20 de março de 1992 do município de Camaquã e de parte do município de Tapes. (http://www.portalarambare.rs.gov.br/)

– Partida de Arambaré (22 de setembro)

Partimos cedo contando mais uma vez com o apoio dos amigos brigadianos. O tempo favorecia e chegamos em tempo recorde até o Banco dos Desertores onde o amigo Pedro Auso eventualmente acampa (30°52’43,87”S/51°23’22,13”O). Infelizmente, alguns campistas ignorantes fazem fogo junto às raízes das seculares figueiras que hoje dão visíveis sinais de fragilidade e dentro em breve tombarão vítimas silentes da inconsequência do ser humano.



Ultrapassamos o Banco dos Desertores e seguimos rumo Norte penetrando na enorme enseada conhecida como “Saco de Tapes”. Os bosques de pinus, ao longe, não respeitam as fronteiras humanas e invadem lenta e progressivamente as áreas de mata nativa, derramando-se pelas areias brancas das dunas. Como os hunos de outrora, as hordas bárbaras sufocam e padronizam com sua intensa monotonia os belos campos. Indefesas figueiras prestes a serem sufocadas pelos pinheiros aguardam estáticas as impiedosas mortalhas que avassaladoras se aproximam.

Outros sinais fatídicos da presença humana se fazem presentes na poluição das águas, o mau cheiro e a espuma flutuando na superfície marcam sua presença. A enseada que protege Tapes de poluições de outros centros não permite esconder o descaso dos seus governantes em relação ao sagrado manancial que poluem sem qualquer critério, um crime ambiental para uma cidade que se propõe a abrigar um balneário turístico às margens da Lagoa. Encontramos, numa das paradas, uma pequena tartaruguinha que tentava nadar nas águas agitadas, resolvi deixá-la em um pequeno afluente mais calmo.

Chegaram hoje às 15h em Tapes os nautas, que tiveram ontem novamente o inestimável apoio do Sr Pedro Auso de Camaquã, bem como da guarnição da BM de Arambaré, destacando-se o Sd PM Paulo, Sd PM Lima e o Sd PM Guastuci. Pernoitaram e fizeram as refeições no Destacamento, e o Sd PM Guastuci gentilmente despachou o material de dormitório e cozinha hoje pelo ônibus para Tapes, onde o apanhei às 16h. No Clube Náutico Tapense fizeram uma refeição forte no Restaurante do Sr Roger, e hospedaram-se na casa de veraneio do Valmir e da Nara (ele é irmão da Aninha), no Balneário Pinvest. (E-mail do Cel Pastl - 22/09/11)


– Namorada da Lagoa

A região foi habitada por índios da tradição Tupi-Guarani. Por volta de 1808, atraídos pela fertilidade do solo e pela abundância das pastagens da região, imigrantes açorianos estabeleceram-se na área, instalando estâncias e charqueadas que foram a base da economia local por algum tempo. Posteriormente, decorrentes da própria configuração geográfica, desenvolveram-se a prática da agricultura e da pecuária que constituem atualmente a principais riquezas do Município. Mesclado com a cultura indígena, os açorianos e negros, seguidos dos imigrantes, desenvolveram aqui suas tradições, seus usos e costumes que hoje ainda fazem parte do nosso cotidiano. Em 1824, Patrício Vieira Rodrigues, adquiriu antiga a Sesmaria de Nossa Senhora do Carmo. No ano seguinte, estabeleceu uma charqueada na foz de um arroio na Lagos dos Patos, e passou a chamar-se Arroio da Charqueada. Em função desta atividade é criado no local, um porto, que deu origem à Cidade de Tapes. A primeira sede do Município, denominada Freguesia de Nossa Senhora das Dores de Camaquã, foi criada dia 29 de Agosto de 1833. Sua emancipação política e administrativa ocorreu em 12 de Maio de 1857, mas por questões políticas ou econômicas, a Freguesia passava a integrar ora no território de Porto Alegre, ora de Camaquã, chegando inclusive a pertencer a Triunfo e Rio Pardo. Em 16 de Dezembro de 1857, foi elevada à categoria de Vila, sendo esta a data considerada como a de emancipação política do Município. Em 25 de Junho de 1913, o Município desincorporou-se definitivamente de Porto Alegre e, em 22 de Maio de 1929, através de um plebiscito, foi realizada a transferência da Sede da Vila de Nossa Senhora das Dores para o Porto de Tapes, então 2º distrito. Posteriormente, o Decreto nº 10 de 21 de Setembro de 1929, muda o nome de “Município de Dores de Camaquã” para “Município de Tapes”, sendo Primeiro Intendente o Sr. Manoel Dias Ferreira Pinto.  (www.riogrande.com.br)

– Partida para Costa de Santo Antônio (24 de setembro)

Amanhã deverão repousar e partirão sábado às 05h30, em direção o Acampamento do Sr. Willi (Capão da lancha), farão a travessia dos caiaques pela areia da restinga do pontal, e prosseguirão costeando ao norte em direção à Ilha da Barba Negra. De outra banda, o Cmt Vitor Hugo com este colaborador e o Major Nunes partiremos às 08h de sábado no impecável Marbe 24 do Comandante Vitor em direção contrária, estimando o Vitor Hugo cinco horas até Itapuã e mais duas horas e meia até o Morro da Formiga, a partir de onde iremos descendo costeando ao Sul. Combinei com o Comandante Hiram que ao crepúsculo, se ainda não tivermos nos encontrado que ele aportará a terra, e nós prosseguiremos com as luzes acesas no veleiro, e então ele lançará sinalizadores ao nos avistar. Estimamos chegar ao meio dia de domingo no Farol de Itapuã, e às 15h no Clube Náutico Itapuã. (E-mail do Cel Pastl - 22/09/11)

Tentamos passar a noite, na véspera da partida, no veleiro do Cel Pastl, mas os fortes ventos tornaram isso impossível. Partimos antes das seis horas depois de pernoitar na sauna do Clube Náutico Tapense. Os ventos de Este de 15 nós (27 km) não permitiam que atacássemos diretamente o estreito da restinga do Pontal de Tapes e apontamos a proa para o acampamento do Sr. Willi. No meio da travessia o vento mudou para Sudeste permitindo que eu alterasse a rota diretamente para o local da passagem. O Hélio resolveu seguir mais próximo à costa para se proteger um pouco da ação dos ventos. A marcação pelo GPS não podia ser mais precisa. No ponto de travessia terrestre havia um pequeno rebaixamento que certamente, na cheia, deve servir de passagem das águas da Laguna dos Patos até o Saco de Tapes.



Carregamos os caiaques e as tralhas pelo estreito para a margem da Laguna, parodiando numa escala infinitamente menor a travessia de Giuseppe Garibaldi, da Lagoa do Capivari até Tramandaí. Comunicamos nossa passagem ao Cel Pastl que se preparava com o Comandante Vitor Hugo para zarpar do Clube Náutico Itapuã. A navegação transcorreu favoravelmente até as 13h quando atracamos a uns quatro quilômetros do ponto previsto para nosso acampamento. Mantendo este ritmo conseguiríamos ultrapassar em uns 10 km o ponto previsto para estacionamento. Descansamos um pouco e nesse intervalo o vento alterou novamente para Este e aumentou sua intensidade para 25nós (45 km/h) dificultando bastante a progressão. Há exatos 999 metros do ponto, o caiaque do Hélio virou e ele resolveu rebocá-lo pela margem até o ponto de encontro com a equipe de apoio. Brinquei com o professor que a culpa era da numerologia escrevendo a distância que faltava na areia e pedindo que ele a lesse mantendo-se de frente para mim (666). Naveguei vigorosamente até o local previsto, estacionei o caiaque e peguei uma corda para ajudar a rebocar o caiaque do Hélio. Amarrei a corda nas alças de proa e popa e inclinei o caiaque 45° com a direção das ondas e deixei que elas o empurrassem até o acampamento.

Carregamos, exaustivamente, toras de lenha seca durante três horas para usar como sinalização para a equipe de apoio que infelizmente não apareceu. Improvisamos um acampamento no alto de uma duna protegido dos ventos. Passei a noite inteira alimentando uma pequena fogueira para nos aquecer e vez por outra subia até o topo da elevação para ver se avistava as luzes da embarcação da equipe de apoio. Levantei antes do sol raiar e chamei o Hélio para iniciarmos os preparativos para vencer o último lance de nossa travessia.

Os ventos de Este continuavam vigorosos e o Hélio teve de parar logo à frente. A proa do caiaque enfraquecida pelos quatro furos feitos para a colocação do leme improvisado tinham enfraquecido a estrutura e a popa apresentava uma fissura pela qual a água entrava com facilidade. Não havia mais condições do parceiro continuar naquelas condições. Subi até a duna mais alta e, como na tarde e noite anterior, não consegui contatar a equipe de apoio, relatei então ao amigo Pedro Auso nossa situação que me assegurou que tomaria alguma providência.

No final de todo imbróglio tivemos de deixar o caiaque pilotado pelo professor Hélio escondido nas dunas para ser resgatado oportunamente e o “Cabo Horn” foi tracionado pelo veleiro que teve de lançar mão do motor de popa para vencer os ventos de proa. Mais uma vez o “Cabo Horn”, da Opium Fiberglass, que durante todo o percurso dera mostras de sua capacidade de enfrentar ondas de todos os tipos e tamanhos percorreu durante quase três horas o percurso até o Morro da Formiga sem apresentar qualquer tipo de dificuldade no seu controle mesmo enfrentando ondas superiores a 2 metros.

No Morro da Formiga encontramos o amigo Pedro Auso e sua esposa Vera Regina que se deslocaram especialmente de Camaquã para nos apoiar até o Destacamento da Brigada Militar de Barra do Ribeiro onde a querida Rosângela Schardosim nos resgatou.

– Analogias à Parte

Mete-te no teu caiaque
e sem medo faz-te ao rio
e sente no coração um baque
e a adrenalina de fio a pavio...

E grita e tuas emoções liberta,
vence um e mais outro rápido
até chegares a zona aberta
onde o rio para perdido...

Faz-te ao rio ardiloso,
e sente-te vivo, bem vivo,
sente-te o ser mui poderoso
que tens o mundo em ti cativo

São esses desafios muito duros
que te põem as resistências
à prova e derrubas muros
e que felicidade provas!

(Maria Augusta Sá - Enfrenta tudo sem medo!)

Nossa jornada e a de Garibaldi tiveram trechos comuns como a foz do São Lourenço. A travessia contou, também, com uma parte terrestre, guardada as devidas proporções. Uma das embarcações, o Farroupilha, de Garibaldi naufragou antes de completar a missão de atingir Laguna, SC, o mesmo acontecendo com o caiaque pilotado pelo professor Hélio que avariado não pode chegar até o Guaíba. O apelo histórico talvez tenha sido forte demais e tenha interposto obstáculos adicionais à consecução de nossa proeza. Esse foi apenas um treinamento para que em abril do ano que vem possamos realizar a travessia, sem surpresas, em homenagem ao Centenário do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA).

Estamos envidando esforços de todo o tipo para que o Professor Hélio consiga, para aquela travessia, um caiaque oceânico modelo “Cabo Horn”. Isto evitaria surpresas e um desgaste físico desnecessário, já que este modelo é, sem sombras de dúvida, o caiaque ideal para enfrentar a Laguna dos Patos e suas condições meteorológicas adversas.