MAPA

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segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

I Parte: Canal São Gonçalo, 27.12.2014


Expedição Roosevelt-Rondon - 2ª Parte


Expedição Roosevelt-Rondon - 1ª Parte


Pousada Rio Roosevelt – Pousada Amazon Roosevelt


Hiram Reis e Silva (*), Bagé, RS, 12 de janeiro de 2015.

07.11.2014 (sexta-feira) – AC15 (KM 602 – Pousada Rio Roosevelt) – AC16 (KM 628 ‒ Ilha)

O dia iniciou com a passagem dos Rápidos do Infernão. Tínhamos deixado para trás a Cachoeira mas não seus Rápidos. Fui à frente reconhecendo as possibilidades que são muitas tendo em vista a largura do Rio chegar a 800 metros permeada de Ilhas e rochedos, felizmente ultrapassamos sem maiores dificuldades os obstáculos apresentados.

Cachoeira da Glória

Logo adiante, a 3 km, a Cachoeira da Glória, que se estende por quase 2 km, cujas corredeiras podem ser transpostas facilmente exceto a que fica a meio curso dela (08°28’18,5”S / 60°58’37,4”O). Parei em umas pedras (08°28’48,8”S / 60°58’40,0”O) antes da curva à esquerda onde se iniciam os rápidos e aguardei o Dr. Marc se aproximar. Informei-lhe que ele devia colar na margem esquerda logo depois da curva e me acompanhar até onde eu aportasse. O Dr. Marc fez a curva aberta demais e teve, depois, de passar por uma rota menos segura, pedi a ele que orientasse os “camaradas” e que eles aportassem em segurança logo adiante porque eu precisava fazer um reconhecimento à frente.

Desembarquei na margem esquerda para reconhecer o melhor ponto de passagem e depois me desloquei até meus parceiros informando-lhes que iria atravessar e verificar se era seguro eles descerem por ali também. Coloquei a saia no caiaque, por precaução, e atravessei a torrente veloz, o problema não era a queda nem a velocidade das águas eram os grandes redemoinhos que se apresentavam logo depois, o rebojo formado por eles poderia provocar um desastre. Aportei mais adiante e pedi que eles viessem para a margem esquerda onde transporíamos as embarcações à sirga. Felizmente conseguimos vencer esta etapa sem grandes problemas.

Cachoeira do Inferninho

Navegamos em águas calmas, pelos dez quilômetros de uma longa curva à esquerda, antes de encontrar o “Inferninho”, que também se estende por uns dois quilômetros. Fui à frente e a primeira passagem à esquerda foi simples, mas os obstáculos se sucediam e, em um deles, tivemos de usar o recurso da sirga por garantia para transpor a canoa. Foram muitas as surpresas, não tive tempo de reconhecer cada passagem, demoraria demais, então atravancamos. Depois do Inferninho encontramos mais algumas rochas e rápidos que não apresentavam nenhuma dificuldade. Aportei em uma Ilha (08°22’11,2”S / 60°59’42,8”O) onde decidíramos acampar e embora tivesse sugerido aos “camaradas” o uso da sirga em um local bastante seguro para isso eles preferiram realizar a passagem à remo. Ganhavam confiança, dia-a-dia, nossos “camaradas” depois de enfrentar tantos desafios. Foram 26 km de pura emoção.

08.11.2014 (sábado) – AC16 (KM 628 – Ilha) – AC17 (KM 658 – Acampamento de apoio da Pousada Rio Roosevelt)

O dia anterior tinha sido cheio de emoções em vivo contraste com o de hoje que transcorreu num marasmo só. Eu tinha programado alcançar a Foz do Rio Machadinho (08°22’11,2”S / 60°59’42,8”O) que estava a exatos 30 km da Ilha onde acampáramos. Segundo informação dos funcionários da Pousada Rio Roosevelt alguns metros à montante do Machadinho e na mesma margem estava localizado o Acampamento de apoio da Pousada Rio Roosevelt onde poderíamos pernoitar.

Cheguei cedo, a cozinha e casa de hóspedes estavam fechados com cadeado, os dois aposentos destinados aos funcionários, porém, estavam abertos. Depois de colocar a barraca para secar fiz uma faxina nos quartos e montei a barraca em um deles. Tomei um bom banho de chuveiro, a caixa d’água estava abastecida, e fiquei aguardando meus parceiros. O Jeffrey montou a barraca no outro aposento espalhando seu material por todo canto. O Angonese ia dormir no mesmo aposento que eu e não sobraria espaço para o Dr. Marc montar sua barraca no aposento em que estava o Jeffrey. Nosso caro Mestre já estava montando, resignadamente, sua barraca ao relento quando resolvi organizar as coisas. Reposicionei a barraca e as tralhas do Jeffrey e coloquei a barraca do Angonese que era menor que a do Dr. Marc no mesmo cômodo e com isso o caro Mestre podia ocupar confortavelmente o mesmo aposento que eu.

Desde pequeno meu velho pai me ensinou a olhar ao redor e verificar se minhas ações poderiam estar causando algum transtorno a alguém. Coisas simples como num dia de chuva, portando guarda-chuva não andar sob as marquises ‒ deixe-as para quem está desabrigado, em um supermercado, ao parar, cole o carrinho junto aos balcões e entre dois produtos expostos, assim você não interrompe o tráfego e não bloqueia o acesso das pessoas aos gêneros. Infelizmente o individualismo parece estar cada vez mais e mais presente nas ações das pessoas de todas as classes sociais que jamais se preocupam com o coletivo. Os japoneses, na última Copa aqui no Brasil, foram os verdadeiros campeões ao recolher o lixo deixado pelos torcedores relaxados.

O Cel Angonese pescou 12 belos tucunarés no Rio Machadinho, em apenas 30 minutos, soltou dez e separou dois belos espécimes para degustarmos no nosso “almojanta”. Limpei os peixes e o Angonese assou-os.

09.11.2014 (domingo) – AC17 (KM 658 – Acampamento de apoio da Pousada Rio Roosevelt) – AC18 (KM 692 – Pedras)

Parti cedo, como de costume e parei na casa do Dr. Rogério para um café. Os paranaenses parecem se adaptar excepcionalmente na Amazônia. Parti logo em seguida pois queria achar um local confortável para acampar. Eu marcara umas Ilhas de pedra a 34 km de onde pernoitáramos como ponto mais curto para acampar e caso o local não fosse satisfatório eu iria continuar procurando avante.

Novamente a equipe demorou-se para sair e parou tempo demasiado na casa do Dr. Rogério, o resultado dessa combinação fatídica de atrasos foi que enfrentaram fortes ventos de proa que os impediu de prosseguir até que a ventania diminuísse seu ímpeto. Eles vinham dando oportunidade, desde o início da Expedição, para que isso acontecesse e apesar de tudo continuaram a agir de igual forma do primeiro até o último dia de viagem.

Eu tinha chegado cedo à referida Ilha, antes das 11h00. Preparei o local do fogo coloquei os esteios para fixação da lona, colhi lenha para o fogo, cobri a lenha com um plástico, fixei a trempe, montei minha barraca, lavei minhas roupas, tomei banho, troquei a roupa e nada do restante da equipe chegar. Os camaradas chegaram somente por volta das 17h00 e o Dr. Marc visivelmente cansado, chegou logo depois, achando que tinha sido deixado para trás e quase resolvera acampar em outro local. A desorganização pode provocar fadiga e os dois juntos levam-nos a tomar decisões que podem comprometer a segurança e o bom andamento de um projeto. Eu sabia que isso viria a acontecer mais cedo ou mais tarde desde que não corrigíssemos alguns desvios de conduta.

10.11.2014 (segunda-feira) – AC18 (KM 692 – Pedras) – AC19 (KM 717 – Montante da Cachoeira Carapanã)

Parti sozinho por um longo Estirão, quase 10km, e logo depois de uma suave curva à esquerda avistei, à margem direita, a Foz do Igarapé Caripe e estava passando por umas pequenas corredeiras quando ouvi um grito, olhei para trás e só então enxerguei, à margem esquerda, a Casa de Apoio que um ribeirinho, que passou por mim de voadeira, mencionara no dia anterior, quando cruzara por mim na sua voadeira. Aportei e fui até a casa onde ficamos conversando durante algum tempo, ele me informou que por ali passara, também, a equipe capitaneada pelos americanos Paul Schurke e Dave Freeman mas que ao contrário da nossa desciam juntos e se comunicando pelo rádio durante todo o tempo.

José Caripe: foi nessa região que a expedição original encontrou o Sr. Caripe proprietário de um armazém e que Cherrie afirmou que “imperava como o Rei da extração da borracha” no Rio Roosevelt. (Hiram Reis)

O prestativo amigo reforçou, mais uma vez, que na Cachoeira do Infernão eu deveria procurar apoio do caseiro Kleber que trabalhava na Pousada do Vitão. Orientou-me à respeito da localização da trilha que permitiria contornar a Cachoeira Carapanã. Despedi-me do prestativo ribeirinho e continuei minha descida.

A pouco mais de um quilômetro Rio abaixo passei à direita da Ilha Santa Rosa, que tem uns 03km de comprimento, e onde o Rio apresenta sua largura recorde de 1,3km. Após a Ilha o Rio inflete para a direita, as águas calmas prenunciam um grande obstáculo mais à frente, a região é muito bela e tranquila o som das águas revoltas ainda não chegaram aos meus ouvidos.

Mantenho a rota junto à margem esquerda conforme mencionara, pela primeira vez, o paranaense que trabalhava com o Dr. Rogério. Vou margeando uma grande Ilha à minha direita até avistar a entrada da referida Trilha (07°47’41,3”S / 60°54’48,1”O). Desembarco e ando pela trilha mais de 03km (seis de ida e volta) e não encontro nada, meus informantes não haviam me repassado as distâncias, volto e resolvo navegar mais à frente e encarar a famosa Cachoeira do Carapanã. Embora a largura de margem a margem ultrapasse os 700 metros, grande parte do caudal é carreado, graças a um infindável número de Ilhas e rochas de todos os tamanhos e formas, para a margem esquerda à uma velocidade impressionante.

Deixo o caiaque ancorado entre as rochas e atravessado em relação à torrente para que meus parceiros possam avistá-lo à distância quando se aproximarem e vou até a margem verificar se existe alguma outra trilha mais curta. Não existe nenhuma trilha recente e a passagem embora relativamente curta (400 m) necessitaria ser aberta à facão até uma pequena praia à jusante onde depois encontrei o reboque e as voadeiras do Vitão.

Retorno à trilha anterior e resolvo medir a distância até a referida praia pela trilha usada pelo pessoal do manejo florestal. Foram aproximadamente 3.900 metros até a praia que ficava à jusante da Carapanã e a aproximadamente 1.200 metros à jusante havia outro Salto que teríamos também de desbordar. A mata fervilhava de vida, avistei pacas, cutias, caitetus, ouvi o barulho de um animal rompendo a mata em desabalada carreira que só podia estar sendo produzido por uma anta, mutuns de várias espécies (mutum-cavalo, mutum-de-fava, mutum-de-penacho), bandos de jacamins, macacos prego, aranha e barrigudos, enfim um paraíso ecológico sem precedentes.

Voltei até a margem onde deixara meu caiaque e lá encontrei meus parceiros, eu tinha acabado de andar mais de 15 quilômetros e estava exausto. Reportei as distâncias encontradas e afirmei que a melhor e praticamente a única opção plausível era conseguirmos apoio mecanizado com o tal do Kleber. O Angonese e o Jeffrey, depois de descansarem um pouco resolveram encarar a mesma trilha que eu percorrera 03km. Os dois regressaram à noite e o Angonese disse que andaram por volta de 10 km até chegar a uma pousada onde contataram o Kleber que ficou de conseguir algum apoio para o dia seguinte.

11.11.2014 (terça-feira) – AC19 (KM 717 – Montante da Cachoeira Carapanã)

Não acordamos muito cedo aguardando o desenrolar dos acontecimentos. Caso o Kleber conseguisse algum apoio ele só iria aparecer à tarde. O Dr. Marc conseguiu convencer o Angonese de reconhecer a margem direita da Cachoeira Carapanã. Não achei viável a empreitada tendo em vista a disponibilidade de tempo do Jeffrey. A “portagem” das próximas cachoeiras serio extremamente exaustiva e demorada demais.

À tarde, depois de permanecer um bom tempo de “molho” nas águas límpidas do Roosevelt, parti com o Angonese, no encalço do Kleber carregando, nas mochilas, material para acantonamento na Pousada do Vitão, se fosse o caso. Tínhamos caminhado pouco mais de dois quilômetros pela trilha quando surgiu uma camionete pilotada pelo Sr. Antônio, doravante tratado por nós de Santo Antônio.

Fomos até o porto à jusante da Cachoeira Carapanã buscar o reboque do Vitão e, em seguida, até o acampamento onde a dupla americana permanecera. Colocamos os dois caíques no reboque e os carregamos com uma carga leve, em cima dos caiaques colocamos a canoa e o material mais pesado foi na caçamba da camionete. Passamos pela Pousada do Vitão e fomos direto até a margem do Roosevelt descarregar o material no local da partida, já que teríamos de nos deslocar para lá a pé no dia seguinte. Levamos apenas o material imprescindível de acantonamento já que na pousada encontraríamos um local abrigado e colchões.

Despedimo-nos do prestativo Santo Antônio que adiara uma viagem já agendada para nos apoiar. A noite foi muito agradável, a Pousada tem uma infraestrutura privilegiada, a energia é gerada por uma Pequena Central Hidrelétrica (PCH), há uma bela estrutura de madeira, com churrasqueira, mesas, enfim um fantástico restaurante encravado sobre as águas de um agradável Igarapé em plena selva amazônica. O Kleber cobriu-nos de gentilezas, conseguiu carne para o churrasco, arroz, ovos, enfim um jantar gastronomicamente equiparado ao do nosso amigo Jair da Buritizal.

12.11.2014 (quarta-feira) – AC20 (KM 727 – Porto da Pousada do Vitão) – AC21 (KM 736 – Praia)

Saímos um pouco tarde da Pousada e ainda tínhamos uma longa caminhada até o Rio. Partimos do Porto do Vitão (07°42’59,9”S / 60°55’14,6”O) juntos já que existiam muitas corredeiras pela frente.

A uns 700 metros resolvemos, por segurança, passar à sirga sem grande problemas e continuamos colados à margem esquerda como recomendara o Kleber, mais algumas corredeiras pequenas e de repente a temível Cachoeira Samaúma acostamos e enquanto fui à frente verificar se era possível transpô-la o Cel Angonese achou a entrada da trilha de 250m que a desbordava. A Samaúma podia ser transposta a remo mas não com os nossos caíques oceânicos.

Transportamos todo o material para uma agradável praia à jusante de uma pequena Capela que os ribeirinhos veneram. No jardim uma grande cruz de metal com a inscrição “Semaúma”, e na capela, diversas muletas, pernas e braços de madeira, fotos, roupas e outros objetos ofertados por crentes agradecidos. O Kleber havia-nos dito que “Semaúma” fora uma menina que morreu, há muitos anos, afogada nas águas da Cachoeira Samaúma e foi enterrada ali mesmo onde hoje é o jardim da atual Capela que mais tarde foi construída em sua homenagem. “Semaúma”, desde então, vem operando verdadeiros milagres.

Meus parceiros ficaram aguardando na praia enquanto eu fui verificar se havia um local de passagem no Canal do Meio ou o Canal da direita já que o Angonese constatara que o da esquerda era inviável para a canoa. Aproei para montante direto para a Samaúma, eu tinha de atravessar o Rio e não queria que a força de suas águas me desviasse para jusante. Aportei próximo ao Canal do Meio em uma zona de águas calmas e atravessei um banco de areia submerso para analisar o Canal. Tive de escalar diversas rochas para conseguir uma visada mais adequada e por fim constatei que a transposição, por ali, também era inviável.

Voltei ao caiaque e naveguei rumo à margem direita que encontrei bloqueada por rochedos. Subi o Rio margeando até que avistei, depois de uma estreita passagem, um Canal que descia sem muito estardalhaço o que poderia significar uma boa alternativa para descermos. Aportei e novamente tive de escalar os rochedos acompanhando toda a rota até chegar a um lugar de remanso, encontrei, no caminho, uma isca artificial que entreguei ao Angonese, havia algumas passagens mais estreitas mas contornáveis até chegar à última abordagem que tinha duas opções, a da esquerda embora mais tranquila tinha à sua frente um paredão que bloquearia perigosamente quem por ali adentrasse e a da direita era mais estreita e de menor calado mas não tinha nenhum obstáculo à sua frente – descidi que naquele ponto cruzaríamos pela direita.

Regressei, muito cansado, até a praia e informei a meus companheiros o que tinha decidido. Carregamos os caiaques e a canoa e partimos para a travessia do Canal da Direita. Na chegada confundi-me com uma das entradas de acesso ao Canal mas voltei a tempo de orientar corretamente os camaradas, o cansaço começava a prejudicar meu discernimento. Fomos ultrapassando os obstáculos com sucesso até chegar ao último, antes do remanso. Os camaradas estacionaram diante das duas opções à sua frente e embora eu já tivesse decidido que a melhor era à da direita ultrapassei-os e enveredei pela da esquerda. Passei tranquilamente pela estreita garganta mas depois fui atirado pela torrente veloz contra o paredão de arenito, a proa chocou-se violentamente contra as pedras e o caiaque adernou violentamente para a direita e inclinou-se para a esquerda empurrando-me para baixo. Segurei-o firmemente, e tentava evitar que ele soçobrasse, O Dr. Marc surgiu não sei de onde e me ajudou a mantê-lo fora d’água, retirei a câmera fotográfica e entreguei-a ao Dr. informando-lhe- que não conseguiríamos segurá-lo durante muito tempo e a solução era empurrá-lo no sentido da corrente. Foi o que fizemos, agarrei-me a Cabo Horn e fui conduzindo-o para uma área remansosa. Retirei a água do caiaque enquanto recuperava o fôlego. A “portagem”, os reconhecimentos e agora esse quase naufrágio, o segundo em mais de 40.000 km de navegação em um caiaque Cabo Horn, tinham-me exaurido as poucas forças que ainda me restavam. Naveguei até as rochas onde o Dr. Marc tinha deixado minha câmera, havia perdido, nesta ocasião, meu boné e os mapas, continuamos nossa emocionante jornada. As águas continuavam rápidas, as inúmeras Ilhas só perdiam em beleza para as do Alto Rio Negro. Tivemos alguns sobressaltos aqui e ali mas nada de muito sério.

Por fim o Angonese, que tinha uma 2ª via dos mapas, optou por parar numa extensa faixa de areia (07°40’46,8”S / 60°53”16,9”O). Coloquei meu material para secar e ajudei o Angonese catando lenha e na proteção do fogo. Ouvíamos o ruído dos motores que passavam na BR-230 distante apenas 1.300m de onde estávamos e, de repente, escutamos, pela primeira vez no Rio Roosevelt, o bufo conhecido de um boto-vermelho (Inia geoffrensis) macho. A presença de um boto em qualquer região é o prenúncio de navegação tranquila à jusante. As cachoeiras são barreiras geográficas que os botos não conseguem transpor, portanto, isso significava que a partir dali até o Rio Madeira não existia nenhum obstáculo significativo à navegação.

À título de ilustração gostaria de citar o caso do Rio Madeira, onde existem duas espécies de botos-vermelhos que estão separadas por estas barreiras geográficas. No Alto Madeira, existem 16 cachoeiras que separam duas espécies distintas – a Inia boliviensis “endêmica” da região acima das cachoeiras, e a Inia geoffrensis, abaixo delas.

Os Sistemas de Transposição de Peixes construídos nas Hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio levaram em conta esse fator impedindo, como antes, que os botos, que vivem a jusante destes obstáculos naturais, possam utilizar, agora, estes sistemas para subir o Rio, comprometendo todo o ecossistema a montante das Hidrelétricas. Esta realidade poderá ser alterada num futuro próximo quando a Hidrovia do Madeira for definitivamente implantada. As eclusas vão permitir que os mamíferos aquáticos e outros peixes as usem para alcançar áreas que antes a natureza se encarregara impedir. Percorrêramos 09km de muitas emoções.

13.11.2014 (quinta-feira) – AC21 (KM 736 – Praia) – AC22 (KM 765 – Pousada Amazon Roosevelt)

Último dia de navegação no Roosevelt foram 21 dias de muita emoção, aprendizado e camaradagem, com uma breve interrupção de dois dias entre a 1ª e 2ª Fase, totalizando 23 dias. Cada remada fazia-me recordar a determinação e coragem de um veterano que do alto de seus 68 anos abandonou o conforto e a tranquilidade da longínqua Califórnia para se aventurar nos ermos sem fim de um Rio tumultuário, inóspito por vezes, mas pleno de vida e de uma beleza sem par. Rarefeito em termos de população mas não de hospitalidade, encontramos em cada lar, em cada parada uma mão estendida pronta para dividir o pouco que tinham. A cordialidade típica do ribeirinho sempre me encantou em cada uma de minhas amazônicas jornadas e continua me maravilhando. A coragem desses homens e mulheres capazes de sobreviver com tão pouco esbanjando tanta alegria e afetividade.

Tenho certeza de que este velho Mestre brasileiro de coração e americano por adoção guardará eternamente com muito carinho a odisséia que cumpriu com a fibra e determinação inquebrantável de um guerreiro Mundurucu de outrora e a serenidade ancestral dos Lamas tibetanos.

Obrigado, mais uma vez, Dr. Marc pelo convite. Como disse antes mais uma convocação do que um chamado, foi um privilégio participar com o amigo desta épica jornada.

O Angonese, velho amigo, companheiro de outras jornadas, não me surpreendeu, apenas confirmou ser um militar de escol, competente como “Jungle Expert” e remador audaz. Parceiro para todas as missões, não mediu esforços para que conseguíssemos abreviar o tempo de deslocamento e nos tranquilizasse quanto à segurança e destreza que imprimia na condução da pesada e pouco manobrável canoa. O Angonese permitiu que variássemos nosso cardápio da ração americana liofilizada trazida pelo Dr. Marc, com saborosos carreteiros e, principalmente, no Médio e Baixo Roosevelt, com peixes pescados e assados por ele próprio.

Nas proximidades da Confluência do Aripuanã encontramos alguns pescadores, que estavam hospedados na Pousada Amazon Roosevelt, que nos presentearam com refrigerantes gelados – muito bem vindos. Aportamos no píer da Pousada depois de percorremos 29 km.

Nesta pousada, diferente da anterior, o gerente foi bastante solicito e embora estivesse com a lotação esgotada permitiu que acampássemos nas suas instalações e desfrutássemos das comodidades das instalações sanitárias, área de lazer e refeições junto com os demais hóspedes.

O Dr. Marc, o Cel Angonese e o Jeffrey foram até a Balsa (Vila do Carmo), Rio Abaixo, combinar com o “Pelado” nossa viagem de camionete até Humaitá onde estaria esperando-nos o Sgt BM Douglas para conduzir-nos até Vilhena. Preferi relaxar e permanecer na área de lazer da pousada, minha missão, finalmente, estava concluída. Nas minhas outras descidas a programação geral, as metas diárias enfim todas as variáveis eram decididas apenas por mim. Nesta missão o Dr. Marc era o coordenador e eu tentei me ater tão somente à segurança no deslocamento, escolha dos acampamentos e contatos prévios para transposição das cachoeiras. É difícil, para alguém acostumado a liderar, transformar-se, de uma hora para outra, em apenas mais um membro da equipe, tentei cumprir meu papel, por vezes bufei, mas acho que no final conseguimos chegar a um consenso. Agradeço aos meus parceiros a compreensão e a paciência.

Minha intransigência quanto aos horários e distâncias diárias a serem percorridas visava tão somente acelerar nossa progressão o suficiente para que, ao enfrentar as grandes Cachoeiras como Carapanã, Apuí e Samaúma tivéssemos tempo suficiente para analisá-las e transpô-las, sem necessitar de socorro de terceiros, desfrutando das sua belezas naturais e curtindo seus desafios.



Fazenda Buritizal – Pousada Rio Roosevelt


Hiram Reis e Silva (*), Porto Alegre, RS, 14 de dezembro de 2014.

03.11.2014 (segunda) – AC11 (KM 477 – Fazenda Buritizal) – AC12 (KM 501 – Sítio do Sr. Arão)

Depois de navegarmos, em águas calmas, por uns 06 km surgiram alguns rápidos que foram transpostos pelo canal da esquerda que se estendia ao longo de duas pequenas Ilhas (09°13’18,9”S / 60°42’26,3”O), de uns 300m de comprimento cada uma, conforme nos orientara o amigo Jair. Seis quilômetros adiante, depois de passar por mais alguns rápidos, avistamos a Foz do Igarapé Panelas (09°11’33,4”S / 60°44’35,4”O) e, 2,5km a jusante, a pequena Comunidade de Panelas onde existe uma balsa. Parei pouco depois do acesso da balsa, à margem direita, e consultei dois ribeirinhos a respeito da trilha apontada pelo Jair para desbordar a Cachoeira Panelas. A precisão das informações do Jair era impressionante, continuei remando, a cavaleiro da margem direita, contornando uma série de rochedos até encontrar uma pequena Baía onde avistei o velho barco exatamente no local e posição que ele descrevera. A proa da embarcação apontava para uma trilha de uns 300m que dava acesso a um pequeno porto à jusante da Cachoeira das Panelas. Neste local fotografei a bela borboleta “Urania leilus” que eu encontrara, pela primeira vez, no Rio Tapajós, depois de realizar minha terceira descida pelos amazônicos caudais (Amazonas I ‒ Manaus-Santarém).

Conseguimos fazer a “portagem” em pouco mais de duas horas e partimos sabendo que logo à frente enfrentaríamos um novo labirinto formado por diversas Ilhas e inúmeros rochedos e onde a largura do Rio ultrapassava os 500 metros. A imagem do Google Earth estava encoberta por nuvens e tive de usar minha experiência e bom senso para escolher os canais mais adequados para a descida. Estes caminhos mais seguros eram sempre os mais longos, a cada bifurcação eu analisava a cota dos canais à minha frente e optava, invariavelmente, pela mais baixa que, logicamente, não tinha ou pelo menos deveria apresentar menos obstáculos a reter as águas do Rio. Agindo dessa maneira evitamos maiores sobressaltos e chegamos até um ponto onde estes diversos canais convergiam para um único com uma largura de aproximadamente 200 metros e onde as águas estavam mais serenas.

Fizemos uma parada em um pedral à margem esquerda e por volta das 15h00, depois de percorrer 24km indiquei aos meus amigos uma casa abandonada (AC12 ‒ 09°08’04,8”S / 60°41’42,8”O) onde poderíamos pernoitar com certo conforto, o único inconveniente era a altura do barranco. Fiz contato com o Sr. Arão, um seringueiro aposentado, que morava numa pequena casa nos fundos da casa grande, e ele concordou que ali passássemos a noite. Segundo ele, o dono da propriedade, que a usava quando vinha pescar com os familiares no Rio Roosevelt, falecera em um desastre aéreo. O Sr. Arão, a pedido do Dr. Marc, esquentou a água para preparar as rações. O pequeno seringueiro jantou conosco mas não apreciou o sabor da comida importada.

04.11.2014 (terça) – AC12 (KM 501 – Sítio do Sr. Arão) – AC13 (KM 525 – Sítio abandonado)

Desmontamos o acampamento e parti antes de meus amigos avisando que esperaria por eles quando encontrasse algum obstáculo e caso isso não acontecesse eu os aguardaria na Ilha do Cotovelo (08°59’55,3”S / 60°43’57,9”O) que estava localizada a uns 18 km da residência do Sr. Arão. Remei forte e a uns 3km da referida Ilha contatei alguns ribeirinhos (09°00’39,7”S / 60°42’55,6”O) solicitando a eles que informassem aos “camaradas” que os aguardaria na Ilha do Cotovelo onde cheguei por volta das 10h00. As únicas formações rochosas desde o AC12 ficavam a pouco mais de um quilometro da Ilha e não ofereciam qualquer tipo de dificuldade. Ao chegar na Ilha espantei, sem querer um pequeno jacaré que dormitava tranquilamente nas pedras da Ilha. Aqui como nas demais Ilhas pedregosas de todo o Rio Roosevelt encontrei diversos arbustos de Camu-camu.

Camu-camu (Myrciaria dúbia): arbusto também conhecido como caçari ou araçá encontrado na Amazônia às margens dos Rios e Lagos. A planta pode permanecer submersa de 4 a 5 meses e frutifica, nestes locais, no período que vai de novembro a março. Na terra firme, a floração pode ocorrer durante o ano inteiro. Os frutos são esféricos de 01 a 3,2 cm de diâmetro, de coloração avermelhada ou roxa. Possui 20 vezes mais vitamina C (ácido ascórbico) do que a acerola. (Hiram Reis)

Até então eu não sabia que frutas eram essas e se eram ou não comestíveis. Só alguns dias mais tarde quando elas já começavam a rarear é que fiquei sabendo, pelo Kleber, na altura da Cachoeira Carapanã, de que eram os tão cobiçados frutos ricos em vitamina C. Eu arriscara provar apenas um deles tendo em vista que as frutas maduras não apresentavam bicadas de pássaros e as caídas no chão não tinham sido comidas por pequenos mamíferos. Dizem os especialistas que 90% do que os animais comem também pode ser consumido pelos seres humanos. A bela fruta de um roxo intenso e sabor levemente ácido mas agradável não era “CAL” ‒ Cabeluda, Amarga ou Leitosa. No Curso de Operações na Selva, do CIGS, haviam-nos ensinado que se uma fruta apresentasse essas três características não se deveria comê-la embora a existência de apenas uma ou duas dessas características não a tornasse, necessariamente, imprópria ao consumo.

Aguardei até o Dr. Marc aparecer e como as antigas fotos da Ilha eram muito diferentes da aparência que ela tinha hoje resolvi explorar sua ponta de jusante que a foto do Google Earth mostrava estar coberta pela mata mas que segundo a hidrodinâmica encontraríamos um banco de areia onde seria possível aportar e nos refrescar dentro d’água na sombra das árvores. Assim que iniciamos a descida surgiram os “camaradas” logo a montante da Ilha. Aguardamos a dupla na ponta de jusante um bom tempo e como eles não aparecessem deduzimos que tinham aportado na Ilha. Descemos lentamente e estacionamos na margem direita do Rio ainda aguardando os “camaradas”. O Dr. Marc, enquanto isso, aproveitou para contatar o pessoal de terra, através do telefone satelital, repassando nossa posição atual.

Finalmente apareceram os “camaradas”, o Jeffrey tinha aproveitado para realizar algumas filmagens desde a Ilha do Cotovelo e por isso tinham demorado tanto.

Relata o Cel Angonese:

Nós encontramos uma montaria (embarcação a remo construída de um tronco de árvore) com uma senhora, uma criança de colo mais 4 crianças. Moravam nas imediações da Ilha do Cotovelo. O chefe da família, Sr. Francisco, era um dos últimos que continuavam com a antiga profissão de seringueiro. Todo dia partia em sua trilha percorrendo seu seringal colhendo o látex daquelas árvores que renderam tantas divisas ao Brasil e que agora tão poucos se dedicam a esse trabalho. A técnica de preparo foi aperfeiçoada dos antepassados. Antigamente a “pela” era preparada na fumaça de um fogo lento. Agora o látex é colocado em um recipiente e endurecida com coalho. O seringueiro do Rio Roosevelt esta vendendo seu produto a R$ 4,50 o kg do látex.

Preparação da “Pela”

Antigamente para colher a goma, cingia-se a árvore com um cipó que envolvia o tronco obliquamente a um metro e setenta do solo até o chão onde era colocado um pote de argila. Eram, então, feitos diversos cortes na casca acima do cipó que aparava a seiva e a conduzia até o pote. Este processo de sangria exagerada, conhecida como “arrocho”, acabava matando a árvore e foi abandonado há muito tempo. Com o passar dos anos o método tornou-se mais racional visando preservar a integridade da “árvore da vida”.

O seringueiro parte, de seu tapiri, a cada dois ou três dias, de madrugada, carregando todos os seus apetrechos pela “estrada”. Este intervalo, antigamente desrespeitado, permite à árvore se recuperar da última sangria. Ele para, em cada uma das seringueiras, e parte para a extração da seringa que é feita através de pequenas incisões de 25 a 30 centímetros descendentes e paralelas na casca da planta, que começam a uma altura de aproximadamente dois metros acima do solo. Une depois, cada uma das extremidades inferiores dos cortes através de um talho vertical de maneira que o leite escorra dentro do traço para o fundo da cuia. A cuia é embutida na casca cortada para este fim e, eventualmente, pode ser usada uma argila para fixá-la no tronco.

Os cortes são feitos, normalmente até as onze horas, em todas as árvores da “estrada”, exceto nos meses de agosto e setembro época da floração. Pelo meio-dia ele começa a recolher as cumbucas despejando o látex coagulado nas cuias em um balde ou então em um saco “encauchado” (impermeabilizado com látex). A tarde, por volta das 14h00, volta para o rancho, almoça e inicia a defumação do material recolhido que leva umas duas horas para ficar pronto. O fogo é feito debaixo da terra para que a fumaça saia por um furo ao nível do chão.

A melhor fumaça é a de coco de babaçu, mas, no Rio Purus usava-se para esta operação os frutos da palmeira urucuri; no Rio Autaz os da palmeira iuauaçu e no Rio Jaú e onde estas palmeiras são mais raras utilizavam-se madeiras como a carapanaúba e a paracuúba. A bola de borracha (“pela”) é rodada em volta de uma vara de aproximadamente um metro e meio de comprimento chamada “cavador”. Para iniciar a bola enrola-se na vara um “tarugo” de goma coagulada no qual o leite gruda facilmente. O seringueiro vai despejando o leite com uma cuia ou uma grande colher de pau, ao mesmo tempo em que gira o “cavador”, a parte líquida se evapora imediatamente, e forma-se uma fina camada de goma elástica, e a bola vai engrossando, cada dia um pouco mais. Uma “pela” pronta, depois de vários dias, pesa em média de 50 quilos, é, então, exposta ao sol, quando toma a coloração escura e assim permanece até ser comercializada.

Látex “in natura”

Os seringueiros transferem o látex coletado para “bombonas”, que serão enviadas para a fábrica, estes recipientes contêm hidróxido de amônia, composto altamente tóxico, que preserva o leite, durante alguns dias. Caso o látex seja conservado “in natura” por muito tempo depois de extraído o produto coalha tornando-se inaproveitável tanto para a produção fabril como a artesanal.

Pouco mais de um quilometro depois da Ilha do Cotovelo o Rio faz uma curva abrupta à direita permitindo com isso que ali se forme um belo banco de areia onde estavam pousadas diversas Talha-mares.

Talha-mar: conhecido também como Corta-água, Talha-mar-preto, Corta-mar, Bico-rasteiro, Gaivota-de-bico-tesoura ou ainda Paaguaçu. A Talha-mar voa rasante à água e com a parte inferior do bico (bem maior que a parte superior) mergulhada com o objetivo de capturar pequenos peixes e crustáceos próximos à superfície. (Hiram Reis)

Estávamos em pleno Parque Estadual Guariba e daqui em diante o mapa não mostrava nenhuma casa ou clareira onde pudéssemos acampar sem que fosse necessária uma derrubada de mata. A última parada possível estava situada logo adiante e que acabamos verificando se tratar de um Sítio abandonado (AC13 ‒ 08°59’58,1”S / 60°46’01,5”O) no alto de um barranco. O Jeffrey não entendeu porque estávamos parando tão cedo depois de ter navegado apenas 25 km desde o Sítio do Sr. Arão e o Dr. Marc encarregou-se de fazer as devidas explicações. À noite o Angonese pescou um belo espécime de pirarara e algumas piranhas e o Dr. Marc aproveitou para medir a força da mordida das temíveis predadoras.

05.11.2014 (quarta-feira) – AC13 (KM 525 – Sítio abandonado) – AC14 (KM 560 – Foz Igarapé São Liberato)

Parti cedo informando meus parceiros que tentaria achar um acampamento próximo à Foz do Igarapé São Liberato, localizado no Estado do Amazonas, à uns 05 km da Fronteira Estadual entre o MT e o AM. Eles deveriam preparar-se para navegar no mínimo 35 km compensando o curto percurso do dia anterior.

Eu esperava encontrar na Foz do Liberato um banco de areia propício à montagem do acampamento tendo em vista o processo natural de assoreamento provocado por um afluente na sua Foz.

O vazio demográfico impressionava, não havia viva alma por aquelas bandas. Os barrancos e a vegetação densa não mostravam nenhum lugar propício a um acampamento. Passei pela Foz de um Igarapé onde havia uma mesa na barranca, aproximei-me do local e avistei as instalações de um acampamento de pescadores dentro do Parque Estadual Guariba.

A partir das 12h30, antes mesmo de avistar a Foz do Igarapé São Liberato, eu ziguezagueava de uma margem à outra tentando, infrutiferamente, achar um local adequado para nosso acampamento. Finalmente aproei, por volta das 13h30, para a almejada Foz esperando ali encontrar as condições adequadas para nossa estadia. Ao aproximar-me avistei um banco de areia quase ao nível d’água, arvorei remo, e ergui os olhos para os céus agradecendo ao Senhor de todos os Exércitos a bela visão. O idílico momento durou muito pouco pois ao volver novamente os olhos para a terra dei de cara com a cabeça de um enorme jacaré-açu que pescava despreocupadamente piraputangas na Boca do belo Igarapé de águas pretas.

A cabeça do enorme réptil tinha uns 70 cm, e o animal ultrapassava seguramente os 5,5 metros. Com um movimento muito rápido o gigantesco sauro lançou-se às águas do Rio Roosevelt e desapareceu num piscar de olhos, não sei quem se assustou mais com a presença do outro se eu ou o colossal jacaré, que o Jeffrey teima em chamar de aligátor. Foi o único animal deste porte avistado pela equipe em todo o Roosevelt, os demais eram pequenos e não chegavam aos dois metros de comprimento. Na minha descida pelo Rio Solimões, ao passar pela RDS Mamirauá observei e fotografei grande quantidade destes sauros gigantescos e muito gordos que ultrapassavam os seis metros, felizmente era uma área pródiga em recursos naturais e eles raramente atacavam os seres humanos. Felizmente nosso amigo não deu mais as caras e conseguimos montar acampamento e descansar sem grandes preocupações. Quando a equipe chegou eu já tinha limpado a área, montado a barraca e preparado o local do fogo. O Cel Angonese havia pescado dois belos tucunarés mas, infelizmente, descuidou-se por um momento e uma piranha cortou-lhe o dedo, o Dr. Marc preparou-lhe um curativo bem apertado. Montei a barraca do amigo com o objetivo de poupar-lhe a mão sequelada e à noite degustamos os tucunarés assados.

06.11.2014 (quinta-feira) – AC14 (KM 560 – Foz Igarapé São Liberato) – AC15 (KM 602 – Pousada Rio Roosevelt)

Este dia seria o mais longo de todos, teríamos de navegar 42 km até a famosa Pousada “Pousada Rio Roosevelt”. Não havia obstáculos pelo caminho e as águas eram mais rápidas, por isso, adiantei-me para providenciar apoio para a “portagem” mecanizada na Cachoeira do Infernão evitando o carregamento exaustivo do material por uma trilha de mais de um quilometro.

Próximo ao nosso acampamento, à margem esquerda, passei por um confortável acampamento de apoio da Pousada Rio Roosevelt infestado por macacos que empoleirados numa enorme mangueira devoravam as frutas freneticamente.

Chegando no Infernão, aportei numa balsa próxima ao campo de pouso da pousada, e segui por uma bela trilha até chegar à Pousada Rio Roosevelt. Contatei os funcionários com o intuito de conseguir, além da “portagem”, o pernoite e um jantar. Rapidamente resolvemos o assunto que era mais premente que era o da transposição – um trator tracionando um reboque foi deslocado para montante da Cachoeira onde ficamos aguardando os parceiros chegarem.

Depois de duas horas de espera nossos amigos foram com uma voadeira ver onde eles se encontravam e os encontraram ainda à montante do Rio Madeirinha. Foi uma espera de mais de três horas e meia. Quando chegaram, embarcamos o material e enquanto o trator se deslocava pela trilha externa fomos pela interna destinada aos pedestres.

Os companheiros ficaram radiantes ao avistarem as luxuosas instalações, infelizmente o gerente queria cobrar R$ 400,00 de cada um por apenas um pernoite e decidimos montar as barracas na praia. Depois de um banho reconfortante fomos convidados cortesmente para jantar. O Angonese não se conteve e mesmo com o dedo enfaixado pescou uma enorme bicuda (Boulengerella maculata).