MAPA

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segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

AC08 – Fazenda Buritizal


Hiram Reis e Silva (*), Porto Alegre, RS, 14 de dezembro de 2014.

31.10.2014 (sexta-feira) – AC08 (KM 375 – Ilha) – AC09 (KM 403 – Cachoeira das Três Piranhas)

A jornada foi tranquila e fizemos uma parada mais longa por volta das 12h00 em um ponto do Mapa 094 onde eu assinalara como sendo um “Areal” (09°50’18,5”S / 60°40’40,7”O) e que na verdade eram rochedos. A baixa qualidade das fotos aéreas do Google Earth não permitia, por vezes, observar os detalhes corretamente.

Continuamos nossa jornada e pouco mais de uma hora depois, a uns oito quilômetros do “Areal”, comecei a ouvir um rugido conhecido de águas revoltas. Avisei meus parceiros que iria à frente fazer um reconhecimento e piquei a voga. A série de cachoeiras (Três Piranhas – 09°47’49”S / 60°40’24”O) era formada por um pequeno arquipélago e o Rio fluía por três canais permeados de rochedos formando cinco degraus distintos e distantes de uns 50 a 100 metros uns dos outros. Verifiquei que a melhor opção era contornarmos pela margem direita. O primeiro foi facilmente transposto a remo, no segundo embora a queda não chegasse a um metro de altura optamos por conduzir as embarcações à sirga tendo em vista que as rochas poderiam danificar os cascos das mesmas. O terceiro foi transposto sem problemas pelos caiaques e ficamos observando e torcendo para que os “camaradas” o ultrapassassem, com sucesso, com sua pesada canoa. Os “camaradas” já dominavam com muita segurança a técnica de navegação da instável e pesada canoa e venceram esta etapa sem qualquer contratempo. O quarto degrau, semelhante ao primeiro, foi transposto sem qualquer dificuldade. Descuidei-me, por alguns segundos, e quase fui tragado pelo quinto e mais desafiador obstáculo de quase dois metros de altura que naquele local era formado por um intrincado labirinto de pedras aguçadas. Fiz um reconhecimento mais adiante e descobri, colado na margem direita, um local que me pareceu mais adequado a realizar a passagem à sirga de todas as embarcações. Foi com dificuldade que o vencemos depois de muito esforço e sofrer alguns arranhões e hematomas.

Embora tivéssemos percorrido apenas 28km, resolvemos acampar à jusante da Cachoeira, estávamos muito cansados depois de transpor à sirga a Cachoeira das Três Piranhas. O local era aprazível, sem barrancos, relativamente limpo, lenha à vontade e o mais importante, graças ao Angonese, saboreamos três piranhas assadas que nomearam a Cachoeira.

01.11.2014 (sábado) – AC09 (KM 403 – Cachoeira das Três Piranhas) – AC10 (KM 440 – Cachoeira)

O dia transcorreu célere e de águas calmas. Lá pelas 10h00 avistamos uma anta que saboreava, despreocupada, um barreiro (terreno salitroso onde os animais se nutrem de sal) numa barranca à margem direita do Rio. O dócil animal permitiu que eu me aproximasse para fotografá-la, o tapir aguardou, pacientemente, a chegada de todo o grupo e, depois de algum tempo, retirou-se sem pressa barranco acima.

Cheguei à Fazenda Buriti que eu referenciara no mapa. Lá encontrei dois homens que, segundo eles, tinham sido contratados para desmontar algumas benfeitorias da mesma. Eles informaram que a fazenda era de propriedade de um grupo alemão que queria deixar a floresta intacta, removendo inclusive as benfeitorias da sede da fazenda, com o objetivo de negociar créditos de carbono. Consegui algumas frutas com eles, aguardei meus parceiros chegarem e como tínhamos parado a pouco continuei logo a navegação enquanto meus parceiros resolveram, não sei por que, fotografar a fazenda. Ato temerário considerando o lugar ermo e a possibilidade daqueles homens estarem cometendo algum ato ilícito.

A Foz do Rio Branco (KM 427 – 09°38’15,9”S / 60°38’51,9”O) ficava a apenas 1.200 metros da última parada, aguardei meus amigos e como não aparecessem continuei remando até uma pequena Ilha (KM 430 – 09°37’07,2”S / 60°39’44,3”O) à frente do Porto de uma grande fazenda. Permaneci na Ilha que estava tomada por quero-queros (Vanellus chilensis) por mais de meia hora e, estranhando a demora do grupo, remei Rio acima para ver o que se passava. Depois de remar uns 500 metros avistei os três. É preciso em qualquer missão manter o foco e não consumir tempo ou energia em eventos que não sejam estritamente condizentes com os objetivos propostos, começo a achar que minhas metas e as de meus parceiros americanos são bastante diversas.

Sugeri que acampássemos por ali já que a apenas uns dez quilômetros teríamos de enfrentar uma nova Cachoeira e que seria preferível fazê-lo descansados e não no final de uma jornada. Fui com os “camaradas” fazer contato com o gerente da fazenda que nos presenteou com algumas frutas e água fresca, para minha surpresa, ao voltar, meus parceiros resolveram continuar a descida.

Cheguei à Cachoeira (KM 440 – 09°33’37,5”S / 60°36’12,1”O) por volta das 17h00 e fui, imediatamente, analisar os locais de passagem. Estava reconhecendo a margem esquerda quando os “camaradas” chegaram e pedi ao Angonese que verificasse a existência de alguma trilha naquela margem. Naveguei até o meio do Rio tentando visualizar alguma outra passagem já que a trilha na margem esquerda era inviável. Escolhi minha rota e chamei os parceiros para observarem minha passagem. Executei a passagem com o caiaque sem dificuldade mas consideramos que seria temerário tentar fazer o mesmo com a pesada canoa. Achei uma passagem à sirga a cavaleiro da margem direita e auxiliado pelos “camaradas” realizamos a difícil e dorida transposição. Solicitei autorização do Dr. Marc para transpor seu caiaque, não consegui regular o pedal do leme que tinha sido apertado com alguma ferramenta e, além disso, o remo era muito diferente do meu. O resultado é que senti dificuldade em manobrá-lo na veloz torrente e bati o casco em uma das pedras, a mesma que eu conseguira desviar, sem problemas, pilotando meu caiaque, felizmente a embarcação não sofreu nenhum dano e poupamos assim de ter de conduzir o caiaque à sirga ferindo-nos como acontecera na descida da canoa.

Tínhamos navegado 34km e transposto uma Cachoeira média. O local de acampamento à jusante da corredeira era aprazível e o fragor das águas embalou nossos sonhos.

02.11.2014 (domingo) – AC10 (KM 440 – Cachoeira) – AC11 (KM 477 – Fazenda Buritizal)

A navegação foi quase toda por rápidos, as rochas emergiam das águas e pareciam observar curiosas nossa progressão. Depois de navegar uns 10 km chegamos à outra Cachoeira (KM 450 – 09°29’38,6”S / 60°35’21,8”O), perguntei a alguns pescadores que estavam na margem esquerda se ela tinha alguma passagem e eles me informaram que os práticos cruzavam pelo lado direito sem grandes problemas – se eles passavam nos também o faríamos. Enquanto eu realizava o reconhecimento meus parceiros ficaram conversando com os pescadores. Verifiquei as duas opções possíveis, chamei meus companheiros, e lhes indiquei a mais viável. Passei primeiro mostrando que devíamos passar bem à direita e não seguir a torrente principal pois esta jogaria a embarcação sobre uma grande pedra. Desci sem mesmo colocar a saia, atirei o corpo para trás para o caiaque não mergulhar a proa, tangenciei a margem direita exatamente como pretendia e o leme deu um leve toque em uma pequena rocha, como eu previra, deixando a perigosa pedra bem à minha esquerda. Os camaradas e o Dr. Marc passaram igualmente com tranquilidade. O Dr. Marc que no primeiro dia naufragara por duas vezes enroscando-se nas galhadas meio submersas agora saia-se airosamente passando nas quedas como um legítimo veterano. Como só teríamos pela frente alguns rápidos informei aos companheiros que iria à frente para contatar o Jair Schiavi , Gerente da Fazenda Buritizal, para que ele nos auxiliasse na travessia da Cachoeira do Chuvisco, caso contrário, teríamos de realizar uma “portagem” de mais de 1.000m. O Jair Schiavi tinha sido indicado pelo Lourival, gerente da Fazenda Perautas.

Seguindo a orientação do Lourival desembarquei, na margem direita, próximo à segunda casa e segui a trilha que me conduziria rumo Norte até encontrar uma estrada. Estava quase chegando quando ouvi vozes de dois homens que ali estavam colhendo mangas. Eram amigos do Jair Schiavi e as frutas eram para os porcos dele, eles me levaram de barco até a margem oposta e me apresentaram ao Jair Schiavi. Muito falante e prestativo o Gerente da Buritizal disse que eu chegara em boa hora pois no dia seguinte ele sairia cedo para resolver alguns problemas particulares. Perguntei se ele tinha condições de nos abrigar e alimentar informando que estávamos prontos a pagar-lhe pelos serviços. Ele apenas sorriu, chamou a esposa que aquiesceu em preparar-nos o jantar. Embarquei na lancha e ele pilotou habilmente pelas estreitas passagens da Cachoeira Chuvisco. Quando chegamos ao local, aonde eu deixara o meu caiaque, meus companheiros tinham acabado de desembarcar. Carregamos na lancha do Jair Schiavi a carga da canoa e partimos céleres atrás dele, nosso anfitrião pilotava com rara habilidade. Ele foi um guia extraordinário mostrando os locais exatos por onde deveríamos passar e nos aguardando quando nos atrasávamos um pouco.

Aportamos, depois de navegar por 37 km, e levamos a bagagem estritamente necessária para dormirmos já que o Jair nos disponibilizou uma casa para o pernoite. Tomamos um bom banho com água translúcida e fomos jantar na casa do Gerente da Buritizal. Sua esposa Edna Maria de Lima Schiavi tinha preparado um verdadeiro banquete, eles nos contaram que tinham abrigado, também, os canoístas americanos Paul Schurke e Dave Freeman, além de cinco canoístas brasileiros, que realizaram uma descida de 438km pelo Rio Roosevelt em homenagem à Expedição original. Schurke e Freeman também interromperam, como nós, sua jornada na Ponte Tenente Marques mas reiniciaram, segundo o Dr. Marc, a descida na Foz do Rio Branco (KM 427), bem abaixo do KM 280 de onde partimos para executar a 2ª Fase até o Aripuanã.
O Jeffrey aproveitou para usar a internet e enviar algumas notícias. Tive de chamar a atenção dele de que já eram 23h00 e que devíamos deixar os donos da casa descansar. A dona da casa e o filho Jackson Schiavi já tinham dado visíveis sinais do adiantado da hora retirando-se da mesa e nosso anfitrião fazia força para manter os olhos abertos. Meu amigo não tinha se dado conta de que o relógio dele ainda estava com o fuso horário de Rondônia (22h00) e que não devíamos abusar das gentilezas de nossos anfitriões. No Rio Grande do Sul, permanecer na casa de alguém após as 23h00 é considerado uma indelicadeza imperdoável, não sei se nos EUA é diferente.
Na hora da partida fui com o Jackson Schiavi colher algumas laranjas e mangas. Enchemos um dos sacos com laranjas sempre tomando cuidado para que os porcos que ficavam à espreita não as roubassem. Depois fomos pegar algumas mangas, sempre seguidos pelos esfaimados suínos, descuidei-me, por um instante, e uma das porcas abocanhou um dos sacos e saiu arrastando-o espalhando as laranjas campo afora. Corremos atrás dela tentando recuperar o fruto do seu furto quando, de repente, o animal pisou na borda do saco e deu uma incrível pirueta mortal estabacando-se espetacularmente. A porca, contrariada, e amuada afastou-se grunhindo e nós conseguimos reaver a maioria das laranjas furtadas. O Angonese comentou que no Sul do país esta não era época de colher laranjas.




Estrada Maraquitã – AC08 (Ilha)


Cada torrão desta terra é sagrado para meu povo, cada folha reluzente de pinheiro, cada praia arenosa, cada véu de neblina na floresta escura, cada clareira e inseto a zumbir são sagrados nas tradições e na consciência do meu povo. A seiva que circula nas árvores carrega consigo as recordações do homem vermelho. O homem branco esquece a sua terra natal, quando – depois de morto – vai vagar por entre as estrelas. Os nossos mortos nunca esquecem esta formosa terra, pois ela é a mãe do homem vermelho. Somos parte da terra e ela é parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs; o cervo, o cavalo, a grande águia – são nossos irmãos. (Cacique Seattle)

27.10.2014 (segunda-feira) – Vilhena, Ro – AC05 (KM 126 ‒ Estrada Maraquitã)

Em Vilhena, ficamos hospedados, sábado e domingo, no Hotel Colorado, e depois de nos reorganizarmos e identificarmos o ponto mais favorável para dar continuidade à nossa Expedição partimos, na segunda-feira, de Vilhena com destino à Balsa do “Condomínio Aprovale” (KM 268 desde a nascente do Roosevelt ‒ 10°40’16,3” S / 60°30’58,9”O). A viagem transcorreu sem grandes novidades até alcançarmos a TI dos Zoró, onde era intenso o movimento de caminhões carregados com toras de madeira. Observamos algumas destas toras sem a devida identificação e outras cortadas dentro da TI aguardando transporte ‒ sinais claros de exploração madeireira irregular dentro da Área Indígena. Assim como os Cinta-Larga, os Zoró barganham, sem qualquer controle suas riquezas naturais mostrando total despreocupação com o legado de seus antepassados. Certamente eles não partilham da mesma filosofia do Cacique Seattle cujas palavras encabeçam este capítulo. Felizmente ninguém nos cobrou pedágio na passagem da cancela por uma de suas Aldeias. Às margens do Roosevelt, constatamos sua pujança depois de receber seu mais poderoso afluente – o Rio Cardoso. Embora a balsa seja uma propriedade particular, bancada pelo “Condomínio Aprovale” (Associação dos Produtores Rurais do Rio Roosevelt), fomos levados cortesmente até a margem direita sem qualquer empecilho. Precisávamos de um lugar para acantonar e o balseiro nos informou que encontraríamos guarida na Serraria Madeireira Ita da Fazenda Fonte Viva que ficava a apenas 05km adiante. A Fazenda Fonte Viva faz parte de um belo projeto de desenvolvimento sustentável que explorava os recursos naturais através do manejo sustentável.

Manejo sustentável: administração da vegetação natural para a obtenção de benefícios econômicos, sociais e ambientais, respeitando-se os mecanismos de sustentação do ecossistema objeto do manejo e considerando-se, cumulativa ou alternativamente, a utilização de múltiplas espécies madeireiras ou não, de múltiplos produtos e subprodutos da flora, bem como a utilização de outros bens e serviços. (Lei Federal N° 12.651, de 25.05.2012)

Para a execução do manejo florestal é necessária a elaboração de Plano Operacional Anual (POA) definindo o cronograma de atividades, os métodos de operação e manejo florestal a serem aplicados na colheita.

1ª Fase: realiza-se o inventário florestal levantando todas as árvores de valor comercial existentes numa área de exploração anual, o traçado e dimensões das estradas e pátios de estocagem, corte das árvores e arraste de toras.
2ª Fase: visa a identificação da área do projeto, dos talhões, marcação das áreas permanentes, demarcações de faixas e picadas nos talhões, árvores porta sementes, árvores de corte e árvores proibidas de corte.
3ª Fase: faz-se o cálculo do inventário florestal e o cálculo do volume comercial.
4ª Fase: compreende a segurança no trabalho e infra-estrutura do acampamento.
5ª Fase:   corresponde ao abate de árvores propriamente dito que envolve as técnicas a serem empregadas no corte, segurança dos operadores, definição das estradas e trilhas de arraste, pátios de estocagem, carregamento das toras e monitoramento da exploração florestal.

O manejo visa, então, uma exploração racional da floresta respeitando sua dinâmica natural. Ao longo do Rio Roosevelt observamos várias áreas semelhantes onde o respeito a essas técnicas vem permitindo que além da flora a fauna se reproduza abundantemente. Na serraria fomos muito bem recebidos e conseguimos um lauto jantar e um local para dormir. Conhecemos o simpático Sr. Zé Patroleiro, um paranaense cujo pai veio, como tantos, para a região depois de vender suas terras no Sul com o sonho de comprar uma gleba suficiente para ser dividida pelos futuros herdeiros. Infelizmente o sonho transformou-se em pesadelo ao ser enganado por um corretor inescrupuloso e verificar que a área da terra comprada era muito menor do que lhe anunciara o malfadado vendedor. O pai sempre se culpou pela desdita a que condenara toda a família e o desgosto foi-lhe aos poucos minando as forças e a saúde. Os filhos tiveram de procurar emprego e foi assim que o Zé transformou-se de agricultor em operador de máquinas. Mas como reza a peça de teatro de Shakespeare “All's Well That Ends Well” (Tudo está bem quando termina bem), o Zé é hoje o orgulhoso pai de uma estudante de medicina e os filhos que não quiseram continuar os estudos são como o pai operadores de máquinas. O Coronel Angonese, cuja filha Rafaela também é uma discípula de Hipócrates (o pai da medicina), sabe muito bem o custo que isso representa para um assalariado.

28.10.2014 (terça-feira) – Rio Roosevelt (KM 284) – AC06 (KM 314 – Ponte da Aprovale)

Tivemos muita dificuldade na hora de partir, a bateria do carro dos bombeiros, que estava com todo o nosso material, estava totalmente descarregada e, embora o Zé Patroleiro insistisse em que se trocassem as baterias do carro com as de sua máquina, o pessoal ficou insistindo durante muito tempo usando os cabos para dar a famosa “chupeta”. O motor só deu partida depois da troca recomendada pelo Zé, o passo seguinte foi a recolocar, novamente a bateria velha e tomar cuidado para não desligar o motor.

Percorremos uma das trilhas usada pelos pescadores para chegar até a margem direita do Rio, descarregamos as embarcações e a carga e reiniciamos nossa jornada. O Rio Roosevelt tinha agora outras características, a correnteza, a largura eram maiores, a fauna mais diversificada com a presença das belas e solitárias garças mouras (Ardea cocoi) que agora davam seu ar de graça.

As aves mais comuns em toda extensão continuavam sendo as andorinhas-de-peito-branco (Atticora tibialis), os martins-pescadores-pequenos (Chloroceryle americana) e martins-pescadores-grandes (Megaceryle torquata), os biguás (Phalacrocorax brasilianus) e os socós-boi (Tigrisoma lineatum). As araras Canindé (Ara ararauna) de vistosa coloração azul ultramarino no dorso e amarelo-dourado na parte inferior que avistamos na 1ª Fase de nossa descida (Rondônia) foram, progressivamente, substituídas aqui pelas belas Araracanga (Ara macao) de intensa coloração vermelha escarlate; asas tricolores (vermelho, amarelo na parte média e azul intenso nos extremos), rabadilha e base do rabo azul.

Aportamos, por volta das 14h00, na margem esquerda, em um aprazível lugar à montante da Ponte da Aprovale (KM 314 – 10°21’55,7”S / 60°36’14,9”O), depois de percorrer 30Km. O local era usado sistematicamente por pescadores e as áreas de acampamento e fogo já estavam praticamente prontas, bastava, apenas, uma pequena limpeza. Avistei uma família de capivaras na cabeceira da ponte, e à noite fomos visitados por um tatu. O Jeffrey como de costume, apesar de ter sido advertido, por diversas vezes, por mim e pelo Angonese para que não o fizesse, à noite, se refrescava, no Rio, ficando apenas com a cabeça de fora e desta feita afirma ter levado choque de um poraquê.

Relata o Coronel Angonese:

Na ponte, o Jeffrey foi tomar banho no Rio devido ao calor. Ficou alguns minutos n’água, quando deu um baita berro. Eu que estava arrumando meu material fui correndo até a margem para acudi-lo. Na saída ele deu outro grunhido, relatando, logo em seguida, que tinha recebido duas descargas elétricas de Poraquê. Disse que estava muito dolorido mas logo se recuperou do susto e foi deitar-se. De madrugada Jeffrey acordou com barulho perto da barraca, com a lanterna avistou um tatu passeando pelo acampamento.

29.10.2014 (quarta-feira) – AC06 (KM 314 – Ponte da Aprovale) – AC07 (KM 345 – Fazenda Bom Jardim)

Definimos como objetivo para este dia como local de acampamento a Fazenda Bom Jardim, a 31km de distância do acampamento atual. A progressão foi igualmente tranquila e só precisei reconhecer a passagem por uma Ilha (Mapa 69 – 10°28’21”S / 60°31’30”O). Ao aportar assustei um cardume de piraputangas (Brycon hilarii) e depois de realizado o reconhecimento partimos pelo braço esquerdo sem qualquer percalço.

Chegamos no nosso destino (KM 345 – 10°08’27,4”S / 60°38’55,7”O) que eu marcara no mapa como “Porto” e realmente nele estava ancorado um barco de alumínio. O aprazível recanto tinha, à sua frente, uma pequena e bela Ilha pedregosa e era, também, um local usado por pescadores, tinha mesa, bancos e grelha à nossa disposição. Como o mapa mostrava a sede de uma fazenda a apenas 1.500m de onde estávamos resolvi, depois de montar a barraca, pedir autorização ao encarregado. Na sede, encontrei o gerente, chamado Lourival, um mineiro de boa cepa, muito prestativo e falante que me levou na sua camionete de volta até o acampamento, foi uma carona muito bem vinda, já que eu estava de pés descalços.

Ele se apresentou ao pessoal, deu-nos algumas dicas do que iríamos encontrar pela frente e recomendou-nos procurar o Jair quando chegássemos à Cachoeira do Chuvisco, depois disso voltou aos seus afazeres ficando de retornar mais tarde. O Angonese achou uma tapera e um antigo pomar onde conseguimos colher algumas mangas verdes já que as maduras, ou de vez, os animais selvagens já as tinham consumido. À noite o Lourival e a esposa vieram nos convidar para ir até sua casa e, como estávamos muito cansados, somente o Jeffrey aceitou o convite visando carregar as baterias de seus equipamentos eletrônicos. Em sua casa, o Lourival, como bom mineiro, convidou o Jeffrey para degustar uma cachacinha e os dois voltaram bem mais tarde muito eufóricos e trouxeram de brinde uma garrafa d’água bem gelada que foi muito apreciada.

30.10.2014 (quinta-feira) – AC07 (KM 345 – Fazenda Bom Jardim – AC08 (KM 375 – Ilha)

Partimos por volta das 08h00. O Lourival tinha prometido vir se despedir, antes da partida, mas acho que a cachacinha noturna tinha vergado a determinação de nosso amável anfitrião. Encontramos alguns rápidos e pequenas cachoeiras pelo caminho que não obstaculizaram nossa progressão. Eu vinha acompanhando a progressão de meus companheiros até que, depois de navegarmos quase 20km, decidi ir à frente e esperá-los em um lugar mais aprazível. Aportei em uma bela Ilha (09°58’39,3”S / 60°38’11,9”O) aproveitando para esticar as pernas, hidratar-me e refrescar-me mergulhando nas límpidas águas do arenoso leito do Rio Roosevelt. Aguardei durante uma hora e como meus camaradas não aparecessem resolvi verificar se tinha acontecido algum imprevisto. Depois de remar mais de 02km Rio acima, enxerguei o trio descendo calmamente. Eu ainda não tinha assimilado que as longas paradas faziam parte da “americana” rotina da equipe. Aguardei-os e prosseguimos juntos passando pela aprazível Ilha em que eu tinha feito meu alto-horário, pela Foz do pequeno Igarapé Santa Maria (09°58’05,73”S / 60°37’51,4”O), situada à margem direita, e aportamos na praia de uma Ilha (09°57’34,0”S / 60°39’18,8”O) a exatos  30km do acampamento anterior. O local apresentava vestígios de estar sendo usado sistematicamente por pescadores que ali estacionavam e estavam massacrando em lenta agonia a mais bela e frondosa árvore da Ilha fazendo fogo junto às suas raízes. O Angonese, como de costume, foi tentar a sorte na pescaria enquanto aprontávamos o acampamento.




Os Cinta-Larga


Hiram Reis e Silva (*), Porto Alegre, RS, 08 de dezembro de 2014.

O grupo, originalmente, usava uma larga faixa confeccionada da entrecasca de tauari (Couratari spp) que lhes cingia a cintura e, por isso, os regionais passaram a denominá-los Cinta-Larga codinome que foi adotado pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI). Na verdade sob a denominação de Cinta-Larga foram aglutinados três grupos distintos, que possuem língua e cultura semelhantes, autodenominados Kabã, Kakin e Mã.

As Terras Indígenas (TI) Cinta-Larga, Zoró e Suruí estão inseridas no Parque Indígena (PI) Aripuanã localizado no Leste do Estado de Rondônia e Noroeste do Mato Grosso somando uma área total de aproximadamente 2,8 milhões de hectares. A FUNAI criou, no último decênio do século XX, quatro TI adjacentes dentro do território ocupado pelos Cinta-Larga – PI Aripuanã, Área Indígena (AI) Roosevelt, AI Serra Morena e AI Aripuanã cuja população está distribuída em 33 aldeamentos.

Questão Cinta-Larga

Até o final dos anos 1960, os Cinta Larga, ocupavam (e dominavam) uma área de 4,5 milhões de hectares entre os Rios Roosevelt e Aripuanã, repleto de riquezas historicamente exploradas por seu valor de mercado: primeiro como uma província seringueira, depois mineral, depois madeireira e hoje ambas. Foi com seringueiros e garimpeiros que invadiram seu território que os Cinta-Larga contataram os “zaryj” (civilizados), em uma região pródiga em borracha, ouro, diamante e madeiras nobres.

Os Cinta-Larga observaram que esses inimigos tinham as cobiçadas ferramentas de metal, sobretudo machados e terçados (facões), já que no começo desprezavam e não viam utilidade nas espingardas. Justamente aí tem início a “Questão Cinta-Larga”, na divulgação regional e nacional das riquezas minerais em suas terras e da sua antropofagia, noticiadas na imprensa nos anos 1960. A FUNAI somente chegaria à região após essas notícias, alguns anos depois de a maioria dos grupos locais Cinta-Larga do Aripuanã e do Roosevelt terem contatado garimpeiros e visitado a estação telegráfica de Vilhena.

As primeiras ações desses funcionários foram justamente as de expulsar os “amigos garimpeiros” e tomar o lugar deles, inclusive instalando-se em suas casas, dando aos Cinta-Larga as tão desejadas ferramentas – além de remédios e sementes. Os funcionários do órgão indigenista (FUNAI) passaram, pouco depois, a organizar a vida aldeã, convocando os Cinta-Larga para o trabalho na roça, corte de seringa e outras atividades cotidianas, de modo a concorrer com o próprio “zapivaj”, como é chamado o chefe da aldeia.

No fim dos anos 1980, críticas e ameaças contra a “mesquinhez” da FUNAI se tornaram regra entre os Cinta Larga que foram sendo transformadas em indiferença ao longo desta última década. Por essa razão, os Cinta-Larga substituíram a FUNAI pelos “amigos madeireiros”, os novos doadores de ferramentas – e moradias, estradas e Toyotas e L200. Quando a FUNAI deixou de se comportar “no registro de zapivaj”, deixando de concorrer com os verdadeiros donos da casa, tudo voltou como antes na ordem sociopolítica Cinta-Larga.

Assim, a iniciativa dos contratos de madeira, se no começo dessa atividade (1986-1988) passava pelos funcionários da FUNAI, foi completamente assumida pelos “zapivaj” de todas as aldeias quando esses funcionários foram afastados e aqueles que entraram tinham como postura predominante o “não se meter”. “Liberar” a exploração de madeira ou garimpo para “pegar dinheiro”, visando atender suas necessidades atuais de bens e serviços (como moradias, saúde, educação) – dado que a FUNAI, falida, não os propicia, “como no começo fazia” – passou a ser a regra dominante da economia política dos Cinta Larga. (BETO & FANY)

Progressivamente a cobiça desenfreada pelos recursos naturais na TI Cinta-Larga passou a contar com a participação efetiva e ostensiva de funcionários da FUNAI que contavam com o beneplácito dos mais altos escalões do órgão pseudo-indigenista. As máfias ligadas à exploração madeireira e garimpo passaram a fazer uso de “contratos” estabelecendo como moeda de troca com os líderes indígenas corruptos e corruptores, todo o tipo de mercadorias, caminhonetes e dinheiro vivo ‒ fruto da participação nos “lucros” que pretensamente dariam respaldo às invasões e demais atos ilícitos. Desde então o patrimônio cultural, moral e natural dos Cinta-Larga foi sendo sistematicamente dilapidado.

Os Kimberlitos da TI Cinta-Larga

Lá está a riqueza que os estrangeiros e os políticos querem tirar do meu povo. Tudo o que saiu é pouco. Os garimpeiros estão somente arranhando a rocha maior (kimberlito), abaixo do igarapé, onde está o grosso do diamante”.

(Tataré Cinta-Larga – Isto É, Edição: 1731, 05.12.2002)


Os kimberlitos são a mais importante fonte de diamantes e sua existência só foi comprovada nos idos de 1866. Kimberlito é uma homenagem a Kimberly, na África do Sul, onde a existência destas miraculosas chaminés foi comprovada pela primeira vez.

A maioria dos diamantes que encontramos hoje formaram-se há milhões de anos e violentas erupções de magma trouxeram-nos até a superfície através das chaminés de kimberlito. Estas chaminés foram criadas à medida que o magma emergia pelas mais profundas fissuras da Terra empurrando os diamantes e outros minerais para a superfície da crosta terrestre. Após o magma esfriar ele deixava atrás de si as características veias cônicas da rocha de kimberlito.

Embora alguns de nossos mais ilustres magistrados manifestem-se contrários à exploração mineral nas TI os caciques Cinta-Larga continuam zombando da Lei e gerindo suas terras como se não fizessem parte de nosso País. A prepotência se deve simplesmente à ausência de medidas coercitivas que os atinjam, a morte de centenas de garimpeiros, a ingerência até mesmo em terras que não lhes pertencem, os “contratos” permitindo o garimpo e a exploração madeireira atentam contra tudo e contra todos.

Filhos da Terra, 15.07.2014 – Redação 24 Horas News

Extração de diamantes em terra indígena em MT atrai conflitos e mortes, ladrões, prostitutas e contrabandistas.

A partir de agora, devem ser cancelados os requerimentos para realização de pesquisa mineral em terras indígenas da comunidade Cinta-Larga e no seu entorno, conforme decisão obtida pelo Ministério Público Federal (MPF) junto ao Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1). No dia 1º de julho, o Superior Tribunal de Justiça concedeu liminar para retirar efeito suspensivo que impedia a decisão do TRF1 de ser cumprida. Desde a ação civil pública em primeira instância, o MPF demonstrou que as pesquisas e lavras autorizadas pelo Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) no interior da terra indígena têm servido para aumentar a criminalidade na área.

Relatório da Polícia Federal (PF) citado nas peças do MPF assinala os conflitos gerados entre garimpeiros, minerados e indígenas por causa da comercialização ilícita de diamantes extraídos nas terras ocupadas pelos índios Cinta Larga, com produção avaliada em torno de US$ 20 milhões mensais. Segundo apuração da PF em Rondônia, a vida dos contrabandistas tem sido facilitada pela concessão de licenças de pesquisas minerais próximas às áreas indígenas pelo DNPM e “a presença de mineradoras nas áreas circunvizinhas às terras indígenas fomenta o contrabando e o crime organizado que atua contrariamente aos interesses indígenas”.

A área indígena dos Cinta-Larga possui um raro kimberlito – rocha vulcânica onde é encontrado o diamante – que, segundo estudo da Companhia de Pesquisa e Recursos Minerais, órgão do Ministério das Minas e Energia, é único no país, podendo gerar uma mina industrial de diamante de gema com capacidade para produzir, no mínimo, um milhão de quilates de pedras preciosas por ano.

Além disso, a exploração atrai ladrões de pedras, prostitutas e traficantes para a região. Já provocou a morte de pelo menos cem garimpeiros, índios e contrabandistas nos últimos dois anos, e é responsável por sérios danos ambientais, tais como o assoreamento do Rio Roosevelt. (...)

Certamente será mais uma Lei que não será cumprida, parece-me que teríamos de começar encarcerando as autoridades do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) que autorizaram este tipo de pesquisa e lavra.

Fonte: BETO & FANY, Beto Ricardo & Fany Ricardo. Povos indígenas no Brasil, 2006/2010– Brasil – São Paulo – Pancrom Indústria Gráfica, 2011.


Os Heróis Anônimos da Comissão Rondon

Os Heróis Anônimos da Comissão Rondon

Hiram Reis e Silva (*), Porto Alegre, RS, 01 de dezembro de 2014.

Ontem como Hoje...

Ainda mais quando a calma revelada pelos náufragos levou-os a atirar para terra as cadernetas de levantamento, para que não se perdessem na corrente e com elas desaparecesse o resultado do trabalho até aí executado. (MAGALHÂES)

Pena que as autoridades tupiniquins não tenham tido a capacidade de aquilatar a relevância de nossa Descida pelo antigo Rio da Dúvida, hoje Rio Roosevelt, desde Rondônia, atravessando o Noroeste do Mato Grosso até o Amazonas, e da homenagem que seus expedicionários se propunham a prestar à memória de Cândido Mariano da Silva Rondon – o Marechal da Paz e à Theodore Roosevelt – o ex-Presidente dos EUA.

Há exatos cem anos estes dois grandes nomes da historiografia universal gravaram, para sempre, seus nomes no “pantheon” dos heróis da humanidade ao realizar a épica descida por um Rio totalmente desconhecido, permeado de diversos Saltos, Cachoeiras e Rápidos, desafiando a turbulência de suas águas e enfrentando as agruras de um ambiente hostil, sem poder contar com qualquer tipo de socorro externo.

Os séculos correm celeremente pela nossa querida e malfadada “Terra Brasilis” e continuamos eternamente, marcando o passo, estagnados moralmente, “in aeternum” citados como “o país do futuro”, um porvir que cada vez parece tornar-se mais e mais longínquo. Um povo que ignora o esforço titânico de seus antepassados, que é incapaz de cultuar seus valores mais caros não conseguirá, jamais, almejar um futuro pródigo para seus filhos. O Hino do Rio Grande do Sul traz na sua bela letra uma insofismável verdade: “Povo que não tem virtude / Acaba por ser escravo”.

O Coronel Amílcar A. Botelho de MAGALHÃES, há mais de setenta anos, já apontava esse equívoco cometido pelas autoridades republicanas em relação ao próprio Rondon:

O lado moral, o lado heroico, o prisma sob o qual pudesse a nação aquilatar das dificuldades vencidas e dos sacrifícios empregados para chegar a essa quilometragem aritmeticamente contada e reduzida a mapas e a esquemas, são faces da questão votadas ao silêncio, ao desprezo e quiçá mesmo ao ridículo dos homens de gabinete, incapazes de aguentar alguns meses de sertão...

Dos vastos e admiráveis relatórios, que andam por cinquenta volumes, apresentados pelo General Rondon ao Governo da República, vede o que transcrevem, sem cor e sem entusiasmo, quase todos os Excelentíssimos Srs. Ministros da Guerra e da Viação e Obras Públicas em seus relatórios anuais. Através dos Relatórios Ministeriais a obra de Rondon é quase uma obra de anão! (MAGALHÃES)

Heróis Anônimos

Da vontade fizeram renúncia como da vida... Seu nome é sacrifício. POR OFÍCIO DESPREZAM A MORTE E O SOFRIMENTO FÍSICO... A gente conhece-os por militares... por definição, o homem da guerra é nobre. E quando ele se põe em marcha, à sua esquerda vai CORAGEM, e à sua direita a disciplina.

(Guilherme Joaquim de Moniz Barreto – Carta a El-Rei de Portugal, 1893).


Evidentemente a modelar conduta de Rondon cooptou o coração e as mentes de seus jovens Oficiais que tão galhardamente seguiram seu exemplo e, algumas vezes, imolaram-se anonimamente a serviço da Pátria. Não atacaram o inimigo nem tomaram de assalto suas instalações – seu foco era a Missão, estendendo linhas telegráficas ou demarcando os sertões de “brasis ainda sem Brasil”; por vezes sacaram de suas armas atirando para o alto – morreriam, e alguns pereceram, se fosse preciso mas não matariam nunca nossos aborígenes; foram arrojados e indômitos – enfrentaram as vicissitudes da selva e de seus habitantes hostis; cumpriram bravamente o que lhes foi determinado sem jamais titubear ou contestar as ordens recebidas.

PARA MIM, ESTE HEROÍSMO É BEM MAIS NOBRE E BEM MAIS DIFÍCIL, DEMANDA MUITO MAIS ENERGIA E TENACIDADE, DO QUE O HEROÍSMO DO MOMENTO, DE DURAÇÃO EFÊMERA, COMO O QUE REQUER O ATAQUE DE UMA TRINCHEIRA INIMIGA: A PRIMEIRA É UMA TEMERIDADE REFLETIDA, A SEGUNDA, UMA TEMERIDADE QUE SE INCENDEIA COMO A PÓLVORA NEGRA, AO CALOR REPENTINO DO ENTUSIASMO CONTAGIOSO DAS MASSAS, QUE ARRASTAM O HOMEM ÀS MAIORES LOUCURAS. LÁ É O COMANDANTE QUE FASCINA A MASSA COM O SEU ENTUSIASMO VIRIL, AQUI A MASSA QUE ELETRIZA O COMANDANTE, ENVOLVENDO-O NA ONDA MAGNÉTICA DOS HURRAS COMUNICATIVOS... (MAGALHÃES, 1942)

Recorreremos a um capítulo do livro “Impressões da Comissão Rondon” do Coronel Amílcar Armando Botelho de Magalhães, para apresentar um destes homens de fibra inquebrantável prestando uma justa homenagem a todos os heróis esquecidos, militares e civis, que tombaram nos “ermos sem fim” dos sertões inóspitos lançando linhas telegráficas ou demarcando nossas fronteiras. O Tenente Lyra foi um desses heróis que nos idos de 1914 acompanhou Rondon na sua épica descida pelo Rio Roosevelt e que morreu afogado, em 1917, no Rio Sepotuba cumprindo seu dever.

UMA PÁGINA DE SAUDADE

Primeiro-Tenente JOÃO SALUSTIANO LYRA

De todos os vultos que desapareceram no decorrer dos trabalhos da Comissão Rondon, o primeiro nesta homenagem que lhes vou prestar, com pungente saudade, não só por justiça, como pelo grau afetivo particular que me ligava a cada um deles, cabe ao distinto companheiro Primeiro-Tenente João Salustiano Lyra, provecto engenheiro-militar tão cedo roubado ao nosso convívio. Vissem-no de perto como eu, robusto e jovial, modesto e sensato; cordial como todo o indivíduo dotado de espírito superior; enérgico nos momentos precisos, sem quixotadas, mas firme, resoluto, inabalável, orientado pela bússola invariável da dignidade e do dever, e certamente lamentariam do fundo da alma que uma juventude tão esperançosa fosse bruscamente suprimida pelo destino!

Da sua capacidade, sempre vitoriosa a cada prova a que fora submetida, de seu brilhante talento, de seu já vasto cabedal científico e prático, de suas elevadas virtudes, não só o Exército como o Brasil, e quiçá a humanidade, teriam colhido extraordinárias vantagens se bem longa houvesse sido a sua trajetória na vida.

Digno êmulo de Rondon nas grandes explorações do sertão, foi ele o único a quem o notável Chefe confiou o serviço da vanguarda, que é afinal, propriamente, toda a exploração, e requer qualidades raras de inteligência, golpe de vista, decisão, tato especial; bastava isto para o recomendar se ele não trouxesse, desde os bancos escolares, a tradição de um merecimento que se destaca do comum de uma geração.

Tomou parte com o General Rondon em quatro Expedições: as três grandes Expedições de reconhecimento e exploração de 1907, 1908 e 1909, de Mato Grosso ao Amazonas, e a Expedição Científica Roosevelt-Rondon em 1913-14. Em todas afrontara perigos e privações inenarráveis; por muitas vezes sentira a iminência de perder a vida!

Quis um destino caprichoso, imprevisto como todos os destinos, que fosse perder a vida num pequeno Rio (Sepotuba, afluente da margem direita do alto Paraguai) aos 03.04.1917, quando dirigia uma turma independente de serviço geográfico, em trabalhos de levantamento da carta de Mato Grosso.

Como a sua vida excepcional, excepcional foi também a sua morte, envolvida no mistério da ausência de testemunhas. Estas apenas assistiram à primeira fase do desastre que o vitimou; como desapareceu, e para sempre, o seu corpo na profundeza das águas, ninguém o sabe...

No cenário apenas quatro protagonistas, dois que pereceram e dois que se salvaram; uma corredeira impetuosa onde as águas borbulham e burburinham, espadanando sobre rochedos; em torno a floresta despovoada, silenciosa e indiferente como toda massa inerte da natureza... Nesse desvão sem glória, a mão do destino apaga facilmente uma existência gloriosa e uma juventude viril também preciosa - Lyra e Botelho.

Tem muita força a fatalidade: como conceber de outra forma que dois grandes nadadores, de fortes músculos, acostumados a esforços mais violentos, fossem vencidos nessa luta?! Ainda mais quando a calma revelada pelos náufragos levou-os a atirar para terra as cadernetas de levantamento, para que não se perdessem na corrente e com elas desaparecesse o resultado do trabalho até aí executado; quando espontaneamente atiram-se na água, na convicção de que tal iniciativa evitaria, como evitou, a submersão da pequena canoa (montaria) em que navegavam! Esta, flutuou realmente, depois de colher em seu bojo boa porção de líquido, e, arrastada pela correnteza só pôde ser atracada à margem 200 metros a jusante, apesar do esforço neste sentido empregado pelo piloto.

Fora lançado na água, ao primeiro desequilíbrio da canoa, o proeiro, que nadou para a margem e nada mais viu, porque tratara apenas de se salvar. O piloto, no último olhar que lançou para a retaguarda, viu ainda os dois oficiais à tona da água; quando saltou em terra e correu margem acima ao local do sinistro, nenhum vestígio mais deles encontrou: haviam desaparecido.

Aos gritos do piloto, na esperança de que os oficiais, arrastados pela velocidade das águas, pudessem ter saído mais abaixo, apenas o eco respondeu... Por terra, trilhando caminhos diferentes, a tropa diariamente vinha à beira do Rio, ao encontro da turma de levantamento, em pontos previamente determinados pelo Chefe da Expedição ‒ Tenente Lyra. E era essa justamente a última etapa a vencer, para amarrar o serviço a Tapirapoan, porto da margem esquerda do Sepotuba (hoje Rio Tenente Lyra) até onde, desde a foz, a Comissão havia já executado o levantamento desse curso de água. A última etapa correspondeu assim o último dia de vida dos dois distintos oficiais.

Os sobreviventes pediram socorro ao pessoal da tropa e todos reunidos porfiaram em encontrar os corpos dos malogrados exploradores. Ao terceiro dia de pesquisas infrutíferas, deram sepultura ao Tenente Eduardo de Abreu Botelho, mas não foram jamais encontrados os restos mortais do Primeiro-Tenente Lyra.

Estava em impressão nesse momento o último trabalho realizado pelo Primeiro-Tenente Lyra, correspondente ao serviço astronômico da Expedição Roosevelt e o Sr. General Rondon, em homenagem ao mérito e aos serviços desse dedicado ajudante, determinou a inclusão de seu último retrato nessa publicação (Publicação n° 52 da Comissão Rondon).

Muito teria eu a dizer se fosse possível estender mais as presentes apreciações sobre a inconfundível personalidade do Tenente Lyra; mas, seria descabido para o caráter deste modesto opúsculo, escrito nas horas vagas, durante as viagens de bonde e de trem, ou enquanto esperava ser despachado nos Ministérios e nas Repartições Públicas, onde me levavam constantemente as funções do cargo que exerço na Comissão (Chefe do Escritório Central).

Fonte: MAGALHÃES, Coronel Amílcar Armando Botelho de. Impressões da Comissão Rondon – Rio De Janeiro – Companhia Editora Nacional, 1942.



Vilhena, RO – Ponte Tenente Marques

Vilhena, RO – Ponte Tenente Marques

Para os garimpeiros que tentam ludibriar os índios (leia-se também empresas e mafiosos atuando por trás), fugindo ou escondendo minérios por resistência à comissão, que varia entre dez e trinta por cento, o perigo é o mesmo. Muitos foram torturados e assassinados sem que se tenha mais notícia. Para os mais audaciosos, que tentam entrar pela mata para garimpar sem prévio “acordo” com os índios, o destino é o cemitério clandestino, em geral, em local de dificílimo acesso e desconhecido de quem não pertence à tribo. (Wilson de Carvalho)

Hiram Reis e Silva (*), Porto Alegre, RS, 27 de novembro de 2014.

Fui recebido no aeroporto de Vilhena, no dia 18.10.2014, sábado, pelo Dr. Marc André Meyers e pelo Sr. Luíz Quijada, esposo da Srª. Maria Ângela Elias, que nos conduziu em sua camionete até o Hotel Colorado onde já estavam hospedados os demais membros da Expedição.

A Srª Ângela tinha sido indicada pelo meu caro amigo e irmão de coração Coronel de Engenharia Carlos Alfredo Maiolino de Mendonça. O então 1° Tenente Maiolino conheceu-a, nos idos de 1978 a 1980, quando servia no 5° BEC e comandava a Residência Especial de Vilhena responsável pela construção de um trecho de 300km da BR-364 entre Pimenta Bueno e Barracão Queimado.

Conheci, no Hotel Colorado o Jeffrey Lehmann, apresentador de TV e produtor do programa “Weekend Explorer”. O Jeffrey e o Coronel Inf R/1 Ivan Carlos Gindri Angonese seriam os responsáveis por conduzir a canoa desmontável que o Dr. Marc trouxera dos EUA e transportar nela grande parte da bagagem de rancho enquanto eu e o Dr. Marc pilotaríamos os caíques oceânicos (Cabo Horn) da Opium Fiberglass que ostentavam as cores da bandeira brasileira.

20.10.2014 – Entrevista na SEMTIC

O Dr. Marc já havia agendado com a Srtª Rita Marta Correia, Chefe do cerimonial da Prefeitura de Vilhena, uma entrevista à imprensa que repercutiu favoravelmente nossa empreitada.

CEM ANOS DEPOIS, EXPEDIÇÃO IRÁ REFAZER O TRAJETO DE RONDON E ROOSEVELT (20.10.2014)

Um grupo de quatro pessoas pretende refazer pelo Rio Roosevelt o trecho percorrido em 1914 pelo Marechal Cândido Rondon e pelo então ex-presidente dos Estados Unidos, Theodore Roosevelt, viajaram de canoa cerca de 700 km pelas águas. Na época, o rio que hoje leva o nome do líder americano ainda era desconhecido. (folhadosulonline.com.br)

PESQUISADORES REALIZARÃO EXPEDIÇÃO EM HOMENAGEM AOS 100 ANOS DA EXPEDIÇÃO ROOSEVELT – RONDON (20.10.2014)

Logo após a expedição, será produzido um documentário contando as experiências vividas pelos ousados pesquisadores. A coletiva de imprensa aconteceu na manhã desta segunda-feira, 20, na Secretaria Municipal de Turismo, Indústria e Comércio (SEMTIC), localizado no Centro da cidade de Vilhena. (Jesica Labajos)

CENTENÁRIO: AVENTUREIROS VÃO REFAZER EXPEDIÇÃO RONDON-ROOSEVELT (20.10.2014)

O percurso será feito em 21 dias, 38 há menos que Roosevelt. Durante 21 dias, os aventureiros brasileiros Marc André Meyers, Hiram Reis e Silva, Ivan Carlos Gingri Angonese e o norte-americano Jeffrey Lehmann vão percorrer de caiaque o Rio Roosevelt que tem sua nascente em Rondônia até o ponto onde deságua no Rio Aripuanã, no Amazonas. (Vilhetaço)

EXPEDIÇÃO AO RIO ROOSEVELT PARTE NESTA TERÇA-FEIRA (21.10.2014)

Teve início nesta terça-feira a expedição do grupo de cientistas e pesquisadores americanos e brasileiros que irá percorrer os mais de 700 quilômetros do Rio Roosevelt, tendo como ponto de partida a Fazenda Baliza, localizada entre os municípios de Pimenta Bueno e Cacoal. (SEMCOM – rondoniadigital.com)

COM APOIO DA PREFEITURA, EXPEDIÇÃO AO RIO ROOSEVELT PARTE NESTA TERÇA-FEIRA (21.10.2014)

Teve início nesta terça-feira a expedição do grupo de cientistas e pesquisadores americanos e brasileiros que irá percorrer os mais de 700 quilômetros do Rio Roosevelt, tendo como ponto de partida a Fazenda Baliza, localizada entre os municípios de Pimenta Bueno e Cacoal. (SEMCOM – rondoniaempauta.com.br)

PESQUISADORES VÃO PERCORRER ROTEIRO DA EXPEDIÇÃO ROOSEVELT-RONDON (21.10.2014)

Quatro pesquisadores vão realizar, a partir desta terça-feira, 21, uma expedição em homenagem aos 100 anos da Expedição Científica Roosevelt-Rondon realizada pelo ex-presidente dos Estados Unidos, Theodore Roosevelt, comandada pelo Marechal Cândido Rondon, em 1914. (www.onortao.com.br)

PESQUISADORES VÃO PERCORRER ROTEIRO DA EXPEDIÇÃO ROOSEVELT-RONDON (21.10.2014)

Quatro pesquisadores vão realizar, a partir desta terça-feira, 21, uma Expedição em homenagem aos 100 anos da Expedição Científica Roosevelt-Rondon realizada pelo ex-presidente dos Estados Unidos, Theodore Roosevelt e comandada pelo Marechal Cândido Rondon, em 1914. (www.rondoniagora.com)

PESQUISADORES REFAZEM TRAJETO FEITO POR ROOSEVELT E RONDON HÁ 100 ANOS (25.10.2014)

Expedição iniciou na terça, 21, na nascente do Roosevelt, em Vilhena, RO. Objetivo é ver o que mudou na região amazônica em dez décadas. (Jonatas Boni e Lauane Sena – g1.globo.com)

PESQUISADORES REFAZEM TRAJETO FEITO POR ROOSEVELT E RONDON HÁ 100 ANOS (25.10.2014)

Em homenagem aos 100 anos da Expedição Científica Roosevelt – Rondon, quatro pesquisadores estão realizando o mesmo percurso aquático onde no ano de 1914 passaram o ex-presidente americano Theodore Roosevelt e o militar Marechal Cândido Rondon. Os dois percorreram a Amazônia na época para poder desbravar terras, lançar linhas telegráficas e mapear a região. (rondoniamanchete.com.br – Fonte G1)

Fomos recebidos pelo Secretário Estadual do Turismo, Indústria e Comércio (SEMTIC), Dari Alves de Oliveira, que nos apresentou o projeto do “Parque Recreativo Municipal” antes denominado “Parque Rondon”. O projeto prevê uma pista de caminhada, “play ground”, academia de ginástica, área verde para lazer, banheiros, lanchonetes, etc. O Parque será dotado de um lago de aproximadamente 4.000m² abastecido por poço artesiano. Após a entrevista com a mídia local fomos visitar o antigo Posto Telegráfico Álvaro Vilhena que é agora conhecido como a Casa de Rondon. A área está tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e é patrimônio do Ministério da Defesa.

Álvaro Coutinho de Melo Vilhena: os Campos Gerais ou Chapadão dos Parecis passaram a ser conhecidos como Vilhena, a partir de 1910, após a Comissão chefiada pelo então Tenente-Coronel Cândido Mariano da Silva Rondon, ter construído na região um Posto Telegráfico, que fazia parte da linha Cuiabá-Santo Antônio do Alto Madeira. A linha que ligaria Cuiabá a Porto Velho permitiria a construção de milhares de quilômetros de cabos telegráficos, fazendo surgir Vilas em torno dos Postos. Rondon batizou a estação telegráfica, com o nome de Álvaro Vilhena em homenagem ao engenheiro maranhense Álvaro Coutinho de Melo Vilhena, que nos idos de 1890, fora designado Engenheiro Chefe da Organização da Carta Telegráfica da República e, em 1900, Diretor Geral dos Telégrafos. A estação telegráfica foi transferida em 12.10.1910, para novas instalações, na casa atualmente conhecida por “Casa de Rondon”. (Hiram Reis)

21.10.2014 – Rumo à Fazenda Baliza (Acampamento 01 – AC01)

Partimos depois das 08h00 para a Fazenda Baliza e meia hora depois de partirmos a camionete locada pelo Dr. Marc começou a apresentar problemas mecânicos. O reboque carregado com a canoa, os dois caiaques e toda a bagagem foi atrelado, então, à camionete de Guilherme e Dariano que felizmente acompanhavam-nos e sem o apoio dos quais teríamos, fatalmente, de adiar nossa partida. Paramos em um posto de combustível e o 3° Sgt BM Douglas Matias da Silva Ferreira sanou o problema da camionete do Naif. O Dr. Marc fez questão de passar pela casa do Sr. Grilo embora este pouco tenha acrescentado ao que já sabíamos. O Grilo afirmou, porém, que existiam à montante do local onde acamparíamos vestígios de uma Ponte de madeira que poderia ser a construída, em 1909, pela Comissão Construtora de Linhas Telegráficas do Mato Grosso ao Amazonas comandada por Rondon.

Descarregamos as embarcações e a carga e, enquanto meus parceiros montavam o Acampamento 01 (AC01 – 12°01’41,47”S / 60°22’40,51”O), naveguei Rio acima na tentativa de achar a tal ponte e, depois de remar 06km até a Latitude de 12°04’, não avistei qualquer sinal da Ponte de Rondon. A largura do Rio, naquela Latitude variava de 08 a 10m, os barrancos eram baixos e não eram compatíveis com a construção de uma ponte de 20m de extensão.

Considerando que cada minuto da Latitude corresponde aproximadamente a 1.800m tenho certeza de que a Comissão chefiada por Rondon não cometeria um erro de tal magnitude. A Comissão estabelecera para sua partida a Latitude Sul de 12°01’, portanto à jusante do AC01 e eu reconhecera o curso d’água até três minutos acima, aproximadamente, 5.400m na direção geral Norte.

Historicamente os erros de locação jamais chegaram à casa dos minutos. A título de exemplo cito a Latitude encontrada pela Expedição original para a Confluência do Rio Roosevelt com o Rio Capitão Cardoso que foi de 10°59’00,3”S e que nós estabelecemos como sendo 10°59’20,8”S, um erro de pouco mais de 20” perfeitamente aceitável para os rudimentares equipamentos de que dispunha a Comissão.

Na minha solitária investigação avistei inúmeras árvores caídas que agora na estiagem obstaculizavam a progressão exigindo do argonauta muita atenção e habilidade. A Expedição original descera na cheia o que facilitou sobremaneira a passagem pela parte mais estreita do Rio, como relatou Rondon:

Era tão grande a enchente, que a correnteza molhava a parte inferior do tabuleiro da ponte aí existente. Isso tinha a vantagem de imergir os obstáculos, inclusive árvores caídas. Na estiagem estariam, certamente, à tona. (VIVEIROS)

22.10.2014 – Fazenda Baliza (AC01) – AC02

Partimos da Fazenda Baliza-AC01 depois das 08h00, muitas árvores caídas, dificultavam a navegação e tive de socorrer o Dr. Marc que, apesar de sofrer dois naufrágios, manteve, em cada oportunidade, uma notável tranquilidade para um neófito canoeiro. O Coronel Angonese e o Jeffrey (a quem chamaremos, doravante, de camaradas) enfrentaram com galhardia as barreiras formadas pelos troncos manejando com certa dificuldade a frágil e carregada canoa. As buritiranas (Mauritiella aculeata) que Roosevelt observara na sua saga há cem anos ali estavam representadas por suas descendentes com seus troncos, cobertos de espinhos, graciosamente curvados sobre as águas e que ele erroneamente chamara de “boritana”.

O debrum (a orla) de árvores curvadas ou caídas era constituído das espinhosas palmeiras “boritana”, de hastes delgadas e que gostam da água, muitas vezes ainda viçosas e em pleno vigor, embora mergulhadas no Rio com estípites encurvados para cima e as frondes agitadas pela rápida correnteza. (ROOSEVELT)

A navegabilidade melhorou sensivelmente depois da confluência com o Rio Festa da Bandeira, as águas estavam mais serenas e a largura do Rio não permitia que as árvores tombadas bloqueassem-no em toda amplitude. A progressão tornou-se mais fácil, mas não mais veloz já que a vazão permanecia praticamente a mesma. O acréscimo do fluxo das águas do afluente era neutralizado pela maior largura do Rio. Diferente da Expedição original observamos, desde a partida, urubus planando sobre o verde dossel que nos circundava. Cherrie avistou-os somente no dia 28.03.1914, o 30° dia deles no Rio da Dúvida nas proximidades da Foz do Rio Cherrie:

Avistei dois ou três urubus voando alto sobre floresta. Como eles não são aves de ambiente florestal acho que podemos estar nos aproximando de uma região mais aberta, possivelmente um Chapadão. Atualmente estamos cortando nosso caminho através de uma Cadeia de montanhas. (CHERRIE)

A mudança geográfica destes catartídeos ocorreu, logicamente, em função das áreas desmatadas a cavaleiro do Rio Roosevelt destinadas à criação de gado ou ao desmatamento desenfreado que grassa na Terra Indígena (TI) dos Cinta-larga.

A partir da Latitude Sul 11°55’20” encontramos alguns “furos”, “arrombados” e “sacados”. Aportamos em uma praia nas proximidades de um arrombado para analisá-lo onde colhi excrementos de capivara para serem lançados ao fogo com o intuito de espantar mosquitos. Comprovei, à noite, que, diferente dos dejetos bovinos, as fezes de capivara não repeliam absolutamente os insetos.

Furos: são canais que unem trechos sinuosos do mesmo Rio encurtando distâncias. (Hiram Reis)

Arrombados: são uma evolução dos furos que com o passar dos anos acabam se transformando no novo leito do Rio. (Hiram Reis)

Sacados: são lagos, geralmente em forma de ferradura, formados depois do “furo” se transformar em “arrombado” e consequente assoreamento das bocas de montante e jusante do antigo leito do Rio. (Hiram Reis)

Avistamos, à tarde, depois de haver percorrido 24,5km, uma praia de areias muito alvas (AC02 – 11°54’44,45”S / 60°22’27,95”O), à margem esquerda, onde resolvemos montar acampamento. As diversas pegadas e dejetos revelavam que o local era frequentado por um bando de capivaras. Enquanto o Coronel Angonese providenciava o fogo e o Dr. Marc e Jeffrey buscavam lenha fui cortar uns esteios para fixar a lona sobre o fogo. O Coronel Angonese conseguiu convencer nossos parceiros que o item mais importante em um acampamento era o fogo e que era preciso providenciar, de imediato, uma proteção para ele em caso de chuva. Além dos esteios encontrei, por acaso, uma quantidade considerável de uma espécie muito valorizada na Amazônia chamada Breu-branco (Protium heptaphyllum) e de uma delas colhi abundante resina que seria usada pelo Coronel Angonese, durante toda a nossa jornada como mais um elemento inicializador do fogo. Imediatamente veio-me à mente uma passagem do livro “Voyage au Cuminá” da Madame Marie Octavie Coudreau:

Vou com Guilhermo e dois marinheiros procurar breu e tivemos a sorte de encontrar imediatamente muito mais do que precisávamos. As árvores da cera (breu) vivem aqui em família, conto 10 pés no meu entorno e Guilhermo me disse que se fôssemos mais para dentro da mata iríamos encontrar mais. Enchi dois baldes, o suficiente para calafetar nossa brava canoa. A “Joaninha” fica perfumada com o cheiro doce e agradável desta cera vegetal. (COUDREAU)

Breu-branco (Protium heptaphyllum): o breu-branco produz uma resina depois de ser estimulado pela larva de um inseto da família Curculionidae, que deposita suas larvas sob a casca da árvore e ali permanecem até a idade adulta. No início a resina tem cor branca e brilhante e com o passar do tempo solidifica-se, assumindo uma cor esbranquiçada e cinzenta, ou cinza-esverdeada, quebradiça e inflamável. A resina é coletada manualmente e sua cor, consistência e aroma variam muito de acordo com a espécie. A resina é utilizada na medicina e na fabricação de cosméticos e perfumes:

Calafetagem: faz-se pequenos cortes (sangria) na casca da árvore de onde brota um líquido que depois de seco se transforma numa massa flexível de cor branco-amarelada. Essa massa é empregada na calafetagem de embarcações depois de aquecida e misturada com azeite ou sebo.

Cosméticos: é empregada na fabricação de produtos de higiene, cosméticos e perfumes.

Essência: das folhas desta são empregadas na fabricação de pós aromáticos e saches.

Insetífugo: a resina é usada como repelente de insetos.

Medicinal: estudos recentes com o óleo da resina comprovaram sua eficácia terapêutica, demonstrando atividades anti-inflamatória, anticonceptiva e antineoplásica.

Antineoplásica: medicamentos utilizado para destruir células malignas evitando ou inibindo o crescimento e a disseminação de tumores.

A resina possui potente atividade analgésica. A casca é utilizada no tratamento de úlceras gangrenosas e em banhos para acalmar a dor de cabeça. Do caule prepara-se um xarope para o tratamento de tosses, bronquites e coqueluches. As folhas são, também, empregadas contra as úlceras gangrenosas e inflamações em geral.

23.10.2014 – AC02 – AC03 (Montante do Salto Navaité)

A alvorada, novamente, foi pelas 05h00 e, enquanto o Dr. Marc encarregava-se de avivar o fogo para o café da manhã, os outros membros da Expedição desmontavam o acampamento e carregavam as embarcações. Nas minhas amazônicas jornadas, eu seguia uma rígida e espartana rotina, deixando para trás as comodidades da civilização e partindo sempre antes do alvorecer e em jejum. Tive, porém, muito a contragosto, de me adaptar à ritualística rotina americana de tomar desjejum, conversar preguiçosamente em volta do fogo e partir somente por volta das 08h00. Minha conduta prussiana sucumbia à maneira americana. Este conforto cobrava, porém, um alto tributo aos expedicionários que forçosamente teriam de enfrentar o causticante Sol da tarde, os ventos que aumentam de intensidade com o passar das horas e as chuvas que predominantemente surgem no período da tarde. O resultado desse imbróglio todo é que nossa média horária não ultrapassava os risíveis 05km/h.

O dia transcorria sem maiores alterações até que avistamos, depois de navegar uns 06km, o tabuleiro de uma rústica ponte de madeira (11°52’59,3”S / 60°22’50,3”O) que atravessava o Rio, de margem a margem, em direção à TI dos Cinta-larga. No acampamento encontramos apenas a cozinheira, a gaúcha Dona Fátima, moradora de Espigão do Oeste, e natural de Tenente Portela, RS, que deu de presente ao Coronel Angonese latas de sardinha e minhocas.

À medida que avançávamos, o curso do Rio alternava-se de trechos extremamente sinuosos para amplos estirões e curvas mais alongadas aqui e acolá e, no final da jornada, alguns rápidos que transpúnhamos sem maiores problemas.

À tarde, depois de uma série de rápidos, que aumentaram sensivelmente a velocidade de deslocamento, começamos a ouvir o som tonitruante do Salto Navaité. Tínhamos percorrido 37km, resolvi picar a voga, deixando o Dr. Marc para trás, e ultrapassei a canoa pilotada pelos nossos camaradas antes que eles se aproximassem demais da perigosa série de corredeiras, cachoeiras e saltos. Passei por eles, pedi que aportassem e aguardassem. Desembarquei logo à frente e fui verificar se era ou não aconselhável continuar a navegação.

Voltei e informei aos camaradas e ao Dr. Marc que precisávamos desembarcar e reconhecer até aonde teríamos de transportar, por terra, as embarcações e a carga. Verificamos que teríamos transportar todo o material por mais de 800m e o Coronel Angonese foi tentar conseguir algum tipo de apoio na vizinhança realizando uma extenuante marcha enquanto retirávamos as embarcações d’água e montávamos o acampamento (AC03 - 11°47’05,45”S / 60°27’31,29”O) na margem direita à montante do Salto Navaité. Ao retornar, bastante cansado, o Coronel Angonese relatou-nos que a única fazenda na redondeza estava localizada na margem oposta, decidimos, então, realizar o transporte na manhã seguinte e acampar à jusante do Salto Navaité.

24.10.2014 – AC03 – AC04 (Jusante do Salto Navaité)

Iniciamos logo cedo o extenuante transporte de todo o material para o acampamento à jusante do Salto Navaité. Existia uma trilha relativamente recente que facilitou o transporte das embarcações, utilizando um carrinho que o Dr. Marc trouxera dos EUA para esta finalidade. Como o trajeto era muito longo, resolvi realizar o transporte em três etapas, assim recuperava o fôlego após cada carregamento retornando sem carga até a etapa anterior até chegar, por fim, ao local do acampamento.

Levamos a manhã inteira para transpor o acampamento de montante para jusante. Depois do almoço, passamos a tarde reconhecendo e fotografando o complexo de Navaité. O maior estreito ou angustura como diriam os antigos de todo o Rio Roosevelt. O Rio cuja largura, à montante, variava de 20 a 30m passava agora por uma estreita fenda de menos de 02m de largura e como sua vazão permanece praticamente idêntica à de montante isso indica que sua seção transversal é provavelmente a mesma, isso quer dizer que a profundidade neste local é muito grande, em torno de 15 a 20 metros.

Observando os grandes lajedos de arenito e conglomerados friáveis eu identificava alguns deles onde Rondon, Roosevelt e Cherrie tinham sido fotografados. A beleza agreste daquelas formações, o medonho fragor do caudal confinado, de repente, em uma angustura tão incomum e as águas tumultuárias e refulgentes emocionavam-me. Engarupado na anca da história eu via ou sentia a presença daqueles personagens que a cem anos atrás palmilharam aqueles sítios gravando indelevelmente sua passagem em cada um deles.

25.10.2014 – AC04 (Jusante do Salto Navaité) – Ponte Tenente Marques

Parti alguns minutos antes dos demais com o intuito de visitar a fazenda que aparecia nitidamente à margem esquerda do Rio. Seu gerente era um mineiro sisudo que morava sozinho naqueles ermos dos sem fim.

O Rio apresentava agora um traçado bastante suave, pleno de estirões e enormes curvas. Estávamos próximos à ponte que dá acesso à Aldeia Tenente Marques comandada pelo João “Brabo” quando aproximou-se numa voadeira o Sgt Douglas e um nativo. Cumprimentamos efusivamente o amigo, mas estranhamos o fato dele estar tão próximo à primeira ponte (km 100) e não na ponte do Km 124. O Douglas lá estava quando foi informado que o João “Brabo” ia impedir-nos de prosseguir a partir da 1° ponte. Mais adiante passou velozmente uma lancha com meia dúzia de índios armados e carrancudos, tive um mau pressentimento.

João Brabo: alguns repórteres resolveram chamá-lo de “Bravo” mesmo que na porteira de acesso à sua aldeia esteja escrito em letras garrafais ‒ João Brabo. Ora o dicionário Michaelis diz que Bravo: é quem não teme o perigo; denodado, intrépido, valente e Brabo: nocivo, prejudicial, irado, brigador. Ora não consta que esse malfadado João tenha se destacado por qualquer ato de bravura na sua famigerada existência, portanto á Brabo mesmo. (Hiram Reis)

Aportamos na margem esquerda, à montante da ponte (11°38’32,52”S / 60°27’13,79”O), fora da Terra Indígena onde fomos informados pelo Sgt BM Douglas e o Cabo BM Hiuri Marcel de Sousa Lopes que não poderíamos continuar a partir daquele ponto. Logo depois do Sgt BM Douglas ter explicado a situação comecei a descarregar o caiaque colocando as tralhas no reboque da camionete dos bombeiros enquanto meus parceiros ainda imaginnavam que poderiam convencer o tal João “Brabo” de nos deixar passar. Eu conhecia os antecedentes do fanfarrão e sabia que ele não voltaria atrás.

De repente surge o tal João vestindo apenas um calção e um cocar, na Ponte, seguido de dois de seus asseclas e diversos adolescentes e crianças, entoando suas canções tribais. O Sgt BM Douglas nos informara que quando adentrou na Aldeia dos Cinta-larga o João e demais lideranças estavam participando, devidamente paramentados com roupas de grife e tudo mais, de uma reunião.

Tão logo ele se aproximou de nós começou a falar, intercalando em voz alta o português com sua língua nativa dizendo que estávamos invadindo sua Terra. A pantomima durou alguns minutos e o líder tribal parecia estar muito irritado com a nossa presença. Chegou a cogitar de que poderia nos manter como reféns na Aldeia até que lhe fosse assegurada a construção de uma nova ponte sobre o Roosevelt.

Podíamos perceber, nitidamente, que ao usar de palavras mais chulas e ameaças mais violentas ele optava pela língua nativa permitindo que seus seguidores admirassem sua “bravura”. Depois de encerrar sua peça teatral ele foi amainando a linguagem e permitiu que fotografássemos a ele e as crianças Cinta-largas. Terminamos o carregamento, embarcamos na viatura do corpo de bombeiros e nos deslocamos para Vilhena onde teríamos de refazer nosso planejamento descobrindo um novo ponto de partida à jusante do Rio Cardoso já no Estado do Mato Grosso.

Deixávamos para trás, portanto, o trecho mais preocupante de toda a jornada e onde a Expedição original mais penou. Tínhamos percorrido apenas 100km do Rio Roosevelt.