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sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Igreja de Nossa Senhora da Conceição

Igreja de Nossa Senhora da Conceição


Trezentos anos há que, entre os indígenas
De Bettendorf – os velhos Tapuias –
Teu Nome foi erguido como Lábaro
A guiar esse povo pra Jesus. (SANTOS)

- Igreja Matriz

No dia 22 de junho de 1661, o Padre João Felipe Bettendorff fundou a Aldeia de Nossa Senhora da Conceição dos Tapajós (Santarém) com a construção, de taipa, da Capela de Nossa Senhora da Conceição. A primeira Igreja foi edificada no Largo do Pelourinho, na época, centro da Aldeia. Em 1698, outra Igreja foi erguida, em local próximo ao da primitiva que ruíra, pelo missionário João Maria Gorsoni com a ajuda do Capitão Manoel da Motta de Siqueira que, na época, estava empenhado na construção da Fortaleza do Tapajós. Em 1756, o Governador da Província do Grão Pará e Maranhão, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, comandando uma missão em viagem para Iquitos, no Peru, fez uma parada em Santarém. Acompanhava a missão o arquiteto italiano Antônio Landi que, visitando a capela, apresentou algumas sugestões em relação à estrutura do templo. O antigo sítio do templo, localizado na Praça Rodrigues dos Santos, é ocupado atualmente pela “Padaria Vitória”, em frente à Câmara Municipal.

No ano de 1761, centenário da construção da Igreja e da fundação de Santarém, iniciou-se em um novo local, a construção de uma nova Igreja Matriz com duas torres laterais, mais baixas do que as atuais, situada na Praça Monsenhor José Gregório, centro da cidade de Santarém. Na tarde do dia 25 de março de 1851, logo após o toque da “Ave Maria”, a torre esquerda desmoronou. A outra torre foi posta abaixo e construídos dois “gigantes” laterais para reforçar as abaladas paredes. Em 1876, a matriz ameaçava, novamente, ruir. As obras se arrastaram vagarosamente, no mesmo ritmo em que eram arrecadadas as contribuições dos fiéis. No dia 8 de maio de 1880, foi instalada no alto da Igreja a nova cruz de ferro, o altar-mor foi concluído, no dia 17 de maio de 1880 e, somente, no dia 24 de setembro de 1881, foi considerada concluída. Em 1895, foi executada a reforma do forro e vitrais nas janelas laterais e frontispício e em 21 de junho 1965, foram iniciados os trabalhos de recuperação de maior vulto que incluíam a demolição das colunas, altares, etc.

Dentro em minh’alma, bendizia eu o século futuro, que verá o mais majestoso caudal da terra, habitado por homens livres e felizes, e dei as mais ardentes graças ao Ente todo de amor, que me havia guiado através de tantos perigos, protegendo-me acima e dentro desse Rio, a cujas águas amarelas de novo me entreguei. (MARTIUS)

- O Naufrágio de Martius

É curioso Martius não ter reportado o seu naufrágio na sua obra “Viagem pelo Brasil 1817 – 1820”. A menção só é feita na chapa de ferro que acompanha o crucifixo doado à Igreja Matriz de Santarém. Nele, Von Martius relata que escapou de morrer num naufrágio, no dia 18 de setembro de 1819, e foi “salvo por misericórdia divina do furor das ondas do Amazonas, junto à Vila de Santarém”.

- O Crucifixo de Von Martius

O Cavaleiro Carlos Fred. Phil. de Martius, membro da Academia R. das Ciências de Munich, fazendo de 1817 a 1820, de ordem de Maximiliano José, Rei da Baviera, uma viagem científica pelo Brasil, e tendo sido, aos 18 de setembro de 1819, salvo por misericórdia divina do furor das ondas do Amazonas, junto à Vila de Santarém, mandou, como monumento de sua pia gratidão ao todo poderoso erigir este crucifixo nesta igreja de Nossa Senhora da Conceição, no ano de 1846.
 (gravação, em relevo, na chapa de ferro que identifica o crucifixo)

Como sinal de agradecimento ao Grande Arquiteto do Universo por ter sobrevivido a um naufrágio no Rio Amazonas, Von Martius ofertou à Igreja de Nossa Senhora da Conceição, um crucifixo de ferro fundido, dourado, com um metro e sessenta e dois centímetros de altura. O crucifixo, fundido em 1846, é uma réplica perfeita de uma das obras do escultor, gravador e pintor Albert Durer (1471/1528) de Nuremberg. Os olhos do Cristo de Martius fitam os céus procurando o Pai, os músculos do pescoço retesados pelo esforço e os lábios doridos, queimados pelo vinagre, deixam escapar sua súplica “Eli, Eli, Lamma Sabachtani?”. A imagem do Cristo crucificado impregnada de profunda angústia e expiação física e moral, emociona, desperta os mais nobres sentimentos e convida à reflexão. Certamente essa era a intenção de Von Martius conforme ele mesmo comenta:

“a obra saiu excelente e a contemplei com profunda emoção, pensando no modo pelo qual só por um verdadeiro milagre, fui salvo do Rio Amazonas. Se a contemplação desse crucifixo em alguns devotos despertar uma piedosa comoção, terei eu feito alguma coisa pela raça meridiana à qual sinto nada mais poder dedicar senão votos piedosos. Há muitas pessoas, católicas e protestantes, que não sabem como se pode desenvolver no cérebro e no coração de um naturalista a idéia do Salvador do Mundo, a ponto de ser base de sua existência espiritual; a isso se chama filosofia de século XIX...” (MARTIUS)

“Foi a imagem enviada ao Pará aos cuidados do Cônsul alemão na Província, que se incumbira do transporte e entrega ao vigário de Santarém. Compreende-se que seria difícil vir o crucifixo já armado, pelo tamanho que teria a cruz e o volume que faria para as embarcações da época. Assim, Martius remeteu apenas a estátua e a lâmina com a inscrição comprobatória do seu voto, dentro de um único caixão. Nem se pode admitir que para o Brasil, pátria de belas e excelentes madeiras, o naturalista enviasse uma cruz confeccionada com madeira europeia. Depois de longo estágio na alfândega de Belém, aguardando transporte, foi finalmente a grande e pesada caixa embarcada num dos barcos a vela que faziam tráfego entre Santarém e a capital, e descarregada no porto mocorongo em fins de 1848 ou princípios de 49, consignada ao vigário local. (...) O volume foi conduzido à igreja, e na sacristia aberta a caixa, foram encontradas a bela imagem de Jesus e a chapa com a inscrição em relevo. (...) Enquanto isso, a linda imagem de Cristo continuava no seu caixote de pinho, por falta de uma cruz que todos lhe negavam! (...) Finalmente, em princípios de 1851, Cônego Fernandes foi a Belém e consegui interessar o Presidente da Província, Fausto A. de Aguiar, que lhe prometeu fazer incluir no orçamento quantia para a obra prevista. (...) Tratou-se logo de outro problema onde colocar a imagem? Uns queriam vê-la na atual capela de Bom Jesus, à entrada do templo; outros preferiam que fosse erigida num dos altares laterais da nave, onde, aliás, já se encontrava outro crucificado, quase em tamanho natural, porém de madeira ou massa, colocado por trás da imagem de Nossa Senhora das Dores, no altar hoje considerado do Rosário. Estavam as coisas neste pé, aguardando-se somente a verba que iria ser votada – como, realmente, o foi – quando, a 26 de março desse ano de 1851, surgiu, de súbito, grave imprevisto que causou desolação geral: uma das torres da Matriz ruiu fragorosamente, quase destruindo a parede da frente e danificando as outras. (...) Os reparos que se faziam, então, na Igreja de Santarém, só ficaram terminados, mais ou menos, em 1868, segundo relatório do Presidente da Província, José Bento Figueiredo, de 1869, e é provável que somente então fosse o Crucificado de Martius colocado no seu altar”. (SANTOS)

- O Círio da Padroeira

“Nem sempre as festas da Padroeira, Senhora da Conceição, começaram pelo Círio, ou antes, pela transladação da véspera. Durante anos a festividade principal da terra constava somente das novenas, iniciadas impreterivelmente a 28 de novembro, mesmo que fosse um dia útil, e iam até 6 de dezembro; depois, as vésperas, a 7, e finalmente, o dia da festa, 8 de dezembro que fechava com a grande procissão. Ninguém pensava em Círio. Nos primeiros tempos da República, surgiu uma romaria a que chamavam “Círio da Bandeira”, que se compunha de uma bandeira com a efígie da Santa, alguns estandartes, confrarias, povo e banda musical que percorriam as principais ruas, recolhendo-se à Matriz. Era o sinal de que na noite seguinte teria começo o novenário. Esses “Círios da Bandeira” saiam da Capela de São Sebastião, e em 1896, como a Igreja estivesse em concertos, saiu da Casa da Câmara. Foi somente, a partir de 1919, inclusive, que, sendo intendente municipal o Dr. Manuel Waldomiro Rodrigues dos Santos, foi instituído o uso da transladação e círio, como início da festa da Padroeira, tal qual se fazia em Belém na festa de Nazaré. O costume pegou e já constitui tradição”. (SANTOS)

A festa de Nossa Senhora da Conceição inicia no sábado, véspera do Círio, quando a imagem da Virgem, em procissão é levada da Igreja Matriz para a Igreja de São Sebastião de onde a romaria parte na manhã de domingo. Desde o primeiro Círio, realizado em 29 de novembro de 1919, a romaria foi atraindo um número cada vez maior de fiéis. Há mais de nove décadas, o círio percorre cerca de dez quilômetros, durante mais de 3 horas, as principais ruas e avenidas da cidade, congregando católicos de diversas comunidades do Baixo Amazonas. O encerramento das comemorações, no dia 08 de dezembro, dia da festa de Nossa Senhora da Conceição, culmina com uma tradicional queima de fogos.

“Realizou-se ontem, pela manhã com a concorrência e a pompa que era de esperar o Círio da Imaculada – imponente manifestação de devotado amor que o povo de Santarém dedica ao culto de Maria, iniciando, este ano, a tradicional festividade, o Círio revestiu-se de uma singeleza espiritualizada, mui solene e muito significativa, emoldurado, para melhor realce, pelo brilho difuso de uma linda manhã santarense de luz gloriosa e belo sol. Tendo saído da Capela de São Sebastião, para onde fora a imagem em procissão no dia anterior à noite – percorreu as principais ruas da cidade, sempre na melhor ordem, aumentando gradativamente de vulto aquele imponente estuário humano, em meio ao qual se destacava a linda imagem da Padroeira em sua berlinda artisticamente ornamentada, sendo de notar a coroa de ‘sempre vivas do campo’, naturais, admirável trabalho de uma piedosa filha de Maria. Ao entrar o Círio na Catedral a aglomeração de gente era enorme, reinando, entretanto, a melhor ordem e a mais completa satisfação”. (SUSSUARANA)


Fontes:

SANTOS, Paulo Rodrigues dos. Tupaiulândia. ICBS/ACN. Santarém, PA: Gráfica e Editora Tiagão, 1999.

SPIX e MARTIUS, Johann Baptist Von Spix e Carl Friedrich Philipp Von Martius. Viagem pelo Brasil 1817 - 1820 - Brasil - São Paulo, 1968. Edições Melhoramentos.

SUSSUARANA, Felisbelo. Jornal “A Cidade”. Santarém, PA, 29 de novembro de 1919.


domingo, 5 de setembro de 2010

Theatro Victória – Santarém – PA

Theatro Victória – Santarém – PA


Chovia dinheiro em Manaus, na alucinação do “ouro negro”, e numerosas empresas teatrais, às vezes de renome mundial, passavam por Santarém. (...) O Victória contava, então com dezessete camarotes, sendo um oficial, cento e quarenta e duas cadeiras numeradas na plateia, e cerca de cento e oitenta gerais. (SANTOS)

- As Primeiras Sementes

Nos idos de 1855, os comerciantes e artistas dramáticos Antonio Maximiano da Costa e sua esposa Carolina Helpídia da Costa conseguiram que o Presidente da Província Henrique de Beaurepaire Rohan editasse a Lei nº 289, de 3.10.1856, concedendo-lhes duas loterias cujo produto deveria ser aplicado na edificação de um Teatro na Cidade de Santarém. A loteria redundou num completo fracasso e o casal, desiludido, abandonou o projeto e partiu para outras plagas.

Alunos do Colégio Conceição, no período de 1875 a 1878, fundaram o “Teatro Conceição”. O educandário cerrou suas portas, em 1878, e com ele o teatro dos alunos.

O objetivo inicial de um jovem grupo de artistas amadores, em 1894, era arrecadar fundos, através de suas apresentações teatrais, para a construção de um Hospital de Caridade em Santarém. Realizaram alguns espetáculos mas as dificuldades encontradas e o retorno financeiro muito abaixo do esperado desanimaram o grupo que preferiu entregar o numerário já apurado para as obras da Matriz e da Igreja de São Sebastião. A semente, porém, fora lançada em terra fértil e a magia do palco havia contagiado a mocidade santarena.

No dia 15 de janeiro de 1895, o “Clube Dramático Santareno” foi fundado por artistas amadores apoiados por alguns cidadãos de destaque da comunidade. Foi eleito para Presidente da Comissão de Obras o entusiasta e próspero comerciante português Manoel Gomes Veludo. Veludo, vez por outra, participava, como comediante, das exibições teatrais e encaminhou, imediatamente, uma petição à Câmara Municipal solicitando um terreno para a construção de um Teatro.

A Câmara municipal, no dia 20 de janeiro de 1895, em sessão extraordinária, aprovou por unanimidade, a concessão, por aforamento, de um “terreno entre as Ruas da Alegria e 22 de junho, junto à casa do Comendador Joaquim Honório da Silva Rebêlo, medindo 64 palmos de frente por 120 de fundo, para ali ser construído o Teatro que o Clube Dramático pretende edificar nesta cidade”. O terreno estava localizado na principal Praça de Santarém, a Praça da República (atualmente Praça Rodrigues dos Santos).

Seus idealizadores, sem contar com qualquer tipo de apoio das autoridades municipais, contavam apenas com as doações de contribuintes, sócios amadores e o dinheiro arrecadado nos espetáculos que passaram a ser apresentados no “Teatro Caridade” e, depois, no “Teatro Provisório”.

- Lançamento da “Pedra Fundamental”

A planta do “Theatro Victória” foi projetada pelo engenheiro francês Maurice Blaise, professor de Desenho da Escola Normal do Pará, e previa uma lotação de quinhentos espectadores. No domingo, de 5 de maio de 1895, foi realizada a solenidade do lançamento da “Pedra Fundamental”, no dia 14 de agosto era levantada a cumeeira.

“Apesar da escassez de recursos, o ‘Clube Dramático Santareno’ recusou a subvenção de seis contos, votada pela Assembleia Estadual, em 1896 – Governo Lauro Sodré – sob a alegação de que estando a obra quase terminada, era vergonha ou insulto para os sócios do Clube a exigência do governo para tornar efetivo o auxílio votado. Queria a lei que fossem apresentados o documento de posse do terreno, a planta da obra, seu orçamento etc., etc., as costumeiras papeladas da burocracia. Os ‘Dramáticos’ tomaram a exigência como desaforo; era uma desconsideração essa confiança lançada contra a sua honorabilidade. Parecia que a Assembleia duvidava que a obra estivesse realmente em construção, quando lhe faltavam, apenas, retoques internos, separação das frisas e camarotes, pintura e mobiliário. Esse o pretexto da recusa, mas, no fundo, era o dedo sectário de alguns políticos da terra, aborrecidos porque o projeto havia sido apresentado e defendido pelos adversários...” ( SANTOS)

Foi inaugurado, a 28 de junho de 1896, contando com as presenças ilustres do Governador e do Deputado Adriano Miranda. A casa de espetáculos foi batizada, inicialmente, de “Teatro 15 de janeiro” em referencia à data de fundação do “Clube Dramático Santareno”, em 15 de janeiro de 1895, mas teve seu nome modificado, logo depois, para “Theatro Victória”. Poucos anos depois o “Clube Dramático” encerrou suas atividades e entregou o Teatro à Intendência Municipal. Foi a fase áurea do Victória que durante algum tempo proporcionou momentos de arte, cultura e alegria aos santarenos.

O primeiro grande revés ocorreu, em 1912, quando a Companhia Portuguesa de Operetas e Comédias depois de encenar alguns espetáculos no Teatro foi dizimada pela epidemia de febre amarela que se alastrou na cidade. A partir de então o Victória passou a funcionar também como cinema (mudo), concertos, conferencias, etc.

Em 1917, na administração do intendente Dr. Oscar Barreto, o “Theatro Victória” foi restaurado e ganhou nova pintura e novos cenários e mobiliário. Nesse mesmo ano foi fundado o Grupo Cênico do “Tapajós Futebol Clube” cuja estréia, na noite de 15 de novembro de 1917, contou com a presença do Senador Antonio de Souza Castro.

Em 1925, o intendente Joaquim Braga e, em 1933, o prefeito Ildefonso Almeida realizaram obras de restauração do Teatro sem promover alterações na sua arquitetura original. O Teatro, neste período, tinha sido transformado em salão de bailes, escola, salão de banquetes, hospedaria e depósito de juta que acabou provocando o desabamento do tablado da platéia além de ameaçar a estrutura do prédio.

Em 1956, serviu de acantonamento para um contingente de pára-quedistas militares, comandando pelo Coronel Santa Rosa, com a missão de debelar a revolta liderada pelo Major Haroldo Veloso na Base de Jacaré-Acanga.

O Prefeito Armando Lages Nadler (1955/59), considerando o prédio muito pequeno para uma casa de espetáculos, resolveu aproveitá-lo como Biblioteca Pública até que as goteira resultantes da falta de conservação acabaram por transformá-lo em albergue.

Em 1965, foi novamente reformado, desta vez perdeu totalmente suas formas originais passando a ser utilizado como Câmara Municipal e, atualmente, Secretaria Municipal de Educação e Desporto.

Mais que uma casa de espetáculos, mais que uma obra arquitetônica, o “Theatro Victória” representa a força, a energia e a determinação do povo santareno na busca de um ideal.

Fonte: SANTOS, Paulo Rodrigues dos. Tupaiulândia. ICBS/ACN. Santarém, PA: Gráfica e Editora Tiagão, 1999.

sábado, 4 de setembro de 2010

A Revolta de Jacaré-Acanga

A Revolta de Jacaré-Acanga


As estações de rádio das companhias comerciais de aviação, cujos cristais estavam em poder de Veloso, voltaram ao ar. Centenas de pessoas que haviam fugido ante o noticiário alarmista das emissoras, começaram a regressar. Os gêneros de primeira necessidade, que já escasseavam – porque nenhum barco ousava atracar em Santarém – reapareceram no mercado. (Arlindo Silva – Revista O Cruzeiro)


- Do Campo dos Afonsos para Cachimbo

A eleição do Presidente da República Juscelino Kubitschek e de seu Vice João Goulart preocupava alguns setores da sociedade brasileira. Inconformados com a situação política que se delineava, o Major Haroldo Veloso e o Capitão José Chaves Lameirão da Força Aérea Brasileira, arquitetaram um movimento militar que esperavam ganhasse amplitude nacional. Na madrugada de 11 de fevereiro de 1956, dias antes da posse dos eleitos, os dois oficiais sequestraram do Campo dos Afonsos, localizado na Guanabara (atualmente Rio de Janeiro), uma aeronave “Beechcraft”. Carregaram-na com armamento e munição e rumaram para a Base Aérea de Cachimbo que eles mesmos haviam ajudado a construir.

Mais tarde o próprio Capitão José Chaves Lameirão confessou:

“Nosso plano era iniciar efetivamente a Revolução. Era preciso que alguém o fizesse. Nosso plano era apoderar-nos, logo de início, da base de Cachimbo – e foi o que fizemos. É preciso que se saiba que o Cachimbo fica mais ou menos equidistante de Fortaleza, Recife, Natal e Salvador. Com a Base em nossas mãos, seria fácil aos camaradas que quisessem aderir, com seus aviões B-25, as ‘Fortalezas Voadoras’ do Nordeste, e os ‘Ventura’ de Salvador, principalmente, voar diretamente ao Cachimbo e ali lutar pela causa. Chamaríamos, também, as atenções da Nação para aquele ponto e para o Amazonas, e isto poderia facilitar o levante no Sul. Achávamos que alguém começando a Revolução, ela se alastraria naturalmente”.

Os amotinados procurando ampliar sua área de influência ocuparam e dominaram, depois da Base Aérea de Cachimbo, a Base Aérea de Jacaré-Acanga (Cabeça de Jacaré). Desde a decolagem do campo dos Afonsos todos os aeroportos do país tinham recebido o sinal de alerta e tão logo foi conhecida sua posição dos insurgentes partiu um “Douglas” comandado pelo Major Paulo Vitor com a missão de aprisionar os rebeldes. A tripulação, tão logo pousou em Jacaré-Acanga foi aprisionada enquanto o Comandante Paulo Vitor aderiu ao movimento.

Veloso dando continuidade à estratégia de ampliação da área convulsionada parte o “Beechcraft” reforçado pelo “Douglas” para a Base de Santarém que foi ocupada sem resistência. Enquanto Lameirão providenciava a interdição da pista, Veloso assumiu o comando da força policial santarena, interditou o telégrafo, e neutralizou as comunicações das estações de rádio e das companhias aéreas retirando-lhes os cristais dos equipamentos. Fechou o “Tiro de Guerra 190” e convocou alguns atiradores para o serviço de patrulhamento e vigia. Concluídas as medidas preliminares e mais urgentes, Veloso se dirigiu à população fazendo uso do serviço de auto-falantes do Partido Social Democrático (PSD), e comunicou que a cidade estava sob controle pacífico da Força Aérea e que a população podia continuar com seus afazeres diários sem qualquer temor. No trapiche do Instituto Agronômico do Norte, Bairro da Prainha, foi montado um Posto de Vigilância com a missão de revistar as embarcações. Os revolucionários achavam que a repercussão com a tomada de Santarém provocaria a adesão de outros oficiais, ampliando o movimento, mas não foi o que aconteceu.

“Combate em Santarém!”
“Luta-se encarniçadamente na Pérola do Tapajós!
Já sobem a milhares os mortos e feridos na Revolta de Jacaré-Acanga!”

No sul do país as rádios alardeavam notícias fantásticas e exageradas, enquanto em Santarém as “Fortalezas Voadoras” sobrevoavam a cidade despejando folhetos conclamando a população a se afastar dos insurretos. Na tarde de 22 de fevereiro de 1956, Lameirão sobrevoando o Amazonas no “Beechcraft”, avistou uma embarcação que confundiu com o “Presidente Vargas” de transporte de tropas, na verdade era o “Lobo D’Almada”, que conduzia centenas de civis. Lameirão muito nervoso, tão logo pousou, foi relatar a Veloso a necessidade de bombardeá-lo que preferiu outra alternativa realizando uma retirada estratégica que, certamente, poupou a vida de centenas de inocentes. Às dezenove horas, deste mesmo dia, partiram para a Base de Jacaré-Acanga levando armas, munições e 25 homens que julgavam serem fiéis ao Movimento.

Dias depois, chegava a Santarém o “Presidente Vargas” com um contingente de 300 homens do Exército, comandados pelo Coronel Hugo Delayte, e um contingente de pára-quedistas militares, comandados pelo Coronel Santa Rosa, o aeroporto foi liberado permitindo o pouso de diversas aeronaves militares.

“Enquanto decorriam as operações aéreas de reconhecimento do campo inimigo, as tropas vindas pelo ‘Presidente Vargas’ iniciavam sua subida pelo Tapajós, sob o comando do Coronel Hugo Delayte. Viajavam em barcaças. (...) Sucedeu, porém um imprevisto: Veloso queria apanhar gasolina em Itaituba. Chegou a São Luís (fronteira àquela cidade) numa embarcação com 12 homens. Dessa localidade enviou dois espiões a Itaituba para averiguarem se a praça estava desguarnecida. Acontece que lá estava a tropa do Coronel Delayte. Os dois espiões denunciaram o Plano de Veloso. Fizeram mais: conduziram Delayte e seus soldados a São Luís e indicaram a casa onde Veloso estava escondido. Ocorreu, então, o único choque armado entre rebeldes e legalistas. Veloso escapuliu pelo mato, mas no chão ficou estendido um homem: Cazuza, que Veloso, dias antes, em Santarém, em tom de pilhéria, promovera a cabo. (...) Cazuza se transformaria na única vítima da ‘Guerra’ do Tapajós”. (Arlindo Silva – Revista O Cruzeiro)

No dia 28, às 17 horas, Veloso, desarmado, foi aprisionado sem oferecer resistência em uma casa de São Luís. Levado para Itaituba foi transportado em um “Beech 1512” na companhia do comandante da “Operação Tapajós” – Brigadeiro Alves Cabral e escoltado pelo Major-aviador Celso Neves. Enquanto isso o Major Paulo Vitor, o Capitão Lameirão, e o Sargento João Gunther fugiam no “Douglas” para a Bolívia onde aterrizaram na noite de 29 de fevereiro no aeroporto de Santa Cruz de La Sierra.

Fonte: SANTOS, Paulo Rodrigues dos. Tupaiulândia. ICBS/ACN. Santarém, PA: Gráfica e Editora Tiagão, 1999.


segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Fortaleza do Tapajós

Fortaleza do Tapajós


Sobre o cimo de uma ribanceira de pedra na aba do Rio à direita da Vila ainda existem os remanescentes de uma Fortaleza de figura quadrangular elevada em 1697 à custa de Manoel da Motta de Siqueira; o qual em retribuição desta despesa foi agraciado com o governo vitalício da mesma Fortaleza. (BAENA)

- “Cabeça de Ponte”

Promanou esta fortificação da mesma ideia de por em defesa o Amazonas contra a invasão de inimigos, especialmente dos franceses. (Artur Viana)

O desenvolvimento da Aldeia de Nossa Senhora da Conceição dos Tapajós (Santarém), no século XVII, despertou a cobiça dos inimigos da Coroa Portuguesa tendo em vista sua importância estratégica. A Aldeia servia de “cabeça de ponte” para apoiar as incursões portuguesas na Hinterlândia Amazônica. A construção da Fortaleza do Tapajós fazia parte de um grande projeto defensivo e ofensivo que estabelecia posições fortificadas, casas-fortes, fortalezas, acampamentos devidamente equipados que visavam conter as ameaças de invasão e consolidar o domínio lusitano na região.

- Francisco da Motta Falcão
Fonte: Arthur Cezar Ferreira Reis - Ensaio: Manaus e Outras Vilas, Manaus, 1934.

“Morador do Pará e homem de personalidade na sociedade local, sertanista, já por ocasião dos sucessos que sacudiram o Maranhão com o pronunciamento dos colonos contra a Companhia de Jesus e contra a Companhia do Comércio, tivera atuação sucessória, como delegado de Gomes Freire. Acompanhando o Capitão-General, que viera realizar a pacificação ou enfrentar o movimento pelos meios violentos, Falcão desembarcara antes de qualquer outra autoridade para sentir as reações do ambiente revolucionário. Entrara em contato com os moradores e verificara que nada havia a temer. Gomes Freire viera para a terra depois, se encontrar resistências. Falcão mostrara-se mediador hábil. Sua passagem pelo sertanismo regional foi a passagem de todos quantos tinham de enfrentar a adversidade e os perigos do interior. E, seguramente, ao contato com a realidade dura que fora observando e estudando é que se propusera aquela empresa, realmente oportuna, útil aos interesses reinóis e que o propunham como um colono ágil, objetivo, realístico, colono que servia a S. Majestade sem deixar de cuidar dos problemas de sua própria fazenda”.

- Alvará Régio de 15.12.1684

O Alvará determinava que Falcão deveria concluir, às suas expensas, num prazo de quatro anos, a construção das fortalezas do Tapajós, do Rio Urubu, do Rio Madeira e boca do Rio Negro conforme as plantas elaboradas pelo engenheiro Pedro de Azevedo Carneiro, com a melhor técnica possível e respeitadas as contingências locais, de pedra e barro. As autoridades contribuiriam com sessenta índios e dez cavaleiros. Em troca Falcão seria nomeado comandante da Praça Militar, cujo cargo poderia ser transferido hereditariamente aos seus descendentes.

- Projeto e Localização

O local, como de costume, estava localizado em uma das partes mais altas da região, precisamente no “outeiro” escolhido pelo Padre Antonio Vieira para ser sede da missão e que o Padre João Felipe Bettendorf, em 1661, mandara roçar e demarcar para ali construir a igreja e residência dos missionários.

O projeto da Fortaleza era em forma de quadrilátero com 48 metros de lado e um baluarte em cada vértice. No centro estava localizado um paiol, alojamento para a tropa e a cadeia. As muralhas de taipa e pilão possuíam seteiras para os mosquetões e peças de artilharia.

Taipa e pilão: após a preparação das formas, com madeira robusta, eram colocados em seu interior, por camadas, lascas de madeira de lei, barro, cal, saibro, pedras miúdas e cascalho e socados com soquetes de madeira até completar a forma.

- Pequeno Histórico

Francisco da Motta Falcão faleceu antes de ver a obra concluída e seu filho Manoel da Motta de Siqueira designado, por ele, como seu sucessor para os favores reais, prosseguiu nos serviços. Siqueira realizou sua inauguração oficial, em 1697, embora a Fortaleza não estivesse concluída, a cerimônia foi presidida pelo Capitão-General Antônio Albuquerque Coelho de Carvalho que inspecionava as fortalezas da região. A tradição oral reza que as salvas de artilharia racharam uma das muralhas, que começou a desmoronar aos poucos desde então.

“Foi em 1749 que começou a mostrar ruínas nos ângulos e na cortina da parte do Rio. A mesma Fortaleza, posto que pela elevação do sítio dominasse a passagem do Rio, não podia atalhar nela a navegação proibida, porque o sistema de canhoneiras não permitia às peças de artilharia fazer os tiros por baixo do horizonte pelos ângulos que o declive da montanha exigia: e deste modo aquela Fortaleza não era chave capaz de fechar aquele estreito do Amazonas não só a todo o arrojo interno, perturbador da ordem, mas ainda a qualquer projeto de invasão estrangeira”. (BAENA)

Em 1762, Domingos Sambucetti foi encarregado de examiná-la e reconstruí-la. A construção foi executada à base de pedra e cal material de boa solidez e resistência, foi aumentada sua artilharia e o paiol. Infelizmente sem contar com uma manutenção adequada com o passar dos anos começou novamente a ruir.

Em 1795, o Capitão-General D. Francisco de Souza Coutinho apresentou um minucioso relatório ao Ministro dos Negócios da Marinha e Ultramar, Martinho de Melo e Castro em que dizia textualmente: “ponho de parte tudo o que respeito a Fortaleza de Gurupá, de Parú, de Santarém, de Óbidos e do Rio Negro porque considero como inúteis e só próprias para dividir as forças”.

No final do século XVIII a Fortaleza do Tapajós ameaçava desabar. Foi então que o Governador Francisco de Sousa Coutinho determinou sua restauração no dia 18 de março de 1803, mas, infelizmente, nada de concreto foi feito.

Nos dias da cabanagem (1835), os homens que tratavam de organizar a resistência na Vila de Santarém, contra a esperada incursão dos cabanos, instituíram um Corpo Provisório de artilharia que contava com três peças de bronze, calibre 2, retiradas da Fortaleza e adaptadas em reparos. Eram as únicas existentes em Santarém”. (SANTOS)

“Ao encerrar-se o período português na Amazônia, a Fortaleza não apresentava mais qualquer sentido militar - era ruína histórica, desprovida de qualquer resquício de poderio. (...) Na forma do velho costume, voltava-se em 1867 à carga: por uma ordem especial do Ministério da Guerra, o Capitão de engenheiros Luiz Antônio de Souza Pitanga marchou para Santarém e ali empreendeu a tarefa de fortificar de novo a cidade, tarefa improfícua que devia ficar por concluir definitivamente”. (REIS)

“Quando o Governador Imperial mandou o engenheiro, capitão Pitanga, tratar da reconstrução do forte, no mesmo ano, 1867, enviou seis peças de artilharia, calibre 6, com as respectivas palamentas, para serem colocadas na Fortaleza. Os serviços de reconstrução, porém, como os novos canhões, ficaram em meio caminho”. (SANTOS)

Hoje podemos encontrar, aos pares, essas peças de artilharia distribuídas na Praça do Centenário, no Aeroporto e na Sede da Sudam.

“Dentro de poucos anos a fortificação, abandonada de vez, desfazia-se em escombros. Depois tiraram-lhes os canhões, precipitaram-nos pelas ladeiras da colina abaixo, para um terreno particular”. (REIS)

“Abandonado pelos poderes públicos, o velho baluarte, bem como as abas e arredores do outeiro, todo o conjunto considerado propriamente do Ministério da Guerra, foi sendo ocupado por particulares que, sem protesto ou reclamação de ninguém, iam se apossando das terras, construindo barracas e casas até mesmo no recinto das muralhas arruinadas. Em setembro de 1908, o 2º Tenente do Exército, Fileto de Oliveira Pimentel, filho de Santarém, denunciou e pediu providencias ao Major de engenheiros Comandante da Fortaleza de Óbidos, a respeito de construções particulares que estariam a fazer-se pelas vizinhanças do fortim de Santarém. (...) mas tudo ficou em nada. Mais ou menos em 1926, apareceu em Santarém um cidadão (...) Comprou uma casinha situada ao lado das velhas muralhas, as benfeitorias, é claro, que logo mandou demolir e construir em seu lugar uma bela vivenda para sua moradia, a qual, pouco depois, foi vendida ao governo do estado (Interventoria Magalhães Barata) que mandou aumentar e adaptar o prédio para ali funcionar o Grupo escolar, atual Grupo Frei Ambrósio”. (SANTOS)

O descaso e a ignorância pulverizaram tudo. A Fortaleza sucumbira sem jamais ter cumprido sua missão. Não existe qualquer traço remanescente da Fortaleza, apenas a Praça Frei Ambrósio que representa um marco histórico importante além de permitir uma visão privilegiada da Foz do Tapajós.


Fontes:

REIS, Arthur Cezar Ferreira Reis. Santarém: seu Desenvolvimento Histórico - Rio de Janeiro - Editora Civilização Brasileira, 1979.

BAENA, Antonio Ladislau Monteiro. Compêndio das Eras da Província do Pará (1615-1823) - Belém, PA: Editora da Universidade Federal do Pará, 1969.

SANTOS, Paulo Rodrigues dos. Tupaiulândia. ICBS/ACN. Santarém, PA: Gráfica e Editora Tiagão, 1999.


quinta-feira, 22 de julho de 2010

Coração e Caráter de Euclides da Cunha

Coração e Caráter de Euclides da Cunha


Alberto Rangel, Rondon, Lauro Müller e Tasso Fragoso foram alguns dos ilustres colegas de Euclides da Cunha na Escola Militar da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro. Alberto Rangel, por solicitação do “Grêmio Literário Euclides da Cunha”, realizou uma Conferência em homenagem ao aniversário do falecimento do seu grande amigo. Reproduziremos algumas partes desta homenagem que apresenta um pouco do muito que fez esse grande brasileiro pelo seu país e que, infelizmente, não tem, por parte da maioria dos brasileiros, o devido reconhecimento.

-  Euclides da Cunha - Um Pouco do Coração e do Caráter
    Por Augusto Rangel

Senhoras e Senhores: O tropeiro ou o simples viandante matuto costuma colocar uma pequena pedra qualquer ao sopé da cruz, encontrada à margem das nossas estradas ou veredas rurais e provincianas. Os piedosos semeiam calvários, concorrendo para a imortalidade de anônimos. É o preito humilde do que vai passando, na intenção do monumento que se não há de erguer...

Consagrando estes instantes à obra vindoura, com que se pretende significar a admiração do Brasil por Euclides da Cunha, colaboramos com a mesma ternura e veneração das almas, nos caminhos sertanejos, para o granito e o bronze que lhe devemos à memória.

Realmente, o terrível esquecimento nacional, que tem agruras despenhosas de ribanceira e sorvos repentinos de perau, se predispõe aos nossos olhos a engolir a lembrança do valoroso e emérito escritor. Não vimos dar um grito nesta tribuna, e à moda do fórum antigo acender a revindita, abraçado teatralmente à vítima... Todo impregnado ainda das impressões colhidas na fortuna de excelente convivência, o nosso intento é menos ostentativo das galas e deveres de patrono num pretório, do que o de evocar o amigo, quase que exclusivamente, nas feições do seu caráter raro e nos traços inegáveis da sua meiga e profunda afetividade. (...)

É o prisma do sofrimento o melhor decomponedor das almas. Torna-se o exame mais fácil e mais claro às refrações da dor. Cabem aqui, na verdade, as alusões inescusáveis à angústia do sacrificado, se é, com efeito, a homenagem ao homem moral que perpetraremos, interessados no desenho do coração cristalino, melindroso e probo e no apontamento das linhas tenacíssimas da sua alma de espartano.

Verificando-lhe os sentimentos, nos períodos da correspondência, privada e em lembranças reais da sua vida ativa, havemos de procurar fixar um pouco de luz nos desvãos da sombra injuriosa e maldita. Preferiram-se tais reflexões e sondagens ao esforço de recordar Euclides nos aspectos da sua estupenda produção intelectual. A outros as conjugações da crítica, nos labirintos da estética literária, a debulharem e esgaravatarem as grandezas e nonadas da arte, do pensamento e do estilo, as profanações daqueles para quem a originalidade é possessão diabólica e o ‘regionalismo’ sério motivo de prevenção e de escarmento... (...)

Os admiradores da pena que traçou o “À margem da História” prosternem-se ante os segredos do íntimo e do puro. Foi ele mesmo que escreveu estas palavras brandas e confitentes, entremostrando na forma impiedosa do porfiador sem recuos, o ser de nobre inteligência e de límpida bondade que nele se abrigava: “Minutos existem mesmo em que o abomino e chego a ter-lhe ódio - esses sentimentos porém - como felizmente todos os sentimentos maus em mim (que são inúmeros porém efêmeros) desaparecem facilmente”. O seu talento foi muito e o coração demais. (...)

A 20 de setembro de 1908, Euclides da Cunha expressa-se desta forma: “De mim nada tenho que dizer. Há uma pasmaceira trágica neste país que esperneia galvanizado na praia Vermelha e morre à fome nos sertões. De sorte que vivo mais ai do que aqui - fugindo, através dos livros, para o seio de outras gentes”.

Continua a maré do nojo enchendo-lhe o coração de desdéns. Exila-se na leitura, rompe pelo matagal do pensamento humano a pobre criatura, devorada por um desgosto pungente, que se mascara. Que o sofrimento secreto se abafe no percuciar das páginas sorvidas e decifradas. Adormecer-lhe-ia o mal, ao emoliente das ideias exprimidas pelos cérebros alheios. Por essa época, deveriam ter-lhe jorrado da pena as estrofes do Paraíso dos medíocres... (...)

Eis o que mais adiante Euclides escrevia, disfarçando nos protestos contra a sujeição às mediocridades lerdas de uma secretaria, as lutas morais que então o deviam absorver: “Continuo a desenhar mapas antigos... Até quando? Às vezes penso que foi uma fatalidade o ter caído, como um satélite, na órbita maravilhosa de um Imortal. Submeto-me. Mas ainda não sei se romperei a curva fechada dessa gravitação”. Não o satisfaz o emprego seguro do Estado. O pão quotidiano, assegurado por um grande ministro, sabe-lhe à ração de calceta. (...)

Em 1905 escrevia-nos ele de Manaus, às dez e meia da noite de 20 de março: “A nossa partida está próxima. Chegaram ontem as instruções - e desde que se realize a reunião dos comissários iremos rumo feito para o desconhecido. A minha frota: duas lanchas (uma ainda problemática), um batelão e seis canoas - flutua triunfalmente no extremo do igarapé de São Raimundo -, e teve ontem o batismo de uma tempestade. Nunca imaginei que este rio morto escondesse, traiçoeiramente, ondas tão desabridas. Uma rajada viva de sudoeste imprime-lhe as crispações ensofregadas de um mar - e que mar! Um mar entre barrancos em que as vagas desencadeadas se desatam em corredeiras impetuosas de torrentes... Felizmente resistiram galhardamente os meus navios. É que dentro deles está a 'fortuna de César'. Realmente, creio tanto no meu destino de bandeirante que levo esta carta de prego para o desconhecido com o coração ligeiro. Tenho a crença largamente metafísica de que a nossa vida é sempre garantida por um ideal, uma aspiração superior a realizar-se. E eu tenho tanto que escrever ainda...” São palavras ardentes, mas de outro tom, pois que, embebidas de esperança, cantam vitória, fumegam e roncam nas linhas de batalha.

Euclides da Cunha enviou-as quando se aprestava a inquirir com os delegados da Bolívia sobre a fonte do Purus, e, por ordem do barão do Rio Branco, ia prendê-la no elipsóide terrestre às coordenadas necessárias. A missão que reclamava a arte do geodesista, e as resistências de um vaqueiro nortista, exigia saber e coragem aliados à perseverança de um antigo capitão de bandeira. Nada mais próprio do alvo e mortificações com que costumava sonhar a sua alma: entrar pelo sertão adentro e cravar os olhos no céu medindo os âmbitos escancarados do firmamento e do sertão. (...)

Aos 22 anos, Euclides lançava, em caderno escolar, o programa de itinerário futuro pelo meio das dissensões de sua alma com o Universo, com esta observação digna do frontão de um templo: “A marcha de um homem verdadeiramente bom é feita através de reações contínuas”. (...)

O homem é tanto mais forte, quanto mais só; o conceito ibseniano perde a névoa de contradição, ligando-se-o ao feitio sobranceiro e incomutável de Euclides. Não se lhe conheceram preferências de qualidade suspeita, não se deixou cegar pelo dinheiro, não cheirava a Influência, nem se genuflexava ante o Poder. A independência agiganta - é a tradução verdadeira daquele apótema do norueguês. E seria por isso que, quem via pela primeira vez a pessoa do escritor, se desconcertava, esperando infalivelmente uma estatura maior.

O físico de Euclides da Cunha tinha a vulgaridade mamaluca da nossa humilde e boa caipiragem. Porque não praticava nenhuma lei de Brummel, mas lhe aparecia a insignificância do caboclo magrizela de fonte escampa e arcadas zigomáticas saltadas, onde os olhos brilhavam com reverberos de incêndio à beira-d’água e à noite. (...)

Misto de celta, de tapuio e grego”, disse ele, retratando-se num decassílabo. Foi mais longe. Definiu-se, reconhecendo a miscelânea da própria combinação étnica com as raças da transmigração e da autoctonia e ainda mais a dos helenos, na componente ideal que lhe exprimisse a devoradora e saborosa tortura de beleza e de perfeição...

Em São José do Rio Pardo, no casebre ao lado de um dos pegões da ponte de ferro, construída sob seus olhos, Euclides escreveu muitas páginas de Os sertões. Era ermo o lugar e a habitação modestíssima, uma guarita de cantoneiro, um taperi de caçador goiano. No interior, nem o divã do sibarita, nem as excitações de alcaloides raros, nem os cômodos uma boa lâmpada; antes o grabato do anacoreta, o pote com a água do riachão e a vela na garrafa do estudante pobre.

Devia lavrar a desordem na cabana do engenheiro. Em tais indivíduos o método cifra-se num puro exercício mental, deixada a execução do arranjo e conformidade às mãos previdentes das senhoras donas de casa. Os esquadros e compassos perder-se-iam na confusão dos papéis quadriculados e das tiras estilizadas do seu futuro livro. Nas cotas dos perfis entremear-se-ia a frase estuosa do repente feliz. No cálculo do momento de flexão da grandeza do empuxo relampejaria a decisão flagrante do verbo, o resumo fiel do qualificativo, a censura harmônica da conjunção.

Euclides da Cunha tinha na verdade o culto da linguagem e não a idiota paixão do vocábulo, em que se sacrifica a raridade à impropriedade, na tessitura de preciosismos fáceis. O joalheiro ama a joia para dar-lhe destino e não como o avaro, pelo fulgor seco e o estúpido valor dos fogos diamantinos. O artista adora a palavra para os fins da expressão. Não ser ela de uso corrente pode ser defeito; menos se calhar à ideia o termo sonoro e estranho que for preciso, que for belo e que for lúcido. Tudo está na escolha e cabimento. É maneira de remoçar ideias e despertar a atenção em torno delas, vesti-las bem e com certo rebuscamento. Nem todos o poderão fazer... A pobreza de um léxico é melhor, contudo, que a pilhagem irracional dos glossários. Insuportável, porém, a pretensão de legisladores e policiais, na república das letras, de impor uma tara à carregação verbal do escritor. Para o pregoeiro da hasta pública toda mesa é sólida, todo piano harmonioso. A crítica nacional tem obtido êxitos antinefelibáticos, aconselhando adjetivos de leiloeiro e podando nos canteiros de estreantes as flores raras da estufa glótica. Tem sido um serviço sensato o dos guardas do cordão gramatical, plasmando a mania contagiosa dos cavadores de dicionário, que sendo afinal de contas um instrumento de utilidade pública e de uso diretamente proporcional à ignorância de cada um, servirá um dia para alguma cousa. Ousadia foi que esses puritanos e contrativos do Verbo se alertassem na ronda à pena dos “Contrastes e confrontos”. (...)

A realidade na obra de Euclides da Cunha acusa o impressivo das visões alucinatórias. O homem parece sonhar acordado. É um parente de Dickens, um sectário de Carlyle, um cultor de Ezequiel. A sua imaginação lancinante e explosiva tinha no entanto o dom de adivinhar. Combinando-se, ele e alguns amigos, para a descrição do estouro das boiadas, apresentou-se Euclides, que era o único, dentre todos, que nunca tinha visto semelhante espetáculo, com a sua lauda cheia. Fizeram-no ler em primeiro lugar. Conheceis o trecho. Está incluso em Os sertões. São linhas inesquecíveis, e honrariam a melhor das antologias. Os concorrentes escutaram o arranco detonante da tropeada, o desconchavo elétrico do rebanho, a manada louca escarvando e atroando na dispersão convulsa pelos tabuleiros, lombas e baixadas... Não se leu mais cousa alguma. Incompletas e pálidas pareceram as impressões que cada um trazia. Aquele, que idealizara, vira melhor que os outros... (...)

Espalhou-se, em recurso de rabularia, que Euclides, cujo coração lia pela cartilha de Terêncio e cujo apego à família recebia os reflexos da vibração permanente do campeiro aferrado a seus pagos, deixava morrer na cinza da indiferença as brasas do seu lar, que o cerebral intensivo, absorto na meditação e no esmero da frase cinzelada, esquecia os deveres de carinho esponsal. Em protesto violento e comprovado, leiamos estas palavras do escritor e as quais se repassam da delicada preocupação do chefe de família, presto nos afagos, através da distância e indo a ponto de designar-lhes ao transporte o intermediário fraterno: “Um favor, mas favor sacratíssimo de irmão: na rua do Cosme Velho, 91 (atual rua Francisco Otaviano), Laranjeiras, moram as minhas quatro enormes Saudades - a minha mulher e os meus três pequenos. Peço-te que os procures e que lhes dês noticias minhas”. Essa ordem fiaria da meiguice de um Barba Azul. “As minhas quatro enormes Saudades.” Como é singelo e diz tanto! Shakespeare não trepidaria em pôr essa frase na boca de uma personagem de amor. “As minhas quatro enormes Saudades”! Euclides transfundia os objetos no sentimento, por uma operação maravilhosa de que seria somente capaz a ternura imensa desse delicado e ultrassensível, compondo o evangelho das adorações para seu uso...

Certa vez, Euclides da Cunha comandava uma trincheira na luta furiosa de setembro de 1893. A fraqueza de uns, o desfibramento completo de outros, imprensados na resolução e desespero mútuo de alguns, faziam fervilhar dos arrabaldes às linhas de defesa no litoral boatos de sublevação geral, qualquer cousa cósmica em que se subvertesse a legalidade, sob as colunas de sua própria cúpula. Na baixa atmosférica do pânico havia enregelados. O medo criava inventores de escapadas, Ciranos de escorrego, heróis invertidos da retaguarda, sonhadores de projetos homéricos de fuga, serra-filas da indenidade, na legião da covardia e do comprometimento. A cidade, vindo a noite, soprava as luzes da beira-mar. Não queria ser vista, tremendo e armada até os dentes! O susto, em que todos se espojavam, despertou em Euclides o sentimento da responsabilidade. Ergueu-se no agacho geral, e por mais ingênuo que nos pareça o seu ato, revela as energias da consciência desdobrada no sentido contrário às ignávias da massa. Sacou do bolso da farda um maço de cartões com o nome dele e o espalhou por sobre os materiais do posto de combate. Semeava o soldado impávido o compromisso de solidariedade aos rumores do terror, aos abalos truculentos num receio coletivo. Era essa a fibra do autor dos Sertões, o seu privilégio adamantino; nem a mentira, nem o medo eram de molde a assombrá-lo. A sua timidez, que seria a atenção da defesa na sociabilidade obrigada dos pataratas e dos servis, dos alarves e dos tratantes, perdia as faixas do mimetismo volitivo. O cavaleiro toava um olifante, saindo a campo raso... Estaria fora de seu tempo o Quixote da própria dignidade e reputação melindrosíssimas. (...)

Se encontrássemos Euclides da Cunha nessa manhã do desastre, vê-lo-iamos assim, descarnado e todo ânsia... Levaria o coração sangrando e bem alto, no esforço de o furtar às crueldades das contaminações morais e disgregativas que o ofendiam...

Frequentava o insigne homem de letras, em Manaus, uma casinhola, que sobranceava o mar de frondes e o algodoal de névoas matutinais de sua molduragem. Em longas horas de vigília, ele escutava o gemer do vento a que seus sentimentos de ausente emprestavam o lancinante dos soluços das Oréadas. Às vezes, a lua comparecia à presença do assombrado, que dizia versos à celicola. Fébe ouvia com encantada doçura o arpejar de Orfeu. Debruçava-se depois Euclides nas suas notas miúdas, lançadas ora numa página, ora noutra de grande livro em branco. Preocupava-se também em mandar aos amigos notícias, carícias e gritos de espanto, no vestíbulo da natureza nova, cujo vigor, mistério e contradições o espasmavam.

Para não contar absurdos e apenas diminuir os rigores da tristura ingênita, ele ia tocando a rebate as rimas, para enfileirar as estrofes na esplanada dos postais. Depois destacava pelo Correio, uma a uma, as patrulhas sentimentais e de pés certos. A poesia embalara-lhe sempre os pensamentos. Poemas da mocidade musicaram-se-lhe nas primeiras ideias. Depois alterou e repartiu os ritmos e sonoridades, variou a métrica e foram ainda epopeias o que nos legou a sua arte. (...)

Por esse tempo notava-se que Euclides pouco dormia. A mariposa decorava Heine. O noitibó relia Michelet. Sentava-se a escrever, pedindo ao café e ao tabaco os venenos das essências excitantes. Uma a uma as horas levantavam a antífona do Silêncio e da noite, dando o tom ao coro das pererecas e dos grilos. Que passaria pela cabeça de Euclides alagada nos clarões da insônia? Nunca a cena que o prostrou na Imortalidade e no pó de estrada suburbana, fuzilado e acertado por quatro balas. (...)

No túmulo de Euclides da Cunha dever-se-á mandar esculpir a flor da passiflora, traspassada da mata para o ornato e o proveito de nossos vergéis e a qual tem no cálice roxo ou vermelho os símbolos do mais celebrizado dos sofrimentos humanos. Caber-lhe-ia a frase semelhante à do jazigo da criança: “Assim eras tu...” sob a corola de mágoa e glória da Paixão: uma flor de martírio, com os seus espinhos e os seus cravos cobertos de um pólen fecundante em poemas!

Fonte: Alberto Rangel - Rumos e Perspectivas (1934)