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quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
Desafiando o Rio-mar – Operação Tapajós - Berço da Humanidade II
Desafiando o Rio-mar – Operação Tapajós
Berço da Humanidade II
“A Amazônia de hoje é o inacreditável lugar onde parecem de mãos dadas a fantasia e o real; o épico e o impossível; a epopeia e a lenda.”
(Moura Cavalcanti, Transamazônica, 10 de março de 1974)
- BR 163 (31 de janeiro de 2011)
Resolvi fazer um reconhecimento prévio acompanhando o Coronel Lauro Augusto Andrade Pastor Almeida na sua inspeção diária à BR 163, que se estende da sede do 8° BECnst, em Santarém, até o Britador situado na BR 230 - Transamazônica. Partimos às dez horas e no britador, por volta das catorze horas, o Soldado Flávio Vianna de Almeida informou que conhecia as tais cavernas e me preparei para planejar uma nova incursão às mesmas. Percorrendo o trecho pude ver orgulhoso o trabalho anônimo dos nossos Batalhões de Engenharia. As chuvas torrenciais exigiam medidas drásticas para manter o tráfego de uma estrada extremamente importante, construída sob condições totalmente adversas. Infelizmente, caminhões pesados passam, sem qualquer controle, pelas barreiras das coniventes e omissas autoridades rodoviárias danificando o leito da estrada ainda em construção. Volta e meia alguns amigos, mal informados, me perguntam se a Engenharia não estaria sendo desviada de suas reais funções e, por isso, sou obrigado a tecer algumas considerações.
- Engenharia Militar Brasileira
“Os serviços maiores e missões mais importantes
São na guerra confiadas a nossa grande energia (...)”
(Canção Do Engenheiro)
A primeira civilização a contar com elementos totalmente dedicados à Engenharia Militar foi, provavelmente, a Romana, cujas Legiões contavam com um corpo de engenheiros conhecidos como “architecti”. O advento da pólvora e a invenção do canhão deram um grande impulso à Engenharia, que teve de adequar suas fortificações para fazer frente ao poder das novas armas. Desde o Brasil Colônia, os Engenheiros Militares absorveram e aprimoraram a arte portuguesa de planejar e construir fortificações, edificações e acessos. Os testemunhos das obras realizadas, pela Engenharia Militar Lusobrasileira, solidamente construídos e estrategicamente localizados ainda fazem parte de nossa paisagem como bastiões de nossas fronteiras marítimas e terrestres. Naqueles tempos ser Engenheiro pressupunha ser, obrigatoriamente, Oficial do Exército, já que o ensino regular de Engenharia estava ligado à vertente militar. Em 1792, foi criada a Real Academia de Artilharia, Fortificação e Desenho, uma das primeiras escolas de Engenharia do mundo, embrião do Instituto Militar de Engenharia (IME) e da Escola de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Na Real Academia é que se começou a estender o acesso de civis aos conhecimentos técnicos de Engenharia resultando, em 1874, na separação do ensino civil do militar, só então surgindo a Engenharia Civil. Na primeira metade do século XX, o Brasil experimentou acelerado processo de desenvolvimento que concorreu para a implantação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN); o primeiro curso de Engenharia Aeronáutica do País, a construção do Tronco Principal Sul (TPS) e nas décadas seguintes se implantou um dos mais modernos Sistemas de Telecomunicações do mundo com o concurso efetivo e fundamental dos engenheiros egressos do IME. O IME foi pioneiro, ainda, nos cursos de Energia Nuclear e da Computação. Os governos militares, numa visão estratégica voltada para o futuro, dedicaram uma atenção, muito especial, à integração da Amazônia, transferindo para aqueles longínquos rincões o grosso da Engenharia de Construção. Rodovias foram projetadas e implantadas com determinação e heroísmo pelos soldados engenheiros. Nos dias de hoje, como nos de ontem, a Engenharia Militar responde com oportunidade e alta qualidade aos desafios que se lhe são propostos para atender aos reclames do desenvolvimento nacional. Aqueles que condenam o emprego da Engenharia Militar Brasileira em obras viárias ignoram sua história e sua missão que é, em tempo de paz, colaborar com o desenvolvimento Nacional, construindo estradas de rodagem, ferrovias, pontes, açudes, barragens, poços artesianos e inúmeras outras obras que se fizerem necessárias. A Engenharia Militar é empregada, no Brasil, em obras de infraestrutura desde a vinda do imperador Dom João VI, no início do século XIX. Atuando, mormente, em regiões distantes e inóspitas, onde a iniciativa privada não considera o empreendimento economicamente viável. A Lei Complementar n° 97, de 09 de junho de 1999, regulamenta a cooperação das Forças Armadas com o desenvolvimento nacional e defesa civil.
“II - cooperar com órgãos públicos federais, estaduais e municipais e, excepcionalmente, com empresas privadas, na execução de obras e serviços de engenharia, sendo os recursos advindos do órgão solicitante;”
Em 06 de janeiro de 2003, o então Ministro da Defesa, José Viegas Filho, firmou com o Ministério dos Transportes um acordo para o Exército construir, recuperar e duplicar rodovias federais, além de fiscalizar as obras executadas por empreiteiras privadas. Essas atividades além de serem vitais para o desenvolvimento nacional são, também, fundamentais para o adestramento dos militares de Engenharia do Exército Brasileiro.
- PAC do Exército
Por Guilherme Queiroz - ISTO É DINHEIRO, nº: 669 - 30 julho 2010
“A corporação se transforma na maior construtora do País ao deslocar 11 mil militares para tocar 80 obras, num valor de R$ 2 bilhões”.
“Uma sofisticada pavimentadora de concreto trabalha na restauração da BR-101, na divisa entre a Paraíba e Pernambuco. Importada da Alemanha por R$ 4 milhões, chama a atenção pela lataria camuflada. Ela pertence ao Exército, a ‘construtora’ encarregada da obra e, nos últimos anos, um dos mais importantes braços executores do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O governo tem delegado à farda verde-oliva uma parcela expressiva das obras federais, num portfólio que se destaca não só pelo valor, mas por sua relevância para a infraestrutura nacional. São canteiros distribuídos em rodovias, portos e aeroportos, com orçamento superior a R$ 2 bilhões. Muitas não saíam do papel, em grande parte, devido a irregularidades constatadas pelo Tribunal de Contas da União (TCU). Para evitar atrasos, o Exército emprega todos os 11 mil homens de sua Diretoria de Obras e Construção em cerca de 80 projetos. ‘O Exército é hoje a maior empreiteira do País’, reclama João Alberto Ribeiro, presidente da Associação Nacional das Empresas de Obras Rodoviárias. A bronca é natural. Poucas construtoras no País têm hoje uma carteira de projetos como a executada – sem licitação – pelos Batalhões do Exército. No PAC, há 2.989 quilômetros de rodovias federais sob reparos, em construção ou restauração, com gastos previstos em R$ 2 bilhões. Destes, 745 quilômetros – ou R$ 1,8 bilhão – estão a cargo da corporação. Isso equivale a 16% do orçamento do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes neste ano. Os militares refutam as críticas de concorrência desleal. ‘Não estamos aqui para competir com a iniciativa privada. Apenas participamos do esforço do governo para diminuir as diferenças regionais e, ao mesmo tempo, ser instrumento do Estado para regular um mercado em conflito’, disse à DINHEIRO o General de Divisão Jorge Ernesto Pinto Fraxe, Diretor de Obras e Cooperação do Exército (DOC). A primeira missão nessa estratégia foi a reforma de três trechos da BR-101, principal rodovia costeira do País. É um bolo de R$1bilhão que as empreiteiras disputaram, mas não saborearam, por conta das sucessivas disputas judiciais. O governo repetiu a dose em estradas paralisadas havia anos sob acusação de irregularidades ou problemas ambientais. Casos da BR-163, conhecida como Cuiabá-Santarém e da BR-319, entre Porto Velho e Manaus, construída em 1974, mas que, abandonada pelas autoridades, foi absorvida pela Floresta Amazônica. ‘Faremos da BR-319 a primeira rodovia verde’, disse a DINHEIRO o ministro dos Transportes, Paulo Sérgio Passos. Para as empresas de transporte, a recuperação da deteriorada malha rodoviária brasileira é motivo de comemoração. (...) O esforço é maior nos aeroportos. A Infraero entregou aos militares as obras de restauração de uma das pistas de pouso e do pátio de aeronaves do Aeroporto Internacional de Guarulhos, avaliadas em R$ 43 milhões, depois de dois anos de paralisação por determinação do TCU. Suspensos por desvio de recursos, os projetos dos aeroportos de Vitória e Goiânia também podem ser concluídos pelo Exército. ‘A transferência era absolutamente indispensável para retomarmos o nosso cronograma operacional’, explica Jaime Parreira, diretor de obras da Infraero”.
- BR 163 (01/02 de fevereiro de 2011)
“É grande de cento e tantos palmos no comprimento; e todas as mais medidas de largura, e altura são proporcionadas segundo as regras da arte (...). Tem seu portal, corpo de Igreja, Capela-mor com seu arco; e de cada parte do arco uma grande pedra por modo de dois Altares colaterais, como hoje se costuma em muitas Igrejas ; dentro do arco, e Capela-mor tem uma porta para um lado, para serventia da sacristia”. (Padre João Daniel)
Acompanhei, novamente, o Coronel Pastor na sua jornada e pernoitei em Rurópolis no Hotel Presidente Médici que contou na sua inauguração com a presença do próprio Presidente. O belo hotel que teve sua época áurea durante a construção da Transamazônica foi, há pouco mais de uma década, entregue aos ladrões e depredadores até que a Prefeitura de Rurópolis resolveu recuperá-lo. As instalações se encontravam em péssimas condições, portas, janelas e todo o mobiliário tinham sido roubados. A restauração, oportuna e necessária, do belo patrimônio foi mal feita e a antiga construção perdeu muito de seu antigo esplendor. As instalações são simples, mas confortáveis dispondo de ar-condicionado, TV e frigobar.
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HOTEL PRESIDENTE MÉDICE |
De manhã cedo, sendo guiados pelo Soldado Vianna (flaviovianna20@hotmail.com), partimos de Rurópolis rumo ao km 77, da BR 230. A estrada apresenta perfeitas condições de tráfego e os motoristas abusavam da velocidade. Ao chegarmos ao km 77 avistamos uma pequena placa manuscrita, à direita, que anunciava “Cavernas”, seguimos a placa e avistamos, em seguida, o senhor José Frederico Henn, desobstruindo um bueiro na estrada de acesso à sua propriedade. Conversamos com o Henn, um colono simpático e um dos pioneiros a chegar a estas plagas, em 18 de outubro de 1972, trazendo a esposa e dois filhos, vindo de Santa Cruz, RS. Henn confirmou a existência das cavernas e disse que havia doado a área à Prelazia de Itaituba que ali realizava seus encontros religiosos, mas que estávamos autorizados a entrar.
A estrada permite acesso de veículos até as proximidades do Rio e a trilha que conduz às cavernas localizadas à direita das construções da Prelazia está coberta de brita fina para diminuir os riscos de tombos.
Chegamos, sem maiores dificuldades, ao nosso objetivo cuja conformação lembrava a descrição do Padre João Daniel. Embora o conjunto esteja parcialmente coberto pela águas pode-se entrar, em qualquer época, no salão de jusante cuja altura inicial, de mais de quatro metros, vai diminuindo à medida que se progride no estreito e curvo corredor de aproximadamente doze metros de comprimento. Não pude explorar o complexo mais alto e mais profundo, de montante, tendo em vista que as águas, na altura do meu peito, bloqueavam o extenso túnel que como o outro aprestava uma suave curva para a direita. Eu estava emocionado, havíamos, finalmente, chegado ao “Berço da Humanidade” (4°09’32,8”S/55°25’W).
“Entre os mais Rios, e Ribeiras, que recolhe o Tapajós é um o Rio Cuparis, a pouca mais distância de três dias, e meio de viagem da banda de Leste no alegre sítio chamado Santa Cruz”. (Padre João Daniel)
Gostaria de explorar o túnel maior, no verão, onde, segundo Henn, já tinham encontrado um pequeno jacaré e uma paca no seu interior, infelizmente minhas atividades escolares não me permitiam. Henn informou também que ninguém tinha conseguido encontrar o fim do referido túnel. A calha do Tapajós é rica em cavernas, mas essa em especial despertara meu interesse graças ao relato de João Daniel do século XVIII e a dificuldade de se determinar sua localização tendo em vista as vagas referencias disponíveis.
- Lendas da Origem da Humanidade
São inúmeras lendas indígenas que tratam da questão da origem do ser humano, seja brotando de buracos, expelidos pela Cobra-Grande, feridas de trovão, frutas lançadas n’água, Canoas gigantescas, enfim uma infinidade delas, essa em especial mereceu nossa especial atenção por se ratar de um relato do afamado cronista João Daniel e por se encontrar nas proximidades de Santarém nosso destino final nesta terceira fase do Projeto Desafiando o Rio-mar.
“Com a pluma branca que pendia de uma amêndoa, fez uma corda de algodão. Amarrou uma ponta em uma árvore e meteu a outra extremidade para o fundo da terra, através de um buraco de tatu. Horas depois, começou a subir gente pela corda. Eram homens e mulheres. Gente feia e bonita. Uns, mais inteligentes e pacíficos, proclamavam-se da raça Munduruku, uma espécie de casta”. (Altino Berthier Brasil)
“O Criador, em épocas imemoriais, subiu o Rio Uaupés, transformado em Cobra Grande. O ofídio comeu todos os peixes que encontrou. Quando chegou a cachoeira de Ipanoré, não podendo transpor o obstáculo, devido ao peso de seu ventre, abriu a boca, e deixou saírem os peixes. Estes se transformaram em índios de diferentes raças: Tucanos, Cubéuas, Desanas, Arapaçus, Pira-tapuias, Uananas, Cubevanas, Mirit-tapuias, etc”. (Altino Berthier Brasil)
“Um dia, contam, trovão estrondou tão forte que um pedaço quebrou dele, esse pedaço foi tocar no céu, fez ferida nele, dessa ferida começou gotejar sangue mesmo em cima do trovão, aí secou. No outro dia o trovão estrondou de novo, esse sangue que estava em cima dele virou carne. No outro dia o trovão estrondou forte de todo, atirou em cima dele essa carne, essa carne foi cair no outro lado do mar, quando tocou em terra esmigalhou-se toda, cada pedaço levantou-se gente”. (Luís da Câmara Cascudo)
“Mebapame atirou dentro do rio um gorani. Este, caindo n'água, transformou-se em uma bela mulher, moça, alva e de cabelos tão compridos que chegavam ao chão. O gesto de Mebapame foi imitado por Braburé, ao cair n'água o gorani transforma-se, também em uma formosa mulher, porém cega. (...) E dessa forma foram parar ao rio todos os goranis transnformando-se sempre em indivíduos perfeitos e bonitos os arremessados por Mebapeme e em defeituosos ou pretos os jogados por Braburé. Logo que nasciam, tantos os filhos deste, último como os daquele, saíam d'água. Mas, não se misturavam. Os de Mebapame iam para o seu lado, indo os de Braburé para onde estava este. (Carlos Estevão)
“Os Asurini afirmam que houve uma primeira criação do universo e depois um dilúvio, quando a terra acabou, ‘ficou mole’. Deste infortúnio, só sobreviveu um homem, abrigado no alto de uma árvore de bacabeira. Foi então que Mahira chamou a anta para que o animal endurecesse a superfície da terra. Mahira também tirou sua própria costela, transformando-a em uma mulher, o que permitiu que a população humana aumentasse”. (www.inteligentesite.com.br)
“Há muitíssimos anos, Deus subiu o Rio Negro e entrou no Uaupés, com uma grande ‘canoa’ cheia de peixes e aves. Quando chegou à ilha do Jacaré, que dista uns 150 quilômetros da foz, encostou a canoa a uma grande pedra, onde ainda se lhe vê a marca. Depois, tirou os peixes que levava e, com o seu poder, transformou-os em homens, e assim apareceram os Uaicanas ou Piratapuias (Índios de peixes). Depois apanhou as aves e fez os Tucanos ou Dakceia, os Arapaços ou Cone (Picapaus) e os Dessanos ou Uiina (Filhos do Trovão)”. (Padre Antônio Giacone)
- Conclusão
Ainda continuaremos reportando notícias da região mesmo depois de regressarmos a Porto Alegre tendo em vista estarmos, com muito critério, processando a infinidade de informações colhidas ao longo do Rio Amazonas. Quero, porém, deixar aqui registrado meu agradecimento a cada um dos anônimos colaboradores que financiaram nosso Projeto Aventura cuja ajuda permitiu, além das despesas essenciais ao cumprimento da missão, que adquiríssemos livros raros e de autores locais, amostras de Cestaria e Cerâmica Tapajoara e outros itens importantes para pesquisa e apresentação em nossas palestras e exposições. Por dever de justiça, não posso deixar de mencionar, novamente, meu agradecimento ao meu dileto amigo General Lauro Luiz Pires da Silva (Comandante do 2° Grupamento de Engenharia), ao meu ex-Cadete e amigo Coronel Aguinaldo da Silva Ribeiro (Comandante do 8° Batalhão de Engenharia de Construção) e ao leal e competente Grupo Fluvial do Barco Piquiatuba na figura do Sargento Aroldo Sérgio Barroso e Soldados Mário Elder Guimarães Marinho, Walter Vieira Lopes, Edielson Rebelo Figueiredo e Marçal Washington Barbosa Santos.
Da esquerda para a direita:
Cel Hiram, Cel Aguinaldo, Sgt Barroso, Sd Vieira Lopes, Sd Rebelo, Sd Mário e Sd Marçal
Da esquerda para a direita:
Cel Hiram, Gen Lauro, Cel Pastor e Cel Lúcio Flávio
sábado, 29 de janeiro de 2011
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
Desafiando o Rio-mar – Operação Tapajós - Berço da Humanidade I
Desafiando o Rio-mar – Operação Tapajós
Berço da Humanidade I
“(...) por uma grande lapa feita, e talhada por modo de uma grande Igreja, ou Templo, que bem mostra foi obra de arte, ou prodígio da natureza.”
(Padre João Daniel)
Minha permanência em Santarém, depois de aportar na Pérola do Tapajós, tinha por finalidade dar continuidade a uma série de pesquisas que me permitiriam tirar conclusões mais fiéis a respeito das narrativas de pesquisadores e escritores modernos e antigos. Eu concluíra a navegação, mas não as pesquisas referentes à 3ª Fase do Projeto. Uma de minhas maiores indagações se encontrava nas páginas da célebre obra “Tesouro Descoberto no Rio Amazonas”, do Padre João Daniel, escrito na prisão, entre 1757 e 1776. Daniel menciona pelo menos um local, na Bacia do Tapajós, que os nativos reverenciavam como o “Berço da Humanidade”. Como pesquisador, lancei-me de corpo e alma na tentativa de tentar averiguar “in loco” a existência do mesmo. Reproduzo, abaixo, dados do autor e seu intrigante relato para que o leitor compreenda meu interesse.
- João Daniel (1776)
João Daniel nasceu em Travassos, Província de Beira Alta, Portugal, em 24 de julho de 1722. No dia 17 de dezembro de 1739, ingressou na Companhia de Jesus e dois anos depois foi enviado para o Maranhão e Grão-Pará, onde completou sua formação no Colégio São Luís. Viveu dezesseis anos na fazenda Ibirajuba, considerada, na época, a melhor possessão dos jesuítas onde conviveu durante seis anos com nativos de diversas aldeias. Em 1757, o Marquês de Pombal determinou que todos os jesuítas fossem presos e deportados. O Padre João Daniel foi encarcerado no Forte Almeida, Portugal, de 1758 a 1762 e, depois, na Torre Julião, até o dia de seu falecimento em 19 de janeiro de 1776. Sua obra, escrita no período em que permaneceu cativo, revela com riqueza de detalhes incomparável três temas fundamentais: a terra, o homem e a cultura da Amazônia do século XVIII. Embora Padre Daniel faça dois relatos distintos a respeito de monumentos naturais na Bacia do Tapajós alguns autores advogam a possibilidade, ainda que remota, de que se trate do mesmo local já que os relatos poderiam se referir um à época das cheias e outro das vazantes. Digo remota porque na época das cheias as cavernas do Cupari ficam parcialmente submersas e, portanto, a descrição delas deveria ser diversa da apresentada ao Padre Daniel.
“Junto à catadupa do Rio Tapajós, acima da sua foz pouco mais de cinco dias de viagem, está uma fábrica, a que os portugueses chamam convento, por ter o feitio dele. Consiste este em um comprido corredor com seus cubículos por banda, e com suas janelas conventuais em cada ponta do corredor. É fábrica, segundo me parece das poucas notícias que dão os índios brutais em cujas terras está, de pedra e cal, e conforme a sua muita antiguidade mostra ser feito por mãos de bons mestres. É todo de abóbada, e muito proporcionado nas suas medidas, e não é feito, ou cavado em rochedo por modo de lapa, ou concavidade, como são os templos supra, mas obra levantada sobre a terra. Alguns duvidam se toda a fábrica consta de uma só pedra, porque não se lhe vêem as junturas: famoso calhau se assim é e, na verdade, só sendo um inteiro calhau parece podia durar tanto, pois segundo o ditame da razão se infere que ou é obra antes do universal dilúvio, ou ao menos dos primeiros povoadores da América, que por tão antigos ainda se não sabe decerto donde foram, e donde procedem. A tradição, ou fábula, que de pais a filhos corre nos índios, é que ali moraram, e viveram nossos primeiros pais, de quem todos descendem, brancos e índios; porém que os índios descendem dos que se serviam pela porta, que corresponde às suas aldeias, e que por isso saíram diferentes na cor aos brancos, que descendem dos que tinham saído pela porta correspondente à foz, ou boca do Rio; será talvez a principal, e ordinária serventia do palácio, e a outra uma como porta travessa: outros dizem que naquele convento moraram os primeiros povoadores da América, e que repartindo a seus filhos, e descendentes aquelas terras, eles bulharam (discutiram irracionalmente) entre si sobre quem havia de ficar senhor da casa, e que finalmente só se acomodaram desamparando a todos.
Eu não disputo agora sobre estas tradições, cuja ponderação deixo à discrição dos leitores, só digo que o palácio, ou convento bem merece veneração por velho e gozar dos privilégios dos mais antigos. Algum autor houve, que discorria ser a América o paraíso terreal, onde Deus pusera Adão, apontava para isso várias razões, fundadas já na sua grande fertilidade, e já nos seus grandes Rios; e outros que não aponto por me parecerem quiméricos, além de assentarem os maiores escriturários, que o lugar do paraíso era, e é na Ásia, encoberto, e oculto aos homens; e também pode ser na América do que prescindo; só digo que os que o põem na América têm neste “Convento” e tradição dos índios grande fundamento. A verdade é que os índios lhe têm tal respeito e veneração, que se não atrevem a morar nele, não obstante o viverem em suas fracas choupanas quanto basta a encobrir os raios do sol, e incomodidade da chuva; nem têm instrumentos para maiores fábricas, por não terem uso do ferro; e tendo ali casas feitas, e bem acomodadas, as deixam estar solitárias, servindo de covis aos bichos do mato, e de palácio aos grandes morcegos, e aves noturnas, que ali vivem, e moram muito contentes, e sossegadas, enquanto os tapuias não lhes dão caça com as suas flechas, para deles fazerem bons assados, e melhores bocados para os seus sair pela sua porta os índios, e por isso saíram tisnados (enegrecidos), e vermelhos: e quem fumo, e algumas vezes fogo por entre pedras; talvez que nele se tisnassem ao sair pela sua porta os índios, e por isso saíram tisnados, e vermelhos; e quem sabe se por causa deste fogo, e fumo, não habitam o convento? (...)
Mais curiosos foram os que mediram outra semelhante no Rio Tapajós, que com grande cabedal (caudal) deságua acima do Rio Coroa. Entre os mais Rios, e Ribeiras, que recolhe o Tapajós é um o Rio Cuparis, a pouca mais distância de três dias, e meio de viagem da banda de Leste no alegre sítio chamado Santa Cruz; é célebre este Rio, mais que pelas suas riquezas, de muito cravo, por uma grande lapa feita, e talhada por modo de uma grande Igreja, ou Templo, que bem mostra foi obra de arte, ou prodígio da natureza. É grande de cento e tantos palmos no comprimento; e todas as mais medidas de largura, e altura são proporcionadas segundo as regras da arte, como informou um missionário jesuíta, dos que missionavam no Rio Tapajós, que teve a curiosidade de lhe mandar tomar bem as medidas. Tem seu portal, corpo de Igreja, Capela-mor com seu arco; e de cada parte do arco uma grande pedra por modo de dois Altares colaterais, como hoje se costuma em muitas Igrejas ; dentro do arco, e Capela-mor tem uma porta para um lado, para serventia da sacristia. O missionário que aí quiser fundar missão, já tem bom adjutório (auxílio) na Igreja, e não o desmerece o lugar, que é muito alegre. Bem pode ser que nos mais Rios e Distrito do Amazonas, e seus colaterais haja algumas outras Igrejas, ou Capelas; nestes três Rios Tapajós, Coroa e Xingu se descobriram estas, por serem mais frequentados”. (DANIEL)
- Jazidas de Gipsita no Rio Cupari
“A ocorrência de gipsita do rio Cupari foi reconhecida desde 1948 por Harald Sioli em trabalho versando sobre a topografia e limnologia do rio Cupari. A jazida está localizada no local denominado Manoel João, no baixo curso do rio Cupari, a 10 km de sua foz. (...) O mercado nacional de gipsita é abastecido, praticamente, na sua quase totalidade, pelas minas do Nordeste Brasileiro, o que reveste o jazimento do rio Cupari com características promissoras para o abastecimento dessa matéria-prima na região Amazônica, podendo eventualmente, atingir os centros consumidores de outras regiões do país, e quiçá, de mercados internacionais”. (CPRM)
O Cupari despertou, mais recentemente, a atenção da mídia, nos idos de 1948, quando foi relatada a existência de gipsita nas suas proximidades. O mineral de múltiplas aplicações é usado na produção do gesso, fertilizante, retardador de cimento, na fabricação cerâmica, de ácido sulfúrico, cervejas, moldes para fundição, vidros, esmaltes, desidratante, aglutinante, corretivo do solo, e aparelhos ortopédicos.
- Incursão ao Cupari (26 de janeiro de 2011)
Depois de Fordlândia meu interesse se concentrou na incursão ao Rio Cupari (Curupará ou Cuparis) e ao “Berço da Humanidade”. Partimos às onze horas para a foz do Cupari onde deveria estar nos aguardando um guia como fora anteriormente acordado, em Aveiro, com o Padre Sidney Augusto Canto, que nos acompanhava na Expedição. Aguardamos trinta minutos pelo guia que não apareceu e depois de colher informações desencontradas, de toda ordem, partimos, às 12h20, para a Comunidade de São Raimundo. O bravo Piquiatuba enfrentava a forte correnteza do Cupari, que beirava os 17 km/h , com muita valentia e mantinha uma velocidade em torno dos 12 km/h . Navegar em um Rio estreito permite que se observem as margens com mais detalhe. Apesar da beleza da vegetação da Floresta Nacional do Tapajós, cujo limite Norte era o próprio Rio, podia-se notar a ausência dos gigantes da floresta vítimas da ação antrópica. Depois de quatro horas de viagem, cinquenta quilômetros percorridos, aportamos na Comunidade de São Raimundo (3°56’48,2”S/55°19’24,5”O).
Para se ter uma idéia da sinuosidade do Cupari basta dizer que a foz ficava em linha reta a apenas vinte e cinco quilômetros de distância. Logo que chegamos o pessoal foi visitar a comunidade que estava bastante movimentada com o resultado da recente caçada: duas pacas, três cutias, um mutum e um tatu. O burlesco festim me fez lembrar uma recente refeição na qual “preservacionistas dialéticos” consumiram, sem qualquer constrangimento, dois pequenos jabutis, de menos de dez centímetros. Embora tenha sido iniciado na arte da caça ainda adolescente, aprendi, desde cedo, a preservar os filhotes e as fêmeas das diversas espécies. Nas praias sulinas retirávamos das redes, com cuidado, os siris que mais tarde serviriam de repasto, mas com a preocupação de devolver ao mar as fêmeas. Como Capitão, servindo em Aquidauana, MS, saíamos para caçar “porcos monteiros”, porcos domésticos criados a campo, e conscientemente evitávamos vitimar as matrizes. Fico impressionado como o discurso, de uns e outros, está longe da ação efetiva. A tolerância no consumo de filhotes de qualquer espécie não se coaduna, absolutamente, com qualquer um que pretenda se proclamar como defensor do meio-ambiente.
O Padre Sidney anunciou, novamente, que iria celebrar uma missa e incitei-o para que isso fosse feito com a presença da Comunidade local. A cerimônia simples foi realizada na escolinha e emocionou a todos nós. Quando jovens adultos mencionaram o fato de ainda não terem sido sequer batizados me aproximei do Padre e afirmei a ele que nada na vida acontecia em vão. O Sidney já havia feito menção de realizar uma missa a bordo em Fordlândia e que por fatores estranhos à nossa vontade não se concretizou. Certamente a cerimônia realizada em São Raimundo surtira um efeito muito maior do que a anteriormente programada. Voltamos para o barco tomando o cuidado de tirar os calçados embarrados e lavá-los nas águas do rio para não sujar o convés.
- Buscando o Berço da Humanidade (27 de janeiro de 2011)
Partimos, debaixo de chuva, às 6h50min, rumo às cabeceiras do Cupari. Improvisamos capas de chuva com sacos de lixo de cem litros tentando nos proteger da chuva fina e fria.
Passamos por uma novilha que lutava, com dificuldade, contra a correnteza forte. Soubemos, mais tarde, que ela fora “piedosamente salva” das águas pelos ribeirinhos que a carnearam sem compaixão. Aportamos nas imediações da casa do senhor Francisco Sales que nos serviria de guia, ele se esquecera de tirar a “malhadeira” e a hélice do 40hp enroscou nela. Nosso piloto, soldado Marçal, teve de lançar mão de um canivete para livrar a hélice, e ao recolher a rede verificamos que havia capturado um peixe cachorro de uns sessenta centímetros. Deixamos a rede e o peixe na embarcação do Sales que se aproximara rapidamente.
À medida que subíamos o Cupari a vegetação se tornava mais densa e luxuriante. As gigantescas castanheiras e samaumeiras destacavam-se majestosamente sobre a copa das demais irmãs da floresta. No Solimões estas espécies dominavam a terra firme e agora eram senhoras absolutas da várzea.
Cruzamos por um magnífico casal de araras azuis e uma infinidade de “ciganas” que se afastavam rapidamente à medida que nos aproximávamos.
Cigana ou Jacu-cigano (Opisthocomus hoazin): ave nativa do Norte da América do Sul. Habita regiões pantanosas e de várzea da bacia do Amazonas e Orinoco. A principal característica dos filhotes é um par de garras na ponta das asas, entre o primeiro e segundo dedos, que se perde quando atingem a maturidade. Os dedos são usados na proteção contra predadores, usando as garras para subir pelas árvores e fugir do ameaça.
Por volta das 7h50 chegamos à bifurcação com o Cuparizinho e continuamos até encontrar umas pedras que impediram nossa progressão por água por volta das 9h30. Descemos para esticar as pernas, analisar o terreno e fazer um pequeno lanche. Consultei o GPS e verifiquei que estávamos próximos à BR 230, ouvimos, ao longe, o som de carros na Transamazônica que estava no máximo a quatro quilômetros de distância. Ao regressarmos consultamos um morador que informou que as “cavernas” ficavam logo depois de nossa última parada e que o melhor acesso era por terra, via Transamazônica. Só então, o padre Sidney lembrou de que depois de Rurópolis, na BR 230, quilômetro 77, havia uma placa anunciando as tais cavernas que certamente eram nosso objetivo. Decidimos tentar, novamente, acessar o “Berço da humanidade” na próxima semana via terrestre.
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
O Sequestro da Hevea Braziliensis
O Sequestro da Hevea Braziliensis
“Perdido na mata exuberante e farta, com o intento exclusivo de explorar a hevea apetecida, o seringueiro compreende, de pronto, que a sua atividade se debaterá inútil na inextricável trama das folhagens, se não vingar norteá-la em roteiros seguros, normalizando-lhe o esforço e ritmando-lhe o trabalho tão aparentemente desordenado e rude”. (Euclides da Cunha – “Entre os Seringais” – Revista Kosmos, 1906)
Santarém e o Poderoso Tapajós povoam nossa memória com os trágicos acontecimentos que culminaram com a decadência do Ciclo da Borracha. Foram nestas plagas que o famoso biopirata Henry Alexander Wickham, a soldo do governo inglês, embarcou, em Santarém, as 70.000 sementes de seringueira, colhidas na baixo Rio Tapajós com destino à Inglaterra e cujo desenrolar vamos reportar.
- Hevea brasiliensis (Seringueira)
Planta tropical de ciclo perene cultivada com a finalidade de produção de borracha natural. A seringueira é encontrada nas margens dos rios e terrenos sujeitos a inundação da terra firme podendo atingir, em condições ideais, trinta metros de altura. A produção de sementes inicia aos quatro anos, e pouco antes dos sete anos a produção de látex. O diâmetro do tronco varia entre trinta e sessenta centímetros e a sua casca é responsável pela produção da seringa. Submetida a um manejo adequado poderá produzir, economicamente, por um período de vinte a trinta anos. A Hevea, nativa, tem como área de ocorrência toda a Amazônia brasileira, Bolívia, Colômbia, Peru, Venezuela, Equador, Suriname e Guiana, sendo que a brasileira, dentre todas as espécies, a que apresenta maior produtividade. Dentre as diversas doenças e pragas que atacam a espécie, o “mal-das-folhas”, Causado pelo fungo “Microcylus ulei”, é o mais conhecido e temido, e um dos principais fatores que restringem a expansão da heiveicultura no Brasil.
- A Árvore da Borracha - Seringueira
A borracha já era conhecida pelos indígenas antes do descobrimento da América. O Padre d’Anghieria, em 1525, observou índios mexicanos fazendo uso de bolas elásticas em seus jogos. O missionário Carmelita Frei Manuel da Esperança, em 1720, verificou que os índios Cambebas faziam uso da borracha para fabricar garrafas e bolas em forma de seringa. O Frei Manuel resolveu, então, dar à substância o mesmo nome do objeto fabricado com ela – “seringa”. O nome foi consagrado e, desde então, chamam-se de seringueiros aqueles que extraem o sumo leitoso da “Hevea” e a de seringais às plantações de onde ele é extraído.
- Viagem na América Meridional – Descendo o Rio das Amazonas
Fonte: Charles Marie de La Condamine.
“A resina chamada ‘caucho’ nos países da província de Quito vizinhos do mar é também comuníssima nas margens do Maranhão, e tem a mesma utilidade. Quando ela está fresca, dá-se-lhe com moldes a forma que se quer; ela é impenetrável à chuva, mas o que a torna digna de nota é a sua grande elasticidade. Fazem-se com elas garrafas que não são friáveis, e botas, e bolas ocas, que se achatam quando se apertam, mas que retornam a sua primitiva forma desde que livres. Os portugueses do Pará aprenderam com os Omáguas a fazer com essa substância umas bombas ou seringas que não necessitam de pistão: têm a forma de peras ocas, com um pequeno buraco em uma das extremidades a que se adapta uma cânula. Enchem-se d’água, e, apertando-se quando estão cheias, fazem o efeito de uma seringa ordinária”. (CONDAMINE)
O látex produzido pelo caucho (Castilloa ulei), citado por Condamine, é de qualidade bastante inferior ao do produzido pela “hevea” sendo, ainda, sua extração extremamente predatória. O caucheiro após identificar a árvore, limpa um local, próximo a ela, e escava um buraco no chão para coletar o leite. Derruba a árvore e, em seguida, faz cortes profundos para extrair o leite que escorre para dentro do buraco. Quando o produto solidifica ele o retira e dá algumas pancadas para limpar a areia e o barro aderido.
- Abertura das “Estradas”
Fonte: Euclides da Cunha - Entre os Seringais - Revista Kosmos..
“(...) o mateiro lança-se sem bússola no dédalo (Labirinto) das galhadas, com a segurança de um instinto topográfico surpreendente e raro. Percorre em todos os sentidos o trecho de selva a explorar; nota-lhe os acidentes; apreende-lhe a fisiografia complexa, que vai dos igapós alagados aos firmes sobranceiros às enchentes; traça-lhe os varadores futuros; avalia-lhe, rigorosamente, as ‘estradas’; e vai no mesmo lance, sem que lhe seja mister traduzir complicadas cadernetas, escolhendo à beira dos igarapés todos os pontos em que deverão erigir-se as pequenas barracas dos trabalhadores.
Feito este exame geral, apela para dois auxiliares indispensáveis - o toqueiro e o piqueiro (trabalhador que auxilia na abertura de estradas abrindo a picada); e erguendo num daqueles pontos predeterminados, com as longas palmas da jarina, um papiri (tapiri), onde se abriguem transitoriamente, metem mãos à empreitada. O processo é invariável. Segue o mateiro e assinala o primeiro pé de seringa, que se lhe antolha ao sair do papiri. É a boca da estrada. Aí se lhe reúnem o toqueiro e o piqueiro - prosseguindo depois, isolado, o mateiro, até encontrar a segunda árvore, de ordinário pouco distante, a uns cinquenta metros. Avisa então com um grito particular, ao toqueiro, que parte a alcançá-lo junto da nova madeira, enquanto o piqueiro, acompanhando-o mais de passo, vai tirando a facão a picada, que prefigura a ‘estrada’. O toqueiro auxilia-o por algum tempo, abrindo por sua vez um pique para o seu lado, enquanto um outro grito do mateiro não o chame a reconhecer a terceira árvore; e assim em seguida até ao ponto mais distante, a volta da estrada. Daí, agindo do mesmo modo, retrogradando por outros desvios, vão de seringueira em seringueira, fechando a curva irregularíssima que termina no ponto de partida. Ultima-se o serviço que dura ordinariamente três dias, ficando a ‘estrada’ em pique”.
- Extração da Borracha
Antigamente para colher a goma, cingia-se a árvore com um cipó que envolvia o tronco obliquamente a um metro e setenta do solo até o chão onde era colocado um pote de argila. Eram, então, feitos diversos cortes na casca acima do cipó que aparava a seiva e a conduzia até o pote. Este processo de sangria exagerada, conhecida como “arrocho”, acabava por matar a árvore e foi abandonado há muito tempo. Com o passar dos anos o método tornou-se mais racional visando preservar a integridade da “árvore da vida”.
O seringueiro parte, de seu tapiri, a cada dois ou três dias, de madrugada, carregando todos os seus apetrechos pela “estrada”. Este intervalo, antigamente desrespeitado, permite à árvore se recuperar da última sangria. Ele para, em cada uma das seringueiras, e parte para a extração da seringa que é feita através de pequenas incisões de 25 a 30 centímetros descendentes e paralelas na casca da planta, que começam a uma altura de aproximadamente dois metros acima do solo. Une depois, cada uma das extremidades inferiores dos cortes através de um talho vertical de maneira que o leite escorra dentro do traço para o fundo da cuia. A cuia é embutida na casca cortada para este fim e, eventualmente, pode ser usada uma argila para fixá-la no tronco. Os cortes são feitos, normalmente até as onze horas, em todas as árvores da “estrada”, exceto nos meses de agosto e setembro época da floração. Pelo meio-dia ele começa a recolher as cumbucas despejando o látex coagulado nas cuias em um balde ou então em um saco “encauchado” (impermeabilizado com látex).
A tarde, por volta das catorze horas, volta para o rancho, almoça e inicia a defumação do material recolhido que leva umas duas horas para ficar pronto. O fogo é feito debaixo da terra para que a fumaça saia por um furo ao nível do chão. A melhor fumaça é a de coco de babaçu, mas, no Rio Purus usava-se para esta operação os frutos da palmeira urucuri; no Rio Autaz os da palmeira iuauaçu e no Rio Jaú e onde estas palmeiras são mais raras utilizavam-se madeiras como a carapanaúba e a paracuúba. A bola de borracha (“pela”) é rodada em volta de uma vara de aproximadamente um metro e meio de comprimento chamada “cavador”. Para iniciar a bola enrola-se na vara um “tarugo” de goma coagulada no qual o leite gruda facilmente. O homem vai despejando o leite com uma cuia ou uma grande colher de pau, ao mesmo tempo em que gira o “cavador”, a parte líquida se evapora imediatamente, e forma-se uma fina camada de goma elástica, e a bola vai engrossando, cada dia um pouco mais. Uma “pela” pronta, depois de vários dias, pesa em média de 50 quilos, é, então, exposta ao sol, quando toma a coloração escura e assim permanece até ser comercializada.
- Primeiros Empregos da Borracha
A borracha foi empregada inicialmente em usos elementares como apagar traços de lápis no papel. Foi Magellan quem propôs este uso e Joseph Priestley, na Inglaterra, difundiu-o e a borracha recebeu, em inglês, o nome de “India Rubber”, que significa “Raspador da Índia”. Os portugueses a utilizaram para a fabricação de botijas para transporte de vinhos. Em 1785, o físico francês Jacques Alexandre César Charles, pioneiro do uso do gás hidrogênio para encher balões aerostáticos, recobriu seu aeróstato com uma camada de borracha dissolvida em essência de terebentina e a partir de 1790 começou a aplicá-la sobre tecidos e empregá-la na fabricação de molas.
Em 1815, Thomas Hancock, tornou-se um dos maiores fabricantes do Reino Unido, inventando um colchão de borracha e, associou-se à Mac Intosh, para fabricar as capas impermeáveis. Nadier, um industrial inglês, em 1820, fabricou fios de borracha e começou a usá-los em acessórios de vestuário. A América foi assolada, então, pela “febre” da borracha e logo, em seguida, apareceram os tecidos impermeáveis e botas de neve na Nova Inglaterra. A fábrica de Rosburg foi criada, em 1832, mas, como os artefatos de borracha natural sofriam sob a influência do frio e do calor os consumidores logo se desinteressaram dos seus produtos.
Charles Goodyear, em 1836, havia conseguido um contrato, com o Departamento de Correios dos EUA, para fornecer sacos postais de borracha. O problema é que os sacos de borracha eram muito ruins. Goodyear não querendo perder o importante contrato comercial realizou diversas pesquisas para produzir uma borracha de melhor qualidade, misturando dezenas de substâncias à borracha. Três anos depois, surgia a borracha “vulcanizada”, em homenagem a Vulcano, deus romano do fogo.
Em 1842, Hancock de posse da borracha vulcanizada por Goodyear, descobriu o segredo da vulcanização, fazendo fortuna. Em 1845 R.W. Thomson inventou o pneumático, a câmara de ar e a banda de rodagem ferrada. Em 1850 já se fabricavam brinquedos de borracha e bolas (para golfe e tênis). Em 1869, Michaux, inventou o velocípede que provocou o desenvolvimento da borracha maciça, depois da borracha oca e, em consequencia, à reinvenção do pneu, que havia caído no esquecimento. Michelin, em 1895, adaptou o pneu ao automóvel e desde então a borracha ocupou um lugar preponderante no mercado internacional.
- O Ciclo da Borracha
O Brasil inicia, a partir de 1827, a exportação da borracha natural. Charles Goodyear inventa o processo de vulcanização na década de 1840, possibilitando a produção industrial de pneus. No final do século XIX a recém criada indústria de automóvel estava em franca expansão e, com isso, a demanda pela borracha aumentou consideravelmente. O Brasil exportava, então, toneladas de borracha, principalmente para as fábricas de automóveis norte-americanas. A necessidade de atender a demanda crescente do produto gerou uma expansão demográfica importante na região, oriunda, principalmente, do nordeste do país. Em 1830, a população da cidade de Manaus que era de três mil habitantes passou, em 1880, para cinquenta mil. O aumento da população e da renda per capita estimulou o comércio e contribuiu para a construção civil e de obras de infra-estrutura, era o período áureo da Borracha.
- Victor Wolfgang Von Hagen Reportando Richard Spruce
Richard Spruce havia partido de Santarém, a 8 de outubro de 1850, para percorrer os afluentes do Amazonas e depois de quatro anos embrenhado nas selvas do Peru e da Venezuela, coletando exemplares da flora e da fauna, aportou em Manaus. Von Hagen faz uma interessante descrição do retorno do naturalista e de suas impressões a respeito do “boom da borracha”. Adoentado, Spruce, resolvera regressar a Manaus para passar uma temporada de repouso com os amigos mas, antes mesmo de aportar, no seu destino ele verificou que algo de anormal estava acontecendo, o tráfego era mais intenso e apressado.
“E o tráfego não esmoreceu quando eles se foram aproximando da pequena cidade. Canoas coalhavam o rio; caprichosos batelões com gigantescas toldas de popa, botes com imensas pilhas de mercadorias passavam velozes. Nisso, Spruce viu a cidade e quase não acreditou no que via! Não um, mas três barcos a vapor estavam atracados num cais muito bem feito. O fumo que deitavam era como nuvem negra que se erguia no ar imoto. Barcos a vapor no Amazonas!... Que portento!... Ao desembarcar, ficou abismado vendo as ruas cheias de gente: brancos, morenos, pretos, estrangeiros arrastando mercadorias a toda pressa, como se fossem formigas carregadeiras. Sobre o molhe, pilhas enormes de pedaços de borracha negra e manchada de fumo, esperavam a hora de ser transportada para os vapores ofegantes. A cidade toda havia mudado. Estava o dobro do que era; novos prédios haviam surgidos e no armazém do Sr. Antônio (Henrique Antony) a confusão era enorme. Comprava-se tudo – fósforo, espingardas, os mais variados artigos, aos berros e empurrões, agitando na mão o dinheiro para ter primazia nas compras. Teria alguém descoberto para ter primazia nas compras. Teria alguém descoberto o fabuloso Eldorado? O Sr. Antônio viu, do escritório anexo, a chegada de seu velho amigo e veio de lá com os braços abertos para receber Spruce.
- Meu Deus! – disse o botânico, alvoroçado – que foi que aconteceu, Antônio?
- O senhor não sabe? – respondeu o italiano. Não sabe, Sr. Ricardo? Nós descobrimos as riquezas fabulosas. Quem manda agora é a borracha! Estamos na época da borracha!
Richard Spruce tinha estado muito tempo isolado na selva para entender a coisa. Borracha? Sim, borracha! Mas, e aquela azáfama? Um caucheiro barbudo, suando muito e bebendo ainda mais, perguntou a Spruce, com espanto, por onde havia andado. A borracha, que poucos anos antes custava 3 centes o quilo, agora estava 1 dólar e 50, e cada vez subia mais. Cada dia que um explorador de borracha deixava passar, era dinheiro que perdia. A procura de objetos de borracha crescia constantemente com a expressão da indústria. Até mesmo no ‘Palácio de Cristal’, onde os ingleses realizavam a primeira exposição universal, os produtores de borracha atraíram verdadeiras multidões. A guerra também lhe deu o seu impulso. A luta inevitável entre os estados livres e escravos da América do Norte, estava principiando a devorar toneladas de viscoso líquido extraído da árvore chamada ‘Hevea braziliensis’. De tal modo a procura superava o fornecimento, que a cada semana o preço subia.
Ninguém podia resistir à coisa. Manaus, que as lendas do passado davam como a sede do Eldorado, tornara-se efetivamente Eldorado. O ouro corria como água nas suas ruas e a cidade inteira palpitava com o recrudescimento do sonho de riqueza. Os índios que antes se embriagavam com rum, agora mergulhavam seu ‘Weltschmerz’ em champanha. Comia-se até ‘patê de foie gras’, geléia de ‘Cross & Blackwell’, biscoitos de ‘Huntley & Palmers’, bebiam-se vinhos importados. Podia-se sentar a uma mesa para jantar e tinha-se manteiga vinda de Cork, biscoitos de Boston, presunto do Porto e batatas de Liverpol.
Caixeiros e barbeiros, homens de certa posição e mamelucos que no passado mourejavam para ganhar um punhado de mil-réis, agora tinham visões de milionários. Embrenhavam-se na ignota região do Amazonas com uma confiança que causava espanto a Richard Spruce. Seria possível que aqueles loucos não fizessem idéia do lugar para onde iam? O caucheiro começava sua vida de um modo simples. Arranjava dinheiro, vendia a alma a um patrão para lhe pagar em borracha, comprava uma piroga e mantimentos – farinha, peixe seco, garrafas de vinho, sal, artigos caros de importação – depois adquiria mercadorias e, no fim de tudo, machetes com que cortar e fazer porejar todas as árvores de borracha que encontrasse. De muitos que se haviam metido na empresa de obter a borracha e alcançar a glória, nunca mais se teve notícia. Muitos outros voltaram, com o espanto gravado na fisionomia, cheios de rugas pelos sustos que levaram, contando que se viram perdidos, que tinham curtido as torturas e incômodos da fome, da sede, da febre e das intempéries, que tinham lutado incessantemente contra enxames de insetos que não se saciavam de mordê-los e chupar-lhes o sangue. Referiam as suas tristes aventuras ao atravessarem pauis insondáveis, cheios de enguias elétricas e florestas com arbustos e cipós que lhe retalhavam a carne.
Spruce queria ver o progresso chegar ao Amazonas, mas nunca supôs que ele lá seria introduzido dessa maneira. Velhos negociantes que noutros tempos comerciavam em insignificantes quantidades com a opulência da Amazônia, eram agora verdadeiros nababos. Ébrios com o seu triunfo e com a champanha importada, descreviam para Spruce o que seria Manaus dentro de poucos anos. E, por mais que carregassem nas tintas do quadro, tudo o que diziam ainda seria inferior à realidade: dentro de 25 anos Manaus se transformou da aldeia de 3.000 almas que era, na populosa e alucinante metrópole de seus 100.000 habitantes. Transatlânticos fariam escalas obrigatórias junto às suas docas flutuantes, teatros líricos de mármore seriam construídos, bondes elétricos atravessariam velozmente suas ruas calçadas, capital estrangeiro superior a 40 milhões de dólares seria aplicado na cidade edificada sobre o pântano do ouro negro.
Richard Spruce sentiu um arrepio ao pensar naquilo que ele inconscientemente tinha ajudado a formar. Suas mudas, seus espécimes de produtos de borracha tinham estado em exposição e haviam contribuído para fomentar aquele negócio. Agora não havia mais de deter-lhe o avanço. A extração da borracha prosseguia com um entusiasmo que nunca fora igualado por nenhum outro movimento desde a descoberta do Novo Mundo. Essa indústria haveria de tragar os silvícolas. Tribos inteiras de índios seriam dizimadas. A borracha subiria ao preço fantástico de 3 dólares o quilo! Os magnatas da borracha escravizaram o Amazonas inteiro; a cobiça e a ambição aumentariam com o clamor sempre crescente do mundo para obter borracha... Ninguém sabe quanto tempo poderia ter durado o delírio da borracha, mas o famoso ‘seed-snatch’ de Henry Wickman pos-lhe fim. O ouro negro tornou-se lama negra e, por volta de 1900, o pântano da selva engoliu o sonho de um viçoso Eldorado”. (HAGEN)
- Os Rapinantes Europeus
Os laboratórios europeus descobriram outras aplicações para o uso do látex dando início ao Ciclo Industrial da goma elástica. Os empresários europeus, sobretudo os ingleses, mobilizaram seus esforços na tentativa de transplantar a seringueira para suas possessões orientais localizadas na região tropical. Vários botânicos e viajantes foram contratados para tentar contrabandear sementes e mudas de “Hevea”, mas, inicialmente, além de encontrarem dificuldades em burlar a fiscalização das autoridades alfandegárias brasileiras esbarravam na escassez de transportes fluviais.
“Em 1850, Sir William Jackson Hooker, de Kew Gardens, sondara Richard Spruce (então em Santarém) no sentido de obter mudas da árvore da borracha. Spruce tentou atendê-lo, mas sem contar com o transporte adequado a missão era impossível. Entretanto, fez um estudo meticuloso de todas as árvores que produziam borracha, e essas preciosas informações foram enviadas a Hooker, em Kew Gardens , que agia como conselheiro oficial, junto ao governo, em assuntos botânicos. O Brasil, naturalmente, se opôs a que levassem para fora plantas de borracha”. (HAGEN)
Apesar das observações de Hagen, Richard Spruce, um dos maiores botânicos e exploradores da Amazônia, foi, sem dúvida, o mais eficiente biopirata pretérito. Nascido na Inglaterra, em 1817, de família muito pobre, Spruce se ressentiu de dificuldades financeiras por toda a vida. Foi um naturalista profissional, ainda que de formação autodidata. Spruce desembarcou em Belém em julho de 1849, onde se encontrou com Wallace e Henry Bates. Estava a serviço de pelo menos onze herbários europeus para coletar amostras e enviá-las aos interessados. Em 1864, quando viajou de volta para a Inglaterra, levou pelo menos 30 mil plantas, além de mapas, sem considerar uma infinidade de sementes que já havia enviado por outros meios. Entre essas sementes estavam diversas espécies de seringueiras, produtoras de látex, além de plantas para uso medicinal. Após 17 anos de trabalho na Amazônia, Spruce, repercute os interesses imperialistas bretões lamentando:
“Quantas vezes lamentei o fato de não ser a Inglaterra dona do magnífico vale do Amazonas, em vez da Índia. Se o papalvo (indivíduo simplório, pateta) Rei Jaime II, em vez de meter Raleigh na prisão e depois cortar-lhe a cabeça, tivesse continuado a fornecer-lhe navios, homens e dinheiro até ele formar um estabelecimento permanente num dos grandes rios da América, não tenho dúvida de que todo o continente americano estaria neste momento nas mãos da raça inglesa”. (SPRUCE)
Em 1851, Thomas Hancock, inventor do elástico, dono da Macintosh&Company, a maior indústria britânica de produtos derivados da borracha, presenteou o príncipe Albert com uma barra de borracha em que estava inscrito o seguinte poema: “O ramo do comércio foi criado para associar todos os ramos da humanidade. Cada clima necessita o que outros climas produzem e, assim, oferecem algo para o uso geral de todos”. Atendendo aos interesses de Hancock, Sir William Jackson Hooker, diretor do “Royal Botanic Gardens, Kew”, prontificou-se a “oferecer toda e qualquer ajuda para quem desejar transferir a seringueira do Brasil para o território imperial”. Ainda assim, somente a partir de 1870, por pressão das autoridades inglesas radicadas na Índia, que o “India Office”, de Londres, passou a considerar com seriedade o assunto. Era uma questão estratégica piratear a borracha do Brasil e, em 1873, o “India Office” alocou pessoal e recursos financeiros para contrabandear mudas e sementes de seringueira.
- Aventuras e Desventuras de um Biopirata
Fonte: José Augusto Drummond, Boletim Museu Emílio Goeldi - Ciências Humanas, 2009
“Joe Jackson, jornalista e escritor norte-americano, escreveu essa densa e curiosa biografia do cidadão inglês Henry Alexander Wickham (1846-1928), famoso por ter furtado, em 1875, sementes da seringueira e levá-las para a Inglaterra. (...) Foi um aventureiro de um só feito. Era pessoalmente desinteressante, estabanado nas suas ações, monocórdico nas suas obsessões e previsível nos repetidos fracassos dos seus empreendimentos e da sua vida pessoal.
Um único episódio bem sucedido, em meio a uma trajetória cheia de tropeços, explica a fama que justifica o resgate da memória sobre Wickham nesta sua biografia, 80 anos depois de sua morte. Para os brasileiros, especialmente os amazônidas, no entanto, a fama quase pontual de Wickham tem especial e dolorosa relevância. O dia da vitória de Wickham foi o dia da derrota da Amazônia brasileira. Wickham foi o responsável por um dos atos mais famosos e consequentes do que hoje chamamos de ‘biopirataria’ - o furto de sementes da seringueira (Hevea brasiliensis) de seu habitat amazônico. Em 1875, aos 29 anos de idade, Wickham embarcou em Santarém, Pará, com destino à Inglaterra, carregando semi-clandestinamente 70.000 sementes de seringueira, colhidas na baixo Rio Tapajós.
Quarenta anos depois, esse furto premeditado poria fim ao boom econômico e financeiro da borracha nativa extraída na região amazônica. Nas quatro décadas que se seguiram ao furto, cientistas, administradores coloniais e fazendeiros ingleses aprenderam a plantar a árvore e formaram vastas, ordeiras e homogêneas plantações (na Índia, Sri Lanka e Malásia, primeiramente) e a extrair o látex em escala industrial. A enorme produção e a alta qualidade desse látex ‘domesticado’ fizeram com que, a partir de 1914, ele dominasse o mercado internacional. Os seringais nativos da Amazônia viraram relíquias falidas, quase instantaneamente. Em 1905, a região produzia 99,7% da borracha comercializada no mundo; em 1914, a cifra caíra para 39%, chegando a apenas 6,9% em 1922. O plantio ‘racional’ da seringueira liquidou a extração do látex nativo das seringueiras distribuídas ‘irracionalmente’ pela floresta amazônica. Foi o fim de uma era para a região.
Kew Gardens, o jardim botânico real da Inglaterra, situado em Londres, contratou formalmente Wickham para fazer esse furto, com a intermediação do cônsul inglês em Belém. Depois de vacilações e atrasos, Wickham foi feliz na seleção das sementes (grande quantidade, boa qualidade e isentas de doenças) no interflúvio dos rios Tapajós e Madeira, nas matas de terra firme perto de Boim, pequena localidade na margem esquerda do baixo Rio Tapajós. Teve sucesso também ao burlar a vigilância da aduana brasileira no porto de Belém. A sua boa sorte continuou com a baixa mortalidade das sementes durante a longa viagem marítima até a Europa.
Wickham protagonizou, portanto, um eficaz ato de biopirataria, cujas consequências só se materializaram 40 anos depois. (...) Um detalhe biográfico ressaltado pelo autor capta bem a gênese do espírito aventureiro de Wickham. Como adolescente, ele ficou impressionado com a forte repercussão de um episódio de biopirataria. Em 1859, o mesmo Kew Gardens promoveu, também na Amazônia, o furto de várias espécies do gênero Cinchona, arbustos de cujas cascas se retira quinino, usado até hoje no combate aos efeitos da malária. O autor desse outro ato famoso de biopirataria, Richard Spruce, renomado botânico inglês, conseguiu coletar exemplares de cinchona nas florestas tropicais de altitude do Equador e enviá-las para a Inglaterra. Mais tarde, elas foram cultivadas com sucesso em vários pontos do império britânico.
Jackson destaca que o bem sucedido furto de Wickham veio na esteira imediata de quatro anos de marasmo nos quais ele tentou se estabelecer como seringalista e fazendeiro nas imediações de Santarém, sem sucesso. Ainda antes disso, ele fizera excursões aventureiras quase fatais na Nicarágua e na Venezuela, das quais saiu falido, ferido e acometido de malária. Um dos pontos mais interessantes da narrativa de Jackson é que ele mostra que o furto das sementes não mudou a sorte pessoal de Wickham, embora o furto tenha tido repercussões econômicas enormes.
É verdade que Kew Gardens pagou a Wickham a quantia combinada, mas ficou apenas nisso. Diretores e cientistas de Kew bloquearam as duas maiores ambições do biopirata. Ele desejava, primeiro, participar dos estudos de domesticação da seringueira e da eventual distribuição de mudas e sementes a jardins botânicos e fazendeiros ingleses nas colônias tropicais da Inglaterra na Ásia. Segundo, ele queria se tornar um dono de seringais plantados e um produtor de látex, ou seja, um dono de ‘plantation’, em alguma dessas colônias. Jackson mostra que os aristocráticos cientistas de Kew não confiavam em Wickham, duvidavam dos seus conhecimentos sobre a planta e desprezavam a sua origem plebeia e a sua pouca instrução formal. Wickham foi excluído das fases de domesticação da árvore e da expansão dos plantios.
Nem a sua ‘boa fama’ de biopirata ficou incólume. Jackson documenta como a própria equipe de Kew ajudou a espalhar a história de que as mudas e sementes transferidas para Ásia descendiam de um outro lote de sementes, igualmente furtado e transferido do Brasil, por outro biopirata inglês, Robert Cross, também a serviço de Kew. Cross era um respeitado veterano das expedições que transferiram para o mesmo Kew Gardens exemplares da cinchona sul-americana, arbusto de alto valor por causa de suas propriedades medicinais. Ele coletou as sementes de seringueiras em torno de Belém, poucos meses depois de Wickham entregar as suas sementes em Londres.
Ressentido, mas não desanimado, Wickham logo partiu para outras aventuras, em outras terras, nas quais tentou se estabelecer como fazendeiro. Jackson narra coloridamente as suas passagens por Austrália, Honduras Britânica e Papua Nova Guiné. Faltou documentação para que Jackson montasse uma narrativa mais completa delas, mas o autor deixa claro o padrão de sucessivas aventuras e fracassos de Wickham.
Depois de sua estadia de quase cinco anos no Brasil, Wickham passou cerca de dez anos (1876-1886) em Queensland, na Austrália. Plantou café e fumo em terras compradas com o dinheiro ganho com as sementes de seringueira, mas foi à falência. A partir de 1886, tentou a sorte na Honduras Britânica. De novo, não teve sucesso como fazendeiro, tendo perdido as suas terras por causa de dívidas e documentação fundiária inadequada, embora tenha ocupado cargos de escalão intermediário no governo colonial inglês. Em 1895, Wickham estabeleceu-se num remotíssimo arquipélago de 23 ilhas de coral (Contract Islands), na extremidade leste da Papua Nova Guiné. Por cerca de cinco anos produziu coco e mamão, cultivou ostras, coletou esponjas marinhas e lesmas do mar e caçou tartarugas marinhas. Vítima de intermediários comerciais - iguais aos que na Amazônia o impediram de se tornar um seringalista -, mais uma vez o sucesso lhe escapou. Acabou endividado e foi praticamente expulso das ilhas. Desta vez, foi abandonado pela esposa Violet, uma valente inglesa, que o acompanhara ao Brasil, à Austrália, às Honduras Britânicas e a essas ilhas.
Wickham retornou à Inglaterra pouco depois de 1900, mas ainda fez viagens ocasionais às possessões coloniais britânicas no Extremo Oriente. Continuava com o projeto de ser um grande fazendeiro. Investiu em uma plantação de seringueiras na Nova Guiné e em outra de piquiá, na Malásia, planta que ele conhecera no Brasil. Elas não foram para frente.
Quase aos 60 anos de idade, Wickham ainda era um cidadão inglês quase anônimo e cronicamente falido. No entanto, como destaca Jackson, em torno de 1905 abriu-se uma nova era para ele. Começou a ser reconhecido como o ‘herói provedor’ das sementes de seringueira e, indiretamente, como corresponsável pelo espalhamento dos seringais e pelas riquezas que elas geraram. A borracha agora estava criando grandes fortunas para aqueles que plantavam seringueiras e se tornara imprescindível para a industrialização dos países ricos. O nome de Wickham ganhou fama ao mesmo tempo em que crescia a importância da borracha como commodity global.
À falta de outros sucessos, Wickham navegou com prazer na fama tardia conferida pelo seu feito biopirata de 30 anos antes. Publicou uma espécie de manual de cultivo da seringueira, incluindo um relato cheio de bravatas sobre o furto de 1875. Foi contratado como consultor de plantadores de seringueiras em várias colônias inglesas. Comparecia a eventos científicos e comerciais sobre a borracha, como um misto de perito em borracha e de celebridade. Ganhou prêmios em dinheiro de associações de plantadores de seringueiras, em reconhecimento do seu pioneirismo. Em 1920, recebeu da coroa inglesa um título de ‘Cavaleiro’ e uma pensão vitalícia, pelo seu papel na expansão do império britânico. Morreu na Inglaterra, em 1928, sozinho, sem familiares por perto e, como sempre, falido. Jackson o descreve de forma impiedosa nos seus últimos anos: ‘Agora ele era simplesmente um personagem, uma figura amarga, cômica, com uma cabeleira branca e um bigode de leão marinho, que investia contra as novidades modernas dos plantadores de borracha da Malásia cujos bolsos ele enchera”.
- A Decadência do Ciclo da Borracha
A heveicultura foi lançada pelos ingleses e holandeses em suas colônias asiáticas cujo clima era semelhante ao clima tropical úmido da Amazônia. Na década de 1890, as heveas, tinham se adaptado, perfeitamente, ao meio natural da Ásia. Em 1900, as plantações se estendiam às colônias inglesas do Ceilão, Malásia e Birmânia e a holandesa na Indonésia. Os resultados foram fantásticos, foi um sucesso agronômico e econômico. Em consequência, iniciou-se o colapso do ciclo da borracha, com um gradual esvaziamento econômico da região amazônica. Além da concorrência com produto Oriental, adveio uma praga nefasta nas seringueiras nativas, era o “mal-das-folhas”.
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