MAPA

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sábado, 8 de janeiro de 2011

Desafiando o Rio-mar – Tropa de Elite



Desafiando o Rio-mar – Tropa de Elite

- Tripulação do Piquiatuba

Graças ao Coronel de Engenharia Aguinaldo da Silva Ribeiro, meu ex-cadete e parceiro de trabalho no 9º Batalhão de Engenharia de Combate sediado em Aquidauana, MS, atual comandante do 8º Batalhão de Engenharia de Construção, Santarém, Pará, estou desfrutando do apoio da zelosa tripulação do B/M Piquiatuba, formada pelos soldados Mário Elder Guimarães Marinho (Comandante do B/M), Walter Vieira Lopes (Sub-comandante do B/M), Edielson Rebelo Figueiredo (Chefe da Casa de Máquinas) e Marçal Washington Barbosa Santos (cozinheiro) nosso bom Gourmet. Para quem, como eu, já desceu o Rio Solimões de caiaque, sem qualquer tipo de apoio, é fácil perceber a importância desses verdadeiros guardiões que não me perdem de vista um segundo sequer. Graças a um equipamento de rádio doado ao projeto pelo meu amigo Wanrley dos Anjos Perazzo o contato verbal tem sido feito sem a necessidade de aportar ou de me aproximar da embarcação de apoio. A par da competência de cada um dos tripulantes, cabe ressaltar o respeito e o carinho deles para comigo e acredito, piamente, que mais que uma missão de apoio eles assumiram o papel de meus verdadeiros anjos da guarda.

- Emoção Sexagenária

O Comandante do Batalhão da Polícia Militar de Parintins, Major Túlio Sávio Pinto Freitas veio me visitar a bordo e colocar-se à disposição. O Túlio é uma criatura comunicativa, cujo sotaque e o comportamento lembram um típico gaúcho. Graças a ele conseguimos, gratuitamente, nos acomodar no Hotel Avenida, na Avenida Amazonas, de propriedade do senhor Mário Flávio Andrade de Souza. Depois de percorrermos a cidade de chimarrão em punho o Túlio foi à missa e eu fui buscar os apetrechos necessários no Piquiatuba para o pernoite no Hotel. A equipe de apoio tinha preparado uma comemoração ao meu natalício, recebi de presente o belo livreto “Entoada” que traz no seu bojo as letras e as músicas deste mago da poesia chamado Tadeu Garcia. Eu já estava bastante emocionado e tentava voltar, imediatamente, para meu refúgio emocional, mas o pessoal de bordo me preparou mais uma peça e quando desci para o convés inferior a mesa de aniversário estava posta com velinhas e tudo. Depois dos parabéns uma surpresa que absolutamente não esperava, a tripulação me presenteou com uma miniatura personalizada do Piquiatuba. Guardarei com muito carinho esta recordação que representa não apenas mais uma Fase do Projeto Rio-mar, mas, sobretudo, materializa a conduta irrepreensível desta “Tropa de Elite” do 8º Batalhão de Engenharia de Construção.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Desafiando o Rio-mar – Itacoatiara/Parintins

Desafiando o Rio-mar – Itacoatiara/Parintins

 
“Ê, vem brincar no meu boi bumbá
Ê, essa dança não pode parar
Ê, vem pro boi mais querido
Querem saber o seu nome eu digo
É meu boi Garantido “
 (Boi Mais Querido - Boi Garantido)

- Partida para o Paraná do Panumã (02 de janeiro de 2011)

Tive de retardar, em um dia, minha saída de Itacoatiara em virtude da forte gripe. O antibiótico começava a fazer efeito, mas eu ainda estava muito abatido para enfrentar o Rio-mar. Na véspera da partida acertei as contas do Hotel Rio Amazonas e dormi a bordo do B/M Piquiatuba, felizmente a chuva torrencial que caiu a noite toda e só parou por volta da 3h30, afastou os ruidosos e mal educados populares que infestam a região portuária. Consegui dormir relativamente bem, mas, ainda, preocupado com a possibilidade de a influenza afetar meu desempenho. Parti por volta das 5h depois de engolir uma mistura energética preparada pelo Coronel Teixeira. Como estava muito escuro fui margeando a orla da cidade me guiando pelas luzes dos barcos.

Havia decidido, seguindo a orientação do Comandante Mário, percorrer o Paraná do Serpa, ao Norte da ilha do Risco, visando encurtar o trajeto e procurando compensar o dia de atraso de minha partida. No planejamento anterior eu iria passar ao sul da Ilha e pernoitar em Barreiras Vermelhas. A navegação transcorreu sem alteração até o sol surgir no horizonte, navegar à noite é sempre uma experiência singular desde que o céu esteja limpo e estrelado, o que não era o caso. Tinha estacionado para me hidratar, sem aportar, na altura da Ilha do Pai Tomaz quando dois movimentos fortes sob as águas a bombordo e a boreste me assustaram, mais uma vez um boto vermelho amigo viera me saudar. Segundo a equipe de apoio, a bordo do Piquiatuba, ele viera me seguindo desde que eu entrara no Paraná, mais adiante senti, novamente, um forte movimento sob as águas do silente amigo. Desde que iniciei minhas descidas pelos amazônicos caudais os golfinhos de rio, botos tucuxis e botos vermelhos, proporcionaram-me momentos mágicos e alguns amigos resolveram me apelidar de “Encantador de Botos”.

Passei ao sul da ilha do Mutum na saída do Paraná e apontei a proa diretamente para a ponta de montante da Ilha Panumã. Uma nuvem carregada, ao sul da Ilha, logo se transformou em chuva que conseguimos habilmente contornar, aportei num grande areal e avisei a equipe de apoio que desembarcasse para esticar as pernas. Depois da revigorante parada contornamos a Ilha para procurar um local que permitisse a atracagem do B/M Piquiatuba no Paraná Panumã. Depois de estacionados e cumpridos os procedimentos de praxe tivemos como prato principal os peixes pescados durante o trajeto. A fartura da pesca nos fez optar por consumir o pescado diariamente em ambas as refeições. À noite a companheira do Teixeira, a Juliana, que é enfermeira, me proporcionou uma saudável e relaxante massagem descobrindo e eliminando, nas minhas costas, inúmeros pontos de contratura.

- Partida para a Ponta Grossa (03 de janeiro de 2011)

Alvorada às 4h45, tomei o energético preparado pelo Teixeira e às 5h estava remando mais uma vez. Logo na partida um soturno coral de guaribas anunciava o alvorecer e um cortejo de mais de 15 alegres botos tucuxis me acompanhou por mais de 40 minutos. Um casal com dois pequenos filhotes evoluía bem próximo ao caiaque e as pequenas crias saltavam tirando todo o corpo da água. Fiz uma única parada nas proximidades da Ponta da Ressaca e ao voltar para a água apontei para uma grande antena localizada na cidade de Urucurituba. Navegando no talvegue cheguei aos 14 km/h, mas nas proximidades de Urucurituba tivemos de desviar para a margem esquerda aguardando a passagem de um grande navio de carga. A chuva chegou fria e inclemente acompanhada de um forte vento de proa travando meu deslocamento e exigindo mais força para vencer as ondas que se formavam. Chegamos por volta das 11h30, depois de remar 62 km, e a chuva que nos acompanhou desde Urucurituba parou imediatamente.

Os ribeirinhos souberam que tínhamos uma enfermeira a bordo, a amiga Ana, e o líder da comunidade senhor Sebastião a procurou com um ferimento no membro inferior provocado por uma pirara apresentando dor e edema no local do ferimento. Depois do ferimento limpo e medicado e orientado a respeito dos procedimentos a serem adotados o líder nos contagiou com seus relatos. Sebastião é originário de Urucará e veio para Ponta Grossa (Ponta dos Mundurucus) há trinta anos, a passeio e aqui reside desde então. A Comunidade possui uma igreja em homenagem a Nossa Senhora da Boa Saúde, cuja festa é realizada em 16 de fevereiro depois da novena em louvor à Santa. Os atendimentos médicos são realizados em Uricará, a 4 horas de barco, e a imunização é feita pelos agentes de saúde. Segundo Sebastião, o agente de saúde residente elabora relatórios falsos sobre os programas de saúde comunitários. Sebastião divide seu dia a dia entre o entreposto de combustível e as plantações, onde cultiva milho, macaxeira, coco, banana, graviola e vende o cacau e cupuaçu “in natura”. A localidade fica sudoeste da Ilha das Garças que pertence à marinha que ele usa para a criação de gado. Dono de uma comunicação fácil ele contou o caso de um jacaré-açu de aproximadamente três metros que bateu no casco de sua embarcação fazendo-o perder todos os peixes, ele conseguiu jogar os dois netos Leandro e Leanderson, que o acompanhavam, na margem e os jovens rapidamente procuraram abrigo numa árvore infestada de formigas taxi, pequenas formigas de cor vermelha, que os atacaram impiedosamente, onde aguardaram até que o jacaré fosse morto.

Vale a pena ressaltar que, contrariando todas as expectativas, as comunicações através da Vivo estão se processando normalmente desde que saímos de Itacoatiara permitindo, inclusive, acessar a internet dos lugares mais ermos.

- Partida para o Paraná do Mocambo (04 de janeiro de 2011)

Alvorada às 4h30, tomei o energético e parti para minha jornada. Um formidável coral de guaribas fazia sua apresentação na Costa do Giba, em frente à ilha das graças. Curiosamente, assim que comuniquei ao Comandante Mário para que desligasse os motores do Piquiatuba e escutasse a sinfonia os macacos cantantes, interromperam de imediato sua soturna apresentação. Parei para descansar na foz do Furo Comprido e fiquei admirando a evolução dos botos vermelhos e tucuxis que atacavam os enormes cardumes de sardinhas de rio. A água parecia ferver e as sardinhas saltavam apavoradas tentando escapar dos vorazes predadores. Prosseguindo minha jornada me deparei com as enormes e belas Barreiras do Carauaçu (erosões) a Nordeste do meu deslocamento e pedi que o pessoal de bordo as fotografasse antes que entrássemos no Furo do Albano. As Barreiras multicoloridas variavam dos 70 a 120 metros de altura e emprestavam um novo e extraordinário visual ao itinerário. No furo fizemos mais uma parada num grande areal e mostrei minha futura rota que seriam as Barreiras Vermelhas. Logo depois de sair do Furo fui acompanhado, brevemente, por um enorme boto vermelho. Fiz mais uma parada à sombra de uma enorme árvore e chamei, novamente, o pessoal de apoio para esticar as pernas e fotografar o belo local. Depois do breve descanso rumei diretamente para o Paraná do Mocambo (Arari) onde acampamos num remanso entre um banco de areia e a margem esquerda. A brisa fresca, as areias, davam um toque especial à nossa parada. A noite foi acompanhada por insistentes bufares de botos vermelhos e focos de holofotes já que estávamos no alinhamento da rota das balsas que subiam o Rio Amazonas.

- Partida para Parintins (05 de janeiro de 2011)

Depois da alvorada e do energético parti para minha derradeira jornada antes de Parintins. Tinha programado passar meu aniversário na Ilha da Fantasia (Parintins). Os fortes ventos os banzeiros me acompanharam durante todo o trajeto e se intensificaram a medida que nos aproximávamos de Parintins. Na chegada contatamos o Subtenente de Engenharia Otávio, que fiscaliza a obra de recuperação do Porto de Parintins. O Exército Brasileiro interditou o Porto tendo em vista o mesmo apresentar problemas estruturais, ficar submerso nos períodos de cheia. O Porto de Parintins foi construído pelo Ministério dos Transportes e inaugurado em abril de 2006. O General Lauro Luis Pires da Silva, comandante do 2º Grupamento de Engenharia justificou a necessidade da interrupção das operações no Porto até a conclusão dos trabalhos em carta dirigida ao prefeito Bi Garcia. Há tarde fizemos um “tour” pela cidade, proporcionado pelo ST Otávio.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

TRAJETO: ITACOATIARA - PARANÁ PANUMÃ

Desafiando o Rio-mar – Itacoatiara


Desafiando o Rio-mar – Itacoatiara
(Abacaxis – Serpa)

“(...) chorou o último a aleivosia daqueles Tupuias no fatal incêndio de trezentas Aldeias, depois da Mortandade de setecentos homens dos mais valorosos da suas nações, e o cativeiro de quatrocentos (...)”.
(Bernardo Pereira Berredo)

Do dia 27 de dezembro a 1º de janeiro, permanecemos em Itacoatiara; neste intervalo subimos o Rio na voadeira do 2º GptE até as proximidades da Ilha Benta, tentando acessar o Rio Urubu pela sua foz, mas, em virtude da seca, não foi possível. O Urubu trazia-me à lembrança o massacre que se sucedeu à missão de “resgate”, comandada pelo Sargento-Mor Antônio Arnau Vilela, em 1665, relatado pela pena magistral de Berredo. Em virtude da gripe forte e do movimento intenso do barulhento porto durante toda a noite, não consegui dormir e fui forçado a procurar um pequeno hotel nas proximidades para poder pernoitar e descansar. No dia 28 de manhã, recebi, no Hotel Rio Amazonas, a visita do Tenente João Batista dos Santos Pinheiro.Tratamos de temas relativos à Amazônia e ganhei dele um CD com uma palestra sua sobre a cidade de Itacoatiara. O Coronel Teixeira e companhia chegaram por volta do meio-dia. Depois de almoçarmos a bordo, recebemos a visita do senhor José Holanda que, gentilmente, convidou-nos para conhecer sua propriedade no dia seguinte. No dia 29, tomamos o café da manhã com o simpático prefeito Antônio Peixoto que, com uma fluência impressionante, discorreu sobre sua militância política junto aos trabalhadores rurais até ocupar o cargo de Prefeito de Itacoatiara; à tarde, visitamos a fazenda de Búfalos do senhor José Holanda na foz do Rio Madeira. No dia 30 fomos até à Fazenda Imperial do senhor Alcides Weiller, esposo da senhora Lena e proprietário do Restaurante Panorama, em cuja vista maravilhosa
avista-se um pequeno lago que margeia o Rio Urubu. Os búfalos pastavam indolentemente mergulhados até o pescoço e arrancavam grandes porções de capim que flutuava na altura de suas mandíbulas.

- Prefeito Antônio Peixoto

O Prefeito relatou, com detalhes, a perfuração de poços em Porto do Mauari - nossa última parada antes de Itacoatiara. “Quando deu na pedra, e como lá era várzea, a camada de pedra estava a 4 metros de profundidade aí o que eu fazia, só eu e as duas mulheres, arriava a vara de ferro e batia pá, pá, pá. Quando eu percebia que já tinha uma quantidade de pedras quebradas, tirava a vara para fora, pegava um bolão daquela tabatinga, jogava lá dentro e arriava a broca em cima e aí eu ficava como se estivesse arrumando uma namorada, só caqueando;  quando aquela tabatinga embolava aquelas pedras todinhas eu puxava; às vezes a gente jogava outro bolinho só para saber se ainda tinha alguma coisa. Quatro horas de serviço, o pior não é nada, é você quebrar o diâmetro de uma pedra para a broca, depois descer bem porque pode quebrar de ponta; mesmo assim a gente conseguiu cavar o poço artesiano. O poço que ele (Beche) toma água hoje fui eu e a Bela quem perfurou, em 1998”.

- José Holanda

Descendente de cearenses que se estabeleceram nas proximidades de sua atual propriedade, possui a determinação e a vontade férrea dos sertanejos cuja têmpera foi forjada no sol causticante da caatinga. Com treze filhos e mais de 30 netos, Holanda encanta a todos com sua fala mansa e contagiante e a riqueza ímpar de suas experiências em suas mais de sete décadas de vida na região. Alfabetizado tardiamente pelo antigo MOBRAL (Movimento Brasileiro de Alfabetização), recuperou o tempo perdido lendo autores consagrados, dentre eles Ernest Hemingway. O deslocamento até a fazenda de Holanda, na foz do rio Madeira, foi realizado numa lancha rápida por ele mesmo projetada, com motor Suzuki de 300hp.

Holanda comentou que o abigeato é comum na região e que em determinada ocasião um comerciante local, seu vizinho e proprietário de um flutuante, surrupiou-lhe seis cabeças de gado. Conhecendo o responsável pela autoria do roubo, ele se dirigiu, com a tranquilidade que lhe é peculiar, ao estabelecimento comercial do mesmo e fez uma compra considerável de combustível e de gêneros bem superior ao preço dos seis bois levados pelo inescrupuloso mercador. Determinou que a embarcação carregada se afastasse e ficou com uma lancha rápida para lhe facilitar uma emergencial evacuação. Chamou o meliante para uma mesa e disse que precisava conversar com ele. Olhando fixamente nos olhos do ladrão disse que o pagamento do material que ele havia acabado de adquirir deveria ser abatido do preço dos bois roubados. Quando o malandro se esticou para pegar uma arma, Holanda mostrou-lhe a Calibre 12 engatilhada e destravada e saiu sem ser incomodado pelo covarde trapaceiro.

- Histórico

“Os registros de povoamento na região datam de 1655, quando o Padre Antonio Vieira cria a Missão dos Aroaquis na Ilha de Aibi, nas proximidades da boca do Lago do Arauató. A Missão, porém, não progrediu em razão da investida dos índios Muras. Por cinco vezes o povoado mudou de lugar. O desconhecimento sobre a região não os deixava observar que estavam deslocando-se dentro da grande área dominada pelos índios Muras, que compreendia praticamente toda a calha do Rio Madeira. Razão que os fez mudar para a foz do Rio Abacaxis. O povoado desta vez instalou-se em terra firme e as investiduras dos Muras eram menores. Com o notório progresso do povoado, o Capitão-General Governador da Amazônia, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, irmão do Marquês de Pombal, em visita ao lugar, resolveu elevar o lugar para categoria de Vila. Os moradores, contudo, já tinham previamente escolhido um novo lugar em razão da insalubridade e dos constantes ataques dos índios. Desta vez, trocaram a calha do Madeira pela margem esquerda do Rio Amazonas - mais precisamente no Sítio Itacoatiara. Todavia, a mudança só foi efetivada em 19 de abril de 1758. Mendonça Furtado, após verificar o lugar “in loco”, deixou o Sítio Itacoatiara e partiu para Barcelos para empossar o coronel Joaquim de Mello e Povoas como Governador da Capitania de São José do Rio Negro. Em 01 de janeiro de 1759, acontece, de fato e de direito, a instalação da Vila, com a denominação portuguesa de Serpa, que estaria sob a proteção de Nossa Senhora do Rosário de Serpa, cuja imagem foi trazida de Portugal para a Vila recém-formada. Foi a 3ª Vila instalada do Amazonas, pela estratégica posição geográfica. Exercia considerável influência na região, ficando, inclusive, o Lugar da Barra, atual Manaus, sob a sua dependência política. A Comarca de Serpa compreendia, aproximadamente, metade da área do Estado. Em 1840, Serpa foi duramente atingida pela revolução dos cabanos e, finalmente, em 25 de abril de 1874, com base no projeto n° 283, de autoria do Deputado Damaso de Souza Barriga, a antiga Vila de Serpa é elevada a categoria de cidade, resgatando a origem indígena com a denominação Itacoatiara, fazendo uma alusão às pedras encontradas no Jauary (bairro da cidade que fica situado na margem do Rio Amazonas, onde encontram-se várias pedras com inscrições em baixo relevo, feitas pelos primitivos habitantes). Em 24 de agosto de 1932, na frente da cidade, aconteceu a célebre Batalha Naval envolvendo os navios Ingá e Baependí, dos legalistas da constitucionalista de São Paulo. Os navios Jaguaribe e Andirá estavam sob o comando dos rebeldes”. (SEGOV-AM)

João Daniel (1757)

Nas margens do Amazonas há uma paragem, entre Pauxis (Óbidos) e a foz do Madeira, chamada na língua dos índios naturais ‘Ita cotiará’, que quer dizer ‘pedra pintada ou debuxada’ (esboço, desenho); vem-lhe o nome de várias figuras, e pinturas delineadas naquelas pedras; e pouco mais acima estão estampadas em outras pedras algumas pegadas de gente. O que suposto, discorrem alguns, que tanto uns como os outros serão sinais misteriosos, como as pegadas esculpidas no pavimento do altar, que dissemos no Rio Xingu; porque não parecem feitas por engenho da arte. Outros, porém, concedendo a causal, dizem que estas podem ser por causa natural, porque pode ser que passando por ali algum curioso índio, quando ainda aquelas pedras estivessem barro brando, ‘debuxaria’ (desenharia) por divertimento as tais pinturas e figuras; e pela mesma razão de brandas, passando por cima das outras, deixaria estampados nelas os pés, e ao depois fazendo-se pelo decurso dos tempos aqueles barros petrificados, conservam as mesmas figuras. Parece provável este discurso, aos que discorrem que todas as pedras se fizeram, e constiparam com os tempos, de que há muitas provas, além de outras partes, no mesmo Amazonas, como advertiremos adiante”. (DANIEL)

- Antônio Ladislau Monteiro Baena (1839)

Há ali pedras alvas, pretas, verdes, todas lisas; pedra amarela, chamada Itacoan, que serve de alisar as panelas feitas a mão; e pedras pintadas de várias figuras. Destas últimas também na ribeira da Vila de Serpa; e foram elas o motivo de dar-se a esta povoação em seu primórdio o nome de Itacoatiara. (...)

Serpa: Vila criada pelo Governador do Rio Negro Joaquim de Mello e Povoas em 1759, e plantada sobre uma planície larga e sobranceira ao Rio de uma Ilha jacente na margem esquerda do Amazonas, que leva a ribeira desta Vila 3 léguas abaixo do Aibú, quinto furo de Saracá, ou 48 léguas acima da foz do Nhamundá confim oriental da Comarca no mesmo Amazonas. Posição em latitude e longitude o paralelo austral 3°3’. Cruzado pelo meridiano 319°9’. Esta Vila foi uma aldeia chamada dos Abacaxis: e outros também a denominaram Itacoatiara, porque a sua ribeira se acha semeada de pedras pintadas e formadas variamente. (...) Os moradores fazem venda de peixe seco ou salmoeirado, de café, guaraná, tabaco, manteiga de peixe-boi, e de tartarugas, de que há muita cópia, e são corpulentas; e vão à espessura as suas produções mais cursáveis no comércio. As terras são aptas para café e tabaco, e também para quadrúpedes do gênero dos ruminantes. O Porto da Vila é profundo mesmo na proximidade da terra: e tem na sua frente uma correnteza voraginosa”. (BAENA)

- Henry Walter Bates (1849)

Permanecemos cinco dias em Serpa. Algumas das cerimônias realizadas no Natal não deixavam de ser interessantes, tanto mais quanto eram, com ligeiras modificações, as mesmas que os missionários jesuítas tinham ensinado havia mais de um século às tribos indígenas induzidas por eles a se estabelecerem ali. Pela manhã, todas as senhoras e moças do lugar, trajando blusas de gaze branca e vistosas saias de chita estampada, seguiram em procissão até a igreja, depois de darem uma volta pela Cidade a fim de chamar os vários ‘mordomos’ cuja função era ajudar o ‘juiz’ da festa. Cada um desses ‘mordomos’ segurava uma comprida vara branca, enfeitada de fitas coloridas; inúmeras crianças participavam também da procissão, cobertas de grotescos enfeites. Três índias velhas iam na frente, levando o ‘sairé’, que consiste num trançado de cipó semicircular, recoberto de um tecido de algodão e incrustado de pedaços de espelho e enfeites semelhantes.Elas agitavam essa peça para cima e para baixo, cantando ininterruptamente um hino monótono e plangente na língua tupi e se voltando de vez em quando para os que vinham atrás, os quais nesses momentos interrompiam a sua marcha. Fui informado de que o ‘sairé’ não passava de um engodo de que se tinham servido os jesuítas para levarem os selvagens até a igreja, pois estes se sentiam atraídos pelos espelhos e os seguiam a qualquer parte, encantados por verem suas próprias imagens refletidas ‘magicamente’ neles. À noite o povo se entregou a alegres folguedos por toda a Cidade. Os negros, devotos de um santo que tinha a sua cor - São Benedito - fizeram sua festa à parte e passaram a noite toda cantando e dançando ao compasso de um tambor comprido chamado ‘gambá’ e do ‘caraxá’. O tambor era feito com um pedaço de tronco oco, fechado numa das extremidades por um couro esticado; era colocado horizontalmente no chão, e o tocador montava ele, percutindo-o com o nós dos dedos. O ‘caraxá’ era feito de um pedaço de bambu cheio de entalhes, os quais produziam um som áspero e matraqueante quando se passava uma vareta ao longo deles. Nada se comparava, em monotonia, a esses sons, cantos e danças, que continuaram pela noite a dentro com inexaurível vigor. Os índios não executaram nenhuma dança, já que os brancos e mamelucos tinham monopolizado todas as morenas bonitas do local, atraindo-as para seus bailes, e as índias mais velhas preferiam assistir à festa ao invés de tomar parte dela. Os maridos de algumas delas juntaram-se às danças dos negros, e dentro em pouco estavam bêbados. Era divertido observar como se tornavam loquazes, sob influência do álcool, os taciturnos índios. Os negros e os índios justificavam as suas bebedeiras dizendo que os brancos também se estavam embriagando do outro lado da Cidade, o que era pura verdade”. (BATES)

Sairé ou Çairé: manifestação folclórica e religiosa na qual os participantes, durante três dias, cantam, dançam e participam de rituais religiosos e profanos, resultantes da miscigenação cultural entre índios e portugueses. A festa teria sido criada pelos índios para homenagear os portugueses que colonizaram o médio e o baixo Amazonas. Sua origem está no fato de que os colonizadores que aportavam em nossas terras exibiam seus escudos. Os índios então faziam o seu ‘Çairé’, como foi chamado o símbolo que é carregado nas procissões, imitando o escudo usado pelos portugueses. O escudo dos índios era feito de cipó recoberto de algodão e outros adornos, enfeitado de tiras de várias cores e rosetas de pano colorido. Como os símbolos dos portugueses possuíam cruzes, o ‘Çairé’ também possui, só que neste, as cruzes representam o mistério da Santíssima Trindade. O caráter religioso também é atribuído aos frades jesuítas, que teriam criado o símbolo para ajudar na catequese dos indígenas. Os preparativos para o ‘Çairé’ começam com a procura pelos troncos que servirão de mastros, na abertura da festa. Os troncos escolhidos são enfeitados com folhas, flores e frutos, levantados em competição acirrada entre homens e mulheres para ver qual grupo consegue levantar o mastro em primeiro lugar’.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

CIGS - Projeto Búfalo


CIGS - Projeto Búfalo

“A selva não pertence ao mais forte e sim ao mais habilidoso, ao mais resistente e ao mais sóbrio”.

- Transporte de Material em ambiente de Selva
Baseado em publicações da Divisão de Doutrina e Pesquisa do CIGS

O Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS),desde a sua criação, procurava solucionar a questão do transporte de armas, munição, água, rações e equipamentos por frações de tropa empenhadas em operações na selva. A procura de um meio de transporte eficiente e de baixo custo baseou suas pesquisas na utilização de bicicletas e animais de carga que pudessem ser adestrados para esse fim.

A primeira tentativa realizada, durante o Comando do Coronel Gélio Augusto Barbosa Fregapani, pretendia utilizar uma anta treinada desde pequena para se adaptar às necessidades operacionais observadas pelas tropas na Amazônia. Foi adaptada uma cangalha especial fixada às costas do animal dentro da qual se colocavam pequenos pesos, mas o animal jamais se adaptou e corcoveava até se ver livre da carga, não se sujeitando ao adestramento. Reproduzo, abaixo, a mensagem, bastante ilustrativa, recebida pelo mestre Fregapani.

“Em 1981 fizemos a tentativa com a anta. Não era nascida em cativeiro, mas já estava acostumada no zoológico. Ainda que eu tivesse tido a idéia, a condução foi do nosso veterinário, o então Capitão Camoleze. A ele pertence a glória, se houver. O mais difícil foi fazê-la obedecer; não adiantou cachimbo nem freio e bridão. Somente foi resolvido com uma argola no nariz, onde se amarrava uma corrente até um bastão. A partir de então podíamos levá-la para onde quiséssemos. As cangalhas também não deram resultado; a anta batia nos troncos como se quisesse livrar-se de uma onça que a agarrava. O que deu resultado foi um peitoral onde se prendiam duas varas, que eram arrastadas e onde se poderia colocar um bom peso, como os cavalos de índio do faroeste. Ainda penso que a anta seria o ideal para transporte de suprimento e munição. Ela come qualquer coisa, inclusive as folhas espinhentas da palma negra. Além de poder ‘puxar’  até 50 Kg ainda dá um churrasco para uma companhia, em caso de necessidade. Lamento o abandono das experiências. Outros comandantes tiveram a gentileza de me informar sobre as experiências com muares e búfalos. Claro que os estimulo a prosseguir. Muares foram usados por Plácido de Castro. Isto significa que funciona, nas trilha, é claro, e já eram usados nos seringais, o que significa que podiam ser obtidos no local. Quanto ao búfalo, é uma boa esperança. Tal como aos muares, ainda não tenho a experiência prática para ver como varariam a selva juntamente com uma pequena tropa. desconfio que não seja fácil, mas só vendo. Numa trilha, tudo bem, mas na trilha talvez o muar seja até melhor. Penso também na praticidade para transporte aéreo e fluvial em pequenos barcos. O fato é que só experimentando e tentando que se avança, e por isto me orgulho do nosso CIGS. Mesmo que sejamos os melhores do mundo na selva, descansando sobre os louros seremos ultrapassados. Avante portanto. Selva!” (Coronel Gélio Augusto Barbosa Fregapani)

Nos idos de 1983, foi desenvolvido um projeto utilizando-se muares. O animal foi conduzido para a Base de Instrução Número 1, localizada no quilômetro 55 da Rodovia AM 010. Depois de serem estabelecidas metas e um cronograma de trabalho, iniciou-se a fase prática. O primeiro teste avaliou o comportamento do muar sob uma carga de 60 quilos de suprimentos, montado sobre cangalhas confeccionadas com palha. O animal deveria realizar um deslocamento “através selva” de, aproximadamente, 2.000 metros. Ao chegar ao primeiro socavão, a cerca de 800 metros da base, onde existia um chavascal, o animal empacou e se negou a ir em frente. Como os muares apresentavam sérios problemas de natureza veterinária e limitações para vencerem obstáculos naturais bastante comuns na selva amazônica, o projeto foi abandonado pela inaptidão do animal para o ambiente de selva.

Mais recentemente, no ano de 2000, a Divisão de Doutrina e Pesquisa desenvolveu outro projeto empregando a bicicleta para o transporte de carga. Esta idéia surgiu a partir do estudo de técnicas especiais utilizadas pelos vietcongs na guerra contra os USA, no final da década de 60 e início dos anos 70. As resistentes bicicletas de fabricação soviética eram viáveis no Vietnã, onde a fisiografia da selva possibilitava a abertura de trilhas e o largo emprego da mão de obra farta e barata. Devido ao grande esforço físico despendido pelo homem para empurrar a bicicleta, ela não foi aprovada como sendo uma opção para a logística no interior da selva.

- Histórico do Projeto Búfalo

Com a continuidade dos estudos chegou-se finalmente ao búfalo, animal já adaptado com sucesso na Amazônia, rústico e com diversas características que foram ao encontro das necessidades militares para o emprego de animais. O chamado Projeto Búfalo nasceu em 2000, e tem demonstrado ser uma das soluções para as necessidades das tropas de selva brasileiras devido à resistência do animal, sua adaptação ao ambiente e, principalmente, à sua capacidade de transportar 400 kg ou mais de carga no lombo, ou até três vezes isso, quando tracionando carroças.

A primeira e única informação a respeito do emprego do búfalo, que não fosse para o consumo humano, foi baseada em uma foto de um cartão postal. Neste cartão retratava-se a utilização do animal para fins de patrulhamento pela 5ª Companhia Independente da Polícia Militar (5ª CIPM ) na cidade de Soure, na ilha do Marajó- PA. Foram realizados alguns contatos preliminares para tentar viabilizar a doação e o transporte de um animal de Soure para o CIGS. Devido ao alto custo e a falta de um contato mais aproximado, optou-se por tentar conseguir um animal nas proximidades de Manaus. Foi doado um casal de búfalos com 4 meses de idade, da raça Mediterrâneo. Os animais foram transportados de Itacoatiara para o CIGS no dia 12 de junho de 2000 e, imediatamente, enviados para a Vila do Puraquequara e, de lá, em embarcação boiadeira, até a Base de Instrução Número 4. A Divisão de Doutrina e Pesquisa apresentou ao Comandante uma proposta de trabalho que permitiu dar os primeiros passos para o Projeto, único no mundo, empregando-se animais selvagens para o transporte de carga no interior da floresta.

Desde o início, foi observado que todos os militares envolvidos deviam possuir algumas características que viessem a facilitar o andamento dos trabalhos, tais como: paciência - para enfrentar a teimosia que os animais apresentavam para realizar determinadas atividades; rusticidade - para encarar as dificuldades do terreno por onde os animais se deslocavam; vigor físico - para empurrar, puxar, carregar o material, as carroças, os bolsos carregados com material, nadar com os animais nos igarapés etc. Além dessas características, deve demonstrar desprendimento e iniciativa - para enfrentar as reações adversas apresentadas pelos animais que eram inusitadas e, muitas vezes, com relativo risco para a integridade física do homem, cabendo a eles decidirem qual a melhor forma de se atingir o objetivo proposto. Com relação ao efetivo a ser empregado no Projeto, pode-se concluir que é necessário um homem para cada animal, na fase de adestramento, ou seja, desde os primeiros passos com a condução na corda, trabalho nas trilhas, nos igarapés, na alimentação dentre outras inúmeras atividades.

- Colete Tático Transportador

No início do Projeto, o objetivo primordial era domesticar os animais, passando para eles características que viessem a facilitar o cumprimento das metas estabelecidas na Proposta de Trabalho apresentada. Desde a fase inicial, foi buscado o desenvolvimento de um colete que pudesse acondicionar o material que iria ser carregado, ou seja, no primeiro momento era fundamental que o animal se acostumasse com algo sobre o seu lombo. Para tanto, foi desenvolvido um tipo de colete denominado pela equipe como “colete tático transportador”. Os coletes desenvolvidos permitiram que fossem administrados gradativos pesos sobre o lombo dos búfalos, acondicionados em bolsos de tamanhos variados – todos confeccionados em lona bastante resistente.

Com o andamento dos trabalhos, houve a necessidade de aprimoramento destes materiais. A cada nova investida na selva, uma nova idéia surgia e era aplicada de imediato. Com o início dos trabalhos de tração, houve a necessidade de aquisição de carroças especificamente fabricadas para este fim. Procurando-se conhecer a viabilidade e a adequação dos animais para o transporte humano, foram adquiridas, da ilha de Soure -PA, duas celas especificamente fabricadas para este fim.

- Conclusão

A experiência de emprego de tropa de carregadores, durante a Operação Mura, realizada pelo 1º Batalhão de Infantaria de Selva no ano de 2000, utilizando-se militares do 12º Batalhão de Suprimentos para compor esta fração, mostrou que o homem não suportou, como se esperava, as adversidades do terreno. Após 10 dias de deslocamento com um peso médio de 30 Kg para ressuprir cachês em pontos locados dentro da área de combate, a tropa se encontrava estafada e sem condições de prosseguir na missão. Aliado a este fato, cabe ressaltar que além de ter que carregar o material a ser ressuprido, o carregador tem que levar o seu material individual (ração, munição, material de higiene, roupa de muda, dentre outros). Assim, os 30 Kg que serão ressupridos mais o material do homem, eleva-se para cerca de 41,5 kg. Verificou-se que a média de deslocamento de uma tropa a pé em terreno variado, que é de 1km/h, ficou reduzida a 0,6 km/h, tendendo a diminuir, à medida que parte da tropa apresentava sintomas de estafa, impondo-se a necessidade de se dividir o peso entre aqueles homens que ainda permaneciam na missão de carregadores.

O emprego tático do búfalo em operações na selva tem por objetivo tê-lo como um colaborador, um facilitador, enfim um meio alternativo para o transporte das mais variadas cargas possíveis. Dessa forma, sua colaboração está em retirar o peso do homem, economizando esforços por parte da tropa empregada no ressuprimento, possibilitando a manutenção e o aumento do poder de combate, alongando a permanência do homem em condições de combater por mais tempo e em melhores condições. Poderá estar enquadrado em fração de qualquer nível ou com uma equipe de ressuprimento sem restrições quanto ao horário de emprego, bem como no terreno a ser percorrido, tendo em vista que o animal tem boa visão à noite e já é adaptado à vida aquática. Quanto à alimentação, não há necessidade de grandes preocupações da tropa em querer ressupri-lo, pois ele come de tudo e possui a capacidade de sintetizar proteínas de vegetais inferiores, precisando de pouco complemento alimentar, o qual ele mesmo poderá transportar.